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O lugar de Podemos no tabuleiro político: pela classe trabalhadora e o socialismo

Podemos nasceu fruto do processo de mobilizações mais impressionante que viveu a Espanha desde as manifestações que ocorreram nos anos 1970, que colocaram o ponto final à ditadura franquista.

Podemos nasceu fruto do processo de mobilizações mais impressionante que viveu a Espanha desde as manifestações que ocorreram nos anos 1970, que colocaram o ponto final à ditadura franquista. Podemos se desenvolve no vazio político e ideológico no movimento operário e na esquerda espanhóis, cujos principais dirigentes, depois de décadas sem indicar uma alternativa ao Regime de 1978[1] e carecendo, por isso, de autoridade política e moral suficiente, foram incapazes de emergir como uma referência no agitado período de mobilização de 2011 a 2014.

Originalmente, Podemos despertou uma ilusão enorme. Haver-se-ia que remontar ao período imediatamente posterior à queda da ditadura para encontrar um fenômeno político similar de entusiasmo, ilusão e organização massiva. No dado momento, perante milhões de pessoas, abriu-se passagem à ideia de que precisávamos tomar o poder em nossas mãos para “derrubar a todos”. A etapa de mobilização cedeu caminho a outra etapa eleitoral frente à possibilidade de mudar o estado das coisas por meio das urnas. Isto foi totalmente lógico. As pessoas não podem estar na rua eternamente e o período 2011 a 2014 foi extraordinário na vida política. As pessoas precisavam de um alívio e, diante seus olhos, desenvolveu-se um fenômeno político cujo lado forte foi o de transmitir a mensagem de romper claramente com o regime existente.

Esta via, aos olhos da maioria, viu-se fortalecida com a ressonante vitória das candidaturas de esquerda nas eleições municipais de maio de 2015 em cidades de destaque na Espanha, começando pelas três das quatro de maior população. Nunca na história espanhola candidaturas situadas à esquerda da socialdemocracia tradicional conseguiram tal proeza.

Diante disso tudo, ter alcançado um sólido apoio próximo aos 25% do eleitorado é uma grande realização e uma base substancial para seguir avançando. Querer incrementar subitamente essa porcentagem pela mera moderação política é um grave erro. Não se pode acelerar artificialmente a experiência política das camadas mais vacilantes que necessitam de mais tempo e acontecimentos para chegar a conclusão da inutilidade dos partidos do regime para solucionar os problemas sociais. Nos próximos anos o instável pacto de governo PP-PSOE-Ciudadanos será uma fonte de insatisfação popular. Será quando, então, após passar por esta experiência, inevitáveis eleições antecipadas joguem uma maioria substancial para um governo de “unidade popular”, nucleado entorno de Podemos.

A base social de Podemos está na classe trabalhadora e na ampla camada das classes médias empobrecidas pela crise capitalista. Esta base tem a força e o peso numérico suficiente para, com base em um trabalho paciente, gerar uma maioria absoluta de apoio na sociedade, trabalhando lado a lado com os sindicatos de classe e os movimentos sociais.

Num contexto de crise aguda do capitalismo, as políticas socialdemocratas não servem. Vivemos uma época de clara polarização social à esquerda e à direita. Foi sobre essa base que, pela primeira vez em décadas, o governo Syriza, um governo à esquerda da socialdemocracia clássica, chegou ao poder na Grécia. Foi sobre essa base que a ideia do “socialismo” se apresentou diante de milhões de pessoas no próprio Estados Unidos, na campanha liderada por Bernie Sanders, que se definia “socialista” e propunha “uma revolução política contra a classe multimilionária”, revelando a profundidade do questionamento social da ordem existente. Foi sobre essa base, igualmente, que sobre a lista de seis candidatos à direção do Partido Trabalhista, as bases elegeram ao candidato mais à esquerda, o “socialista” Corbyn.

