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O capitalismo mundial em crise

Análise de fundo de Alan Woods sobre a crise econômica mundial e as tarefas dos marxistas.

Crise global

Vivemos tempos excepcionais. O pânico financeiro nos EUA está provocando ondas que ameaçam inundar todo o mundo. Este acontecimento está transformando rapidamente a consciência de milhões. Ontem, 25 de setembro, o Conselho Central de Trabalho de Nova York (federação sindical) convocou uma manifestação e mobilizou alguns milhares de trabalhadores, incluindo muitos trabalhadores da construção, metalúrgicos, ajudantes, encanadores e trabalhadores da calefação, além de professores, trabalhadores municipais e outros setores. O objetivo da manifestação, convocada com menos de dois dias de antecedência, era protestar contra o plano do Presidente, destinado a tirar dos apuros a Wall Street com uma ajuda de 700 bilhões de dólares de dinheiro público. Assim é como informava a Reuters sobre o protesto:

“Operários da construção, trabalhadores do setor de transporte, mecânicos, professores e outros sindicalistas aglutinaram-se na quinta-feira próximo à Bolsa de Nova York, para protestar contra a ajuda proposta pelo governo dos EUA à Wall Street. Várias centenas de manifestantes mostraram um apoio entusiasmado quando os dirigentes sindicais desacreditaram o plano proposto de 700 bilhões de dólares destinado a revigorar os mercados de crédito, aliviando as instituições financeiras de dívidas perigosas.

A Administração Bush quer que paguemos o ônus que supõe a ajuda a Wall Street quando nem sequer começa a solucionar as raízes de nossa crise’, estas são as palavras do presidente nacional da AFL-CIO, John Sweeney, que completa: ‘Queremos que os dólares de nossos impostos se destinem para as mãos dos milhões de trabalhadores que vivem em Main Street e não uma limosine para um bando de executivos bem pagos’.

Nas faixas podia-se ler ‘Não aos cheques em branco para Wall Street’ e ‘Nossas pensões, ganhas com trabalho duro, não nos serão roubadas’. Os manifestantes, em seguida, fizeram repetidas chamadas para que o governo gaste o dinheiro em educação, saneamento básico e moradias de acesso facilmente liberado, igual o que se propõe fazer para a Wall Street. ‘Sabemos que a situação econômica deve resolver-se. Porém, queremos um resgate responsável, não uma ajuda oportunista’, estas foram as palavras de Randi Weingarten, presidente do sindicato dos professores. ‘E isto significa, como dizem os empresários: ‘isso deveria ser responsabilidade dos professores’. Então isso deveria ser também responsabilidade da Wall Street”.

O clima da manifestação era de fúria, como demonstra a enorme reação favorável à convocatória de uma greve geral, dado que o resgate só beneficia aos ricos. Este acontecimento representa o início da transformação da consciência da classe operária, e não só nos EUA.

“Acontecimento único em um século”

O que ocorreu nos mercados financeiros, durante estes últimos meses, não tem precedente na história recente. Os mesmos economistas burgueses que anteriormente negavam a possibilidade de uma recessão, agora falam da crise mais séria em sessenta anos. Alan Greenspan, antigo presidente do FED, a Reserva Federal (Banco Central) dos EUA, descreveu a atual crise financeira como provavelmente um “acontecimento único em um século”.

Realmente querem dizer 79 anos, porque em 1948 não houve nenhuma crise. Mas os economistas são pessoas supersticiosas e temem mencionar 1929, como os antigos israelitas tinham medo de mencionar o nome de seu deus, porque temiam que poderia ocorrer algo desagradável. Todos estão preocupados com a confiança nos mercados, porque eles crêem fervorosamente que a confiança (ou sua ausência) é a causa real dos booms e das recessões. Na realidade, os booms e as recessões têm sua origem nas condições objetivas. A ascendência e a queda da confiança refletem as condições reais, ainda que possam converter-se, então, em parte destas condições, ajudando a incrementar o mercado ou, como neste caso, sua queda.

Nos últimos meses, AIG, Bear Stearns, Fannie Mae, Freddie Mac, Lehman Brothers e Merrill Lynch, empresas antes consideradas muito grandes para que fracassassem, entraram todas na bancarrota e, depois, foram “resgatadas” pelo governo, ou nacionalizadas. Quando a população começar a perceber a seriedade da crise econômica, na sociedade se preparará um ambiente não visto em muitos anos. Esta manhã (26 de Setembro) chegavam notícias do colapso de outro banco norte-americano, o Washington Mutual, fechado pelo governo norte-americano. Trata-se da maior bancarrota de um banco estadunidense e, seus ativos bancários foram vendidos a JPMorgan Chase, por 1 bilhão e 900 milhões de dólares. É o equivalente financeiro a um tsunami devastador, e que não terminou.

As estimativas dos economistas são revisadas constantemente em queda. Há seis meses, o Fundo Monetário Internacional (FMI) calculava as perdas do setor financeiro em mais de 1 trilhão de dólares e prognosticava uma profunda recessão da economia global. A maioria dos economistas criticou esta perspectiva por ser muito pessimista. Agora tocam uma melodia diferente. Dominique Strauss-Khan [antigo membro do Partido Socialista Francês] escreve o seguinte no Financial Times:

“Grande parte das perdas ainda não foram contabilizadas e, com a crise financeira já muito aguda, ficou claro que só o milagre de uma solução sistemática – luta global, imediata e ampla contra o aluvião, para combater suas causas – permitirá à economia, nos EUA e globalmente, funcionar com uma aparência de normalidade” (22/09/2008)

Sim, na realidade, a economia norte-americana já não funciona com “uma aparência de normalidade”. De fato, está sofrendo uma violenta freada, ao menos no que concerne a Wall Street. No momento em que escrevo estas linhas, os mercados financeiros nos EUA estão praticamente paralisados à espera da confirmação de um grande investimento de dinheiro governamental, com o qual as autoridades esperam “restaurar a confiança”. O simples fato de que o “livre mercado” dependa para sua sobrevivência de enormes doações do contribuinte norte-americano é uma prova suficiente de sua total bancarrota, no sentido mais literal da palavra. Aqui está a resposta final a toda retórica sobre a “mão invisível do mercado”, o espírito da empresa privada e tudo mais. No momento da verdade, os valentes empresários da Wall Street e de Londres tem de ir como os mendigos, com um chapéu na mão, ao governo e pedir seguridade social. Só que estes mendigos são multimilionários e exigem dinheiro com ameaças.

O que fica da “aparência de normalidade” quando a administração republicana encabeçada por um fanático do livre-mercado nacionaliza importantes bancos de investimento norte-americanos? Ou quando o Tesouro dos EUA concede um gigantesco subsídio de aproximadamente 1 trilhão de dólares para fazer o mesmo? No domingo, Morgan Stanley e Goldman Sachs renunciaram a permanecer como os dois únicos bancos de investimento independentes e se converteram em sociedades “financeiras de crédito” para conseguir ampliar o acesso aos depósitos bancários e apoio permanente de liquidez por parte do FED (Banco Central dos EUA). A eliminação de duas instituições das mais prestigiosas da Wall Street foi uma indicativa da extrema seriedade da crise. A velocidade com a que Morgan Stanley foi à Ásia em busca de capital destaca quão rapidamente a riqueza do mundo se afasta dos EUA.

O Congresso vacila e o Secretário do Tesouro norte-americano, Henry Paulson (que, na opinião de alguns comentaristas, é agora de fato o presidente dos EUA) está furioso. Enquanto que os mercados continuam com sua queda, e nada pode pará-los. Outro argumento que pode se escutar insistentemente no Congresso é: estão nos pedindo que entreguemos todos estes bilhões sem controle nem garantias. Fora o fato de que se trata de recompensar aos banqueiros por sua péssima gestão, quem disse que esta medida terá o efeito de frear a queda do mercado?

É uma pergunta excelente a qual nem Paulson nem Bush nem ninguém mais, têm resposta. É bastante assombroso ver os antigos defensores da santidade do livre mercado relinchar agora pela intervenção do governo para que salve o mercado de si mesmo. Mas estão condenados por sua própria lógica, que só é a lógica insana da economia de livre mercado. A atual crise financeira, que há muito tempo foi prognosticada pelos marxistas, é o resultado direto do longo período de especulação descontrolada, que provocou a maior bolha da história.

Na sexta-feira, quando o governo anunciou seu plano de resgate de 700 bilhões de dólares para o setor financeiro, os mercados se regurgitaram. Porém, depois o ambiente voltou em seu contrário, quando o Congresso retardou a aprovação desta massiva esmola. Até a segunda-feira, o dólar havia se mantido surpreendentemente alto apesar da turbulência de Wall Street. Mas finalmente caiu, devido à preocupação pelo custo do resgate e à frágil situação do sistema bancário norte-americano, disparando o preço das mercadorias em dólares. O dólar caiu cerca de 2% em relação às principais divisas, o euro subiu cerca de 2,6% até alcançar 1,48 dólares.

