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O movimento sufragista e as lições à organização das mulheres trabalhadoras: reflexões a partir do filme Suffragette

O filme As Sufragistas (Suffragette, 2015) retrata o movimento das mulheres britânicas pelo sufrágio feminino no início do século XX. Na época a lei do sufrágio dava apenas a (grande parte dos) homens o direito ao voto e participação no parlamento.

O filme As Sufragistas (Suffragette, 2015) retrata o movimento das mulheres britânicas pelo sufrágio feminino no início do século XX. Na época a lei do sufrágio dava apenas a (grande parte dos) homens o direito ao voto e participação no parlamento.

O filme parte da perspectiva da trabalhadora Maud Watts (Carey Mulligan) e suas dificuldades ao ingressar no movimento sufragista, demonstrando que a decisão de qualquer pessoa por militar em movimentos e organizações políticas requer uma série de transformações nas suas relações pessoais, trazendo consigo problemas e dúvidas.

Porém, a escolha de manter o foco da luta pelo voto na perspectiva de uma única mulher faz com que o filme deixe de se aprofundar na história do movimento na Inglaterra e suas reverberações pelo mundo. Além do perigo de trazer consigo a armadilha de tratar a questão da mulher como uma questão de gênero contra gênero e não uma questão de classe.

Apesar do filme retratar a exploração da mão-de-obra feminina (e infantil), as péssimas condições de trabalho e o salário desigual, a luta de classes está sempre em segundo plano. Há uma preocupação muito maior em retratar o machismo no comportamento dos personagens homens, mais até do que criticar o próprio patriarcado e sua relação inevitável com o capitalismo.

Maud tem seu primeiro contato com o movimento por acaso. Coincidentemente ela estava na rua quando as mulheres começam uma rebelião. Quebram vidraças de lojas em forma de protesto. O método da desobediência civil foi utilizado pelas sufragistas com o intuito de chamar a atenção para a bandeira do voto para as mulheres. A mudança de tática veio após anos de uma tentativa de movimento pacífico, sem êxito. Foram silenciadas e difamadas pela mídia e fortemente reprimidas pela polícia.

O método, que é utilizado pelos anarquistas, e mais recentemente pelos Black Blocks, nas manifestações no Brasil, é um erro político. Ela dá margem para a mídia difamar ainda mais o movimento. A polícia tende a reprimir com mais agressividade, chegando a incriminar manifestantes. Mas a falta de diálogo com a base é um dos erros cruciais. Sem o diálogo, a população permanece com inúmeras dúvidas, que precisam ser respondidas. Com a falta de respostas, não há outra alternativa se não escutar a mídia burguesa e seus parlamentares. Passam a repetir o discurso da burguesia sem ao menos saber o motivo das agitações.

Num momento de luta intensa e repressão, a união da classe é imprescindível. Analisando o contexto específico do movimento Sufragista na Inglaterra, Allan Woods explica:

O verdadeiro caminho para o movimento dos direitos das mulheres teria sido estabelecer laços com o movimento operário, que na época estava envolvido em uma dura luta com a classe patronal. Esta foi uma época de ascensão da luta de classes na Grã-Bretanha, com greves em massa de estivadores e trabalhadores dos transportes. […] Em Bermondsey, no sul de Londres, as mulheres em greve numa fábrica de alimentos se juntaram a outras 15 mil de fábricas e oficinas locais em uma reunião em massa em Southwark Park. Elas exigiram aumento de salário e o direito de voto. Este era o caminho: usar a arma da luta de classes para vincular a luta por demandas econômicas às demandas políticas, especialmente a demanda do voto para as mulheres.

Esse erro custou caro para as sufragistas. Não há dúvidas que conseguiram propagandear o movimento por todo o país, mas perderam também muitas companheiras de luta. A intensificação da repressão policial acarretou em prisões, torturas e mortes de muitas delas. Infelizmente, o filme trata essas ações como um ato de heroísmo. Aclamam atitudes individuais e não, a importância da união da classe para alcançar a vitória.

Outro aspecto que merece atenção é a relação das personagens Maud Watts e Edith Ellen (Helena Bonham Carter). Proprietária de uma farmácia com o marido Hugh Ellen, Edith é uma pequena-burguesa, e tem problemas muito diferentes de Maud. Para ela o direito ao voto tem outra importância. Ela quer ser livre e a luta pela igualdade fará dela uma igual diante dos homens de sua classe. Já para Watts, significa o início da luta por uma vida digna, pelo direito à melhoria das condições materiais, como a redução da jornada de trabalho, melhores condições e salário justo. As duas personagens exemplificam a diferença da luta feminista para a luta de classes.

Diferenças que, mais tarde, dividem a família Pankhurst e dissolve o movimento pelo sufrágio feminino. Apesar do longa apresentar apenas a líder Emmeline (Meryl Streep), suas filhas Sylvia e  Christabel, têm a mesma importância política.

Sylvia participou ativamente do movimento, e se opondo ao método anarquista, passa a fazer agitações na porta das fábricas para se aproximar e dialogar com as trabalhadoras. Mais tarde é uma das fundadoras do Partido Comunista Britânico. A posição de classe tomada por Sylvia a diferencia das demais líderes da família. Diferenças que ficam mais gritantes quando Emmeline e Christabel mudam drasticamente de posição, no início da Primeira Guerra Mundial, passando a defender o lema “Rei, Pátria e Liberdade” no seu jornal, que tem o nome alterado de “Voto para as Mulheres” para “Britannia”. Um exemplo de traição da causa das mulheres e da face burguesa do movimento feminista.

Esse exemplo histórico serve para que as mulheres compreendam a importância da articulação das demandas específicas, transitórias, com a luta pela superação do capitalismo. De nada adianta reivindicar pautas democráticas se isso não enfrenta o status quo e não se traduz em organização da classe trabalhadora. A luta pelo voto feminino, se corretamente articulada à luta dos trabalhadores naquele período, poderia ter trazido importantes frutos para a organização das mulheres trabalhadoras.

Não podemos, porém, desconsiderar a importância do movimento sufragista na organização das mulheres e na conquista do direito ao voto feminino. Consideramos que o direito ao voto é um direito democrático que deve ser valorizado e aprofundando em direção à uma democracia, de fato, operária. Valorizar o direito universal ao voto, a partir de uma perspectiva marxista é também ter consciência do seu papel nas eleições burguesas, que, segundo Lênin devem ser disputadas, pois,

Enquanto não tenhais força para dissolver o parlamento burguês e qualquer outra organização reacionária, vossa obrigação é atuar no seio dessas instituições, precisamente porque ainda há nelas operários embrutecidos pelo clero e pela vida nos rincões mais afastados do campo.  (Esquerdismo, doença infantil do comunismo).

Assim, os marxistas devem participar das eleições, votando e sendo votado; não com a convicção de que através desse instrumento serão realizadas as transformações na sociedade capitalista, mas para apresentar e defender a pauta de reivindicações transitórias da classe trabalhadora, organizando os melhores quadros que se desenvolvem nesse processo e construindo o verdadeiro partido revolucionário dos trabalhadores.

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Marxismo versus feminismo: a luta de classes e a emancipação da mulher  

Os marxistas e as eleições 2012

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