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Nova Iorque: uma história de duas cidades

Em 1857, Seneca Village e várias outras favelas e vilas foram destruídas para dar lugar à construção do Central Park. No total, 1.600 habitantes—principalmente escravos libertos e imigrantes irlandeses—foram forçadamente removidos de seus assentamentos. Esse não foi um mero efeito colateral da construção do parque—foi um dos principais motivos por trás. Nos últimos trinta anos, a cidade de Nova Iorque quase teve sua população quadruplicada e, enquanto o desenvolvimento avançou mais e mais ao norte da ilha de Manhattan, a classe dos proprietários sentiu uma necessidade cada vez maior de “domar os selvagens”.

“A cidade de Nova Iorque é um grande monumento ao poder do dinheiro e da ganância… uma corrida para alugar.”—Frank Lloyd Wright

Em 1857, Seneca Village [village, ou vila, é, segundo a legislação do estado de Nova Iorque, uma pequena região localizada em uma cidade que, em certas condições, pode vir a obter certa autonomia frente a esta – NDT] e várias outras favelas e vilas [1] foram destruídas para dar lugar à construção do Central Park. No total, 1.600 habitantes—principalmente escravos libertos e imigrantes irlandeses—foram forçadamente removidos de seus assentamentos. Esse não foi um mero efeito colateral da construção do parque—foi um dos principais motivos por trás. Nos últimos trinta anos, a cidade de Nova Iorque quase teve sua população quadruplicada e, enquanto o desenvolvimento avançou mais e mais ao norte da ilha de Manhattan, a classe dos proprietários sentiu uma necessidade cada vez maior de “domar os selvagens”.

E domaram os selvagens—diversas vezes. Como dúzias de cidades similares ao redor do mundo, Nova Iorque não é alheia a desigualdades e ao deslocamento da população devido ao crescente custo de vida. Mas a acelerada transformação da cidade de Nova Iorque nos últimos cinquenta anos tem ido muito além do que alguém poderia ter imaginado possível, deixando muitos a questionar para onde a Nova Iorque “deles” se foi.

Falando na inspiração por trás de seu clássico filme Metropolis,—no qual claramente demonstra uma cidade de desigualdades e luta de classes, onde os trabalhadores vivem no subsolo e os ricos vivem nas nuvem em imensos arranha-céus—Fritz Lang descreveu a cidade de Nova Iorque do seguinte modo: “Os edifícios pareciam ser uma vela vertical, cintilante e muito leve, um luxuoso pano de fundo, suspenso no céu escuro para deslumbrar, distrair, e hipnotizar.” O centro da cidade que dá nome ao filme é a colossal “Nova Torre da Babilônia.” Hoje, emergindo da selva de concreto e vidro de Manhattan, está nossa própria espécie de Torre da Babilônia, 432 Park Avenue.

Essa monstruosidade perfeitamente retangular é agora o edifício mais alto do hemisfério ocidental (se desconsiderado o pináculo do World Trade Center 1) e é o maior edifício residencial do mundo. A cobertura já foi vendida por US$ 9,5 milhões [2], com centenas de outros apartamentos para serem comprados por milionários e bilionários ao redor do mundo, para serem usados como quartos de hotel para a visita ocasional deles à cidade de Nova Iorque; e como locais para esconderem suas excessivas riquezas da taxação de seus países de origem.

Aqueles que realmente querem escapar da agitação do dia-a-dia podem comprar um apartamento em um condomínio por US$ 7,1 milhões no centro da cidade, na Rua Renwick, nº15. Residentes serão saudados nas 24 horas do dia por um mordomo e um elenco de atores contratados para realçar a temática “steampunk” da propriedade. O website do condomínio [3] apropriadamente mostra atores com penteados notavelmente similares ao de Maria Antonieta—do conhecido “que comam brioches”, à época da Revolução Francesa [4]. Shane Ferro, para o Business Insider [5], escreve: “Nunca houve um sinal tão claro que a Nova Iorque do século XXI não é nada além de um parque de diversões para os mais ricos do mundo e seus filhos. Ela tem parado de ser um lugar real para o resto de nós”.

