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O horizonte capitalista: “Calote, corrida aos bancos, catástrofes…”.

Os líderes da União Europeia (UE), num gesto que nos faz lembrar a salvação do mundo pelo super-herói de ficção científica Flash Gordon, deram-se a si próprios um prazo final de duas semanas para resolver a crise da zona do euro.

Enquanto no universo fantástico de Flash Gordon o mundo é salvo, em nossos atuais e muito reais dias governados pela crise mundial, os líderes da UE estão diante do fracasso, com todas as consequências que isto significará em termos da crescente instabilidade política, e, o que é mais importante, da crescente luta de classes.

“A união monetária da Europa encontra-se no centro de um furacão agora mais perto do que nunca de desabar sobre a economia mundial e infligir danos durante os próximos anos”, declara o editorial de The Financial Times (10/10/2011). Os capitalistas, de forma desesperada, confiam em resolver a crise, o que “requererá anos de árduo trabalho”.

A assim chamada “Grande Barganha”, que incluirá mais uma decisão final sobre o bail-out (capital emprestado para algo em falência ou já falido) grego e uma estratégia para recapitalizar o sistema bancário europeu, somente pode ser vista como uma aposta desesperada antes da reunião de cúpula do G20, em novembro. A crise da dívida soberana vem retumbando já há dois anos e ainda não há nenhum sinal à vista de que vá amainar.

Os americanos estão exercendo pressão para os líderes da UE agirem e prevenirem um colapso, enquanto a crise da dívida europeia se prolonga fora de controle. Eles entendem que o fracasso para deter o contágio arrisca mergulhar a economia global em desordens posteriores. Tim Geithner, o secretário do tesouro dos EUA, preveniu sobre “calotes em cascata, corrida aos bancos e risco catastrófico” se um muro corta-fogo não for construído.

A dívida grega permanece como o problema imediato. As nações credoras, a começar pela Alemanha, estão pressionando para se rever o segundo bail-out de 95 bilhões de libras, impondo um “corte de cabelo mais rente” aos associados gregos – mas encontraram a resistência dos franceses e de outros interessados, alegando que estas medidas poderiam espalhar o pânico em todo o sistema financeiro. Enquanto isto, a bomba-relógio continua tiquetaqueando.

“Agora já fazem mais de quatro anos que estamos navegando por águas turbulentas, através de tempestades e furacões inesperados”, lamenta-se Jean-Claude Trichet, o presidente em final de mandato do Banco Central Europeu.

As preocupações sobre a saúde dos bancos levou a uma contração dos empréstimos interbancários. A crise forçou o governo belga a nacionalizar as operações domésticas de Dexia, uma instituição financeira, com o adicional de garantias do estado, no valor de 90 bilhões de euros, para financiar o restante do grupo. Dexia se encontrava à beira da falência, a despeito de ter sido aprovada nos testes de estresse bancário europeu, o que serve apenas para provar que estes testes não valem absolutamente nada. Outro grupo financeiro, o Erste da Áustria, também anunciou que tinha caído vítima da crise e que perderia algo em torno de 800 milhões de euros este ano.

As medidas que estão sendo adotadas pelos líderes da UE são como a aplicação de esparadrapos para deter uma gigantesca hemorragia. A Grécia está indo ao calote, na medida em que não pode mais se permitir pagar suas dívidas. A extrema austeridade que está sendo implantada está reduzindo o mercado e mergulhando mais fundo a economia na crise. Os empréstimos da União Europeia ou do FMI apenas servem para adiar o calote, seja qual for o “corte de cabelo” imposto aos detentores da dívida grega. Um calote grego implicaria em que o Banco Central Europeu não seria mais capaz de aceitar títulos do governo como garantia e isto levaria o sistema bancário grego ao colapso.

Quando a Grécia chegar ao calote haverá um impacto poderoso sobre os bancos e instituições proprietárias da dívida grega, particularmente os bancos franceses, mas os alemães também não estarão isentos. A Irlanda também será afetada e isto abalará os bancos britânicos. Isto reflete a decisão de Moody’s de reduzir a avaliação de alguns emprestadores do Reino Unido. E qualquer recessão na Europa causaria perdas às exportações britânicas, 40% delas vão para a zona do euro. Na realidade, a crise já se espalhou à Espanha e à Itália, e se espalhará ainda mais.

