Início / Artigos / Internacional / O falecimento do camarada Camilo Cahis

O falecimento do camarada Camilo Cahis

Nossa classe perdeu um grande lutador. Camilo Cahis, dirigente da seção canadense da CMI, sucumbiu a uma depressão profunda no dia 25 de Abril de 2015. Camarada Camilo, presente!

Nossa classe perdeu um grande lutador. Camilo Cahis sucumbiu a uma depressão profunda no dia 25 de Abril de 2015. Nós, seus camaradas, estaremos para sempre em dívida com ele.

Camilo era um homem muito gentil, tímido, modesto, e humilde. Ele também foi extremamente inteligente e capaz de colocar-se no papel que ele tinha assumido como líder da seção canadense da Corrente Marxista Internacional (CMI). Infelizmente, poucas pessoas conheciam o seu nome ou o seu papel. Ele certamente se tornaria uma figura importante nas lutas que estão por vir.

O fato de que poucos, fora os marxistas de Fightback (seção da CMI no Canadá) e da Corrente Marxista Internacional sabiam seu nome não é acidental. Camilo evitava ativamente ser o centro das atenções. Ele assumiu seu papel como um dever para com a luta da classe trabalhadora e dos oprimidos. Ele tinha um desprezo saudável pelo personalismo e pelo prestígio político, tanto em geral, quanto em relação às pessoas que ele via como mais preocupadas com a carreira, posição e ego, que as necessidades do movimento. Lembro-me de explicar-lhe que no movimento há sempre pessoas que se tornam figuras de autoridade, como resultado de seu trabalho pioneiro na construção das forças do marxismo, da sua compreensão da teoria marxista e sua capacidade de transmitir isso para o movimento como um todo, ajudando assim a organização a alcançar mais trabalhadores e jovens. Mas ele não se via nesse papel, embora na seção canadense da CMI ele claramente tenha desempenhado esse papel. Os políticos canadenses poderiam aprender muito com a humildade e o anti-carreirismo de Camilo Cahis.

Conheci Camilo em 2003, em Vancouver, durante uma greve de assistentes de ensino na Universidade de British Columbia. Ele cresceu em uma família de revolucionários chilenos que escaparam da ditadura de Pinochet. A geração de Allende sofreu com as cicatrizes da derrota histórica em 1973, mas muitos dos seus filhos passaram a desempenhar um papel importante na luta a partir deste dia. Camilo era uma dessas crianças.

Ele se juntou ao clube UBC NDP, e este é o lugar onde nós nos encontramos. Para começar, ele era muito cético em relação aos marxistas. Este era o seu hábito. Ele sempre foi muito cauteloso e cético sobre novas ideias e planos, apenas para se tornar um defensor feroz uma vez que ele submetia a nova ideia a um teste suficientemente rigoroso. Diz-se que, por vezes, os revolucionários são as pessoas mais conservadoras. Isso causou um sem fim de frustração ao longo dos anos por ele resistir inicialmente a novas ideias pelas quais eu estava apaixonadamente convencido. No entanto, eu aprendi a respeitar e até mesmo a depender de sua cautela, mesmo que levasse alguns dias extras para conquistá-lo. Sua cautela muitas vezes nos salvou de erros caros, ou apontou buracos em uma concepção que estava em um todo correta, mas que tinha pontos fracos em detalhes.

Camilo amava bom vinho, e conhecia muito do assunto devido ao seu tempo de trabalho em uma loja de vinhos. Infelizmente, sua adega sofreu nos últimos anos, pois a vida de um revolucionário profissional não oferece luxos. Mas de vez em quando ele trazia uma garrafa que era de uma safra perfeita ou de complexidade incrível. Ele gostava de visitar as vinícolas da região de Niagara e foi muito opinativo sobre a política socialista correta de distribuição de bebidas que não iria destruir o pequeno produto artesanal que ele era tão apaixonado. Os comunistas não se opõem às coisas boas da vida; nós simplesmente acreditamos que todos devem ser capazes de tê-las. Camilo estava orgulhoso de sua herança chilena, e brincou sobre seu “desvio nacionalista” de colocar uma bandeira do Chile em sua mesa no escritório novo do Fightback. Ele também colocou uma bandeira do Toronto Maple Leafs [time de hóquei de Toronto] e foi vítima de muitas piadas bem-humoradas sobre apoiar causas perdidas. Não ficou claro se ele colocou a bandeira para apoiar a equipe perpetuamente perdida ou para irritar nossos camaradas de Montreal, que torciam para o Montreal Canadiens. Apesar de seu comportamento sisudo, ele costumava rir como uma criança quando vinha com uma nova piada.

