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O Partido Comunista Chinês 1927-37 – O desenvolvimento do Maoísmo -Parte 7

A fuga para a zona rural forçou aos dirigentes à necessidade de flexibilidade e auto sacrifício à custa da previsão política e da influência na classe trabalhadora. Similarmente, a forma desesperada como a Longa Marcha começou, como uma audaciosa fuga de uma destruição certa, realmente salienta todo o gênio tático do partido e de Mao Zedong, em particular.

A Longa Marcha

Frente à aniquilação, não poderia haver nenhum plano democraticamente discutido sobre como conduzir esta marcha. Não poderia haver qualquer votação sobre se o curso de ação era correto e onde ia terminar. As condições rurais significam que a liderança do PCC teve que dedicar todo o seu pensamento às tarefas da mera sobrevivência, sem importar os custos políticos. Desta forma, o gênio organizacional que levou o PCC ao poder está em proporção inversa ao vigor de seu nível de previsão política.

Antes do início da verdadeira Longa Marcha, várias expedições similares a partir de algumas outras bases soviéticas tinham ocorrido, o que demonstra a necessidade de se abandonar a área mais ampla de Jiangxi após anos de assédio do Kuomintang. Uma destas expedições, começando com uma força muito pequena, foi mais ou menos destruída; contudo, as forças do legendário general Xu Haidong foram as pioneiras desta expedição épica. Eles deixaram sua base de E Yu Wan (uma base independente mais ao norte de Jiangxi) cerca de um mês mais cedo do que as forças principais e alcançaram com êxito o ponto final em Shaanxi antes dos outros, depois de passar quase um ano em uma base em Sichuan.

Abrindo passagem

Entre os dias 16 e 19 de outubro de 1934, a força principal com 90 mil combatentes começou a Longa Marcha com uma temível unidade através do bloqueio do Kuomintang. O Exército Vermelho concentrou suas forças em um ponto, mantendo-se fiel à máxima de Mao de “enfrentar 10 contra 1” e tiveram êxito com a combinação de audácia, surpresa, sorte e disposição de fazer duros sacrifícios. Tinham a seu favor o elemento crucial da surpresa, precisamente devido a sua audácia e disposição ao sacrifício – o Kuomintang nunca esperou que o PCC abandonasse sua querida comuna e marchasse em número de dezenas de milhares ao desconhecido, mas eles o fizeram.

Enganaram brilhantemente as forças de Chiang deixando atrás vários milhares de combatentes para confundir o Kuomintang e atrasar sua percepção do que estava ocorrendo. Embora quase todos nas 14 (pequenas) bases deixadas para trás em Jiangxi fossem eventualmente mortos, a tática foi um êxito inquestionável, enquanto o Kuomintang demorava quase um mês inteiro para entender realmente o que o grupo principal do exército estava fazendo. Sem esse tempo, a Longa Marcha provavelmente teria sido interceptada em suas etapas iniciais e abruptamente concluída, juntamente com o PCC como partido. O êxito da marcha sempre dependeu da capacidade do PCC de ficar um passo à frente. As táticas de surpresa, audácia e sacrifício com as quais o PCC saiu do estrangulamento permaneceriam sendo suas táticas e vantagens principais contra o Kuomintang, por todo trajeto da marcha.

A principal força militar do PCC na Longa Marcha era o Primeiro Exército Vermelho, que partiu de Jiangxi em meados de outubro como descrito acima. Foi liderado por Mao Zedong e Zhu De e, como descrito, iniciou a marcha com cerca de 90 mil participantes (a maioria, mas não todos, soldados). A rota que seguiram e as legendárias escapadas que eles protagonizaram representam a Longa Marcha como ela é comumente entendida.

No entanto, havia dois outros exércitos importantes liderando marchas semelhantes pelas mesmas razões, e em vários pontos se uniram a outros exércitos, apesar de começarem de diferentes locais. O Segundo Exército Vermelho foi liderado por He Long e saiu do menor sovíete localizado à ocidente do principal e central sovíete de Mao em Jiangxi. E o Quarto Exército Vermelho era liderado por Zhang Guotao, composto de elementos que estavam baseados no sovíete mais ao norte de E Yu Wan. Ele comandou uma força de menos de 20 mil quando deixou sua base em 1932, e alcançou o ponto de união com o Primeiro Exército Vermelho na Província de Sichuan antes das forças de Mao. As forças menores de Xu Haidong, o XXV Corpo de exército, também fizeram sua própria Longa Marcha de E Yu Wan como mencionado acima, saindo um mês antes e também chegando em Shaanxi um mês antes que o Primeiro Exército Vermelho de Mao.

