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Nelson Mandela morre – por uma autêntica igualdade, lutar pelo socialismo!

Por todo o país as pessoas se reuniram para prestar homenagem a um lutador da liberdade. No Soweto, onde Mandela viveu parte de sua vida, as pessoas saíram às ruas para lamentar sua morte e comemorar sua vida. A bandeira nacional tremulará a meia altura até seu funeral.

Nelson Mandela foi uma grande figura histórica e política. Ele foi o principal líder da luta contra o monstruoso regime do Apartheid. Por esse motivo, ele foi preso durante grande parte de sua vida por esse mesmo regime.

Na época, Mandela era odiado pela burguesia sul-africana e seu governo “nacionalista”, que o considerava um terrorista, o mesmo faziam a primeira-ministra britânica Margareth Thatcher e o presidente americano Ronald Reagan. Ele era visto como um vilão pelos jovens conservadores britânicos.

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O atual primeiro ministro David Cameron participou de um grupo de lobby pelo fim das sanções ao regime do Apartheid quando tinha apenas 23 anos, em 1989, quando Mandela ainda estava na cadeia. Também se sabe que Cameron tinha ótimas relações com o então presidente da África do Sul Peter Bowa. Quando Mandela definhava na prisão, esses que hoje choram lágrimas de crocodilo o consideravam um “terrorista”.

Contudo, enquanto era odiado pelas elites sul-africanas e os governos imperialistas que as apoiavam, os 27 anos de prisão deram a Mandela uma admiração incondicional por parte da classe trabalhadora. Foi na prisão que Mandela contraiu a doença pulmonar responsável por sua morte.

Durante seu tempo na prisão, Mandela era considerado pelos pobres, oprimidos, marginalizados e perseguidos da sociedade um herói na luta pela liberdade. Para os ricos, na época, ele era o demônio encarnado. Durante seu tempo na prisão, Mandela não tinha nada a ver com essa mídia internacional hipócrita que agora esbraveja lamentos a sua morte.

Tudo isso mudou a partir dos anos 80, quando os trabalhadores sul-africanos, ao lado dos miseráveis, se revoltaram, mobilizaram-se e fundaram a COSATU, a poderosa central sindical formada pelo movimento operário sul-africano. Foi essa mobilização de massas, com inúmeras manifestações gigantescas de jovens e trabalhadores, que realmente destruiu o Apartheid na África do Sul. A mesma burguesia que manteve Mandela na prisão por anos, vendo que conter o movimento com seus próprios instrumentos era impossível, começou a manobrar em outra direção.

A mobilização no campo e nas cidades foi tão intensa que a classe dominante se dividiu em dois campos, que se dividiam a cerca da melhor forma de lidar com o movimento amplo que se iniciara. O primeiro era o da linha-dura, que girava em torno do presidente Bowa. Esse campo, enquanto começava negociações com o movimento de libertação nacional, não queria cruzar qualquer linha que levasse a uma concessão em relação às políticas raciais. O segundo campo, concentrado em torno do político De Klerk, era o dos reformadores, que viam que para sobreviver, as elites precisariam entregar anéis e pulseiras para salvar suas mãos e braços. Esse grupo desejava destruir o Apartheid para salvar o sistema capitalista sobre o qual a segregação sempre esteve baseada.

Sendo assim, as negociações provaram ser uma faca de dois gumes para as massas. Se por um lado é indiscutivelmente válido dizer que o fim da segregação racial e a proclamação de direitos universais para todos foi um grande avanço para as massas sul-africanas, a permanência do capitalismo fez com que a nova liberdade fosse uma liberdade atada a correntes e bolas de ferro.

Em 1959, Mandela derrotou os defensores da proposta que se limitava à declaração de direitos e defendeu a nacionalização da economia de forma apaixonada, o que lhe custaria mais de duas décadas na cadeia. Essas foram suas palavras:

“É verdade que se fosse feita a proposta de nacionalização dos bancos, minas de ouro e propriedades rurais, a declaração desferiria um golpe mortal nas elites que durante séculos pilharam o país e condenaram seu povo a um sofrimento insuportável. Este passo (da nacionalização) é imperativo porque nenhuma declaração de direitos pode ser aplicada com sucesso sem que os grandes monopólios sejam esmagados e a riqueza nacional confiada ao povo.”

Contudo, Mandela jamais relacionou a nacionalização com o socialismo. Mandela via a nacionalização da economia como um gesto nacionalista. Ao sair da prisão, Mandela voltou a defender a nacionalização: “nacionalizar bancos, minas e indústrias é política oficial do Congresso Nacional Africano (CNA), e qualquer tentativa de mudança nessa política é inconcebível.”

Sua posição a cerca da nacionalização logo mudou drasticamente. Ele foi submetido a mais intensa pressão por parte da burguesia sul-africana e internacional para abandonar suas posições mais radicais. Sua visita ao Fórum Econômico Internacional de Davos o colocou ao lado da burguesia internacional que o persuadira a abandonar suas posições e abraçar o mercado. Nesse processo, o ex-presidente da De Beers Consolidate Mines, gigante empresa sul-africana de mineração, Harry Oppenheimer, foi o principal instigador.

Esta mudança de posição em prol do “mercado” provou-se desastrosa para os trabalhadores. Nas palavras de Ronnie Kasrils, um líder do CNA: “Essa foi a época, entre 1991 e 1996, que a batalha pela alma do CNA foi travada – e perdida para o poder das grandes corporações. Aquele foi o fatal divisor de águas. Eu chamarei de momento Faustiano, quando nós nos tornamos presos a um poder externo – e dizem que vendemos as almas de nossos companheiros.”

Mandela faleceu em uma época de intensa luta de classes na África do Sul. Hoje, a desigualdade é maior no país do que era no tempo do Apartheid. Este é o resultado inevitável do capitalismo. A história já ensinou que libertação nacional sob uma base capitalista não funciona. Isso porque as massas não lutavam apenas contra as leis segregacionistas, mas também contra a falta de empregos, péssimas condições de trabalho e de vida. Nenhuma dessas aspirações foi atendida até hoje.

Não há dúvidas de que a burguesia vai evocar o legado de “união nacional” e “reconciliação nacional” nestes tempos. O objetivo é claro: tentar impedir as massas de atingir seus objetivos e bloquear seu caminho em direção a sua emancipação. Contudo, eles não terão sucesso na empreitada.

As qualidades revolucionárias que fizeram de Mandela um líder e militante tão respeitado – sua militância na juventude, sua firmeza e sua disposição em sacrificar sua vida pela liberdade – são hoje vistas no proletariado jovem da África do Sul. Mas não há outro caminho para a burguesia e o proletariado nos dias de hoje que não seja a luta de classes. O capitalismo na África do Sul e no mundo está vivendo a maior crise de sua história. Esse sistema não tem nada a oferecer a não ser pobreza, fome, doenças, falta de moradia e de direitos. Hoje, a luta pela igualdade de direitos significa a luta pelo socialismo.

Não há futuro para a reconciliação ou unidade nacional. O presente e o futuro serão determinados pela luta de classes. Mas para os trabalhadores vencerem esta luta, será necessária a construção de fortes tendências marxistas dentro de todas as organizações de massas. Essa é a tarefa para o qual todos os socialistas devem dedicar suas vidas. Somente sob um regime socialista poderá se erguer uma África não-racista, não sexista e igualitária para todos.

Traduzido por Arthur Penna 

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