O preço do petróleo adquiriu um caráter febril, com violentas subidas e quedas. Quando o dólar se desvalorizou, as bolsas afundaram e o preço do petróleo voltou a subir depois de sua abrupta queda anterior. Na segunda-feira, 22 de setembro, subiu cerca de 17%, o aumento diário de seu preço jamais visto antes e maior que durante a invasão do Iraque. Mas na terça-feira o preço do petróleo havia caído de novo 3 dólares, chegando a 106 dólares o barril, e existem boas razões para esperar que os preços energéticos sigam baixando. Estes “vai-e-vem” violentos sem dúvida refletem, por um lado, o movimento do dólar e, por outro lado, a atividade daqueles envolvidos na especulação de mercadorias. Até há pouco tempo, os capitalistas especulavam no mercado imobiliário. Quando este colapsou, buscaram outros setores para explorar, qualquer outro que pudesse ser mais rentável: petróleo, obras de arte, comida. Apesar de todas as queixas e exigências de regulação, esta especulação não se pode controlar. É como uma hidra: se lhe corta a cabeça, aparecerá outra dezena de cabeças.

Socialismo – para os ricos

Como resultado das convulsões econômicas e sociais, muitas pessoas começaram a questionar-se sobre a natureza de um sistema econômico que produz este tipo de abominações. Quando o mesmo estado capitalista se vê obrigado a nacionalizar instituições financeiras, começa a se generalizar uma idéia: para que necessitamos de banqueiros e capitalistas privados? Por esta razão, os políticos evitam a palavra “nacionalização” como o demônio evita a água-benta. A todo custo, buscam formas através das quais o Estado possa proporcionar capital aos bancos e que não impliquem a nacionalização. Lutam por inventar novas formas de capital que deixem a propriedade e o controle nas mãos privadas. Mas ao final, se vêem forçados contra sua vontade a tomar posse de bancos enfermos para evitar seu colapso. É uma acusação irrefutável contra a propriedade privada de alguns setores-chave da economia.

Ainda que possa parecer um paradoxo, não é uma coincidência que o país onde os políticos estão gritando mais alto contra os pecados do mercado e a ganância dos financeiros seja precisamente os EUA. A terra da livre empresa, o país onde a psicologia do capitalismo fez raízes profundas entre a população, é a terra de onde provavelmente se dá a reação mais profunda contra o Grande Negócio. Este fato se reflete nos discursos dos políticos, sobretudo os candidatos das eleições presidenciais. E o candidato republicano é inclusive mais eloqüente em sua retórica que o democrata. Isto ocorre porque ele gostaria de ganhar. McCain vê que existe uma reação contra o salário exorbitante dos conselhos de administração das grandes empresas e a escandalosa especulação de Wall Street, por isso diz o que as pessoas mais gostariam de ouvir.

Não resulta de forma grotesca que os empresários do defunto Bear Stearns gastavam fortunas enquanto empreendiam estratégias arriscadas que levaram a empresa ao colapso? Por que os contribuintes norte-americanos, a maioria dos quais não tão ricos, têm que fazer frente aos 700 bilhões de dólares para o resgate das grandes instituições financeiras? No dia 30 de setembro de 2007, o governo federal tinha um rombo fiscal de 53 trilhões de dólares, equivalente a 455 mil dólares por família e 175 mil dólares por pessoa. Esta carga aumenta a cada ano em 6.600-9.900 dólares por norte-americano. A Saúde representa 34 trilhões de dólares deste déficit e o fundo relacionado com a Saúde estará zerado em dez anos. Quem quer que ganhe as eleições presidenciais e quem quer que controle o Congresso, terá que presidir profundos cortes dos níveis de vida. Os mesmos capitalistas que sacaram bilhões do governo e da Reserva Federal estão exigindo maior controle pressuposto, cortes do gasto federal, uma reforma ampla (leia-se redução) do direito ao saneamento básico.

Não há dinheiro para a saúde nem para escolas ou pensões para os idosos. Mas há muito dinheiro para os grandes bancos e ricos. Esta flagrante contradição está se agitando na consciência de milhões de norte-americanos e terá conseqüências enormes no futuro. A pesada carga da dívida recairá sobre os ombros das próximas gerações que pagarão o preço com quedas dos níveis de vida e cortes do gasto social. Isto inevitavelmente provocará uma transformação profunda da consciência.

Para a opinião pública norte-americana a lição não passará despercebida. Não há dinheiro para escola, enfermos ou idosos, mas quando se trata das grandes empresas (e não há maior empresa que os bancos) o Estado dispõe de um cheque em branco. Para o sofrimento dos pobres a administração Bush só tem desprezo. Na terra da liberdade, todo cidadão tem o direito de enriquecer, se a pessoa insiste em ser pobre, é seu problema! Que mostre um pouco mais de iniciativa ou se não, que se arrastem à vala e morram. Essa é a severa mensagem do Messias republicano do livre mercado. Porém, quando se trata dos super-ricos, George W. Bush demonstra a mais sensível preocupação. Mas já estava escrito antes: “Porque a qualquer um que tenha lhe dará mais, e terá em abundância; mas a qualquer que não tenha, ainda o que tenha lhe quitará” (Mateus 13:12).

Como sabemos, o presidente Bush é um firme crente no Livro Sagrado. Mas suspeitamos que seus motivos para intervir na crise financeira não estão totalmente relacionados com a caridade cristã. Têm mais a ver com o desespero. A classe dominante nos EUA vê que está se abrindo abaixo dos seus pés um abismo e se vê obrigada a adotar medidas de pânico em uma tentativa frenética de evitar uma recessão global. Por isso um fanático do livre mercado, como o presidente, se vê forçado a lançar 700 bilhões de dólares de dinheiro dos contribuintes aos bancos.

Esta tentativa extraordinária recebeu imediatamente os aplausos do mercado, nacional e internacionalmente. O Grupo das Sete nações industrializadas (G-7) disse a seus membros: “bem-vindas as extraordinárias ações adotadas pelos EUA”. Entretanto, outras nações disseram que não viam a necessidade imediata de criar seus próprios fundos para comprar valores em perigo. Os capitalistas da Europa e outras partes estavam preferindo sentar-se e deixar que os americanos se esforçassem. Depois de tudo não eram eles em primeiro lugar os responsáveis por terem criado este caos? A mesma pergunta se faz nos EUA, em cada esquina e no Capitólio.

O presidente imediatamente se topou com um problema no Congresso norte-americano. Não é que os congressistas estejam menos dispostos a garantir a sobrevivência do capitalismo que o atual inquilino da Casa Branca, mas estão ainda mais dedicados à sua própria sobrevivência. O problema é que sentem a crescente reação que existe contra o capitalismo, o mercado, os banqueiros, Wall Street e todas suas ações. A imensa doação (isto é o que é) fala por si mesma. Significa que sairá do bolso de cada contribuinte estadunidense o equivalente a 9 mil e 400 dólares e será depositado justamente nas contas dos principais responsáveis pela crise financeira. Este fato por si só serve para esclarecer estupendamente as idéias dos membros do Congresso, especialmente quando as eleições estão logo ali.

Os Democratas estão pedindo uma segunda rodada de medidas para recuperar a economia norte-americana, centrada em estimular gastos em infra-estrutura, ajuda de custo às contas de luz residenciais e possivelmente mais cheques-desconto para os consumidores. Mas a administração e muitos republicanos resistem. Dinheiro para os banqueiros? Óbvio! Dinheiro para os norte-americanos contribuintes? A conta está no limite! Isto é demasiado para as almas amáveis do Capitólio que gastam todo seu tempo em vigiar os interesses da nação.

Como era de se esperar, Barack Obama, o democrata nomeado candidato à presidência, colocou suas preocupações em um discurso chamado modernização de regulação financeira baseado em atividades institucionais em vez de suas identificações como corretores de bancos ou hipotecas. “Não podemos dar um cheque em branco para Washington sem superintendência ou contabilidade quando a falta de superintendência e contabilidade é o que nos colocou nessa confusão, para começar”, ele disse.

O mais surpreendente foi, talvez, a reação do candidato republicano, que obviamente não quer ser deixado para trás por seu rival (mesmo porque, palavras são baratas e é ano de eleição): “Essa negociação me deixa profundamente desconfortável”, disse John McCain. “Nunca antes na história da nossa nação tanto poder e dinheiro ficou concentrado em uma só pessoa. Quando estamos falando sobre um trilhão de dólares de dinheiro de impostos, ‘confie em mim’ não é bom o suficiente”. O Sr. McCain até mesmo declarou apoio para pedidos dos democratas para um limite de pagamento anual por volta de $400.000 para executivos em empresas amparadas com fundos públicos. Isso está em contradição completa com a posição administrativa de Bush, que insiste que um limite de pagamento iria desencorajar bancos em tomar parte.

Democratas veteranos na Casa Branca e no Senado circularam propostas envolvendo superintendências mais justas, várias propostas para permitir ou requerer que o governo tome riscos em empresas, tomando parte no esquema para permitir juízes falidos em escrever no papel as hipotecas e por um freio em salários executivos em bancos que vendem títulos para o fundo governamental. O Sr. Paulson está resistindo em fazer pagamentos ou a transferência de eqüidades para o governo, uma precondição para vender títulos para o fundo, argumentando que isso iria assegurar que somente bancos na iminência de falir tomem parte.

