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O imperialismo que controla o céu

O que está por trás da decisão da ANAC de liberar os preços das passagens aéreas internacionais no Brasil?

A ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) decidiu pela liberação dos preços de passagens aéreas internacionais. Até hoje existe uma política que determina um preço mínimo que pode ser cobrado e todas as companhias aéreas tem que cobrar este preço ou um preço superior. O preço é fixado em dólares. De uma forma gradual, agora este preço mínimo vai ser eliminado. Segundo a ANAC isto favorecerá o publico em geral, porque aumentará a concorrência e o preço baixará.

A TAM – hoje a única companhia aérea brasileira que oferece vôos para Europa e EUA – protestou. Segundo ela, as maiores companhias aéreas farão dupping (oferta de passagens em valores abaixo do custo) até quebrar suas linhas e aí então o preço será maior. Quem tem razão?

Para entender esta situação, devemos lembrar que a ANAC, recentemente, favoreceu a GOL na compra da Varig. Esta, sem condições de sustentar os vôos internacionais da Varig, cortou todos os vôos para a Europa e os EUA. Há alguns anos a Varig era a maior companhia brasileira que oferecia vôos para estes locais, seguida muito de longe pela TAM (que começou com vôos somente para a América do Sul). A progressiva destruição da Varig fez com que este local fosse ocupado pela TAM.

Por outro lado, como é o mercado mundial das grandes companhias aéreas?

Nós temos, de um lado, as companhias européias que estruturaram grandes “alianças” aéreas, que servem como complementação dos serviços, em termos regionais, das grandes companhias. São três estas grandes alianças:

1. Star Alliance: estruturada em torno da Lufthansa (Alemanha), com sede na Alemanha, a aliança conta com mais de 2.800 aviões. A TAM, depois de muito tempo como companhia independente e mantendo acordo de transbordo para outros destinos com a Air France e outras companhias européias e americanas, foi forçada a entrar na Star Alliance. Pelo menos é desta forma que relatam os jornais da época (final do ano passado) sem especificar os motivos que levaram a esta situação. Principais companhias afiliadas: Air Canada (Canadá), Air New Zealand (Nova Zelândia), ANA (Japão), Asiana Airlines (Coréia do Sul), Austrian Airlines (Áustria), British Midland (Reino Unido), LOT Polish Airlines (Polônia), Lufthansa (Alemanha), SAS (Dinamarca, Suécia e Noruega), Singapore Airlines (Cingapura), Spanair (Espanha), TAP Portugal (Portugal), TAM (Brasil), Thai Airways International (Tailândia), United Airlines (EUA), US Airways (EUA).

Observemos que esta aliança inclui a segunda maior companhia aérea dos EUA e grandes companhias da Europa como a TAP, e as maiores companhias no Japão, Nova Zelândia, Canadá e Coréia do Sul. Mas, centralmente, o eixo gira em torno do capital alemão. Notemos que enquanto empresas maiores como United Airlines e ANA têm maioria de aviões da Boeing (EUA), todas as outras como a US Airways têm mais aviões da Airbus (fabricante franco-alemão).

2. One world: Formada a partir da American Airlines, a maior companhia aérea do mundo, a aliança tem quase duas mil aeronaves. Conta com as seguintes empresas: Aer Lingus (Irlanda), American Airlines (EUA), British Airways (Reino Unido), Cathay Pacific (Hong Kong), Finnair (Finlândia), Iberia (Espanha), LAN (Chile), Qantas (Austrália). Destas, as mais importantes são Iberia e a British. A maioria dos aviões são da Boeing. Não tem companhia brasileira afiliada, mas tem muitos vôos para o Brasil da Iberia, British e da própria American Airlines.

3. Sky Team: Um pouco maior que a One World e menor que a Star Alliance, aproximadamente 2.000 aviões, é centrada na Air France. Suas afiliadas são Aeroflot, Aeromexico, Air France, Alitalia, China Southern Airlines, Continental Airlines, CSA Czech Airlines, Delta Air Lines, KLM Royal Dutch Airlines, Korean Air, Northwest Airlines, Air Europa, Copa Airlines, Kenya Airways. No Brasil, a GOL começou uma parceria com a Air France que provavelmente levará à sua filiação nesta aliança.

A KLM entra como companhia independente, mas na verdade é controlada pela Air France, opera principalmente com Airbus. A Continental é a 5ª maior dos EUA, operando com Boeing. A Delta é a segunda maior companhia dos EUA e a segunda do mundo – opera com Boeing, embora tenha já uma pequena frota de Airbus. A Korean parece ser a segunda maior da Coréia do Sul (pouco abaixo em numero de aviões da Asian, da Star Aliance). A companhia da China é uma das maiores de lá, mas é difícil encontrar dados que confirmem exatamente qual a sua posição.

Como se dará a concorrência e o que acontecerá?

A disputa se dará entre as três maiores alianças, sendo que a One World está centrada principalmente nos EUA, mas com um pé na Europa – British e Iberia ainda não têm um sócio “brasileiro” e provavelmente encontrará isso na Trip ou na Ocean Air (que já vêm com nome em inglês, para facilitar).

A GOL encontrou facilmente seu lugar como redistribuidora de passageiros para os outros sócios de vôos que vêm principalmente da Europa e EUA. Já a TAM deverá sofrer e muito com a situação, já que além de ter a concorrência da GOL interna, seus “parceiros” também lhe farão concorrência nas passagens internacionais. O que todos tentarão é fazê-la recuar para a posição da Gol.

E a ANAC nisso tudo? Ajudará uma das três alianças! E qualquer um dos que disserem que isto foi feito por motivos escusos poderá ser processado e ganhar uma multa imensa a ser garantida pelo Supremo (STF) presidido por Gilmar Mendes. Isso é o imperialismo explicado por Lenin: não existe mais a livre concorrência capitalista do século XIX, onde uma empresa como a TAM poderia disputar mercado de igual para igual com suas concorrentes. Quem decide são as grandes corporações imperialistas, representadas nas 3 alianças que dividem todo o mercado mundial!

Mas, esperemos para ver, pois com o desenvolvimento da crise econômica mundial, esta briga – onde entra o problema de qual aliança dominará o mundo da aviação e qual o fabricante que sobreviverá – terá ainda muitos lances e fases.

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