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O assassinato de Bin Laden: Terrorismo e terrorismo de Estado

“Uma nulidade de meia-idade, um fracasso político superado pela história e por milhões de árabes exigindo liberdade e democracia no Oriente Médio morreu ontem no Paquistão. E, então, o mundo enlouqueceu!” (Robert Fisk, 03 de maio de 2011).

Nas primeiras horas da manhã de segunda-feira, dois de maio [ainda 1º de maio nos EUA], Osama Bin Laden foi encontrado e morto por forças especiais dos EUA. Bin Laden, de 54 anos de idade, foi o fundador e líder da Al-Qaeda. Bin Laden, seu filho Khalid, seu mensageiro de confiança Sheikh Abu Ahmed e o irmão deste último estavam todos mortos, junto com uma mulher não identificada.

Osama Bin Laden ganhou a atenção do mundo em 11 de setembro de 2001, quando os ataques aos EUA deixaram mais de três mil mortos e centenas de feridos. Por mais de uma década, este homem fora perseguido por forças do Estado dos EUA em cavernas de áreas remotas do Afeganistão. No final, o temido líder da Al-Qaeda encontrou seu fim em um subúrbio sonolento de um pacífico resort de montanha em Abbottabad, no noroeste do Paquistão.

Moradores locais disseram à BBC que souberam imediatamente que se alguma casa das vizinhanças estava para ser alvo de um atentado, esta seria a residência privada, seguramente protegida por arame farpado, cujos residentes furtivos eram raramente vistos ou ouvidos. As medidas de segurança postas em prática na residência foram descritas pelos porta-vozes dos EUA como “extraordinárias”. Eram quase 2.500 metros quadrados em tamanho e estava cercada por altos muros (mais de quatro metros de altura), para que ninguém pudesse ver o que acontecia dentro.

O grande prédio de três andares no centro do complexo foi cercado por altos muros e barricadas e tinha poucas janelas. Havia um muro especial de dois metros de altura para garantir privacidade no segundo andar. As paredes estavam cobertas por arame farpado e câmaras escondidas. Não havia linhas de telefones ou internet funcionando no prédio. Seus ocupantes estavam tão preocupados com a segurança que chegavam a queimar o lixo em vez de deixá-lo para a coleta.

Ninguém parece se lembrar de quando este conjunto foi construído, mas a opinião geral é que ele tinha de 10 a 12 anos de idade. Segundo o New York Times, autoridades americanas acreditam que a casa foi construída expressamente em 2005. Foram citadas declarações de funcionários do serviço de inteligência dos EUA afirmando que a casa fora construída sob medida para abrigar uma das maiores figuras do terrorismo.

Quando foi construído o prédio, provavelmente encontrava-se em área muito isolada. Mas à medida que as pessoas se mudavam, sua privacidade foi sendo comprometida. A curiosidade dos vizinhos foi despertada pela ausência de qualquer sinal de atividade doméstica ou de crianças brincando, bem como ninguém saía para fazer compras.

As pessoas que vivem nas proximidades dizem que raramente viam mais de duas ou três pessoas em torno da casa. De tempos em tempos, veículos à prova de balas entravam e saíam do complexo. Portões se abriam e eram fechados imediatamente sem haver contatos com os vizinhos. Estes não tinham a menor idéia de quem vivia no complexo misterioso, mas sentiam que a casa era um lugar estranhamente perigoso e que devia ser evitada.

Aparentemente, os agentes do serviço de inteligência dos EUA haviam seguido os passos de um dos mensageiros de Bin Laden – um protegido do já capturado comandante da Al-Qaeda Khalid Sheikh Mohammed. Com o pseudônimo de mensageiro, aquele teria sido denunciado aos interrogadores dos EUA por detentos de Guantánamo. Era ele um dos poucos mensageiros que gozava de total confiança de Osama Bin Laden e que o ajudava a manter contato com o resto do mundo. Aparentemente, teria sido este o esquema que permitiu se chegar ao último esconderijo de Bin Laden.