O conflito, e as exigências pelos democratas por mais controle pelo dinheiro entregue aos bancos, produziu paralisações e um atraso que desanimou os mercados mais uma vez. Mesmo porque, quando o Mercado exige, é costume obedecê-lo. Os representantes eleitos da Nação não deveriam fazer quaisquer perguntas! O presidente Bush chamou o Congresso a “manter a pauta focada em solucionar a crise nos nossos mercados financeiros”.

Mas o Congresso está sob a pressão da opinião pública, que, como temos visto, está alcançando o ponto de ebulição. Os homens do Congresso estão sendo bombardeados por telefonemas e e-mails, nos quais seus constituintes expressam sua raiva contra esse recado escandaloso aos ricos. Eles ignoram esse humor por sua conta e risco! Portanto, eles hesitaram em assinar o acordo. O Congresso culpa a Administração por colocá-los nessa confusão. O presidente culpa o Congresso por segurar um acordo que deveria salvar a economia dos EUA do colapso (Bush usou precisamente essas palavras em uma mensagem televisiva sem precedentes à Nação).

O ambiente no Congresso ficou tenso, os congressistas gritavam e quase chegaram às vias de fato. Alguém pode recordar este tipo de cena no Capitólio? Então como há quem não pode ver os EUA em uma situação de débâcle (meltdown) econômico? Pode alguém recordar à população norte-americana nesta situação de rebelião e fúria? A razão do comportamento dos congressistas é que sentem as chamas já queimando seus traseiros.

Qualquer coisa que façam dará errado. Se assinam o acordo, ganharão o ódio de milhões de estadunidenses. Uma mulher, em entrevista na noite passada pela televisão britânica, quando lhe perguntaram o que pensava sobre o plano de resgate, respondeu desconsoladamente: “Acabo de sair de um turno de onze horas e trabalho e eu trabalho 60 horas semanais. Agora querem me tomar 2 mil e 300 dólares para dar aos banqueiros!”. Esta deve ser a atitude típica de milhões de pessoas comuns nos EUA. Mas se recusarem a assinar o acordo, provocarão uma queda ainda mais profunda das bolsas dos EUA, trazendo a ameaça de um colapso total nas mesmas linhas de 1929. Em outras palavras, estão numa sinuca de bico.

Pessimismo da burguesia

A burguesia sofre de ataques maníaco-depressivos periódicos, passando rapidamente do otimismo extremo ao abismo do desespero. Em ambos lados do Atlântico, onde anteriormente havia “exuberância irracional”, agora há obscuridade e condenação. Sempre foi assim: a burguesia sempre se balança entre os dois extremos do caráter maníaco-depressivo. Em determinado momento da festa, está em plena efervescência e conseguem enormes fortunas, no momento seguinte, tudo se desinfla e abunda a miséria. Quando chega finalmente o colapso é como a manhã depois de uma festa selvagem. Na noite anterior, as pessoas estão felizes, embriagadas, sem se preocupar com o mundo. Agora, com a fria luz do dia, a história é diferente. Homens e mulheres são terrivelmente conscientes dos excessos da noite anterior, juram com solenidade que nunca voltarão a beber, e são bastante sinceros, até a festa seguinte.

O colapso ignominioso do último boom especulativo não é uma exceção à regra geral. É destacável só pela profundidade da tristeza, que só é um reflexo da queda vertiginosa pela qual estão passando agora. Simplesmente foi o maior boom (ou bolha) especulativo da história. Foi muito maior que o boom que precedeu o colapso da Wall Street (1929). Apesar da severidade óbvia da crise, os economistas burgueses ainda tentam confortar-se com o pensamento de que as coisas poderiam ter sido muito piores. Recentemente o Financial Times comentava:

“A Grande Depressão começou há menos de 80 anos, mas para ser sinceros estamos em um século diferente. Seja ou não a pior crise a qual o mundo enfrentará entre este momento e o ano 2099, o destacável, é o feito de que não foi sucedido tão mal como a Grande Depressão entre os anos trinta e o momento atual”. Este comentário é interessante por duas coisas: as mesmas pessoas que durante anos estavam negando qualquer possibilidade de uma repetição de 1929 e a Grande Depressão agora, num piscar de olhos, dizem que não só é possível, senão que o destacável é que nunca tenha ocorrido – ainda.

Dominique Strauss-Kahn escreve: “[…] e o que não ocorreu, ao menos ainda, na economia geral – o começo de uma severa recessão. Quiçá, foi a ausência desta última o que levou muitos a tranqüilizarem-se considerando o inchaço da bolha imobiliária como uma correção, os não pagamentos das hipotecas subprime norte-americanas como uma desgraça e o fracasso de importantes instituições financeiras como um dano colateral”. (Ibid).

A queda dos preços durante uma crise simplesmente compensava sua anterior inflação, nesse sentido pode-se falar de uma “correção”. Entretanto, nós há tempos dissemos como os economistas burgueses mudaram repetidamente a terminologia que descreve uma recessão econômica para que pareça algo menos sério. Em determinado momento, utilizaram a palavra pânico, depois crise, até que finalmente chegaram à correção. Depois de tudo, se aceitamos os milagrosos poderes sanadores do mercado, que por arte de magia se regula sem nenhuma participação humana consciente, como se pode objetar a “auto-correção” do mercado?

Sobre este tema escrevemos o seguinte em Perspectivas Mundiais 2008:

“Poder-se-ia dizer o mesmo sobre um terremoto: também se pode apresentar como uma “correção” necessária que simplesmente reajusta a crosta terrestre. Finalmente, tudo volta à normalidade e a vida continua como antes. Mas esta análise reconfortante não tem em conta as terríveis conseqüências de danos provocados pelo terremoto: povos que desaparecem, árvores arrancadas, colheitas destruídas, milhares de mortos e feridos. Além do mais, a vida normal não se recupera tão facilmente depois de um terremoto. Alguns podem ser tão devastadores e deixar tal gotejamento de destruição que os efeitos se sentem durante anos”.

Estas linhas descrevem com precisão as conseqüências desta “correção”.

A ditadura do capital financeiro

Nossa época é a do capitalismo monopolista, uma das características é o domínio completo do capital financeiro. Este domínio nos EUA e Grã-Bretanha chegou mais longe que em qualquer outro país importante. Grã-Bretanha, antiga oficina do mundo, se transformou em uma economia financista parasitária que produz muito pouco e está dominada pelas finanças e serviços. Há pouco tempo, isto representava algo positivo que podia proteger a Grã-Bretanha frente à turbulência da economia mundial. Mas se converteu no seu contrário. A seguir, de maneira servil ao modelo norte-americano, a Grã-Bretanha se viu arrastada à recessão, seguindo os passos dos EUA e, provavelmente, se tornará a mais afetada. Como um verme parasitário, que engorda às costas do resto do organismo anfitrião o setor financeiro se tornou demasiado grande em relação à economia, minando sua fortaleza e ameaçando afundar-se completamente.

É uma proposição elementar de que tudo que sobe deve cair. Durante anos a economia norte-americana parecia desafiar as leis da gravidade econômica. Agora deve pagar o preço. A queda chegou, e é mais abrupta pela altura vertiginosa que alcançou devido à especulação no setor imobiliário durante o período que a precedeu. Já é muito mais intensa que a queda dos preços imobiliários na Grande Depressão. No primeiro trimestre de 2008 os preços imobiliários nos EUA caíram oficialmente cerca de 14,1%. Por contraste, em 1932, no momento mais baixo da depressão, os preços imobiliários caíram 10,5%. Além do que, estas cifras não refletem a seriedade real da situação. Alguns economistas situam a cifra da queda dos preços imobiliários durante o primeiro trimestre em 16% em termos reais. E a queda dos preços imobiliários está longe de haver terminado.

Isto significa que as enormes somas de dinheiro que vão regar aos banqueiros não terão o efeito de deter a queda, ou no melhor dos casos podem só ter um suspiro temporal antes de novas e mais profundas quedas. Esta é a lógica do mercado que não obedece a nenhuma lei, exceto a si mesmo. Os supostos planos de estabilização não são nada disso. Tudo o que se fala de regular os mercados é uma estupidez. O sistema capitalista é anárquico por natureza. Não se pode planificar nem regular. A tentativa de estabilizar o setor financeiro, injetando grandes quantidades de efetivo, só conseguirá enriquecer ainda mais os já mega-ricos. Mas não terá um efeito duradouro sobre o mercado.