Os líderes da UE estão disputando sobre o tamanho e o papel do Sistema Europeu de Financiamento e Estabilidade (EFSF, em suas siglas inglesas) – o fundo de resgate. Mesmo assim, sua ativação deve ser aprovada por todos os 17 países que usam o euro, embora a Eslováquia continue resistindo. Ela pode vir a ser a única exceção. Alguns propuseram, como Tim Geithner, “alavancar” o EFSF para aumentar seu poder de fogo. Mas isto significa transformá-lo em uma Dívida com Garantias Obrigatórias (CDO, em suas siglas inglesas), a mesma coisa que intensificou a última crise! Assim teria todas as características de alta alavancagem de segurança que se mostrou tão tóxica. Gente desesperada tem muita dificuldade para aprender alguma coisa!

A crise financeira não poderia chegar em momento mais desfavorável para o capitalismo mundial. Tudo está virando de ponta-cabeça. A taxa de juros dos títulos de governo americanos, alemães e do Reino Unido caíram ao seu mais baixo nível de todos os tempos. O retorno sobre os títulos de 10 anos do tesouro americano estão abaixo de 2%, o mais baixo registrado. Enquanto o retorno dos títulos de 10 anos protegidos da inflação é de zero. “Estes são níveis quase incompreensíveis, cujas implicações são profundamente negativas”, escreve Roger Altman, vice-presidente do tesouro americano no governo de Clinton. “Somente a previsão de uma demanda insignificante por capital e de uma insignificante inflação – poderia lançar as taxas tão para baixo”.

Esta desanimadora visão do mundo está correta. O recente informe do FMI declara francamente que a Europa e a América estão à beira da recessão. “Seria desastroso para as economias dos EUA e da Europa ocidental declinar novamente, quando os níveis do desemprego já estão tão altos”, declara Altman. “Em todos os lugares, estamos sob o sério risco de repetir a experiência de 1937, quando a América voltou a cair na recessão depois de três anos de recuperação da Grande Depressão. Infelizmente, não há nenhuma explicação digna de confiança para a inexorável queda nas taxas de juros”.

Ele continua, “Os recentes dados econômicos dos EUA e da Europa confirmam esta grave fraqueza. O patrimônio líquido doméstico dos EUA começou a cair novamente, enquanto os pedidos de auxílio-desemprego vêm aumentando há várias semanas. As vendas no varejo estão achatadas e a confiança do consumidor flutua em seus níveis mais baixos. A liquidez das corporações Onshore alcançou um indicador muito baixo, sinalizando incertezas comerciais no horizonte.

“Do outro lado do Atlântico, a tendência também é ruim. Nem a Alemanha nem a França cresceram no segundo trimestre. O consumo doméstico na zona do euro na verdade caiu durante aquele período. Ademais, a Comissão Europeia projeta somente 0,2% e 0,1% de crescimento para toda a região no terceiro e no quarto semestres, respectivamente. O aprofundamento da crise da dívida soberana certamente significa que os resultados reais serão piores”.

Ele conclui: “O risco de outro colapso tipo Lehman Brothers e de subsequente contração é agora extremamente significativo” (FT, 22/9/11).

Isto reflete a profunda crise do capitalismo no presente momento. Os quatro anos de crise, que começaram como uma crise financeira, logo em uma crise de superprodução, se transformou em uma insustentável crise da dívida de famílias, bancos e governos. Não podem crescer a partir das dívidas, enquanto reduzem os déficits e o mercado. Isto apenas causa uma queda espiralada. Larry Summers resumiu as contradições. “Esse é o centro irônico da crise financeira – causada por excesso de confiança, de empréstimos e de despesas – que não pode ser resolvida sem mais confiança, mais empréstimos e mais despesas”.

A questão central é que o capitalismo não é um sistema racional, mas um sistema que se baseia na maximização do lucro. Não há nenhum plano e sim a anarquia do mercado. Estas contradições levaram à presente crise, a mais profunda na história do capitalismo. Depois de uma recessão supõe-se que haja uma recuperação, mas não há nenhuma recuperação, somente o aprofundamento da crise. Estes não são tempos normais. No passado, os apologistas do capital diziam que o capitalismo tinha resolvido seus problemas estruturais. Negavam que a possibilidade de haver novamente uma recessão, particularmente nas linhas de 1929. Mas os acontecimentos provam que estavam errados.