Entretanto, o antigo diretor da CIA Bob Baer disse à BBC que ele estava cético quanto às afirmações de que Bin Laden havia sido monitorado através de um mensageiro. “As agências de inteligência, como a CIA, e os militares estadunidenses simplesmente espalharão desinformações para proteger as fontes reais, que poderiam se originar do próprio governo paquistanês”, disse ele. Os ingentes esforços de Washington para distanciar o presidente paquistanês Zardari e seu governo desta ação sugerem que Baer acertou no ponto.

“Um ataque cirúrgico”

A ordem de se cumprir a missão foi finalmente dada pelo presidente Obama na sexta-feira, após realizar cinco reuniões do Conselho de Segurança Nacional, em março e abril últimos. O ataque foi realizado na calada da noite, quando helicópteros dos EUA, voando baixo para evitar a detecção por radares do Paquistão, invadiram o complexo fortemente protegido. O primeiro indício do ataque foi uma grande explosão: uma enorme chama se alçou para o céu sobre a casa e, em seguida, tudo parecia ter acabado. A rapidez do ataque e seu resultado mortal levantam alguns questionamentos.

A operação que começou por volta das 22:30 – horário de Londres (17:30 no horário de Brasília) – e que durou apenas cerca de 50 minutos, foi realizada por um comando de elite formado por 20 ou 25 homens dos Navy Seals [“United States Navy Sea, Air and Land”, mais conhecidos como “US Navy Seals” – é uma força de operações especiais da Marinha dos EUA, especializada na guerra não convencional, ação direta, antiterrorismo e reconhecimento]. Dois ou três helicópteros foram vistos voando baixo sobre a área, causando pânico entre os moradores locais. Os helicópteros, que tinham voando desde o Afeganistão, aterrissaram fora do complexo e o comando de elite desembarcou.

Pouco depois, os moradores disseram ter ouvido tiros sendo disparados e o som de armas de fogo pesadas. Em algum momento da operação, um dos helicópteros caiu, ou por falha técnica ou por ter sido atingido por tiros a partir do solo. Mas, aparentemente, nenhum dos agentes foi ferido. Isto sugere que os atacantes tinham a vantagem da surpresa e que os defensores foram apanhados totalmente desprevenidos, provavelmente sob o embalo de uma falsa sensação de segurança em relação às defesas montadas, aparentemente inexpugnáveis.

Mas não haveria outra razão mais séria para a débil demonstração de resistência por parte dos defensores? Não seria a sua negligência resultado da confiança que eles sentiam da parte do exército do Paquistão e do ISI [Inter Service Intelligence, o serviço de inteligência do Paquistão]? Durante anos, este último tinha escondido e protegido Bin Laden, como uma mãe superprotetora protege ciosamente seus filhos mimados. Se tivessem percebido o menor indício de risco, eles teriam avisado seu aliado saudita mais querido e teriam tomado medidas para protegê-lo.

A razão pela qual os americanos não puderam encontrar Bin Laden até o momento foi a resistência do serviço de inteligência das Forças Armadas do Paquistão, o Inter Service Intelligence (o ISI), que alegava querer dirigir a operação de captura. Na realidade, o que queria era esconder o fato de que estava protegendo os líderes da Al-Qaeda e os talibãs.

Finalmente, os americanos se cansaram deste jogo. “Não estou dizendo que isto acontece nos níveis mais altos, mas acredito que em algum nível desse governo existem pessoas que sabem onde Bin Laden e a Al-Qaeda se encontram”, disse a Secretária de Estado Hilary Clinton em maio de 2010.

Andrew Card, o chefe de gabinete do ex-presidente Bush, disse à ABC News: “A inteligência frequentemente nos causa problemas. Poderíamos pensar que estariam próximos de capturá-lo. Um par de vezes chegamos a pensar que realmente o fariam, mas não o fizeram”. Mesmo quando um personagem importante da Al-Qaeda era identificado e localizado, demoravam-se muitas vezes semanas para se conseguir a aprovação das autoridades paquistanesas para um ataque aéreo. Foi precisamente por isto que os EUA mantiveram em segredo toda a operação; e isto explica também porque seu êxito foi tão devastadoramente completo, sem qualquer baixa americana.