A insolência dos banqueiros é bastante assombrosa. Exigem ao governo que compre suas dívidas podres, enquanto eles ficam com os valores rentáveis. Não se sabe qual o valor real destes ativos. Um velho ditado diz que nunca se pode comprar às cegas. É um conselho correto, mas se espera que o governo entregue uma imensa quantidade de dinheiro à burguesia sem olhar o que há no pacote. A crise do sistema bancário é o resultado de uma fraude massiva na qual todos os banqueiros participaram alegremente durante as últimas duas décadas. Fizeram-se fabulosamente ricos, mas agora deixaram uma enorme quantidade de dívida e capital fictício nos livros de contas das instituições financeiras. Como resolver este pequeno problema? É fácil! Passar a fatura ao contribuinte. O governo cria uma agência para comprar estes valores e os mantém até que se “amadureçam” e se possa vender ao setor privado. Isto significa nacionalizar as perdas e privatizar os benefícios ou, para utilizar uma maravilhosa expressão de Gore Vidal, socialismo para os ricos e economia de livre-mercado para os pobres.

Os capitalistas buscam demonstrar que também eles estão fazendo sacrifícios, mas na verdade sacrificam uns poucos de seus inflados benefícios, enquanto que os trabalhadores sacrificam sua vida e casa. Os banqueiros gritam com dor e os governos correm com um cheque em branco em suas mãos. Isto se conhece como “provisão de liquidez”. O problema é que o Estado não possui liquidez alguma. Só pode conseguir o dinheiro dos contribuintes. Mas os impostos reduzem a demanda, algo que já está caindo nos EUA. Isto poderia temporariamente aliviar o “sofrimento” dos super-ricos, mas só às custas de incrementar o sofrimento de milhões de estadunidenses comuns. Isso, em si mesmo, não seria nada preocupante, lógico, já que o destino de todos os norte-americanos patriotas é sofrer pela grande causa do mercado. Desgraçadamente, isto terá efeitos mais sérios na economia.

Uma nova queda da demanda aumentará o desemprego. As empresas entrarão em bancarrota. Mais pessoas não poderão pagar suas hipotecas e dívidas do cartão de crédito, o que aprofundará a crise e se tornará ainda mais difícil de resolver. Além do mais, os EUA nos anos recentes passaram de ser a nação mais credora do mundo para ser o maior devedor mundial. A compra por parte do governo de valores e injeções de capital nas instituições financeiras aumentará enormemente este endividamento coletivo. Provocarão uma nova queda do valor do dólar em relação a outras moedas e esta situação, em seguida, causará mais convulsões nos mercados monetários mundiais.

Os bancos centrais supõem que devem evitar vigiar os bancos e instituições financeiras para garantir aos depositários que seu depósito bancário esteja a salvo, e proporcionar a liquidez nas grandes instituições financeiras frente aos danos colaterais. Mas, os recursos dos bancos centrais têm um limite e o está alcançando muito rapidamente. Provavelmente já fizeram mais do que podiam fazer. No caso de uma nova crise bancária, não poderão fazer nada. Como não têm a mínima idéia do quanto ascendem as dívidas podres que estão envenenando o sistema financeiro mundial, esta crise no próximo período é inevitável. Mais cedo ou mais tarde terminará no colapso de um ou outro dos bancos importantes, que pode provocar uma comoção letal em toda a economia mundial, como ocorreu com o colapso do maior banco austríaco, o Kredit-Anstalt, em maio de 1931. Isto sucedeu dois anos e meio após o crack de Wall Street nos EUA e marcou o princípio do colapso financeiro da Europa Central e depois mais além. É totalmente possível que vejamos algo similar no próximo período.

Marx sobre o capital fictício

A escassez de dinheiro não é a causa da crise, pelo contrário, a crise é que provoca escassez de dinheiro. Os economistas burgueses, com sua mentalidade de banqueiros, confundem a causa com o efeito, a aparência com a essência. Quando a economia entra em crise, o crédito se esgota e as pessoas exigem em seu lugar dinheiro em metal. Este é o efeito da crise, mas, por sua vez, se converte em causa, reduzindo a demanda e criando uma espiral descendente.

Os banqueiros e seus amigos no governo insistem que a causa da crise é que o sistema financeiro tinha pouquíssimo capital. É uma declaração assombrosa. Durante as últimas duas décadas se viu um enorme carnaval rentável, onde os bancos conseguiram enormes benefícios. Agora dizem que não há capital suficiente! Na realidade, durante o boom, esteve em circulação uma enorme quantidade de empréstimos e esta superabundância de capital demonstrava por si mesma os limites da produção capitalista. Havia enormes somas de capital disponíveis para a especulação que não podiam encontrar uma saída e a burguesia teve que encontrar outra forma de utilizá-lo.

Marx destacou há muito tempo que o ideal da burguesia era fazer dinheiro do dinheiro, sem ter de passar pelo processo doloroso da produção. Nesse último período parecia que haviam conseguido concretizar esta idéia (exceto na China, onde houve um desenvolvimento real das forças produtivas). Nos EUA, Grã-Bretanha, Espanha, Irlanda e em muitos outros países, os bancos investiram bilhões em especulação, sobretudo no setor imobiliário. Isto se baseou no escândalo das hipotecas subprime e floresceu, gerando quantidades inimagináveis de capital fictício.

Já na época de Marx existiam grandes quantidades de capital circulando, este é o capital que forma a base do capital fictício. Naquela época também houve saturação creditícia, o equivalente aos atuais derivados. Entretanto, quando se compara com a situação atual ofusca todo o significado da especulação. A quantidade total de especulação em escala global é assombrosa. Tomemos um só exemplo: o crédito default swap (o crédito default swap é provido por uma entidade como Bancos Centrais, que empresta uma determinada quantia em dinheiro e dá um prazo para a retomada do dinheiro emprestado; NdoT). Este mercado permite que duas partes apostem sobre a probabilidade de que uma empresa não cumpra o pagamento de sua dívida. Passou para 90 bilhões de dólares as quantidades fictícias asseguradas. É dizer, provavelmente, mais que o dobro do crédito pendente pago no mundo. Mas os contratos não estão anotados em nenhuma parte, exceto nos livros dos sócios. Ninguém sabe o volume real da transação, portanto, isso expõe a economia mundial a um enorme risco. Isso explica o pânico em Wall Street e na Casa Branca. Temem, com razão, que qualquer severo vai-e-vem possa derrubar todo o edifício instável das finanças internacionais, com conseqüências difíceis de prever.

Mesmo no século XIX, no auge do boom, quando o crédito era fácil e a confiança aumentava, a maioria das transações eram feitas sem nenhum dinheiro real. Ao início de cada ciclo há abundância de capital e as taxas de juros são baixas. A taxa de juro baixa estimula os ganhos das empresas em um primeiro momento do ciclo e anima o crescimento. Mais tarde a taxa de juro alcança seu nível médio no momento máximo de prosperidade. Aumenta a demanda de crédito e, portanto, as taxas de juros no auge de um boom deveriam subir, mas no último boom não ocorreu desta forma.

Nos anos recentes o FED (Banco Central dos EUA) aplicou uma política de manter deliberadamente baixas as taxas de juros (em uma etapa foram, inclusive, negativas, em termos reais, considerando o nível de inflação). Tratava-se de uma irresponsabilidade desde um ponto de vista capitalista. Criou-se uma bolha imobiliária e, deste modo, se assentaram as bases para a crise atual. Mas, na medida em que conseguiam grandes benefícios e os investidores estavam felizes, tal problema não os incomodava. Todos se uniram contentes a este louco carnaval de rentabilidade. Os banqueiros mais respeitáveis e os economistas mais sábios uniram suas mãos e bailaram ao coro de: “Coma, beba e seja feliz, amanhã estaremos mortos!”

A razão pela qual agora se queixam neste momento, de que não possuem capital suficiente, é porque uma grande parte de seus ativos são fictícios, isso é resultado de um esgotamento sem precedentes em todo o setor financeiro. Enquanto o boom continuava, ninguém se importava. Mas agora que o boom terminou todos estes ativos estão sob suspeita. Os banqueiros, que ontem estavam dispostos a comprar grandes quantidades de dívidas dos demais, já não estão dispostos a fazê-lo. A desconfiança e a suspeita se generalizaram. O velho otimismo acomodado foi substituído por uma atitude tacanha no momento de emprestar e pegar empréstimo. Todo o sistema bancário, do qual depende a circulação de capital, está a ponto de paralisar-se.

Ao menos e até que os ativos podres sejam eliminados, muitas instituições carecerão de capital necessário para estender o crédito fresco na economia. Marx, há muito tempo, descreveu esta etapa do ciclo:

“É por si mesmo evidente que no período de crise faltem meios de pagamento. A conversibilidade das letras substitui a própria metamorfose das mercadorias e tanto mais quanto mais, nessa época, aumenta o número de casas comerciais que operam unicamente a crédito. Legislação bancária inepta e absurda, como a de 1844-45, pode agravar essa crise monetária. Mas, nenhuma legislação bancária poderia eliminá-la.