No One57, outro enorme edifício de apartamentos de luxo, uma cobertura foi vendida pelo recorde de US$ 100,4 milhões [6]. One57 foi o foco de um debate recente sobre um programa chamado 421-a, que existe desde os “dias sombrios” da cidade, na década de 70. 421-a fornece isenções de impostos sobre a propriedade aos donos dos quais os edifícios possuam no mínimo 20% de seus apartamentos listados como “acessíveis”. Esse programa levou aos donos do One57 uma isenção de 95% de impostos [7].

Em 2013, 150.000 apartamentos por toda a cidade desfrutaram de US$ 1,06 bilhão em isenções de impostos como resultado do programa. Dessas unidades, apenas 12.748 encaixam na definição de “acessível”. O que isso significa está em debate; a fórmula utilizada pelo programa usa a renda, não apenas de uma cidade financeiramente distinta, mas também de três dos condados vizinhos mais ricos do estado: Putnam, Rockland, e Westchester.

O “Internacionalismo” de Nova Iorque

Como um dos maiores centros metropolitanos, e um centro mundial de finanças, moda e comunicação, Nova Iorque naturalmente atrai turistas de todos os cantos do globo, com os seus olhos voltados para cima, aproveitando a vista e tirando selfies, e incrementando o congestionamento nas calçadas e no metrô. Mas também atrai a elite mundial procurando esconder, com cifrões nos olhos, seu dinheiro em investimentos offshore, tornando quase impossível para a maioria dos trabalhadores pagar apartamentos em qualquer lugar remotamente perto de seus locais de trabalho. O absurdo da área de transporte do metro já foi tratado em um artigo anterior [8].

New York Magazine cobriu o afluxo massivo de riquezas estrangeiras para propriedades em Nova Iorque em um extenso artigo intitulado “Stash Pad” [Stash Pad – refere-se a um local utilizado para se esconder dinheiro ou bens obtidos, principalmente, de maneira ilegal – NDT] [9] “De acordo com dados compilados pela empresa PropertyShark [10],  desde 2008, aproximadamente 30 por cento das grandes vendas  em condomínios em Manhattan têm sido para compradores que, ou deram um endereço  no exterior, ou compraram por meio de uma entidade como uma corporação de responsabilidade limitada; uma tática raramente empregada por compradores locais, mas preferida por investidores estrangeiros. Semelhantemente, a empresa Corcoran Sunshine, que comercializa edifícios de luxo, estima que 35 por cento de suas vendas desde 2013 têm sido para compradores internacionais; metade da Ásia, com o remanescente aproximadamente dividido entre a América Latina, Europa, e o resto do mundo. ‘A elite global,’ diz o desenvolvedor Michael Stern, ‘está, basicamente, procurando por um cofre.’”

Outro artigo da Times [11] explica a causa de ruas vazias próximas ao centro: “Em um trecho de três quarteirões, próximos ao centro, de East 56th Street até East 59th Street, entre Fifth Avenue e Park Avenue, 57 por cento, ou 285 de 496 apartamentos, incluindo cooperativas [habitacionais – NDT] e condomínios, ficam desocupados por, pelo menos, dez meses no ano. De East 59th Street a East 63rd Street, 628 de 1.261 lares, ou quase 50 por cento, estão vazios na maior parte do tempo, de acordo com dados de 2012 da Pesquisa da Comunidade Americana do Birô do Censo.”

Informações do Escritório de Orçamento de Nova Iorque, requeridas pelo New York Times [12], “determinaram que quase um quarto dos apartamentos na cidade de Nova Iorque [sim, de todos os cinco distritos!] não são utilizados como residências principais”.