As autoridades americanas descreveram a operação como um “ataque cirúrgico”. Dizem elas que três homens adultos, incluindo o filho de Bin Laden, foram mortos. Mas acrescentaram que uma mulher, que supostamente estaria sendo usada como escudo, também foi morta. Isto é habitualmente considerado como “dano colateral”, da mesma forma quando a OTAN bombardeou e matou membros das tropas rebeldes em Misurata, na Líbia.

“Morto ou vivo”?

Em 18 de setembro de 2001, George W. Bush, que, obviamente, é fã incondicional dos filmes de cowboy de John Wayne, afirmou que o braço longo dos EUA capturaria Bin Laden “vivo ou morto”. Essa declaração era verdadeira pela metade, pelo menos. É evidente que os homens enviados para “capturar” a vítima não tinham a menor intenção de capturá-lo vivo.

Quando finalmente as forças dos EUA capturaram Saddam Hussein, não hesitaram em coloca-lo numa jaula para exibição, submetendo-o a todas as humilhações possíveis, inclusive a de ter seus dentes examinados frente às câmeras de televisão. Colocaram-no em julgamento, embora o resultado fosse bastante previsível. Tudo isto foi considerado como um enorme êxito de propaganda. Sendo assim, por que não fazer o mesmo com Bin Laden?

John Brennan disse aos repórteres que a equipe do comando estava “capacitada e preparada” para capturar Bin Laden vivo “se não apresentasse qualquer ameaça”. Alegam que o líder da Al-Qaeda se recusou a se render e que, dessa forma, foi morto numa troca de tiros, ocasião em que foi baleado duas vezes na cabeça.

O líder da Al-Qaeda era claramente feito de material mais resistente que o de Saddam Hussein e, muito provavelmente, iria se recusar a se entregar sem lutar até o fim. O que ganharia ao se entregar vivo: o mesmo destino de Saddam Hussein? Mas, se foi surpreendido em sua cama no meio da noite, como poderia oferecer resistência armada? Em qualquer caso, é evidente que os agressores não lhe deram a oportunidade de se render.

A Bin Laden, lhe dispararam acima do olho esquerdo, o que explodiu uma parte de seu crânio, e também foi baleado no peito. Seu corpo foi, então, levado ao Afeganistão antes de ser lançado ao mar, “com ritos religiosos segundo a tradição islâmica”. As autoridades dos EUA disseram que isto aconteceu para se evitar que sua sepultura se tornasse um santuário. Mas a indecente pressa com que se livraram do corpo sugere motivos diferentes.

De forma macabra, parece que toda a operação foi acompanhada em tempo real na Casa Branca por Obama e sua equipe de segurança nacional, ocasião que Brennan definiu como “provavelmente um dos momentos mais cheios de ansiedade” nas vidas dos que estavam esperando o desenlace. Quando os tiros fatais foram disparados, Obama disse: “Nós o pegamos”. Esta é a linguagem de uma criança pequena e não muito educada ao jogar jogos de guerra no computador.

“Quando finalmente fomos informados de que a equipe do comando, que tinha sido capaz de chegar àquele complexo, tinha encontrado um indivíduo que acreditava ser Bin Laden, houve um enorme suspiro de alívio”, disse ele. Existe uma boa razão para que a morte de um homem tenha causado tanto alívio.

O problema é fácil de resolver: Bin Laden sabia demasiado. Se fosse colocado em julgamento, sem dúvida teria revelado o papel da CIA na promoção tanto da Al-Qaeda quanto do Talibã. É um segredo muito mal guardado que a CIA desempenhou um papel ativo em armar e treinar os fundamentalistas, inclusive Bin Laden. Ele tinha de ser silenciado e foi silenciado.

O envolvimento do ISI

Esta ação definitivamente derrubou a cortina que encobria o mito da “soberania nacional”. Ela foi realizada sem o conhecimento ou o consentimento do governo do Paquistão. Ambos os lados, os paquistaneses e os americanos, confirmaram que o Paquistão não foi avisado da invasão com antecedência. John Brennan, conselheiro do presidente Obama para assuntos antiterroristas, disse que a ação foi “concebida de forma a minimizar todas as possibilidades de envolvimento das forças paquistanesas”.