Num sistema de produção em que o mecanismo do processo de reprodução repousa sobre o crédito, se este cessa bruscamente admitindo-se apenas pagamento de contado, deve evidentemente sobrevir crise, corrida violenta aos meios de pagamento. Por isso, à primeira vista, toda crise se configura como crise de crédito e crise de dinheiro. E na realidade trata-se apenas da conversibilidade das letras em dinheiro. Mas, essas letras representam, na maioria dos casos, compras e vendas reais, cuja expansão ultrapassa de longe as exigências da sociedade, o que constitui em última análise a razão de toda a crise. Ademais, massa enorme dessas letras representa especulações puras que desmoronam à luz do dia; ou especulações conduzidas com capital alheio, porém mal sucedidas; finalmente, capitais-mercadorias que se depreciaram ou ficaram mesmo invendáveis, ou retornos irrealizáveis de capital. Não pode remediar a todo o sistema artificial de expansão forçada do processo de reprodução a circunstância de um banco, o Banco da Inglaterra, por exemplo, fornecer em bilhetes o capital que falta a todos os especuladores e comprar todos os valores depreciados aos antigos valores nominais. Tudo aqui está às avessas, pois, nesse mundo de papel, nenhures aparecem o preço real e seus elementos efetivos, vendo-se apenas barras, dinheiro sonante, bilhetes, letras, valores mobiliários. Essa deformação aparece principalmente nos centros como Londres, onde se concentram todos os negócios financeiros de um país; todo o processo se torna incompreensível; já menos, nos centros de produção.” (Karl Marx. O Capital. Livro 3. Capítulo 30. Capital dinheiro e capital real I. Grifo meu).

Os capitalistas devem retirar todo este capital fictício do sistema. Como um homem, cujo corpo foi envenenado, ou um drogado que luta contra os efeitos de sua utilização, ambos devem expulsar o veneno do organismo ou perecerão. Mas é um processo doloroso e cria novos perigos para o organismo. Quando o sistema se reduz e o crédito se esgota, os capitalistas retiram de circulação suas dívidas. Aqueles que não podem pagar entrarão em bancarrota. Como resultado, cresce o desemprego e isto, por sua vez, reduz a demanda, provocando novas bancarrotas e novas dívidas que não poderão ser pagas. Desta maneira, todos os fatores que impulsionaram a economia adiante durante o último período transformam-se em seu contrário.

Continua…
Bancarrota da economia burguesa

Os economistas se aferram insistentemente à velha ilusão de que era impossível uma recessão mundial, que haviam aprendido as lições do passado (como um bêbado aprende a lição depois da ressaca). Diziam que a crise financeira se limitaria só aos EUA, que a economia norte-americana de alguma maneira se “desacoplaria” do resto do mundo (assim contradiziam tudo o que antes haviam dito sobre a globalização), que a Europa e a China se converteriam nas novas forças motrizes da economia mundial e, assim, outras coisas neste estilo.

Quão vazios soam hoje estes argumentos! Os preços dos bens imobiliários estão caindo globalmente. A economia global está se desacelerando. As economias européias já estão apreciavelmente desaceleradas e, com a inevitabilidade de novos fracassos bancários e a escassez de capital disponível e crédito, este processo continuará. É verdade que as ditas economias emergentes continuaram seu crescimento, mas é impensável que possam permanecer separadas da crise geral quando a afluência de capital se esgota e os preços das mercadorias retrocedem. Com certeza este processo tardará um tempo e será desigual. Alguns países entrarão mais rapidamente na crise, outros mais tardiamente. Mas ao fim, todos se verão arrastados.

É indiferente saber em qual país comece a crise, o principal é que nas condições modernas esta passará de um país e continente a outro. Neste caso começou nos EUA, que é o país que havia levado até seu máximo extremo a mania creditícia. Mas pouco depois, e contra todos os prognósticos dos economistas, se estendeu a Irlanda, Espanha, Grã-Bretanha e a toda Europa. Suas repercussões alcançarão a América Latina, Ásia e África. Um país após outro cairá, como se fosse um dominó. A China não escapará, ainda que no momento siga avançando.

Em uma crise os capitalistas são obrigados a recorrer a medidas extraordinárias, para apoderar-se de uma parte do mercado já minguado. Recorrem à venda com desconto, ao dumping e outros métodos para afundar seus competidores. Com isso, agravam a crise porque fomentam uma espiral deflacionária descendente. As pessoas atrasam suas compras à espera de preços mais baixos e, desta maneira, empurram os preços ainda mais para baixo. Vemos este fenômeno, mais claramente, no mercado imobiliário.

O contágio se estende como uma epidemia incontrolada de um país a outro. Será evidente que cada país exportou muito (é dizer, sobre-produziu) e, também, importou muito (sobre-comerciou). (Ver O Capital. Livro 3. P.481. Na edição inglesa). Será evidente que cada um deles esticou demasiadamente o crédito e avivou as chamas da inflação e da especulação, que agora devem extinguir-se, não importa a que custo. É o mesmo que dizer, não é questão deste ou aquele país, deste ou aquele banco, deste ou aquele especulador individual, senão do próprio sistema. É verdade que nenhuma recessão dura eternamente. Em um longo prazo, se alcançará um novo equilíbrio, os preços se estabilizarão, a rentabilidade se restaurará e começará um novo ciclo. Mas não há nenhum sintoma disto à vista. A crise ainda não terminou, apenas acaba de começar. Ninguém sabe quando terminará. E, de qualquer maneira, como disse Keynes, “no longo prazo todos estaremos mortos”.

É fácil ser sábio depois que passaram os acontecimentos. Os economistas burgueses são excelentes prognosticando as coisas quando já ocorreram. Neste aspecto se parecem aos autores do Velho Testamento, que prognosticavam com uma precisão infalível acontecimentos históricos que haviam ocorrido várias centenas de anos antes. As pessoas crédulas como os testemunhas de Jeová estão muito impressionados por isso, o citam como uma prova da inspiração divina da Bíblia. Outros, de uma persuasão mais ascética e científica, dão as boas vindas a estas “predições” com grandes gargalhadas. As mesmas pessoas que ridicularizavam os marxistas e nos asseguravam que já não haveria crise, agora gemem e agitam as mãos. Dizem-nos que é a crise mais profunda desde os anos 30, e esperam que ninguém se dê conta da flagrante contradição entre isto e o que diziam ontem mesmo.

A realidade é que durante os últimos 20 ou 30 anos, os economistas burgueses não compreenderam nada, não anteciparam nem previram nada. Foram incapazes de prognosticar os booms e as recessões. Passaram décadas tentando nos convencer de que o ciclo econômico havia desaparecido, que o desemprego de massas era algo do passado, que o monstro da inflação havia sido domesticado, e assim, outras coisas neste sentido. Todos os políticos reformistas, naturalmente, aceitavam isto como uma moeda boa. Na Grã-Bretanha, Gordon Brown alardeava: “O ciclo de boom e recessão desapareceu”. Agora teve que engolir suas palavras porque a economia britânica desliza para a recessão. Tudo isto demonstra que a economia burguesa não é adequada para nada, exceto para justificar um sistema degenerado e em bancarrota. O que nós já havíamos prognosticado.

Comparemos as perspectivas dos marxistas com as que a burguesia traçou. Em contraste com os economistas burgueses que cometeram o grave erro de crer em sua própria propaganda, a corrente marxista explicou a realidade da situação no documento “No fio da navalha: perspectivas para a economia mundial” escrito em 1999. Escrevemos o seguinte:

“No passado se dizia que o papel do Fed era levar a cuia de ponche quando a festa estava em pleno apogeu. Mas já não é este o caso. Enquanto publicamente falam de cara à galeria de fidelidade e austeridade, Alan Greenspan tolera a formação da maior orgia de especulação financeira da história, ainda que devesse ser consciente dos perigos que isto implica. É como o imperador Nero, que se divertia enquanto Roma se queimava. Na realidade, subindo as modalidades de juros um miserável 0,25%, colocou mais lenha ao fogo da especulação da bolsa. Desta forma, o velho ditado de que ‘a quem os deuses desejam destruir, primeiro lhes deixa louco’ é totalmente correto”

E seguimos lendo:

“As barreiras fundamentais para o desenvolvimento das forças produtivas na época moderna são a propriedade privada dos meios de produção e o Estado nacional. Entretanto, durante um tempo o sistema pôde superar parcialmente estas barreiras por uma série de meios, como o desenvolvimento do comércio mundial e a expansão do crédito. Há muito tempo Marx explicou o papel do crédito no sistema capitalista. É um meio através do qual o mercado pode ir mais além de seus limites normais. Neste sentido, a expansão do comércio mundial pode proporcionar uma saída durante um tempo, ao custo de preparar uma crise catastrófica ainda maior no futuro:

‘A produção capitalista está ocupada constantemente na tentativa de superar suas barreiras inatas, mas superá-las por meios que logo farão que estas mesmas barreiras adquiram um tamanho formidável. A barreira real da produção capitalista é o próprio capital.’ (O Capital, Livro 3)

O circuito da produção capitalista depende, entre outras coisas, do crédito. A solvência de um elo da corrente depende da solvência do outro. A corrente pode se romper por numerosos pontos. Mais cedo ou mais tarde, o crédito deve saldar-se em efetivo [papel-moeda]. Com demasiada freqüência aqueles que se endividam durante o processo de auge capitalista se esquecem deste fato. Na primeira fase de expansão capitalista, o crédito atua como um estímulo da produção: ‘o desenvolvimento do processo produtivo se alonga pelo crédito, e este conduz a uma extensão das operações comerciais ou industriais’ (O Capital, vol. 3).