The Times também cobriu [13] as propriedades da elite de Nova Iorque, focando no Time Warner Center: “Muitos dos proprietários representam um modelo da riqueza americana: chefes executivos e celebridades, médicos e advogados, empreendedores de tecnologias e negociadores de Wall Street… Mas The Times também descobriu uma proporção crescente de estrangeiros ricos, dos quais ao menos 16 deles têm sido alvos de investigações de governos pelo mundo, como pessoas ou como líderes de companhias. Os casos vão desde violações ambientais até fraudes financeiras. Quatro proprietários foram presos, e outros quatro têm sido alvos de multas ou penalidades por atividades ilegais”.

Conforme as condições pelo mundo tendem mais e mais ao ponto de explosões sociais de massas, essas propriedades não serão meros “stash pads”, mas santuários para escapar quando estes eventos entrarem em erupção. 

Moradias acessíveis e a “porta dos pobres”

E todos os trabalhadores que ainda conseguem custear suas vidas na cidade de Nova Iorque? De acordo com estatísticas de 2011 [14], 61% das famílias de baixa renda em Nova Iorque pagavam mais da metade de suas rendas apenas em aluguéis—em 1999 era 46%. Dada a aceleração da polarização de riquezas nos últimos anos, está, certamente, até mais alto agora.

E aquilo que os trabalhadores pagam mais para ter, fica cada vez menor. The Wall Street Journal [15] recentemente argumentou que a cidade de Nova Iorque está menos apertada do que em 1970: “Em média, em 1970, 2,7 pessoas viviam em cada moradia. Caiu para 2,4 pessoas em 2010.” O artigo acrescenta o aviso, “Sem surpresas, pessoas que vivem em vizinhanças mais ricas tendem a ter mais espaço. Em Upper East Side, residentes têm o luxo de 750 pés quadrados [69,68 m² – NDT] por pessoa, enquanto em Corona, Queens, há apenas 287 pés quadrados [26,66 m² – NDT] por residente.” A afluência de residentes mais ricos para a cidade de Nova Iorque, durante a última década, que podem financiar o custo de vida em apartamentos maiores, certamente, tem distorcido esses números.

Dividir apartamentos de um quarto em dois tem se tornado o último esquema lucrativo para os proprietários pela cidade. Pegar o que já era um quarto pequeno e erigir uma parede para criar dois quartos menores se tornou bastante comum. 

Donna Mossman, do Sindicato dos Inquilinos de Crown Heights [16], foi citada pelo Gothamist [17] explicando o esquema que é empreendido pelos proprietários: “Nós entendemos que a única maneira desses proprietários de ganhar dinheiro dessas compras é esvaziar os edifícios. E o que fazem primeiro é rescindir os contratos… Uma vez que o apartamento está vazio, eles pegam os [apartamentos] de um quarto e os transformam em outros de dois quartos. Eles pegam os de dois quartos e os transformam em um de três quartos. Adicionam um banheiro, uma lavadora, uma secadora e uma lava-louças. E é assim que eles elevam o aluguel ao mais próximo que conseguem de US$ 2.500.” Janelas, salas de estar, e espaço para andar em volta de sua cama de tamanho pequeno, são luxos que menos e menos trabalhadores podem pagar na cidade de Nova Iorque.

No ano passado, em Greenpoint, Brooklyn, 58.832 pessoas se inscreveram para 105 unidades habitacionais a preços acessíveis. Recentemente, mais que 80.000 se inscreveram [18] para 38 unidades disponíveis em Williamsburg [também no Brooklyn – NDT]. Falando sobre a falta de moradias acessíveis, o ativista anti-gentrificação Imani Henry foi citado pelo Brokelyn [19]: “Não há nada de bom e legal acontecendo no Brooklyn. É uma guerra”.

Queens não está se saindo muito melhor. Em fevereiro, Gothamist cobriu [20] o aumento do aluguel nesse distrito: “De acordo com o relatório [de Elliman], o preço médio do aluguel ao noroeste do Queens em janeiro era de US$2,905/mês, quase 31% a mais do que no mesmo mês do ano passado. Aluguéis médios de estúdios subiram em 14,5%; em um quarto 14,4%; 6,1% em dois quartos, e 46,2% em apartamentos com três quartos ou mais”.