Na realidade, os paquistaneses não foram informados, porque sabiam que a informação seria imediatamente passada a Bin Laden através do ISI. Após o ataque dos EUA, as tropas paquistanesas chegaram ao local e asseguraram toda a área numa tentativa de evitar o acesso ao complexo e quaisquer questionamentos incômodos.

A primeira pergunta a ser feita é: como foi possível que o homem mais procurado do mundo passou a viver em um complexo fortificado nos arredores de uma cidade ocupada por oficiais do exército aposentados e empresários, e de quebra ao lado de uma academia militar? O complexo encontra-se, de fato, a algumas centenas de metros da academia militar do Paquistão, um centro de formação militar de elite, o equivalente do Paquistão ao Sandhurst da Grã-Bretanha, ao West Point dos EUA ou à Academia Militar de Agulhas Negras, do Brasil. O comandante supremo do exército do Paquistão é visitante regular da academia, onde se faz presente em desfiles de graduação.

Além disso, o complexo se localiza nas proximidades do acantonamento militar de Abbottabad, que está sujeito a um rigoroso controle por parte do exército e dos serviços secretos. Quem quer que deseje construir ou viver nesta região teria que sofrer uma série de verificações por estas instituições do Estado. A área inteira é submetida à presença constante e significativa de postos militares de controle. É impensável que Bin Laden e seus apoiadores armados pudessem ocupar uma residência nessa área sem o conhecimento e consentimento dos militares e da inteligência paquistanesa do mais alto escalão.

Durante décadas, o exército e o Estado paquistanês têm intrigado no Afeganistão, que desejam manter sob seu controle, em conformidade com a chamada teoria da “defesa em profundidade”. Eles veem a Índia com o principal inimigo e estão se preparando para a próxima guerra com seu poderoso vizinho, que possui população maior, uma base industrial mais poderosa e um território muito maior. A idéia é vincular o Afeganistão ao Paquistão, para que, no caso de uma guerra com a Índia, aquele forneça uma retaguarda para o Paquistão. Esta idéia se tornou uma obsessão para os escalões superiores do exército do Paquistão e, em particular, para o ISI.

Mas há ainda interesses mais importantes envolvidos do que a estratégia militar ou o Alcorão. O ISI é estreitamente ligado à máfia das drogas do Afeganistão e do Paquistão, que gerencia grandes quantidades de dinheiro sujo. Estes elementos sombrios, por sua vez, estão estreitamente ligados ao Talibã e a seus sócios terroristas.

Agora está perfeitamente claro, se não o era antes, que o exército do Paquistão estava profundamente envolvido nisto e, em particular, o famoso ISI, que, por anos, tem perseguido sua própria agenda no Afeganistão e que opera como um Estado dentro do Estado. Através da corrupção que permeia tudo e da vasta distribuição de dinheiro proveniente do negócio das drogas, os tentáculos do ISI se estendem a todas as partes do Estado e do governo.

A descoberta de que Bin Laden estava vivendo em um complexo grande e construído por encomenda, protegido por muralhas, em Abbottabad, nas proximidades da academia militar do Paquistão – provavelmente já a partir de 2005 – confirmou as suspeitas americanas de que o ISI abrigava Bin Laden. O ensurdecedor silêncio do serviço de segurança do Paquistão é um eloquente testemunho de seu envolvimento. Isto terá sérias implicações para as relações futuras entre os EUA e o Paquistão.

No entanto, apesar de tudo, eles estão amarrados juntos como irmãos siameses. A ligação não é muito confortável, mas não há alternativa. É por isto que, apesar da indignação pública nos EUA sobre o papel do Paquistão, ambos os lados estão mantendo muita cautela sobre o que dizem uns sobre os outros. Os americanos necessitam dos paquistaneses para a guerra no Afeganistão. O presidente paquistanês Zardari necessita de Washington para manter a economia e seu governo flutuando.