Esta é só uma face da moeda. A rápida expansão do crédito e da dívida empurra o mercado para além de seus limites normais, mas, em certo momento, isto volta a sua posição original. Durante o boom, o crédito parece não ter limites, como o Chifre da Abundância da antiga mitologia grega. Mas, tão longo como aparece a crise, a ilusão se desfaz. Os reembolsos atrasam, as mercadorias não são vendidas nos mercados já abarrotados e os preços caem. O desenvolvimento do mercado mundial não altera este processo fundamental, salvo que quando se manifesta o faz com um alcance imensamente maior. A acumulação de dívidas, em última instância, faz mais profunda e mais prolongada a crise do que se fosse de outra forma. A recente história do Japão é mais que suficiente para confirmar isto. Depois de uma década de boom, caracterizada pelo aumento rápido dos preços dos ativos e das ações, a bolha estourou finalmente devido a um acentuado aumento das taxas de juros. A situação foi muito similar à dos EUA na atualidade. Em 25 de dezembro de 1989, o Banco do Japão subiu as taxas de juros causando uma profunda queda da Bolsa, mas como os preços da terra ainda continuavam subindo, foi necessário uma nova subida nas taxas de juros. No total as taxas subiram cerca de 6% e, ao final do ano, os preços das ações caíram 40%. Apesar de tudo, o Banco do Japão manteve as taxas de juros elevadas, medida então elogiada pelos economistas, que destacaram o prudente manejo da economia por parte da entidade japonesa. O resultado foi prolongar a recessão durante uma década.

Com a globalização e a abolição das restrições ao crédito e as transações financeiras, o alcance da expansão nunca foi tão grande, nem teve o potencial para um crash em escala mundial. Sem dúvida, a crise não se origina pelo capital fictício, pelo esgotamento da Bolsa e o uso excessivo do crédito. Marx o explica no terceiro volume d’O Capital:

‘Também ignoramos estas falsas transações e especulações que favorecem o sistema creditício. Uma crise só pode se explicar como resultado de uma desproporção na produção entre o consumo dos capitalistas e sua acumulação. A substituição do capital investido na produção depende, em grande medida, do poder de consumo das classes não-produtivas; enquanto, o poder de consumo dos trabalhadores está limitado, em parte pelas leis salariais, em parte pelo fato de que são utilizados na medida que são rentáveis para a classe capitalista. A razão última para todas as crises reside na pobreza e o consumo restringido das massas frente ao vigor da produção capitalista em desenvolver as forças produtivas como se existisse só um poder de compra absoluto da sociedade e este fosse seu limite’ (O Capital, Livro 3.)

A expansão do comércio mundial e a abertura de novos mercados na Ásia também proporcionaram um estímulo temporário, mas só às custas de provocar um colapso inclusive maior.”

Estas linhas foram escritas há quase uma década, quando a grande maioria dos economistas burgueses ainda negava a possibilidade de uma recessão mundial. Assim temos todo o direito a perguntar: Quem compreendeu melhor os processos da economia mundial e quem fez predições corretas? Os economistas burgueses ou os marxistas?

Pode a China salvar o mundo?

Há um velho provérbio que diz que quando alguém está se afogando tenta se agarrar a qualquer coisa. A burguesia e seus apologistas, alarmados pela profundidade da crise, buscam ao redor qualquer coisa que lhes salve de afundar ainda mais. Há pouco, suas esperanças descansavam na Ásia, na China em particular. Mas a economia chinesa agora está atada firmemente ao mercado mundial e refletirá toda sua volatilidade. Um recente artigo de Geoff Dyer no Financial Times levava o eloqüente título: A carga de Pequim. Uma desaceleração da China é um mau sinal para a economia mundial.

Apesar da recessão nos EUA, as exportações continuaram crescendo com força, expandindo-se cerca de 22% durante os primeiros 8 meses de 2008. Parte da explicação é que as empresas chinesas seguiram encontrando novos mercados para seus produtos em outras economias em desenvolvimento que experimentam um auge econômico. Mas isto só retarda o inevitável. Depois da crise em Wall Street e o estancamento na Europa e Japão, os investidores começam a se perguntar se a China poderia entrar também em crise. Depois de cinco anos de rápido crescimento, a economia chinesa mostra inclusive agora claramente uma desaceleração. Uma taxa de crescimento inferior aos 8% teria grandes implicações para a China e a economia global. Os economistas também estão preocupados com o setor bancário na China.

Já há sintomas de problemas no mercado exportador. A indústria de vestimenta em Guangdong sofre uma intensa tensão. Segundo as estatística provinciais, as exportações de vestimentas e acessórios de janeiro a julho caíram cerca de 31% com relação ao mesmo período do ano passado, a 13,3 bilhões de dólares. As exportações de produtos plásticos, jogos e lâmpadas também estão estancadas ou descendendo. Isto coincidiu com uma demanda débil dos EUA, onde as vendas em varejo caíram em julho e de novo em agosto. O crescimento global das exportações de Guangdong aos EUA caiu aos 6,3% durante os primeiros sete meses deste ano. Isto não pode ser uma coincidência.

Um Euro forte e 27% de aumento das exportações de Guangdong para a Europa compensaram um dólar débil e o afundamento do mercado norte-americano. Mas agora é evidente a profunda e crescente contração na Europa, que também é um dos maiores mercados da China. Isto finalmente terá um impacto sobre as exportações chinesas. “Isto poderia ser a calma que precede a tormenta”, diz Stephen Green, um economista da Standard Chartered de Xangai.

São cada vez maiores as preocupações pelo mercado imobiliário, que foi uns dos principais componentes do boom de investimento da economia chinesa durante os últimos anos. As vendas caíram e a quantidade de metros quadrados no setor de construção civil caiu em agosto, enquanto que a produção de aço, cimento e ares condicionados foi estável ou caiu neste mês, outro sintoma de atividade débil. Os analistas dizem que as hipotecas aprovadas também caíram profundamente nos últimos meses. “Cremos que a probabilidade de um desastre do setor imobiliário na China é elevada”, disse Jerry Lou, um analista da Morgan Stanley em Xangai.

Se o mercado imobiliário cai ao longo do próximo ano isso terá sérias conseqüências para o setor bancário. Se o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) cai muito abaixo de 8% no próximo ano, isso causaria uma queda ainda mais profunda dos preços imobiliários, acompanhada de um colapso de investimento no setor privado. As conseqüências sociais e políticas seriam consideráveis.

Há sinais de advertência em outras partes da economia. O crack no mercado da bolsa teve um efeito negativo sobre a confiança do consumidor. Este ano caiu muito a taxa de aumento nos investimentos urbanos. As vendas de automóveis caíram no mês passado cerca de 6% e as viagens de avião também foram bem menores neste verão. Gome, o vendedor varejista da maior eletrônica do país, disse que as vendas por metro quadrado em suas lojas caíram cerca de 3% no segundo trimestre.

O governo baixou as taxas de juros, isso indica que teme uma crise. Entretanto, sua margem de manobra na política monetária é limitada pelo medo de que reapareça a inflação, esta alcançou sua taxa máxima de 8,7% em fevereiro, antes de cair para 4,9% em agosto. Zhou Xiaochuan, chefe do Banco Central, disse este mês: “A inflação na realidade desacelerou durante os últimos meses, mas não podemos nos relaxar, pois a taxa pode reaparecer”.

Uma recessão na China, ou inclusive uma desaceleração séria do crescimento, teria um efeito muito sério sobre o mercado mundial, começando com os países produtores de mercadorias da África, Oriente Médio e América Latina. Os preços do cobre, por exemplo, caíram 23% nos últimos dois meses, em parte devido aos temores sobre o consumo chinês do metal, que caiu mais da metade neste ano.

Sobre parasitas e especuladores

Existe fúria e hostilidade crescentes frente “ao mercado”, ou seja, ao capitalismo. Como reação a este ambiente, políticos burgueses como Alec Salmond do Partido Nacional Escocês, tentam dirigir a raiva da opinião pública para fora do próprio capitalismo e até um setor específico da classe capitalista, os “parasitas e especuladores” das altas finanças.

De repente, se colocou em moda entre os políticos condenar a estes misteriosos indivíduos que se sentaram sobre veneráveis instituições como o Banco da Escócia. Esta respeitável entidade, nos dizem, esteve presente durante trezentos anos e sobreviveu às Guerras Napoleônicas, ao crack de Wall Street e a Primeira e Segunda Guerra Mundial, só para ser destruído por um bando de tubarões gananciosos com trajes desenhados e óculos escuros. Este tipo de “explicação” não diz nada em absoluto. Como um pequeno número de ávidos indivíduos possui um poder tão fenomenal? Quem são estas pessoas? Quais são seus nomes? Onde vivem? Ninguém sabe. Mas sempre é útil em uma crise poder culpar alguém e se este alguém é perfeitamente anônimo e inlocalizável, melhor ainda.

