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O Brasil e a crise

Uma análise sobre a situação atual da economia brasileira, em relação com o mercado mundial e a crise que se desenrola.

As bolsas caem, as bolsas sobem, mas mesmo o burguês mais otimista não pode deixar de ver que a economia mundial passa por uma nova crise. Na realidade, a continuação da crise que explodiu em 2008… Se aquela apareceu como uma crise no sistema bancário, essa aparece como uma crise fiscal. Entretanto, o que está por trás de ambas é a velha crise de superprodução do capitalismo.

Em 2008/2009 os bancos e as grandes empresas endividadas foram salvas com o dinheiro público. A atual crise econômica, com as dívidas impagáveis dos Estados, tem sua origem principal exatamente nesses trilhões de dólares despejados pelos governos para conter a crise passada. O capitalismo é como um homem doente, em que cada remédio utilizado para prolongar sua vida causa piores efeitos colaterais.

Os governos europeus e dos EUA, para fechar a conta, têm utilizado como palavra da moda a AUSTERIDADE, o seu significado prático é o corte de direitos sociais conquistados pela luta dos trabalhadores, um brutal ataque ao bem-estar social especialmente na Europa.

No Brasil, a crise iniciada em 2008 não foi uma “marolinha”. O PIB em 2009 teve retração, ficando em 0,2% negativo! A saída encontrada pelo governo brasileiro na época foi a mesma dos demais países capitalistas: injeção de dinheiro público para salvar o setor privado, mais de 300 bilhões de reais tiveram esse fim.

Como já analisamos em outros documentos, o crescimento da economia brasileira tem se baseado tanto na abundante entrada de capital internacional atraído pela “paz social” garantida pelo governo de coalizão, quanto no crédito fácil aos consumidores.

Os brasileiros nunca estiveram tão endividados: cartão de crédito, cheque especial, crédito consignado, financiamento de imóveis e veículos, etc. Apenas o endividamento das pessoas físicas aumentou R$ 168 bilhões nos últimos 2 anos (LCA Consultoria). Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), em um ano o número de famílias endividadas subiu 10%, era 54% em junho de 2010 e passou para 64,1% em junho desse ano. Outro dado dessa mesma pesquisa nos mostra que o número de famílias muito endividadas subiu de 12,9% para 16,6% no mesmo período.

Uma outra pesquisa, da agência de avaliação de crédito Serasa Experian, traz outros números preocupantes para os capitalistas: a inadimplência das pessoas físicas subiu 20,6% de janeiro à maio desse ano e a proporção de empréstimos com pagamentos atrasados por mais de 90 dias vêm crescendo rapidamente nos últimos meses e deve chegar a 8% até o final do ano.

O crédito fácil para fazer a economia girar é uma ferramenta limitada e que traz riscos (lembremos as conseqüências dos créditos subprime nos EUA em 2008), os sintomas descritos acima podem ser sinais de que, no Brasil, a utilização do crédito como alavanca para a economia tem chegado ao seu limite. O próprio governo tem utilizado de medidas, como a elevação dos juros, para conter o crédito, mas isso tem causado um endividamento maior das famílias. Uma boa parcela de novos empréstimos não está sendo utilizada para comprar novos bens, mas simplesmente para fazer a conta fechar, para pagar as dívidas anteriores. Menos crédito significa menos consumo, menos demanda, maior dificuldade para fazer a mais-valia se realizar com a venda das mercadorias.

Outro ponto importante é a dívida pública federal brasileira, que é a soma da dívida interna e externa do governo federal. Essa dívida chegou em junho de 2011 a R$ 1,805 trilhão! A dívida pública federal interna aumentou 3,86% em junho em relação ao mês anterior, passando para R$ 1,729 trilhão. A dívida externa declinou 6,29% em relação ao mês anterior, passando de R$ 81,08 bilhões para R$ 75,97 bilhões (US$ 48,67 bilhões), mas se somarmos também a dívida externa privada, o total da dívida externa chegou em maio de 2011 a US$ 389, 43 bilhões

O aumento da dívida pública, apesar de ser um valor estrondoso, não está no mesmo patamar de países com sérias dificuldades como a Grécia, em que a relação dívida/PIB em 2010 ficou em 148,6%; ou a Espanha que, em junho, estava com uma dívida equivalente a 63,6% do PIB; ou mesmo dos EUA que, em agosto, ultrapassou com sua dívida os 100% do PIB. Segundo a Febraban, a dívida pública brasileira deve terminar 2011 equivalendo a 39,2% do PIB.