O primeiro evento realmente notável da Longa Marcha é a travessia do Rio Xiang, quando o Primeiro Exército Vermelho se moveu a oeste de Jiangxi, em Hunan. Isto fez parte do vago plano de se mover para o oeste através de Hunan e Guizhou em Yunnan, uma província relativamente remota e densamente coberta por florestas no extremo ocidental do sul da China, longe das garras de Nanjing. A ideia geral era virar em seguida para o norte em Sichuan, onde já havia uma base estabelecida pelo Quarto Exército Vermelho de Zhang Guotao.

Moltke, o grande estrategista alemão, fez uma observação muito profunda quando disse que “nenhum plano sobrevive ao contato com o inimigo”. A travessia do Rio Xiang resume a precariedade da existência do PCC na Longa Marcha e como era imperativo mudar de táticas de acordo com o momento. Tendo percebido corretamente sua linha de movimento em meados de novembro, o Kuomintang movimentou suas tropas em Hunan para encontrá-los. Atacaram no ponto mais fraco da linha de marcha do Primeiro Exército Vermelho, que estava no gargalo formado pelo cruzamento do Rio Xiang. A travessia deve ter sido extremamente deficiente uma vez que tomou quatro dias para realizá-la. Segundo Pinckney Harrison, no momento em que a travessia foi concluída no final de novembro, o Primeiro Exército Vermelho tinha perdido um terço de seus camaradas como baixas e deserções. Agora, o Primeiro Exército Vermelho estava reduzido a menos de 30 mil soldados e cinco mil quadros – bem menos dos 90 mil a somente um mês. Esta terrível situação obrigou o exército de Mao a mudar de rumo.

A Conferência de Zunyi

Um pouco mais de um mês depois, em cinco de janeiro de 1935, o Primeiro Exército Vermelho capturou da cidade de Zunyi, no extremo norte da Província de Guizhou, então perto da fronteira de Sichuan, mas agora próximo à municipalidade de Chongqing.

No dia seguinte, uma “conferência ampla do Bureau Político”, melhor conhecida como Conferência de Zunyi, teve lugar. Todas as contradições entre a direção oficial do Partido Central (responsável pela desastrosa linha agressiva da Quarta Campanha de Cerco) e a realidade, representada por Mao, vieram à luz.

As queixas se expressaram de forma súbita e brusca quando os imensos sofrimentos da Longa Marcha cobraram seu tributo. “Peng Dehuai primeiro criticou a liderança da Longa Marcha”; “Mao Zedong em seguida ampliou o ataque para incluir as táticas comunistas contra a Primeira Campanha de Cerco, e durante a Longa Marcha”. Logo, “Liu Shaoqi estendeu a crítica às políticas da área ‘branca’, que tinham sido tão ‘esquerdistas’ que tornaram o trabalho urbano impossível, e exigiu uma revisão política geral”. Como resultado deste discurso, o “Chefe do Estado-Maior Liu Bocheng revisou sua posição anterior para apoiar a crítica feita por Peng Dehuai, Mao e Liu Shaoqi, e quando Zhou Enlai admitiu sua participação em muitos erros de julgamento, tornou-se possível para Zhang Wentian e outros levantar uma solução de compromisso” (Pinckney Harrison, op. cit.).

O objeto deste compromisso foi a aprovação de uma resolução incorporando muitas dessas críticas. Embora a resolução tenha abrandado seus golpes e declarado como correta a liderança atual, ficou claro que a incorporação dessas críticas representa um golpe mortal para a liderança favorecida por Moscou. Depois desta conferência, ela nunca mais recuperou sua autoridade e Mao, apesar de não ser feito oficialmente presidente, era agora a “personalidade dominante” na liderança, e foi listado em primeiro lugar no Politburo quando seus membros foram anunciados para a liderança do Comintern mais tarde naquele ano.