Hoje 13 milhões de espanhóis estão em risco de pobreza, um terço dos assalariados ganha apenas 645 euros por mês, por volta da metade dos desempregados não recebe nenhum recurso. A maioria da população não aspira a uma segunda moradia ou a ter carros na garagem, quer disfrutar de escolas e hospitais públicos, almeja uma vida digna, a não se endividar na vida e a um salário decente. Na Espanha não há uma maioria social moderada, há um povo a que se quis humilhar e que tem muito claro quem são os inimigos: as elites políticas e econômicas que lhes roubaram e que se enriqueceram a suas custas. Não solucionaremos seus problemas assemelhando-se ao adversário, mas sendo nós mesmos. Quer dizer, defendendo um programa e estratégia que satisfaçam as vontades da maioria da população deste país, que hoje se vê prejudicada pela cada vez mais desigual distribuição da riqueza.

A causa de uma minoria de poderosos impor sua vontade à maioria da população não é exatamente a falta de democracia ou de se ter más leis – o que também acontece – mas a dependência que a maioria da sociedade sofre do controle que exerce sobre a economia esse punhado de grandes empresários e monopólios que dominam a indústria, o comércio, os bancos e, por fim, os diferentes governos dos diferentes partidos que aceitam este estado das coisas. Seu poder sobre o restante da sociedade reside em sua propriedade dos grandes meios de produção e também em seu controle – menos aparente – do aparato do Estado.

Consideramos absolutamente necessárias as reformas que defendemos desde Podemos: anistia às hipotecas impagáveis, a renda básica universal, tetos salariais para os altos funcionários, mais imposto para os ricos, quedas de imposto para produtos básicos, equiparação salarial entre homens e mulheres, medidas contra a concentração monopólica dos meios de comunicação, fechamento progressivo das centrais nucleares, entre outras.

Igualmente, devemos defender todos os avanços conseguidos pela geração passada. Mas a experiência nos mostra como grande parte desses avanços hoje nos está sendo tirados. E este fenômeno não é exclusivo de nosso país, mas acontece a nível internacional. Portanto, toda conquista social é temporária e muda quando, eventualmente, muda a correlação de forças entre as classes. A única maneira de disfrutar permanentemente de nossos avanços sociais e de melhorá-los indefinidamente é transformando radicalmente a sociedade capitalista.

Os tradicionais partidos comunistas e socialistas europeus praticaram políticas socialdemocratas há décadas, que não questionavam os limites da dominação dos grandes empresários e banqueiros. Mas se no passado as políticas socialdemocratas pareceram funcionar temporariamente – desde o final dos anos 1940 até início dos 1970 – foi porque coincidiram com o maior auge econômico ocorrido na história do capitalismo. Na Espanha foi a luta revolucionária contra a ditadura franquista e seus sucessores e o enorme entusiasmo popular depois da vitória do PSOE em 1982 que permitiram fundar nosso limitado “Estado de Bem Estar”. Os investimentos europeus depois da entrada na União Europeia escoraram um rápido crescimento econômico. Entretanto, já no meio dos anos 1980 e, sobretudo, nos últimos 20 anos, estas políticas socialdemocratas já não são bem acomodadas. Houve um paulatino desmantelamento do dito “bem estar” e demolição do setor público, tanto por parte de governos de direita como de “socialdemocratas”. E isto, não por razões ideológicas ou políticas, mas pela profunda crise capitalista que não deixa espaço para essas políticas.

O principal à “economia de mercado” é assegurar a propriedade privada da minoria de privilegiados que possuem a maior parte da economia de cada país e não o bem estar geral. No caso espanhol, esta minoria é representada pelas 100 maiores empresas que controlam 80,5% da riqueza nacional, nas mãos de 1.085 indivíduos, segundo o professor Santos Castroviejo.

Atualmente, somente podemos ter “reformismo com contrarreformas”, que explica a crise histórica da socialdemocracia europeia. O Pasok primeiramente e o Syriza depois, na Grécia, proporcionaram-nos os exemplos mais trágicos deste caminho equivocado nos últimos anos.