Como Marx explicou, o capitalismo é um sistema que tende à crise. Ele só pode ir em frente através de uma produção crescente e de uma demanda crescente. Mas isto não é mais possível. Eles estão reduzindo a produção, os investimentos e a demanda. O mercado está completamente deprimido. Os estoques de matérias-primas das empresas alcançaram os mais altos níveis desde o início do descarrilamento em 1992. Isto conduziu o sistema capitalista a um beco-sem-saída do qual não pode escapar. Também explica o pânico entre os representantes do capital. Como Sean O’Discoll, executivo-chefe de Glen Dimplex, declarou: “Você somente investe se há demanda crescente. No momento, não há nenhuma demanda crescente, então se cortam os investimentos”.

Os capitalistas entendem que não há nenhum jeitinho paliativo, e que estamos diante de décadas de austeridade. Não é acidental que Roger Altman tenha se referido aos anos 1930 e a 1937, em particular. Estamos em uma situação similar hoje. A Grande Contração está ameaçando se transformar em outra Grande Depressão. Enquanto nos anos 1930, a crise foi, em última análise, “resolvida” pela Segunda Guerra Mundial, uma “solução” destas hoje não tem qualquer possibilidade, pelo menos no próximo período histórico. Uma guerra mundial destruiria a classe trabalhadora e o próprio sistema capitalista. Por esta razão, as contradições atuais não serão resolvidas dessa forma, mas se internalizarão, acumulando-se e se manifestando em crescente luta de classes. Como já explicamos há muito tempo, todas as tentativas de se restaurar o equilíbrio econômico desestabilizarão o equilíbrio social e político.

Na realidade, o sistema capitalista chegou aos seus limites. As forças produtivas da indústria, da técnica e da ciência tornaram-se grandes demais para a propriedade privada dos meios de produção e para os limites do estado-nação. De obstáculos relativos, estes agora se tornaram obstáculos absolutos ao desenvolvimento. Como explicou Marx no Manifesto Comunista:

“Um movimento semelhante se processa diante de nossos olhos. As relações burguesas de produção e de intercâmbio, as relações de propriedade burguesas, a sociedade burguesa moderna que desencadeou meios tão poderosos de produção e de intercâmbio, assemelham-se ao feiticeiro que já não pode dominar as forças subterrâneas que invocara. De há decênios para cá, a história da indústria e do comércio é apenas a história da revolta das modernas forças produtivas contra as modernas relações de produção, contra as relações de propriedade que são as condições de vida da burguesia e de sua dominação. Basta mencionar as crises comerciais que, na sua recorrência periódica, põem em questão, cada vez de forma mais ameaçadora, a existência de toda a sociedade burguesa. Nas crises comerciais, regularmente é aniquilada uma grande parte não só dos produtos acabados como das forças produtivas já criadas. Nas crises irrompe uma epidemia social que teria parecido um contrassenso em todas as épocas anteriores – a epidemia da superprodução.

“A sociedade vê-se de repente retroagir a um estado de momentânea barbárie; parece-lhe que uma fome, uma guerra de aniquilação universal lhe cortaram todos os meios de subsistência; a indústria, o comércio, parecem aniquilados. E por quê? Porque ela possui demasiada civilização, demasiados meios de vida, demasiada indústria, demasiado comércio. As forças produtivas que se encontram a sua disposição já não servem para a promoção das relações de propriedade burguesas; pelo contrário, tornaram-se demasiado poderosas para estas relações, e são por ela tolhidas; e logo que triunfam deste tolhimento lançam na desordem toda a sociedade burguesa, põem em perigo a existência da propriedade burguesa. As relações burguesas tornaram-se demasiado estreitas para conterem a riqueza por elas gerada. E, como triunfa a burguesia das crises? Por um lado, pela aniquilação forçada de uma massa de forças produtivas; por outro lado, pela conquista de novos mercados e pela exploração mais profunda dos antigos mercados. De que modo, então? Preparando crises mais abrangentes e mais poderosas, e diminuindo os meios de sua prevenção”.

Anos de austeridade impulsionarão a classe trabalhadora à ação para defender suas condições de vida. Na ação prática, ela chegará à conclusão de que no caminho do capitalismo há somente pesadelos para a classe trabalhadora. Ela chegará à compreensão de que somente derrubando o capitalismo poderá resolver os problemas. Neste processo, as ideias do marxismo jogarão um papel indispensável.

Traduzido por Fabiano Adalberto

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