E aqueles edifícios com apartamentos luxuosos que possuem unidades acessíveis como parte dos acordos de insenção de impostos? Muitos dos inquilinos têm que entrar por uma “porta dos pobres” separada. Uma nova torre em Manhattan recebeu mais de 88.000 requerimentos para apenas 55 unidades da “porta dos pobres” [21]. Comentando sobre isso, CNN Money disse [22] “É uma história de duas cidades em Manhattan”.

Controle de aluguéis

A cidade de Nova Iorque tem o mais antigo programa de controle de aluguéis do país. O moderno programa começou em 1943, quando uma grande proporção de trabalhadores estava alistada para o serviço militar e novas camadas, principalmente de mulheres, foram arrastadas à força de trabalho. Tendo visto as lutas trabalhistas dos anos de 1930, e temendo sua continuação ao fim da guerra, o Escritório Federal de Administração de Preços congelou os aluguéis na cidade de Nova Iorque em março de 1943. O programa foi posto sobre o controle do estado de Nova Iorque em 1950.

Essas leis de controle de aluguéis foram aplicadas a cada unidade arrendada na cidade, mais do que dois milhões. Entretanto, frente à escassez de moradia na última metade dos anos 50—um período caracterizado pela suburbanização—a desregulamentação das unidades arrendadas começou. Por volta de 1996, havia menos do que 71 mil apartamentos com aluguéis controlados, e em 2014 havia restado por volta de apenas 27 mil. De todos os apartamentos na cidade de Nova Iorque em 2011, mais do que 39% não havia regulamentação de aluguéis; uma porcentagem que tem, provavelmente, crescido nos últimos quatro anos.

O poder econômico dos senhorios é enorme. Centenas de milhares de unidades habitacionais têm escapado do controle de aluguéis e do sistema de estabilização de aluguéis. Apartamentos regulados em cooperativas habitacionais e edifícios com menos do que seis apartamentos são desregulamentados se houver desocupação [ou seja, caso um apartamento fique desocupado e o dono possa aumentar legalmente o valor do aluguel para US$ 2.500, ou mais, ocorre a desregulamentação e ele pode cobrar o mesmo valor do mercado – NDT]. Os outros apartamentos estão sujeitos à “desregulamentação pelo luxo” [caso o aluguel seja de US$ 2.500, ou mais, por mês, o senhorio pode pedir a desregulamentação caso a renda dos inquilinos ultrapasse, por dois anos consecutivos, US$ 200.000/ano – NDT] e à desregulamentação por desocupação, se o aluguel do apartamento sobe para US$2.500 ou mais por mês. Para adquirir a base de US$2.500, os proprietários podem acrescentar 1/40 dos custos de reparos ao aluguel em edifícios com menos do que 35 apartamentos; e 1/60 em edifícios com mais do que 35. Isso significa que um apartamento com US$40.000 em reparos—incluindo grandes aparelhos elétricos como refrigeradores—podem aumentar o aluguel mensal em US$1.000.

Bill de Blasio e Cia. ao resgate?

Mas não tema!—o prefeito Democrata Bill de Blasio tem planos para enfrentar os problemas habitacionais na cidade de Nova Iorque, e ele conhece a pessoa certa para lidar com isso: Alicia Glen, vice-prefeita para Habitação e Desenvolvimento Econômico [a cidade de Nova Iorque possui diversos “vice-prefeitos” que coordenam áreas específicas – NDT]. “Precisamos investir em indústrias-chave emergentes e habitações acessíveis, assim Nova iorquinos têm melhores chances para fazer seu caminho rumo à classe média. Alicia tem uma ficha, ideias novas, e um ponto de vista audacioso para fazer dessa visão uma realidade” disse de Blasio em uma conferência à imprensa, em dezembro de 2013.