Efeitos no Paquistão

É por isto que os americanos tanto insistem que os paquistaneses não estavam envolvidos: temem uma reação militante. Mas até agora a resposta nas ruas tem sido silenciosa, com apenas alguns comícios organizados pelos fundamentalistas. No Paquistão, as pessoas ainda estão chocadas com a notícia do ataque. Elas acham difícil compreender o fato de que este homem estava vivendo entre eles.

Teorias conspiratórias naturalmente emergem de todos os lados, como sempre acontece depois de eventos desta natureza. Algumas pessoas chegaram a duvidar de que os EUA, de fato, conseguiram matar seu arqui-inimigo. Este é o resultado do fato de que eles já anunciaram a morte de Bin Laden em mais de uma ocasião. A falta de um corpo só aumenta o clima de suspeita. Os EUA disseram que fizeram um vídeo do sepultamento de Bin Laden, mas não confirmaram se este vídeo, ou as fotografias do corpo de Bin Laden, será liberado.

Dessa forma, todo tipo de teorias bizarras continuarão a circular. Mas não há razão para acreditar que tudo isto foi apenas uma encenação elaborada e cozinhada no Pentágono ou no Salão Oval. Washington tinha todos os motivos para prosseguir nos seus planos de assassinar Bin Laden. Também tem todos os motivos para se livrar do corpo.

Zardari afirmou que, embora os dois países não tivessem trabalhado juntos na operação, “uma década de cooperação e parceria entre os EUA e o Paquistão levaram à eliminação de Osama Bin Laden como uma ameaça permanente ao mundo civilizado”. Mas não deu nenhuma explicação sobre a forma como Bin Laden tinha obtido a possibilidade de viver confortavelmente no Paquistão. Ele disse apenas que Bin Laden “não estava nos locais onde prevíamos encontra-lo”.

O governo paquistanês encontra-se agora em posição muito difícil. Por um lado, o público está irritado com esta flagrante violação da soberania nacional. Por outro lado, os EUA estão ainda mais arrogantes que antes, e, agora, estão querendo saber se outras figuras teriam encontrado refúgio em território paquistanês.

Esses eventos colocaram o presidente do Paquistão, Asif Ali Zardari, em uma posição muito difícil. Ele negou que a morte de Osama Bin Laden em seu país seja um sinal de seu fracasso em combater o terrorismo. Em um artigo publicado no Washington Post, Zardari disse que seu país era “talvez a maior vítima do mundo do terrorismo”. Mas as autoridades dos EUA disseram que Bin Laden devia contar com um esquema de apoio no Paquistão. E até mesmo um cego pode ver que este é o caso. John Brennan disse que era “inconcebível que Bin Laden não contasse com um esquema de apoio” no Paquistão. Nisto, concordamos com ele.

Em seu artigo na imprensa americana, Zardari disse que o Paquistão “nunca foi e nunca será o foco de fanatismo que é muitas vezes descrito na mídia”. Pela primeira vez, podemos concordar com ele. O apoio aos fundamentalistas no Paquistão tem sido muito exagerado na mídia ocidental, como o apontou Lal Khan em seu artigo Fundamentalismo religioso e imperialismo: amigos ou inimigos:

“Sua retórica antiamericana não foi capaz de reunir um apoio amplo entre os trabalhadores e as massas pobres. E isto é assim, apesar do ódio fervoroso contra a agressão imperialista no seio da grande maioria das massas. A maioria dos jovens recrutados para suas manifestações provém das madraças e não sabem muito bem o que estão fazendo ali.

Eleitoralmente, têm sido um fracasso. Somente em 2002 eles conseguiram obter 11% dos votos. Mas isso se deveu principalmente à manipulação por parte das agências estatais que queriam usá-los em suas próprias negociações com o imperialismo. Mesmo alguns dos ataques terroristas foram supostamente orquestrados para a mesma finalidade”.

Zardari disse aos americanos: “A guerra contra o terrorismo é mais uma guerra do Paquistão que dos americanos”. Mas a chamada guerra ao terror só trouxe miséria e mortes para o povo do Paquistão. “Morreram mais de nossos soldados que todas as vítimas da OTAN juntas. Dois mil policiais, além de 30 mil vítimas inocentes e uma geração de progresso social perdida para o nosso povo”, escreveu ele.