O capital político da liderança do “Partido Central” derivado do apoio de Moscou agora tinha se exaurido; a arremetida de Mao, construída a partir de suas táticas superiores e da base rural, o havia impulsionado à preeminência. O período de turbulência na liderança do Partido, na sequência do catastrófico fracasso de 1927, com todas as suas repercussões, tinha chegado ao fim, e o Partido tinha finalmente encontrado um líder em harmonia com sua própria e nova guerrilha rural. Mao não iria renunciar ao comando do Partido até sua morte, 41 anos depois.

A Ponte Luding

O Primeiro Exército Vermelho partiu de sua base temporária em Zunyi no início de fevereiro de 1935. Nas manobras que ele realizou nos próximos poucos meses encontramos a audácia, inventividade e heroísmo da Longa Marcha em seu apogeu.

Durante o período de descanso de cerca de um mês em Zunyi, o PCC perdeu a vantagem inicial que tinha ganhado, e assim as províncias de Guizhou, Yunnan e Sichuan estavam agora infestadas com centenas de milhares de tropas do Kuomintang esperando por eles em cada passo. Chiang Kai-shek teve tempo para elaborar planos e de garantir que todos os pontos estratégicos, como cruzamento de rios, fossem fortificados pesadamente. Dessa forma, o PCC somente poderia confiar em sua maior capacidade de auto-sacrifício e privações, baseada mais no comprometimento político de suas tropas que no recrutamento de soldados mal pagos e maltratados.

Para escapar de Guizhou, “uma série de manobras de distração”, com “duas colunas, e algumas vezes com até quatro colunas, engajadas em uma série de manobras de engodo”, foram usadas “de forma que se tornou cada vez mais difícil para os aviões de Nanjing identificar o objetivo do dia” (Snow, op. cit.). As longas trilhas traçadas pelo Exército Vermelho para escapar das garras do Kuomintang em Guizhou tomaram quatro meses para serem completadas, durante os quais destruíram cinco divisões inimigas, recrutaram 20 mil soldados e convocaram numerosos comícios de massa entre a população (Ibid.).

Dando sequência a esta tática, uma manobra ainda mais perturbadora foi empregada para permitir ao exército principal escapar em um perigoso e secreto cruzamento do Rio Yangtzé, quando alguns soldados visivelmente saíram do cerco e marcharam em direção à capital de Yunnan. Este astuto plano funcionou, com as tropas do Kuomintang saindo de Guizhou em perseguição ao engodo, enquanto o grosso do Exército Vermelho escapava!

Mas isto não foi tudo. Uma vez que ficou claro que que o exército principal não marcharia para a capital, somente poderia marchar para um dos pontos chave de passagem ao Rio Yangtzé, em Yunnan. Dessa forma, o engodo inicial não foi suficiente, enquanto Chiang poderia (e pôde) assegurar que o ponto de travessia para o qual eles estavam marchando fosse bem coberto – de acordo com Snow, todos os barcos de cruzamento foram levados para o outro lado do rio (desde o ponto de vista do Exército Vermelho) e incendiados.

Certos de que tinham convencido plenamente a Chiang Kai-shek (pela construção de uma ponte através da qual supostamente cruzariam o rio), um batalhão subitamente levantou acampamento e marchou discretamente a um ritmo de 85 milhas em 24 horas, alcançando um ponto alternativo de travessia do Yangtzé que se encontrava muito distante para Chiang ter considerado valer à pena defender. Mais uma vez, o Kuomintang foi ultrapassado pela determinação, astúcia e moral superior do Exército Vermelho. De nenhum exército regular seria possível esperar uma reversão tão súbita de direção, e isto depois deste exército ter gasto dias realizando o que era apenas uma manobra de engodo, e cobrir 85 milhas em um só dia.

Cruzar o rio agora era fácil, com apenas um punhado de tropas do governo para defender o ponto de travessia real. Sabendo que a rota até o ponto de travessia real estava segura, dentro de um dia ou dois as tropas remanescentes deixaram o ponto original de travessia para chegar ao seguro. De acordo com Snow, este movimento não ortodoxo, provavelmente tortuoso demais para ser considerado pela maioria dos generais, resultou na travessia com êxito do Yangtzé sem nenhuma perda. Ironicamente, imitando as táticas de Chiang, as forças do Exército Vermelho agora incendiaram os barcos que usaram para cruzar o rio, deixando as confusas tropas do Kuomintang com os dois pontos de cruzamento mais próximos inoperantes.  