Apesar da situação fiscal no Brasil não estar tão crítica se comparada a outros países, ela também não está tão confortável e piora velozmente, sendo que essa velocidade pode aumentar com uma nova crise mundial.

O Brasil, como um país semi-colonial, é dependente das economias imperialistas. A crise na Europa e nos EUA terá inevitavelmente seus reflexos na economia nacional. O Brasil blindado é um mito.

Um fator importante na equação da economia brasileira são as exportações de produtos básicos. A China hoje é o maior importador de produtos básicos brasileiros. No primeiro quadrimestre de 2011 a China comprou 29,14% de todos os produtos básicos exportados pelo Brasil. A China sozinha significa para as exportações brasileiras praticamente o mesmo que os EUA e toda a União Européia juntos. Uma crise mundial deve trazer também sérias conseqüências para a China, além de ser a maior detentora de títulos da dívida pública americana, depende em boa medida para seu crescimento do mercado externo.

O ministro da fazenda, Guido Mantega, sabendo que o Brasil não é uma ilha, já anunciou que a ordem na política fiscal agora é a austeridade.

O curioso é que essa austeridade nos gastos públicos tem sido válida só para os gastos sociais, o governo não demonstrou nenhum pudor em gastar R$ 97,8 bilhões apenas com pagamento dos juros da dívida pública no 1º semestre de 2011, dinheiro que foi para os especuladores que investem nos títulos da dívida brasileira, atraídos pelos altos juros. Além de, nesse ano, o tesouro repassar mais R$ 55 bilhões ao BNDES para seus conhecidos empréstimos “de pai pra filho” para a iniciativa privada.

Não podemos esquecer também dos presentes dados aos empresários com o Plano Brasil Maior, entre eles a desoneração da folha de pagamento. Um presente que será pago pelos trabalhadores, como explicamos no artigo “Desonerar a folha é onerar os trabalhadores” – ver o artigo aqui

No inicio do ano, R$ 50 bilhões foram contingenciados do orçamento, ou seja, R$ 50 bilhões que foram aprovados no orçamento de 2011 para ser utilizado com educação, saúde, cultura, infra-estrutura, etc, foram retidos pelo governo. Com o agravamento da crise na semana passada, o governo já anunciou que pretende transformar esse contingenciamento, que geralmente é liberado durante o ano, em corte efetivo da verba!

No 2º semestre teremos uma série de campanhas salariais, as coisas não serão tão fáceis como nos anos anteriores. Especialmente para os servidores públicos. O governo, dando as costas para os trabalhadores para atender os interesses dos patrões, tem alimentado um choque com a classe que o elegeu.

Não podemos prever com exatidão a intensidade e a duração dessa nova crise econômica mundial e, portanto, da crise no Brasil. Assim como não podemos prever com absoluta certeza o nível de acirramento da luta de classes no Brasil e no mundo no próximo período.

Entretanto, é nítido que uma nova crise se abate sobre a economia mundial e temos diversos exemplos do aumento da luta de classes (revolução árabe, greves gerais na Grécia, jovens nas ruas da Espanha, do Chile e mesmo a rebelião em Londres). Esse contexto mundial está presente e influenciando a situação brasileira, certamente não teremos o mesmo nível de crescimento econômico experimentado no último período (o próprio governo admite isso) e também temos demonstrações de uma elevação de tom do movimento operário (notem as últimas resoluções da CUT).

Devemos estar atentos para essas mudanças na situação política para estarmos em sintonia com a classe trabalhadora, lado a lado em suas lutas, explicando pacientemente e da forma mais adequada o que ocorre e a necessária luta em direção à tomada do poder para acabar com esse sistema contraditório, em que tanta riqueza é produzida e tanta pobreza se abate sobre a maioria do povo.

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