De repente, estes “aproveitadores e especuladores” começam a jogar na economia o mesmo papel que a Al-Qaeda joga na política internacional. Na realidade, todos os banqueiros e capitalistas são parasitas e especuladores. Deve ser porque o sistema capitalista se baseia em ser um parasita e especulador. Também se baseia na voracidade. Negar a voracidade é negar o funcionamento da economia mundial, que se baseia no ganho, ou seja, na voracidade. A ganância pelo ganho é o que, em última instância, move o sistema capitalista e foi a força motriz de seu nascimento. Sim, mas se tornou demasiado ganancioso e ganham demasiado! Isso é o que David Walker, presidente e executivo-chefe da Peter G. Peterson Foundation e antigo auditor-geral dos EUA tem a dizer:

“Há lições na crise das subprime? A resposta é sim. As medidas que adotaram o governo recentemente não conseguiram estabelecer uma estrutura reguladora efetiva com relação às hipotecas, derivados e outros valores. A ganância é incontrolável. Fannie Mae e Freddie Mac de sua missão original passaram a centrarem-se na conquista pessoal e o ganho mais que em seu propósito público. Os lobbies de Wall Street facilitaram o relaxamento sobre a pressão da Fannie Mae e Freddie Mac”. (Financial Times, 22/09/2008)

Isto é perfeitamente certo. Enquanto que os trabalhadores cobram de acordo com os resultados, os empresários se pagam quantidades obscenas independentemente dos resultados. Quando uma empresa vai bem, os trabalhadores podem conseguir algo mais que salários ou prêmios, mas os empresários cobram milhões em dádivas. Quando uma empresa vai mal, os trabalhadores não cobram nada, mas os empresários ainda cobram generosamente. E quando a empresa entra em bancarrota, os trabalhadores são despedidos com pouca ou nenhuma compensação (freqüentemente sem pensão sequer), enquanto que os empresários que arruinaram a empresa se vão com extravagantes apertos de mãos dourados.

Estes fatos são bem conhecidos. Durante anos os trabalhadores estiveram murmurando entre dentes pela injustiça e a desigualdade. A economia avançava e o mercado parecia dar resultados para todos (ainda que muito desiguais), a opinião pública estava submetida a um coro ensurdecedor nos jornais e na televisão, e os políticos de cada partido eram unânimes, aceitavam como bom o argumento de que “o que é bom para os ‘criadores de riqueza’ (os patrões) é bom para mim”.

A estupidez de Brown

Neste lado do Atlântico os processos que vemos nos EUA se reproduzem, mas só na forma de uma caricatura torpe e patética. Na conferência do Partido Trabalhista, Gordon Brown resmungou sobre a “irresponsabilidade” da City e disse que os prêmios, em alguns aspectos, eram “inaceitáveis”. Alistair Darling, Ministro da Economia, fez eco dos comentários do Primeiro-Ministro. Mas seus “ataques” pareciam os de um homem golpeando um rinoceronte com um espanador. Parecem muito débeis se comparado com os comentários mordazes de John McCain e Barack Obama sobre Wall Street.

As meias-medidas de Brown e Darling no congresso do Partido Trabalhista indicam que passaram muito tempo se arrastando por Londres, que agora já não são capazes de endireitar as costas. Em uma situação, na qual centenas de milhares de trabalhadores de repente estão ameaçados a perderem seus empregos, suas casas e poupanças, inclusive o reformista menos engenhoso seria capaz de se dar conta que uma denúncia do esgotamento econômico e a cobiça dos banqueiros seria imensamente popular. É uma prova da total bancarrota e a estupidez destes presumíveis líderes trabalhistas que não são capazes de adotar os ataques demagógicos das grandes empresas que fizeram Obama e McCain.

Nem sequer são tão radicais como a Igreja da Inglaterra: as duas figuras mais veteranas condenaram as práticas corruptas dos financistas. Em um artigo que apareceu no The Spectator, o arcebispo de Canterbury, Rowan Williams, atacou as “transações em papel sem resultado concreto para além dos ganhos para seus negociantes”. Segundo ele, quando este comércio começou a ir mal, provocou um “dano real e devastador”.

Williams chamou a atenção sobre o comércio de dívidas da indústria financeira, disse que se fez “sem responsabilidade… sendo o motor de uma conquista financeira astronômica para muitos nos últimos dez anos”. Disse que a crise financeira atual “demonstra o elemento de irrealidade básica na situação, a realidade que gerou para uma riqueza quase inimaginável a níveis igualmente inimagináveis de ficção, transações em papel sem um resultado concreto para além do benefício para os comerciantes”. O arcebispo continuava: “Dado que os riscos para a estabilidade social geral nestes processos demonstraram ser enormes, não é útil pretender que o mundo financeiro possa manter indefinidamente o grau de imunidade e desregulamentação de que desfrutou”.

Aqui temos a essência da questão. Os representantes do capitalismo (incluindo os religiosos) podem sentir como a terra treme por baixo de seus pés. Temem as conseqüências sociais e políticas da crise, que representam um risco enorme para a estabilidade social, apelam ao governo e aos empresários para que façam algo antes que seja muito tarde. Mas qual é o propósito de Williams? Diz que “desafrouxar o regime financeiro” é às vezes necessário para impulsionar a empresa e criar riqueza que permita “tirar as populações inteiras da pobreza”. É uma nobre aspiração, e algo que é totalmente impossível conseguir sobre essa terra pecaminosa.

Inclusive mais mordaz foi seu colega Sentamu, o arcebispo de York. Lloyds TSB, um importante banco britânico, havia anunciado na semana anterior que havia aceitado adquirir o HBOS por 12,2 bilhões de libras, depois que suas ações desabaram. Desde a aquisição, os comentaristas criticaram aos que venderam as ações emprestadas por baixo de seu preço atual, conseguindo fazer com que os preços caíssem ainda mais antes de a comprarem.

Sentamu disse o seguinte em um jantar anual da Workshipful Company of International Bankers: “Nos encontramos em um sistema de mercado que parece haver tomado de ‘Alice no país das maravilhas’ suas regras de comércio”. E continuava: “Para um espectador como eu, aqueles que deliberadamente conseguiram 190 milhões de libras vendendo abaixo de seu preço as ações do HBOS, apesar de sua forte base de capital, e que não derramou nos braços do Lloyds TSB, são claramente ladrões de bancos e fracionadores de valores”.

Esta linguagem tão forte procedente de um homem de Deus foi totalmente inesperada e, sem dúvida, teve um efeito desafortunado na digestão dos que jantavam na Workshipful Company. Os banqueiros ali reunidos tampouco ficaram contentes ao escutar os comentários do arcebispo sobre o plano do Tesouro norte-americano de dedicar 700 bilhões de dólares para comprar a dívida podre que os bancos e outras instituições financeiras possuem.

O arcebispo falou da necessidade de sistemas financeiros estáveis caso se queira erradicar a pobreza, mas acrescentou: “Uma das ironias desta crise financeira é ter demonstrado que adotar medidas contra a pobreza é completamente exequível. Custaria 5 bilhões de dólares salvar a vida de 6 milhões de crianças. Os líderes mundiais poderiam encontrar 140 vezes essa quantidade no sistema bancário em uma semana. Como podem dizer-nos que a ajuda para os mais pobres é muito cara?”

Enquanto escrevo este artigo, os líderes mundiais se reúnem nos EUA para marcar um avanço nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, uma série de objetivos destinados a reduzir a pobreza global e melhorar os níveis de vida para o ano 2015. Poderia depositar minha fé no Senhor e esperar que as duras admoestações do arcebispo tivessem o efeito desejado, mas toda a experiência nos leva a duvidar de que esse seja o caso.

Inclusive o The Financial Times observava:

“Inclusive em tempos de boom, poucas pessoas riem calorosamente quando contrastam suas modestas receitas com os enormes prêmios de uns poucos afortunados.

Simplesmente a inveja agora volta com fúria justificável, primeiro ante o dano que o caos financeiro infringiu aos inocentes e agora a série de cheques em branco dos contribuintes que se estendem a estas entidades. A reação em cadeia está em marcha. Vale a pena distinguir os prêmios excessivos dos salários e quais são as que fomentam a imprudência. Os acordos salariais opulentos são uma questão que só importa aos acionistas que os financiam. Mas recompensar a imprudência é um problema para todos nós.

Vários gestores de investimento cobraram para representar o que parecia impressionante, mas que continha as sementes da catástrofe. A catástrofe chegou, os investidores ficaram na ruína, os contribuintes são os seguintes e, todavia, os administradores mantêm os prêmios que recolheram nos anos de plenitude”.

Mas depois ratifica o balanço e acrescenta:

“Devemos dizer a seu favor que, Sr. Brown e Sr. Darling não se centraram nos altos salários, senão, nos planos de pagamento que recompensam aos jogadores.

A realidade é que os que compram e vendem ações são todos jogadores e esse jogo na bolsa é seu negócio que passa por cima discretamente”.