A darmos crédito às legendas, isto foi apenas um aquecimento para a travessia, de longe mais espetacularmente heroica, da Ponte Luding, sobre o Rio Dadu, em Sichuan. No final de maio, depois de dias de duras marchas ao longo das traiçoeiras margens do Rio Dadu, o Exército Vermelho mais uma vez conseguiu com êxito se afastar de seus perseguidores graças a tomar períodos de descanso mais curtos e menos frequentes, para finalmente alcançar a Ponte Luding.

De acordo com as legendas, esta vacilante ponte suspensa, balançando precariamente sobre as corredeiras abaixo e medindo 100 metros, era algo como um filme de aventuras de Hollywood depois de o Kuomintang ter removido a maioria das pranchas de madeira. Do outro lado, estava uma posição Kuomintang com metralhadoras em posição de abater qualquer comunista tolo e suficientemente audaz para tentar cruzar. Mais uma vez, o Exército Vermelho desafiou a morte certa e 30 soldados foram escolhidos para a missão suicida. Eles superaram a falta de pranchas arrastando-se sob a ponte, pendurando-se em suas correntes, o que era um alívio adicional ao providenciar alguma cobertura das rajadas de fogo das metralhadoras. No entanto, a maioria destes temerários foi morta na travessia, e só podemos reverenciar a espantosa bravura destes heróis desconhecidos:

“Provavelmente nunca antes tinha os Sichuaneses visto lutadores como estes – homens para quem servir ao exército não era apenas uma tigela de arroz, e jovens prontos a cometer suicídio para vencer. Eram eles seres humanos ou loucos ou deuses? Estaria sua própria moral afetada? Quiçá não atiravam para matar? Será que secretamente rezassem para que estes homens tivessem êxito em sua tentativa? Finalmente, um Vermelho se arrastou sobre o piso da ponte, sacou uma granada e a atirou com pontaria certeira no reduto inimigo” (Ibid.).

Uma vez do outro lado, o jogo terminou, e o ninho de metralhadoras se rendeu, com algumas das forças se juntando ao Exército Vermelho. Esta é a extraordinária história de como o Exército Vermelho cruzou o Rio Dadu. Para milhões de chineses, ela resume décadas prolongadas de sacrifícios do povo chinês enquanto lutavam contra os japoneses e a opressão do Kuomintang.

Infelizmente, a verdade é provavelmente um pouco mais medíocre. Deng Xiaoping, o Presidente do PCC e Presidente da China que levou à restauração capitalista a partir de 1978, foi participante destes acontecimentos. De acordo com o Conselheiro de Segurança dos EUA, Zbigniew Brzezinski, Deng confirmou as suspeitas de que este inverificável conto foi muito exagerado para fins de propaganda quando lhe disse:

“Bem, esta é a forma como foi apresentado em nossa propaganda. Necessitávamos disto para expressar o espírito de luta de nossas forças. De fato, foi uma operação militar muito fácil. Não havia realmente muito a fazer. O outro lado tinha apenas algumas tropas do Warlord que estavam armadas com velhos mosquetes e isto não foi realmente uma grande façanha, mas sentimos que tínhamos de dramatizar isto”.

Naturalmente, esta anedota deve ser considerada com a mesma margem de cautela como a oficial, porque ambas são igualmente inverificáveis e igualmente usadas como propaganda. Se é ou não fabricado, a audácia envolvida na história resume a incrível dureza, sofrimento, bravura e auto sacrifício de que o Exército Vermelho dependeu ao longo da Longa Marcha. Basta o número de baixas para comprovar isto, como o fazem também as rotas através de passos montanhosos, travessias de rios e pântanos, que não podem ser exagerados e que realmente ocorreram.

Depois de cruzar o Luding, o Primeiro Exército Vermelho foi obrigado a subir mais de cinco mil metros para continuar, visto que se encontrava agora na fronteira do Tibete. Nenhum ser humano pode viver permanentemente acima de aproximadamente cinco mil metros porque o ar se torna escasso. Dos que morreram na Longa Marcha, a maioria pereceu devido às condições severas, tais como o ar escasso, o frio, a falta de alimentos e enchentes.