Qualquer governo verdadeiramente progressista que trate de aplicar sua política aceitando a existência da grande propriedade capitalista, necessariamente terá que enfrentar a chantagem e o boicote da oligarquia econômica. A história está repleta de exemplos deste tipo: Allende no Chile, Chávez na Venezuela… Podem-se jogar fora os atuais governantes e eleger outros; pode-se reformar a Constituição e instaurar o sistema de eleições primárias abertas para eleger aos candidatos dos partidos; podemos eleger, inclusive, um governo formado pelas pessoas mais honestas e democráticas que se possa imaginar; até proclamar a República; mas nada de substancial mudará enquanto as alavancas fundamentais da economia permanecer nas mãos de uns poucos e não nas mãos do conjunto da população para que as administrem de maneira democrática para a satisfação das necessidades sociais e não para enriquecer “aos de cima”, quer dizer, aos banqueiros e grandes empresários.

Portanto, a luta pelas reformas dentro do sistema capitalista tem limites, estabelecidos pelos interesses dos grandes empresários, banqueiros e multinacionais. Óbvio que estes limites não são fixos nem inalteráveis, dependem da correlação de forças em cada caso, do ciclo econômico mais ou menos favorável para arrancar conquistas aos empresários e ao governo; e, sobretudo, da qualidade política e moral dos dirigentes operários e populares que estão a frente de nossas organizações e que têm a principal responsabilidade de organizar a luta e a mobilização social.

Para que um governo de mandato popular tenha capacidade para mudar esta situação é suficiente nacionalizar as grandes empresas citadas, que representa 70% da economia, mais que o necessário para por em marcha um plano de produção racional e democrático que lance as bases para solucionar os principais problemas que enfrentamos: a greve, a falta de moradia, os baixos salários, a crise ambiental; e terminar com o desperdício e a corrupção dos grandes empresários e, de quebra, de sua corte política. Com a firme defesa dessa política, como muitos entenderam no início do Podemos, não somente escoraríamos nossa maioria entre a classe trabalhadora, mas em um setor cada vez mais crescente de profissionais autônomos e pequenos proprietários.

Estes sairiam tão beneficiados quanto os trabalhadores de uma economia nacionalizada em grande escala, já que teriam acesso a créditos a baixos juros por meio de um sistema financeiro nacionalizado. Ao mesmo tempo, lhes proporcionaria redes de comercialização mais justas para fazer frente a suas necessidades. E seriam livres a se incorporarem voluntaria e gradualmente ao resto da economia nacionalizada.

Os problemas fundamentais da imensa maioria da sociedade são impossíveis de se solucionar nacionalmente, nem no marco do capitalismo. Por quê? Porque todos esses problemas são parte e condição existencial do mesmo capitalismo. Não se pode ter capitalismo sem os desastres ambientais provocados pela exploração voraz dos recursos naturais pelas grandes empresas. Não se pode ter capitalismo sem a opressão da mulher e a escravidão doméstica, sem diferença salarial para mulheres e homens e sem o atual modo obsoleto de vida familiar. Não se pode ter capitalismo sem guerras pelo controle das matérias primas e por razões de hegemonia mundial. Não se pode resolver nem um só destes problemas sem a luta unida da classe trabalhadora em cada país e em escala internacional contra o capitalismo e o imperialismo. O que precisamos, portanto, é a defesa valente de um verdadeiro programa socialista que entusiasme a nossa base e a camadas mais amplas da classe trabalhadora e da juventude que não votaram em nós no passado.

Texto sob o título “Lugar de PODEMOS en el tabulero político. POR LA CLASE TRABAJADORA Y EL SOCIALISMO” componente do documento Por un Podemos de la clase trabajadora y por el socialismo publicado por Lucha de Clases, seção espanhola da Corrente Marxista Internacional, como contribuição à II Assembleia Cidadã nacional de Vistalegre.

Tradução de Nathan Belcavello.


[1] Forma política que o capitalismo adotou após o esgotamento do regime ditatorial de Franco, com o restabelecimento da monarquia espanhola e o pluralismo político (Nota do Tradutor – N.T.).

 

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