O atual governo tem demonstrado uma dependência tão servil para com o imperialismo dos EUA que excede em muito qualquer coisa vista no passado. O próprio Musharraf revelou mais independência do que Zardari e sua camarilha. Em consequência, o Paquistão tem visto o aumento dos ataques terroristas, que são agora maiores do que aqueles no Iraque e no Afeganistão juntos.

Efeitos nos EUA

O efeito imediato nos EUA foi de euforia. Quando a notícia foi anunciada na noite do domingo, houve cenas de júbilo em Washington, Nova Iorque e em todos os EUA. As pessoas se deslocaram ao Ground Zero para demonstrar sua alegria com a eliminação do homem que se acredita ter ordenado os ataques a Nova Iorque e a Washington em 11 de setembro de 2001, bem como uma série de outros atentados mortíferos. Um homem disse: “Talvez agora possamos terminar e sair do Iraque”. Sob o verniz do fervor patriótico estas palavras revelam uma insatisfação latente com aventuras externas dos EUA e um desejo de paz.

O presidente elogiou os “heróis” que realizaram a operação e, em um discurso para os líderes do Congresso, ele os convocou a mostrar “o mesmo sentimento de unidade que prevaleceu em 11 de setembro”. Mas este é um desejo vão. A sociedade americana está mais dividida do que em qualquer outro momento desde a Guerra Civil. No curto prazo, Obama irá recolher os frutos. Poderá até contribuir para sua reeleição como “o homem que ‘pegou’ Bin Laden”. Mas isto não é tão certo. A euforia sobre a morte de Bin Laden vai arrefecer. Os efeitos da crise econômica não vão.

A euforia das últimas 24 horas não tem bases sólidas. A situação explosiva em escala mundial não foi criada por Bin Laden ou pela Al-Qaeda. Pelo contrário, estes são o seu reflexo. O assassinato de um homem não pode mudar algo substancialmente. Ao contrário, dará origem a um desejo de vingança que será o ponto de partida para novos atentados terroristas.

Obama saudou a morte de Bin Laden como um “bom dia para a América”, e disse que o mundo estava agora mais seguro e melhor. Esta frase está errada. No mesmo discurso, advertiu que a ameaça de ataques terroristas não tinha acabado. Face às possibilidades de ataques de represália, a segurança foi reforçada nas embaixadas e aeroportos. Os EUA fecharam sua embaixada e consulados no Paquistão. O mundo é agora ainda menos seguro e mais perigoso do que era há dois dias.

O verdadeiro significado da Al-Qaeda

Para alcançar seus objetivos, o imperialismo sempre tem necessidade de criar um monstro, um inimigo sinistro, que pode demonizar, exagerando seus crimes e atrocidades para justificar a prática de seus próprios crimes e atrocidades, ainda maiores. No passado, foram os “hunos”, o “perigo amarelo”, o “perigo vermelho”; ultimamente, tem sido a Al-Qaeda e o Talibã. Os nomes mudam, mas a essência da questão continua a mesma.

Na última década, a imprensa mundial construiu, sistematicamente, a imagem de uma besta mítica chamada Al-Qaeda, uma organização internacional ultracentralizada e disciplinada, fanaticamente dedicada à destruição da civilização ocidental. Na realidade, a Al-Qaeda sempre foi uma organização pequena com poucos seguidores no mundo islâmico.

Após seu maior feito – a destruição do World Center em Nova Iorque – recebeu golpe após golpe e vem diminuindo desde então. Se a organização centralizada e disciplinada do terrorismo existiu algum dia, há muito que desapareceu, sendo substituída por uma multidão de pequenos grupos em diferentes países, cada um deles com sua própria agenda. Quanto a Bin Laden, ele há muito que desapareceu da vista do público, limitando sua “atividade” a vídeos ocasionais muito mal gravados.