Reunião Infeliz em Sichuan

Se as condições rurais tendem a dissolver a unidade política de um partido, então a Longa Marcha através de metade da China levou isto ao seu absoluto extremo. Isto ficou evidente na incerteza geral com relação ao final da Longa Marcha, que foi decidido na própria marcha, mas particularmente no fato de que a Longa Marcha se compunha essencialmente de três marchas separadas, cada uma com dezenas de milhares de militantes do PCC, e cada uma igualmente incerta sobre onde e quando iriam se encontrar.

O Primeiro Exército Vermelho perdeu contato com o restante da Internacional Comunista durante os 12 meses de duração da marcha, e por isso não tinha ideia de suas decisões e perspectivas políticas. A muito importante conferência de Zunyi, que tinha determinado o destino da liderança após a experiência dos primeiros meses da Longa Marcha, não foi e não poderia ter sido representativa ou constitucional. Note-se que a conferência ocorreu em um momento de conveniência militar e não de necessidade política.

Devido ao trabalho rural e ao fato de a Longa Marcha ter dividido o Partido em áreas militarmente isoladas, essas reuniões políticas reivindicando determinar a linha partidária podiam envolver unicamente um ou outro setor do Partido. Dessa forma, a Conferência de Zunyi envolveu apenas o Primeiro Exército Vermelho, e não é de surpreender desta forma que Mao, que liderou a divisão, tenha ficado no topo. O surgimento de Mao se deveu muito à sorte.

O Quarto Exército Vermelho, liderado por Zhang Guotao e Xu Haidong, era igual em tamanho ao Primeiro Exército Vermelho, mas não pôde participar na Conferência de Zunyi devido à separação geográfica. Qual teria sido sua opinião sobre os procedimentos em Zunyi? Como teria resultado esta conferência se estivessem lá? Os camaradas do Primeiro Exército Vermelho iriam agora descobrir, quando depois da travessia da Ponte Luding e sua chegada em Sichuan, eles se reuniram com os camaradas do Quarto Exército Vermelho (que se encontrava em Sichuan desde 1933) em Fupien.

Ambos os exércitos haviam pagado o tributo da Longa Marcha, que estava chegando ao fim. Quando chegaram a sua base de Sichuan em 1933, o Quarto Exército Vermelho estava reduzido a cerca 3-4 mil combatentes dos 20 mil que começaram (Pinckney Harrison, op. cit.). Quando se juntaram ao Quarto Exército Vermelho em meados de junho de 1935, o Primeiro Exército Vermelho tinha menos de 10 mil combatentes; muito abaixo dos 90 mil quando deixaram Jiangxi oito meses antes.

No entanto, as forças de Zhang eram significativamente mais fortes em termos militares quando os dois exércitos se reuniram, enquanto tiveram dois anos para recuperar efetivos, com bastante tempo para recrutar em sua base de Sichuan. Estimativas de seu tamanho variam entre 40 mil e 80 mil efetivos em meados de 1935. Dessa forma, quando os dois exércitos se encontraram, as forças de Zhang Guotao eram entre quatro e oito vezes superiores às de Mao, e mais descansadas. E, no entanto, graças à Conferência de Zunyi, da qual as forças de Zhang Guotao foram excluídas por um acidente geográfico, Mao e seus camaradas eram agora líderes do partido. Zhang e seus camaradas não tiveram nada a dizer sobre esta decisão e agora aproveitariam a oportunidade desta reunião para demonstrar sua superioridade numérica e militar sobre esta liderança “arrivista”, como ela pareceu a Zhang.

Segundo Pinckney Harrison, um componente chave no confronto entre Mao e Zhang que ocorreu no curso de seu encontro em Sichuan foi o fato de que Zhang e seus associados do mais forte Quarto Exército Vermelho estavam completamente sub-representados na liderança do partido. Embora não tenha sido tomada a decisão de dar à facção de Zhang uma maioria na liderança em proporção a sua superioridade militar, pode-se ver nesta tensão mais uma vez a perigosa tendência de se subordinar a liderança política marxista à força militar e a considerações técnicas. Seria tentador capitular à força militar e nomear o líder do exército mais forte como o líder do partido, independentemente de sua qualidade política. Neste período este conjunto de líderes do partido raramente se encontrara (e quando o fizeram, seus encontros tinham caráter fortuito) e cada um comandava exércitos massivos e independentes, obviamente isto deu um grande ímpeto ao nocivo facciosismo.