Qual é a “ficha” dela referida pelo prefeito? Bem, ela foi uma executiva para Goldman Sachs [um banco de investimentos sediado em Nova Iorque – NDT], à frente do Grupo de Investimentos Urbanos. Como explicado por Gothamist [23]: “o Grupo de Investimentos Urbanos de Glen desempenhou uma parte importante na administração da agenda de desenvolvimento de Bloomberg [antecessor de Bill de Blasio como prefeito de Nova Iorque, ocupando o cargo de 2002 a 2013 – NDT] durante a última década, ajudando a financiar grande parte do desenvolvimento desigual que tem retirado muitos Nova Iorquinos dos mercados de aluguéis em bairros pela cidade. Se você está de acordo com o que Franklin Avenue tem se tornado em Crown Heights [24], então Glen é a pessoa para você.”

Atualmente, a Autoridade para Habitação da Cidade de Nova Iorque (NYCHA) [sigla em inglês – NDT] requere o estimado de US$ 17 bilhões para reparar habitações existentes em projetos pela cidade—muitas delas construídas nos anos 30 e 40—mas já tem um déficit acumulado de US$ 98 milhões, somente neste ano. Para garantir o orçamento para a NYCHA, de Blasio e Glen, certamente, têm um “ponto de vista audacioso”.

Eles planejam conceder terrenos não utilizados em projetos habitacionais para a iniciativa privada. Isso vai, seguramente, remover as árvores e a luz solar que fazem desses projetos um pouco suportáveis; realocando ou aposentando milhares de empregados da Autoridade; cobrando mais aos inquilinos por vagas para estacionar, oferecendo os espaços restantes no mercado; e impulsionando o índice de coleta de aluguéis, que atualmente se mantém em 74%, e está baixo porque há aluguéis retidos pelos inquilinos devido a reparos não realizados, às vezes, por anos. Também relatado [25] por funcionários da NYCHA, 2.196 de suas unidades habitacionais estão vagas, em grande parte devido ao “trabalho de manutenção a longo prazo” (leia-se: subfinanciamento, falta de funcionários e burocracia).

Para onde Nova Iork foi?

David Byrne, antigo vocalista de Talking Heads, pergunta-se para onde a Nova Iorque que ele se lembra foi [26]: “Essa situação dos imóveis—um tópico que Nova iorquinos adoram reclamar durante o jantar—não ajuda na saúde futura da cidade. Se jovens, talentos emergentes de todos os tipos, não podem encontrar um ponto de apoio nessa cidade, então será uma cidade mais próxima a Hong Kong ou Abu Dhabi  do que o lugar fértil e rico que historicamente tem sido. Esses lugares podem ter museus, mas eles não têm cultura. Ugh. Se Nova Iorque for por aí—mais do que já foi—vou embora.”

O destino do famoso clube CBGB [que é um acrônimo para country, bluegrass e blues – estilos musicais para os quais o clube foi inicialmente voltado, embora, posteriormente, tenha passado a ser reconhecido como um famoso reduto de bandas de punk rock, new wave e hardcore punk – NDT]—que lançou grupos famosos como Talking Heads, The Ramones, Blondie, Suicide, Television, e dúzias de outros— é uma anedota metafórica para a transformação da cidade. Fechado em 2006, o local é agora ocupado poeticamente por “uma marca, de alta qualidade, que representa/vende um estilo de vida”: John Varvatos [marca homônima ao estilista de moda masculina que ocupou o antigo local do clube CBGB ao abrir uma loja de sua grife, influenciada pelo estilo punk vintage – NDT].

A própria cidade de Nova Iorque é uma marca; incorporada no famoso logotipo “I ♥NY” de Milton Glaser, usado pela primeira vez em 1977, em uma campanha de turismo. Até mesmo tem um punhado de jingles, um deles escrito pelo “empresário” multimilionário Jay-Z. O New York Times relatou [27] que até o código de área 212 [referente a Manhattan – NDT]  [28] se transformou em um nicho de mercado, enquanto indivíduos e empresas lutam para comprá-lo para parecerem “autênticos Nova iorquinos”. 