Do ponto de vista do imperialismo, numa luta contra um grupo como Al-Qaeda o que se exige é precisamente o método de “ataques cirúrgicos”, ou seja, a combinação de inteligência e bom trabalho policial, com intervenção armada seletiva e limitada. Não se necessita enviar grande número de soldados e tanques para demolir exércitos e ocupar países, como o imperialismo americano fez e faz. Essas táticas são menos que inúteis na luta contra o terrorismo. Na verdade, tropeçando pelo mundo como um elefante numa casa de chá, eles estão dando ao terrorismo assistência considerável.

O maior aliado de Bin Laden e da Al-Qaeda foi, na realidade, o imperialismo dos EUA. A invasão do Iraque e do Afeganistão deu novo impulso às forças sombrias do terrorismo, irritando toda uma geração de jovens muçulmanos. Mas a maré da revolução ao varrer o mundo árabe expôs completamente o mito da Al-Qaeda. Os milhões de trabalhadores, camponeses e jovens que encheram as ruas mostraram o caminho para a condução de uma luta verdadeira contra os imperialistas e seus agentes locais. E, apesar da propaganda mentirosa dos imperialistas, os fundamentalistas islâmicos não desempenharam nenhum papel significativo neste movimento de massas maravilhoso.

O terrorismo de Estado é muito mais sangrento que as ações de qualquer grupo terrorista. São os Estados que declaram guerras, lançam bombas atômicas sobre cidades como Hiroshima e Nagasaki, constroem campos de concentração como o de Guantánamo Bay, e manipulam a opinião pública através da mídia mercenária. São os Estados que cortam bilhões da educação, da saúde pública e das aposentadorias, ao mesmo tempo em que entregam bilhões de dólares aos banqueiros.

O Estado aperfeiçoou sua capacidade de matar pessoas como uma arte. O mais recente “ataque cirúrgico” é mais uma demonstração de suas habilidades como assassino. Não iremos derramar nenhuma lágrima por um terrorista reacionário com o sangue de milhares de pessoas em suas mãos. Mas condenamos, ainda com mais veemência, os crimes do imperialismo, que é responsável por atrocidades maiores que as de Bin Laden e seus cúmplices.

A falha fundamental de todo terrorismo é a noção de que pequenos grupos de homens armados e determinados podem derrubar a ordem social existente. Esta é uma ilusão. O Estado tem recursos suficientes para destruir qualquer pequeno grupo armado. Os danos causados por ações terroristas são apenas superficiais. O terrorismo não ataca as fundações do edifício. Seus ataques realmente servem para fortalecer o regime em vigor, fornecendo-lhe as desculpas que necessita para contra-atacar com força devastadora. Os acontecimentos que se seguiram ao ataque das torres gêmeas são a confirmação gráfica desta afirmação.

A única força que pode trazer uma mudança fundamental na situação é a ação revolucionária das massas. As revoluções na Tunísia e no Egito são a prova mais contundente disto. O comentário mais penetrante sobre tudo isto foi feito por Robert Fisk no The Independent (terça-feira, 03 de maio de 2011): “Uma nulidade de meia-idade, um fracasso político superado pela história e por milhões de árabes exigindo liberdade e democracia no Oriente Médio morreu ontem no Paquistão. E, então, o mundo enlouqueceu”.

Referindo-se ao perigo de represálias terroristas e confirmando nossa análise, Fisk diz:

“Ataques de vingança? Talvez venham através de pequenos grupos no ocidente, que não têm contato com Al-Qaeda. Tenho certeza: alguém já deve estar sonhando com a formação de uma Brigada dos Mártires de Osama Bin Laden.

Mas as revoluções de massas no mundo árabe nos últimos quatro meses significam que Al-Qaeda já estava politicamente morto. Bin Laden disse ao mundo – na verdade, ele me disse pessoalmente – que ele queria destruir os regimes pró-ocidente no mundo árabe, as ditaduras de Mubarak e Ben Ali. Ele queria criar um novo califado islâmico. Mas nestes últimos meses, milhões de muçulmanos árabes se levantaram e se prepararam para o seu próprio martírio – e não pelo Islã, mas pela liberdade e pela democracia. Bin Laden não os resgatou dos tiranos. O povo o fez. E o povo não quer um califa”.

Londres, 03 de maio de 2011.

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