Além do mais, Zhang estava correto em argumentar que os resultados da Conferência de Zunyi, tão favoráveis a Mao, eram inválidos. Ele declarou que “somente uma sessão plenária do Comitê Central deveria ter esta autoridade [para reorganizar a liderança]” e que de qualquer forma “apenas cerca da metade do Bureau Político (mas todos os membros do Comitê Permanente, exceto Xiang Ying) tinha se apresentado em Zunyi” (Ibid.). O resultado deste confronto foi outra vitória para Mao, mas deve-se acrescentar que, mais uma vez, este encontro carecia de toda base democrática formal, visto que foi convocada ad-hoc e sem qualquer participação do Segundo Exército Vermelho. Não está claro com que fundamentos políticos Mao derrotou o desafio da liderança de Zhang.

A Reta Final

O conflito entre as duas facções continuou pelo restante de sua mútua permanência em Sichuan, e a natureza do conflito é digna de nota, novamente devido ao seu caráter exclusivamente organizacional/técnico. Em vez de debater sobre as perspectivas para o desenvolvimento da luta de classe na China, as duas facções estavam totalmente absorvidas, como se poderia esperar, na questão de qual itinerário a seguir. Em última instância, esse debate estava baseado em conjecturas, levantando questões sobre se esta ou aquela área tinha suficiente comida, se as tribos locais podiam ser hostis ou não. Os debates partidários focalizando esses temas em detrimento da análise da luta de classe na China somente podem ter produzido um efeito prejudicial sobre o nível político das fileiras, e refletem um partido em fuga numa situação de desespero.      

Dada a ausência de qualquer base alternativa com que determinar o caminho mais seguro, a decisão finalmente tomada acrimoniosamente era que as duas facções deveriam se separar geograficamente mais uma vez. A decisão foi ou para cobrir as apostas do Partido ou para manter a refrega a uma distância segura. O Quarto Exército Vermelho de Zhang, com alguns dos Regimentos mais cansados do Primeiro Exército Vermelho, marcharia para o ocidente em direção ao Tibete, e as forças de Mao, reforçadas com muitos dos soldados de Zhang, marcharia a nordeste para Shaanxi.

Infelizmente para Zhang, sua favorecida rota tornou-se um beco sem saída fatal. Partindo com aproximadamente 60 mil soldados, um assalto brutal do Kuomintang reduziu o exército a 40 mil no final de 1935. Tentaram se sustentar através do recrutamento da população nômade local tibetana, mas fracassaram. É provável que isto tenha acontecido devido ao caráter nômade e extremamente atrasado da sociedade tibetana – enquanto o Exército Vermelho podia recrutar com êxito a partir das tribos Lolo, apelando a elas em linhas de classe como lutadores comuns contra o rico e o poderoso, esses apelos caíram em ouvidos surdos quando dirigidos aos independentes nômades, que não faziam parte do sistema de classe chinês. Os soldados de Zhang foram reduzidos a ter de roubar comida para sobreviver.

Metade de suas tropas logo se separou, depois que o restante não conseguiu cruzar o Rio Amarelo. Os que cruzaram foram totalmente destruídos, e os restantes 15 mil ou perto disso que fracassaram na travessia estavam agora reunidos com as quase destroçadas tropas do Segundo Exército Vermelho. Foram forçados a abandonar seus planos de estabelecer uma base mais a oeste. Em lugar disso, seguiram para a base de Mao agora estabelecida em Shaanxi com o rabo entre as pernas, em novembro de 1936.

O Primeiro Exército Vermelho, herói da Longa Marcha, deixou Sichuan no primeiro dia de agosto de 1935. Eles chegaram triunfalmente na que seria a base do Exército Vermelho pelos próximos doze anos em 20 de outubro de 1935, quase um ano após partirem de Jiangxi, com 20 mil sobreviventes, tendo partido com 90 mil. Desses 20 mil, alguns vieram do Quarto Exército Vermelho em Sichuan, outros foram recrutados ao longo do caminho, por isso é razoável supor que mais de 70 mil pereceram nesta máxima prova de aventuras. Naturalmente, muitos mais morreram nos outros exércitos.