Camilo desempenhou um papel de liderança na campanha Hands Off Venezuela (Tirem as Mãos da Venezuela, no Brasil) e foi responsável por defender a revolução em inúmeras ocasiões e ao mesmo tempo educar os trabalhadores e jovens para a necessidade da revolução não só na América Latina, mas também no Ocidente. Ele gostava de citar Chávez, dizendo que a melhor maneira de apoiar a revolução bolivariana é construir as condições para a revolução em casa.

Eu tive a honra de trabalhar lado a lado com Camilo como meu colaborador mais próximo e companheiro pelos últimos 10 anos, os últimos cinco como colegas de trabalho. Seu papel na organização cresceu dia a dia. Sua timidez inicialmente apresentou barreiras para falar em público, mas sua inteligência e compreensão da importância do meio levou a se tornar um orador perspicaz que deixava um impacto no público.
Apesar de sua experiência, ele nunca parou de aprender. Se ele não tivesse sido tão cruelmente tirado de nós, estou certo de que ele teria se desenvolvido em uma figura de importância singular. Infelizmente, nunca saberemos o que ele poderia ter alcançado. Ironicamente, seu último artigo publicado antes da sua morte também foi o artigo mais popular no site da www.marxist.ca. Sua análise da classe trabalhadora de Alberta, na véspera da eleição, se tornou viral em Alberta, atingindo mais de 35.000 pessoas. Neste artigo Camilo explicou como Alberta, o chamado Texas do Canadá, não é imune à luta de classes e lutou contra o descaso elitista para com os trabalhadores de Alberta por parte de ativistas em Ontário e Quebec. Agora Alberta está enfrentando um terremoto político. Camilo tinha a intenção de escrever uma análise pós-eleitoral, uma tarefa que seus companheiros terão de pegar. É um tributo ao homem que podia ser tão produtivo ao mesmo tempo em que estava tão doente.

Camilo foi responsável por muitas das tarefas sem glamour no escritório do Fightback. Sem tais tarefas nenhuma organização séria pode funcionar. Ele editou artigos, atualizou o site, despachava os jornais, cuidava de volumosa correspondência, entre outras coisas. No entanto, sua tarefa mais importante e gratificante estava na educação da juventude nas ideias marxistas. Ele tinha um conhecimento que ia além de sua idade. Se uma coisa pode ser tirada de lição da vida de Camilo, é a necessidade de dedicar-se ao estudo e discussão da teoria política como meio de emancipar a classe trabalhadora. Isto é dirigido especialmente aos jovens.

A doença que levou Camilo de nós cresce a cada dia com a crise do capitalismo. O suicídio é uma epidemia crescente. O capitalismo literalmente mata. No entanto, é errado aplicar essa generalização de massa para cada indivíduo, especialmente Camilo. É necessário falar sobre isso para cortar o silêncio e o estigma. Ele estava lutando contra uma doença mental por muitos anos e tinha feito tudo certo. Ele estava tendo consultas semanais e estava recebendo ajuda médica. Através da política, ele tinha um círculo social animado de camaradas que se importavam profundamente com ele. Ele não estava desanimado com o futuro, e era incrivelmente orgulhoso do que os marxistas tinham alcançado no Canadá e internacionalmente. Fightback acabara de realizar uma campanha e conquistar seu primeiro escritório, um grande passo adiante. Ele foi o autor principal do nosso documento de perspectivas para 2015, que transborda de confiança na revolução e na classe trabalhadora. Esperamos que este documento tradicionalmente não assinado esteja disponível em breve como uma homenagem a Camilo. Mas ele também era um homem muito privado e terrivelmente embaraçado sobre sua doença. Este constrangimento foi desnecessário. Alguns lutam contra o câncer até o fim e sucumbem. Camilo lutou contra a depressão até o fim e foi igualmente dominado pela doença, apesar de seu grande esforço e do apoio dos amigos.

Nós temos o camarada Camilo em nossos corações à medida que continuamos a luta pela qual ele dedicou sua vida demasiado curta. É muito cedo para dizer, “não chorem, organizem-se”, por isso vamos fazer as duas coisas. Toda luta tem as suas perdas e esta é a perda mais difícil que tivemos de enfrentar. Nós sabemos que nós não estaríamos onde estamos hoje sem Camilo Cahis. Um camarada na luta caiu e vamos lutar até o último dia, quando o miserável sistema capitalista terá o seu velório.

Camilo, 33, deixa mãe, pai, dois irmãos e sua família revolucionária no Canadá e internacionalmente. Ele foi muito amado e será lembrado até o fim.

Deixe seu comentário

Leia também...

Seminário Sobre Liberdade e Independência Sindical

Joinville-SC, de 24 a 26 de novembro de 2017 Inscrições até 10/11/2017 A Esquerda Marxista …