Cortes no orçamento comprometem funcionamento da estrutura de pesquisa do país. Foto: Labnano/CBPF

O Fim da Ciência

O Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) foi fundado em janeiro de 1949 por renomados cientistas brasileiros. Posteriormente, foi incorporado ao CNPQ. E neste mês de agosto de 2017 o CBPF publica um editorial em sua página web: “Ciência do Brasil pode estar perto da meia-noite”. O texto curto e direto explica que os cortes de verbas para a entidade estão levando ao sucateamento de equipamentos valiosos e ao corte de energia, problemas previstos e não resolvidos pelo governo.  A situação pode levar à queda do acesso à internet para setores inteiros da administração pública do Rio, no âmbito federal e estadual.  

No dia 20 de agosto, os bolsistas da Fiocruz fizeram uma manifestação e anunciam uma paralisação contra a suspensão dos pagamentos de bolsas, inclusive para mestrandos e doutorandos. Essa situação já havia sido denunciada em várias outras instituições, como na UFRJ, mas ela atinge o pais inteiro.  

O Ministro da Educação, Mendonça Filho diz em entrevista à Folha de São Paulo (21/8) que os problemas nas universidades se restringem à UFRJ e à UnB, por problemas de administração. O governo “dividiu” o problema ao colocar o CNPq sob a gestão do Ministério das Comunicações e com ele boa parte das instituições de ensino e pesquisa. E o entrevistador não teve a brilhante ideia de perguntar se o que está acontecendo com as bolsas do CNPq dizem respeito à educação também.  

Problemas no Brasil? Para alguns, essas coisas só acontecem neste país. Mas a questão é que sob o capitalismo a ciência no mundo inteiro está sob fogo cerrado. Tanto em sua parte de pesquisa pura como na parte de ciência aplicada. Um exemplo disso é o segundo acidente com um navio de guerra dos EUA, que levou a novos desaparecimentos e mortes. A Marinha dos EUA paralisou toda a sua atividade até descobrir o motivo.  

Afinal, uma das primeiras aplicações práticas  foi a navegação. Descobertas como a bússola e o astrolábio, estudo das constelações, tudo isso permitiu as grandes navegações e eram a base da navegação até o GPS, que hoje dá a sua posição com precisão de poucos metros. E, segundo comentam, no caso de aplicações militares dos EUA a precisão chega a centímetros. Teremos que voltar a era de manter um marinheiro pendurado em alto mastro para dar alarme ao invés de depender de sistemas de navegação e radares de alto custo? Porque tudo isso falha? 

A grande resposta é que nem a Marinha dos EUA sabe e ela precisou paralisar a navegação. Em termos gerais, podemos dizer que a gestão capitalista do sistema de produção de ciência está levando o mundo ao impasse de funcionamento e o que acontece no Brasil – falta de recursos – é parte disso.  

A ciência hoje é feita coletivamente, por dezenas e até centenas ou milhares de pesquisadores envolvidos em um só projeto. É uma produção coletiva e internacional. Mas submetida a uma medição: produtividade, número de artigos em “revistas de impacto”. Ao mesmo tempo, passa por uma desregulamentação e rebaixamento de salários da massa de mão de obra. Os “pós-doc”, pesquisadores que terminam o doutorado e têm contratos limitados ou “bolsas” sem a maioria dos direitos trabalhistas e ganhando abaixo de um operário especializado. Mas, sem essa mão de obra super-qualificada, não se faz ciência e os “resultados” aparecem na forma da colisão sem explicação dos navios americanos. Os sistemas de informática falham, milhares de remédios têm efeitos colaterais que não são estudados a fundo e tanto salvam como matam, etc.  

Platão um dia colocou em sua academia: “Não entre aqui quem não souber matemática”. Ele provavelmente não podia pensar que sob o capitalismo isso se reduziria a simples aritmética do somar e subtrair, onde o que importa é o lucro imediato e faz mais sentido a frase que abre o Livro sobre o Inferno, de Dante: Vós que aqui entrais, perdei toda a esperança. 

Para evitar a meia-noite na ciência, no Brasil e no mundo, é necessário varrer o capitalismo, recriar a esperança e alçar a ciência para muito além do simples somar e subtrair.

Editorial do jornal Foice&Martelo 109, de 31 de agosto de 2017.

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