A segunda geração de códigos de área de Nova Iorque, 718, também está vendendo, já que tende a representar o distrito da moda, Brooklyn. O New York Post citou [29] o presidente da Associação de Marketing Americano de Nova Iorque, Randall Ringer, como tendo dito: “Brooklyn é uma excelente marca para produtos autênticos, é solidamente de classe média com um senso de humor… é perfeito para cerveja, mas não para champanhe”.

A fundadora da Brooklyn Industries, Lexy Funk, também foi citada pelo New York Post: “‘Eu amo o que o Brooklyn tem se tornado, mas, talvez, nós teremos que trabalhar mais para nos destacarmos,’ diz Funk, de seu depósito no DUMBO [região no Brooklyn ao redor da ponte de Manhattan – NDT], rodeada pela nova linha de bolsas peculiares e únicas de sua empresa… Quando ela começou, ela diz, ‘O estilo do Brooklyn era de rua, urbano, meio perigoso.’ Agora está ‘na moda, é culto’… E à medida que se desenvolve como um centro comercial, ela acrescenta, em mais 15 anos será algo diferente.”

Há agora bem mais do que 300 marcas comercias com “Brooklyn” no nome. Bairros também estão virando marca. De acordo com o artigo do New York Magazine mencionado acima, “Há alguns meses, pouco antes de partir para Monte Carlo e outros redutos da riqueza europeia, um corretor me contou sobre sua última estratégia: comprar, esvaziar e reformar apartamentos em Crown Heights. Um fundo de investimentos australiano tem feito algo similar em Bushwick”.

Um grupo chamado “o Coletivo de Bushwick” [The Bushwick Collective, em inglês – NDT] tem feito um trabalho de “curadoria” sobre os graffiti pelo bairro – que está em um acelerado processo de gentrificação – feitos por artistas do mundo todo. Essas pinturas têm sido vistas por muitos como um símbolo da gentrificação e um aviso que Bushwick logo será “Williamsburg 2.0”— um bairro que, em um espaço de tempo um pouco maior do que 15 anos, deixou de ser um precário bairro industrial para se tornar um centro para os boêmios oriundos da classe média [30]; se tornando o lar do ex-presidente da Georgia  [31] Mikheil Saakashvili.

O artista de rua Zexor tomou para si o trabalho de desfigurar muitos dos graffiti que têm aparecido, alguns dos quais apenas se lê “Bushwick”, presumivelmente para lembrar aqueles que procuram investir em propriedades o quão “bom” e “legal” o bairro é. Como relatado pelo Metro [32], “O preço médio das moradias saltaram em 31 por cento no último ano em Bushwick, de acordo com a companhia MNS, que definiu a média mensal dos aluguéis dos apartamentos de 1 quarto em US$ 2.048”.

Proprietários de pequenos negócios também têm sofrido duros golpes. Village Voice recentemente relatou [33] o despejo de um quarteirão inteiro de pequenos negócios em Washington Heights em Manhattan. “É de partir o coração”, disse um membro da família de um pequeno dono de um restaurante dominicano, “Ver esta área se gentrificando dessa maneira—Eu entendo; é dinheiro. Mas, mesmo assim, é horrível. Nós sentávamos ali durante os tiroteios. Já estivemos ali antes. E agora que mudou, que está mais seguro, nós temos que ir embora. O que podemos fazer?”

Em Boerum Hill, Brooklyn, a delicatessen de Jesse viu seu aluguel aumentar de US$ 4.000 para US$ 10.000. Em protesto à gentrificação, a proprietária começou a cobrar mais por produtos com nomes satíricos [34], como “salada de atum do Himalaia alimentado com grama”.

Por um programa socialista de moradias!

Em 1682, o rei francês Luís XIV mudou a família real e a corte francesa para Versalhes, um palácio por volta de 12 milhas [19,31 km] de Paris. O objetivo era manter os funcionários do governo, a nobreza e sua família longe das massas semi-proletárias de Paris.