Geograficamente semelhante à base de Jinggangshan por suas montanhas remotas e pobreza, o Exército Vermelho logrou permanecer aqui parcialmente graças à irrelevância da área aos olhos de Chiang Kai-shek, e parcialmente devido ao seu envolvimento com a guerra com o Japão, que, como veremos, estava começando a deixar Chiang sob enormes tensões.

Uma Fuga Feliz

Não há nenhuma dúvida que a façanha da Longa Marcha é como um monumento ao inspirador auto sacrifício de milhões de comunistas chineses que pereceram no curso da revolução chinesa. Suas assustadoras estatísticas resumem o heroísmo das massas trabalhadoras em sua luta heroica contra a opressão:

“Em média, havia um combate a cada dia em algum lugar da linha, enquanto do total, quinze dias inteiros foram dedicados a grandes batalhas campais. De um total de 368 dias de campanha, 235 foram consumidos em marchas diárias, e 18 em marchas noturnas. Dos 100 dias de paradas – muitos dos quais foram dedicados a escaramuças – 56 dias foram gastos no noroeste de Sichuan, deixando apenas 44 dias de descanso numa distância de cerca de cinco mil milhas, ou em média uma parada para cada 114 milhas de marcha.

“Os Vermelhos cruzaram dezoito cadeias de montanhas, das quais cinco eram permanentemente cobertas de neve, e cruzaram 24 rios. Passaram através de doze diferentes províncias, ocuparam sessenta e duas cidades e aldeias, e derrotaram os cercos de exércitos de dez diferentes Warlords provinciais, além de derrotar, iludir ou escapar manobrando as várias forças das tropas enviadas contra ele pelo governo central” (Snow, op. cit.).

Embora seja verdade que a Longa Marcha não tenha sido planejada com antecedência como parte de uma estratégia política, e tenha sido lançada no último minuto por necessidades militares, o PCC corretamente usou-a para objetivos políticos. Ela foi “a maior turnê propagandística da história”, que “passou através de províncias habitadas por mais de 200 milhões de pessoas” e “convocou comícios de massa, ofereceu representações teatrais, ‘taxou’ pesadamente o rico” (Ibid.). Tudo isto foi realizado por milhares de camaradas, muitos dos quais perderam suas vidas ao fazer isto, com um grau de determinação que asseguraria sua vitória final quatorze anos mais tarde.

Mas o legado político da Longa Marcha foi a consolidação do caráter Bonapartista, estalinista e pequeno-burguês do PCC. Nove décimos dos que se engajaram na Longa Marcha morreram. As reuniões de massa e a educação dada aos camponeses, mesmo que bem intencionadas, não poderiam ser nenhum substituto à participação sustentada de massa de milhões de trabalhadores urbanos e por uma base estável de quadros no partido. Estas visitas fugazes aos distritos onde imperava o analfabetismo somente poderiam arranhar a superfície dos imensos problemas sociais e culturais do vasto meio rural da China. E como podia um exército de camaradas do PCC, constantemente em movimento, sem nenhum tempo para se educarem a si mesmos e dos quais 90% morreriam dentro de um ano, esperar exercer algum controle significativo sobre o partido? Trotsky de forma brilhante antecipou neste momento quais seriam as consequências políticas de absorção no meio rural em última instância:

“O estrato dirigente do ‘Exército Vermelho’ chinês indubitavelmente adquiriu o hábito de dar ordens. A ausência de um forte partido revolucionário e de organizações proletárias de massas torna virtualmente impossível o controle sobre esse setor dirigente. Os comandantes e comissários aparecem como amos absolutos da situação e é muito possível que, ao ocupar as cidades, desprezem aos trabalhadores. As exigências destes, frequentemente lhes parecerão inoportunas ou pouco aconselháveis” (Trotsky, A Guerra Camponesa na China e o Proletariado, 22 de setembro de 1932).

Traduzido por Fabiano Adalberto

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