Os jornalistas do Financial Times (que de alguma maneira conseguem manter a cara séria) continuam:

“O seguinte passo agora está na Autoridade de Serviços Financeiros (ASF), o regulador da City, mas o problema é mais fácil ser destacado do que solucionado. O desafio é pagar aos gestores de investimento e negócios por sua verdadeira representação. Se isso fosse fácil, os acionistas o fariam de maneira rotineira. Uma aproximação imperfeita é condicionar alguns prêmios aos resultados em longo prazo, atrasando o pagamento até que o pó haja desaparecido, ou insistir em que os gestores arrisquem sua própria riqueza. Mas é difícil imaginar regras rígidas.

A saída mais prática é que a ASF considere os planos de incentivos como parte de sua revisão global da estabilidade das empresas financeiras. É otimista exceto porque requer muito esforço, mas uma legislação sobre prêmios da City seria totalmente contraproducente, estas leis são facilmente extraídas ocultando os riscos ou enviando-os ao exterior”.

A política do novo trabalhismo está claramente ditada pelos últimos editoriais do Financial Times.

“Economia concentrada”

Lênin disse que a economia é política concentrada. A crise econômica que percorre o mundo está tendo efeitos muito sérios sobre a psicologia de todas as classes, começando pelos próprios capitalistas. Em um período em que o capitalismo avançava, a pressão das idéias burguesas sobre a classe operária e suas organizações se redobrou. Na Grã-Bretanha não houve uma recessão econômica séria durante mais de duas décadas. Portanto, os argumentos dos políticos burgueses e economistas (os dois trabalham em equipe) sobre as qualidades milagrosas do “livre mercado” encontraram eco inclusive entre a classe operária, porém, particularmente em sua direção.

Existiram as bases materiais para a total degeneração da social-democracia e os partidos “comunistas” na Europa e os dirigentes sindicais em outras partes. Na Grã-Bretanha, que estava na vanguarda da contra-revolução capitalista durante as três décadas passadas, foi o solo onde o novo trabalhismo floresceu sob a direção do reverendo Anthony Blair.

Para os ativistas do movimento operário, este período foi um pesadelo que parecia não ter fim. Não havia limites para a degeneração dos dirigentes das organizações de massas, não havia profundidade na qual não se afundassem, nem nenhuma ação infame que não fosse incapaz de cumprir para ser complacente à classe dominante e, por suposto, ao mercado. O pessimismo dos ativistas levou à apatia e ao vazio das organizações tradicionais de massas, que se encheram de auto-promotores da classe média em busca de emprego e promoção. Isto, por sua vez, levou a uma nova debandada à direita, que aprofundou mais ainda a desilusão dos trabalhadores. Foi um círculo vicioso que se retro-alimentava e que durou até agora. Mas as coisas começam a mudar rapidamente.

A consciência humana em geral é conservadora. As pessoas normalmente temem a transformações e se agarram ao que é familiar. O hábito, a rotina e a tradição pesam muito sobre a consciência das massas, que vão por detrás dos acontecimentos. Mas em momentos críticos da história, os acontecimentos se aceleram até o ponto crítico em que a consciência se dispara. Agora chegamos a este ponto crítico.

O que é verdade para as nações industrializadas do mundo é dez vezes mais verdade do que algumas vezes parece ser para o “terceiro-mundo”. O número dos que vivem na extrema pobreza está aumentando rapidamente na Asia, África e América Latina. Um informe publicado recentemente pelas Nações Unidas dizia que uma quarta parte de todas as crianças no mundo subdesenvolvido estão abaixo do peso; mais de 500 mil mulheres morrem a cada ano no parto ou por complicações na gravidez; um terço da crescente população urbana, nos países em vias de desenvolvimento, vive em favelas. Um informe do Banco Interamericano avisava que o aumento dos empresários empurraria 26 milhões de pessoas na América Latina para condições de absoluta penúria. Esta era a situação depois de um grande período de crescimento econômico em escala mundial. Foi o melhor que poderia oferecer o capitalismo. O que ocorrerá em condições de crise?

Estamos, pois, confrontados a um fenômeno mundial que está cheio de implicações revolucionárias. Desta maneira a globalização se manifesta como uma crise global do capitalismo.

Qual a solução?

Dizem que a crise atual é resultado do fracasso regulador para vigiar o excessivo risco que tomava o sistema financeiro, especialmente nos EUA. Além disso, dizem que “devemos assegurar-nos de que não voltará a ocorrer”. Isso resulta irônico! Durante as últimas três décadas os economistas e políticos burgueses precisamente têm defendido o contrário: que todas as regulações eram más para os negócios e que deveriam ser abolidas (defendia-se isso particularmente para o setor financeiro).

As declarações demagógicas sobre a necessidade de frear os prêmios excessivos e a regulação dos salários dos conselhos de administração são somente cortina de fumaça. O que se pode conseguir com estes milagres? Com que mecanismo? Os banqueiros têm mil maneiras de ludibriar a regulação. Ocultam os livros de contas e fazem todo o possível para que os reguladores não possam descobrir suas atividades fraudulentas. Inclusive o governo norte-americano utiliza truques similares que encobrem as verdadeiras dimensões de seu déficit orçamentário.

O argumento a favor de regular os mercados é absurdo, como foi a decisão de proibir (temporariamente) a prática de “vender no varejo”. Para que os mercados possam funcionar é necessário que se comprem e vendam ações, e isso deve ser feito sobre a base de calcular se o preço da ação vai subir ou baixar. A idéia de que é permitido comprar ações somente quando vão subir é evidentemente uma idéia absurda.

As agências de credibilidade de crédito, que supostamente distinguem os bons créditos dos maus, deram credibilidade aos pacotes hipotecários garantidos, sem olharem a debilidade das hipotecas subjacentes. Do mesmo modo, os compradores da dívida norte-americana emitida por Fannie Mae e Freddie Mac assumiram com despreocupação o que lhes garantia o governo norte-americano. O resultado foi que o contribuinte norte-americano agora tem para trás mais de 5 trilhões de dólares em hipotecas e é demasiado cedo para dizer qual será a fatura final.

A conclusão é bastante clara. Ou temos livre comércio baseado na busca da ganância ou teremos a economia nacionalizada planificada. O “capitalismo regulado” é uma contradição. Em outro artigo, o Financial Times colocava a questão de um modo mais claro: “não importa que idéias políticas desbaratadas sigam freando os controvertidos pacotes salariais, as mentes brilhantes das finanças encontrarão a maneira de sorteá-los (driblá-los) ou fazer com que saiam da parte regulada da industria”.

É necessário abolir estes grotescos cassinos que decidem o destino de milhões e substituir a anarquia capitalista por uma sociedade racional baseada na economia planificada. Dizem que as medidas adotadas por Bush e Brown representam a nacionalização. Porém estas medidas não têm nada a ver com a idéia socialista de nacionalização. Não pretendem eliminar o poder econômico das mãos dos endinheirados parasitas que constituem uma carga monstruosa para a sociedade e um obstáculo no caminho do progresso. Pelo contrário, essas medidas representam uma tentativa de proteger os interesses desses parasitas dando-lhes enormes ajudas, retiradas dos bolsos da classe operária e da classe média.

Os socialistas se opõem radicalmente a estas políticas que não têm nada que ver com a verdadeira nacionalização e que somente são uma espécie de capitalismo de Estado, que pretende salvaguardar o sistema capitalista. Levarão inevitavelmente a um aumento da monopolização, demissões em massa, a fechamento de bancos, a hipotecas mais altas e outras medidas anti-operárias. Os banqueiros são recompensados pelo Estado por suas atividades vis, que lhes compra todas as suas perdas, depois gastam enormes quantidades de dinheiro dos contribuintes para fazê-los rentáveis, e quando o conseguem, o devolvem de novo aos banqueiros, que cometeram duplo delito a custo da sociedade. Podem assim, uma vez mais, reiniciar sua especulação e roubo.

É necessário arrebatar os postos de mando da economia das mãos privadas, nacionalizar os bancos, as empresas seguradoras e as grandes empresas com a compensação mínima baseada na necessidade comprovada. Somente quando as forças produtivas estiverem nas mãos da sociedade, será possível estabelecer um plano socialista racional de produção, onde as decisões serão tomadas em nome dos interesses da sociedade e não de um punhado de ricos parasitários e especuladores.

Esse é o objetivo fundamental do socialismo. É uma idéia que agora será compreendida e bem-vinda por milhões de pessoas que anteriormente a consideravam como algo estranho e alheio. As pessoas que se manifestaram nas ruas de Nova York contra o plano Bush não eram socialistas. Há doze meses provavelmente ainda eram defensoras do livre-mercado. Nunca leram Marx e sem dúvida parecem patriotas norte-americanos. Porém a vida ensina, e em situações como esta, as pessoas aprendem mais em poucos dias que em toda uma vida. A classe operária dos EUA está aprendendo rápido. E como dizia Victor Hugo: “Nenhum exército é tão poderoso como a idéia cuja hora chegou”.

Londres, 26 de Setembro de 2008.

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