Embora Nova Iorque não seja a capital política dos Estados Unidos, ela, certamente, representa a capital cultural e econômica do país, se não for do mundo. Em vez de estabelecer um reduto novo em folha para a classe dos capitalistas, a cidade de Nova Iorque está sendo transformada em um e, no processo, está empurrando os milhões de trabalhadores que fazem a cidade funcionar para mais e mais além do centro da cidade.

Enquanto as leis do capitalismo—as leis da selva de se fazer lucros—permanecerem intactas, não haverá escapatória de seus efeitos esmagadores. Viagens ao trabalho serão maiores, salários serão menores, e os custos com moradia continuarão a crescer devido aos inexoráveis efeitos dos mercados.

As enormes contradições que se acumularam na França do século XVIII foram finalmente resolvidas por meio de uma heroica luta revolucionária. Levará uma similar, e de maior alcance, luta revolucionária para resolver as contradições na cidade de Nova Iorque e de todo o país. 

Enquanto os Marxistas lutam pela continuação e expansão de leis sobre a regulamentação e estabilização de aluguéis, tais leis não são suficientes para afastar a insaciável ganância dos proprietários e dos bancos.

A cidade de Nova Iorque tem o maior índice de sindicalização do país. O Conselho Trabalhista Central da Cidade de Nova Iorque tem um enorme poder em potencial e deveria organizar, mobilizar e inspirar os trabalhadores da cidade para construir uma alternativa política aos Republicanos e aos Democratas, e levar em frente um programa audacioso que vá ao encontro das necessidades dos trabalhadores.

Tal programa incluiria a suspensão de despejos; o aluguel a ser fixado a não mais do que 10% da renda; a imediata municipalização de milhares de unidades habitacionais desocupadas por toda a cidade para prover moradias àqueles que necessitam; um programa massivo de empregos públicos para criar e restaurar habitações, parques, instalações recreacionais, e infraestrutura de transportes melhorada, a ser construída por residentes locais. Esse programa não poderia ser limitado apenas à cidade de Nova Iorque. Ele estaria necessariamente ligado à luta para transformar toda a região e o país como um todo. Receberia o apoio entusiástico de todos aqueles que têm experimentado o aumento nos alugueis e a estagnação dos salários.

É impossível enfrentar a questão da habitação sem tomarmos o capitalismo à frente, sobretudo em uma cidade como Nova Iorque. A transformação da cidade de um “playground para os ricos” em uma cidade de, pelos, e para os trabalhadores, requerer a nacionalização das maiores indústrias e bancos e sua integração em uma economia democraticamente planificada. Apenas então seremos capazes de começar a construir uma sociedade na qual cada trabalhador poderá viver em uma vizinhança segura e esteticamente bela, perto do local de trabalho, com acesso a transporte, parques, centros culturais, e tempo livre de sobra para desfrutá-lo e para aproveitar todo o resto que o mundo tem a oferecer.

Tradução: Demetrius Ferreira

[1] – http://www.nytimes.com/2011/07/28/nyregion/unearthing-an-african-american-village-displaced-by-central-park.html?_r=0

[2] – http://www.nytimes.com/2013/05/19/nyregion/boom-in-luxury-towers-is-warping-new-york-real-estate-market.html?hp&_r=0

[3] – http://15renwick.com/

[4] – https://en.wikipedia.org/wiki/Let_them_eat_cake

[5] – http://www.businessinsider.com/steampunk-condo-development-proves-that-new-york-is-over-2014-12#ixzz3dzmocANs

[6] – http://www.nytimes.com/2015/01/25/realestate/100-4-million-dollar-sale-at-one57.html?smid=fb-nytimes&smtyp=cur&bicmp=AD&bicmlukp=WT.mc_id&bicmst=1409232722000&bicmet=1419773522000

[7] – http://www.nytimes.com/2015/02/02/nyregion/in-program-to-spur-affordable-housing-100-million-penthouse-gets-95-tax-cut.html?partner=rss&emc=rss&_r=0

[8] – http://socialistappeal.org/news-analysis/the-economy/1427-all-roads-lead-to-manhattan.html

[9] – http://nymag.com/news/features/foreigners-hiding-money-new-york-real-estate-2014-6/

[10] – http://nymag.com/news/features/foreigners-hiding-money-new-york-real-estate-2014-6/

[11] – http://www.nytimes.com/2014/10/26/realestate/pieds-terre-owners-dominate-some-new-york-buildings.html

[12] – http://mobile.nytimes.com/2015/01/11/realestate/new-york-citys-emptiest-co-ops-and-condos.html?partner=rss&emc=rss&_r=0&referrer=

[13] – http://www.nytimes.com/2015/02/08/nyregion/stream-of-foreign-wealth-flows-to-time-warner-condos.html?smid=nytcore-iphone-share&smprod=nytcore-iphone

[14] – http://www.cssny.org/news/entry/css-report-details-housing-challenges-for-the-next-mayor

[15] – http://blogs.wsj.com/developments/2015/05/05/new-york-is-getting-less-not-more-cramped/

[16] – http://crownheightstenantunion.org/

[17] – http://gothamist.com/2015/05/15/rent_too_high_march.php

[18] – http://www.nytimes.com/2015/01/30/nyregion/long-lines-and-low-odds-for-new-yorks-subsidized-housing-lotteries.html?smprod=nytcore-iphone&smid=nytcore-iphone-share&gwh=8DCD81E6AD963A35EDF501CEA899F6ED&gwt=pay&assetType=nyt_now

[19] – 19brokelyn.com/fight-gentrification-brooklyn-battleground/

[20] – http://gothamist.com/2015/02/12/queens_real_estate_hot.php?utm_source=Gothamist+Daily&utm_campaign=34abdc9e43-RSS_EMAIL_CAMPAIGN&utm_medium=email&utm_term=0_73240544d8-34abdc9e43-907777

[21] – http://mobile.nytimes.com/2015/04/21/nyregion/poor-door-building-draws-88000-applicants-for-55-rental-units.html?ref=nyregion&nprod=nytnow&_r=0&referrer=

[22] – http://money.cnn.com/2014/07/28/luxury/housing-inequality-poor-door/?iid=EL

[23] – http://gothamist.com/2013/12/23/bill_de_blasio_hires_goldman_sachs.php

[24] – http://urbanomnibus.net/2013/01/the-ins-and-the-outs-the-gentrification-of-franklin-avenue/

[25] – http://www.nytimes.com/2015/06/25/nyregion/new-york-city-public-housing-units-remain-empty-unnecessarily-audit-finds.html

[26] – http://creativetimereports.org/2013/10/07/david-byrne-will-work-for-inspiration/

[27] – http://www.nytimes.com/2015/03/25/nyregion/as-manhattan-area-codes-multiply-some-still-covet-a-212.html

[28] – http://212areacode.com/

[29] – http://nypost.com/2012/01/04/the-branding-of-brooklyn/

[30] – http://www.propertyshark.com/Real-Estate-Reports/2012/12/27/booming-neighborhoods-in-brooklyn/

[31] – http://www.nytimes.com/2014/09/20/world/europe/mikheil-saakashvili-georgias-ex-president-plots-return-from-williamsburg-brooklyn.html?gwh=75066EC5C1D9D5FC9553954762D749C8&gwt=pay&assetType=nyt_now

[32] – http://www.metro.us/new-york/bushwick-graffiti-artist-wages-war-on-gentrification-tags-local-murals/zsJobc—9ei8ROXcLhuY2/

[33] – http://www.villagevoice.com/news/a-manhattan-landlord-is-evicting-an-entire-block-of-latino-business-owners-7268863

[34] – http://www.npr.org/sections/thetwo-way/2015/06/19/415006564/neighbors-of-brooklyn-deli-fight-gentrification-with-grass-fed-tuna-salad

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