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Não à intervenção imperialista na Líbia

No momento em que a ONU aprova a intervenção militar estrangeira na Líbia, publicamos a tradução de um artigo de Fred Weston, do Secretariado Internacional da CMI (Corrente Marxista Internacional), escrito há 18 dias, que poderia ter sido escrito hoje.

Na cidade líbia de Az Zawiyah (próxima à capital), os rebeldes resistiram a uma tentativa das forças de Khadafi de retomar a cidade. De acordo com informações de testemunhas, foram 6 horas de luta durante a noite, enquanto os dois lados lutavam pelo controle da cidade. Como informou um ativista anti-Khadafi: “Nós conseguimos derrotá-los porque nosso ânimo está elevado e o deles está zero”.

Os dois lados estão fortemente armados. As massas rebeldes contam com o auxílio de militares que se passaram para o seu lado; enquanto Khadafi ainda conta com algumas forças leais a ele. As forças rebeldes têm tanques, metralhadoras e armas antiaéreas. De fato, os rebeldes derrubaram na cidade de Misurata um avião militar de Khadafi, na segunda-feira (28/02).

Há, agora, uma possibilidade real de um confronto militar significativo entre os dois lados, enquanto Khadafi e seus filhos, que estão entrincheirados com todas as suas forças, tentam desesperadamente manter as áreas sob seu controle. O putrefato regime, que perdeu o controle da maioria do país, não se importa em absoluto de matar seu próprio povo. Seu lema parece ser “se tivermos que ir, arrastaremos o país conosco”.

Hipocrisia do imperialismo

Enfrentados a esse cenário, todas as maiores potências do mundo estão unidas para exercer pressão sobre Khadafi para que ele vá embora. A crise na Líbia já elevou o preço do petróleo a 114 dólares o barril e, se a situação continuar a piorar, o preço do petróleo poderá subir muitas vezes mais. O crescimento econômico nas três principais áreas do mundo capitalista desenvolvido, a América do Norte, a União Européia e o Japão, já se tornara algo mais lento ainda antes dos acontecimentos revolucionários irromperem no Oriente Médio. Um aumento significativo no preço do petróleo poderia empurrar a economia mundial de volta à recessão exatamente quando estavam emergindo da anterior. Isso faz soar os sinais de alarme pelos corredores do poder.

Isso também explica porque os imperialistas estão todos agora expressando preocupação sobre o desastre “humanitário” que a Líbia poderia enfrentar. Desta forma, o Conselho de Segurança da ONU, durante o último fim de semana, votou unanimemente a imposição de sanções ao regime de Khadafi, que incluem o embargo e o congelamento dos bens patrimoniais do ditador. Eles também o denunciaram na Corte Penal Internacional por crimes contra a humanidade.

Potências como os EUA e a Grã-Bretanha estão examinando a possibilidade de impor uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia, como a que eles impuseram sobre o Iraque durante o regime de Saddam Hussein. Os EUA estão movendo seus navios de guerra e sua força aérea para as proximidades da Líbia, enquanto os britânicos estão considerando a possibilidade de mover seus jatos Typhoon para a base da RAF instalada em Akrotiri, no Chipre.

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, anunciou ontem que tinha pedido ao chefe do seu gabinete de defesa para analisar com os aliados a preparação dessa zona de exclusão aérea. E, hoje (1º de março), ele disse que “… nós não descartamos de forma alguma o uso de medidas militares”. Na última semana, Ian Birrel, no The Guardian, exigiu a ação da OTAN e das Nações Unidas, pedindo uma intervenção militar, por razões “humanitárias”, of course.

Khadafi sente-se “traído” pelo Ocidente

A hipocrisia dos imperialistas não tem limites. No passado, fizeram acordos com Khadafi, tanto econômicos quanto militares. Isto também explica porque Khadafi, em sua entrevista à BBC, revelou que se sentia “traído”. O repórter da BBC, Jeremy Bowen, perguntou a Khadafi: “Em anos recentes, você teve uma reaproximação com os países do ocidente. Você recebeu líderes importantes, como Tony Blair, aqui, na Líbia. Mas, agora, há líderes ocidentais dizendo para você ir embora. Você se sente traído com isto? Você ainda os considera como amigos?” E Khadafi respondeu: “Naturalmente, é uma traição. Eles não têm nenhuma moral”. De fato, não há nenhuma honra entre ladrões, como diz o ditado.

No cantinho da página 524 do documento intitulado Congressional Budget Justification, Foreign Operations FY 2009 Budget Request (Justificativa Congressual do Orçamento, Requerimentos de Operações Externas FY 2009), encontramos que o governo dos EUA, longe de exigir a derrubada de Khadafi, estava financiando a Líbia em seu autodenominado esforço de “combate à al-Qaeda”.

O documento expõe claramente os objetivos dos EUA na Líbia:

“… Os EUA realizarão operações vinculadas às forças de segurança da Líbia que ajudarão na promoção de maior cooperação anti-terrorista. Os fundos militares para a formação e treinamento formarão e treinarão forças de segurança líbias, assim como criarão vínculos essenciais com os oficiais líbios depois de 35 anos de ausência de contatos. Os fundos iniciais seriam usados para o ensino da língua inglesa, enquanto os representantes do governo dos EUA no país procuram identificar candidatos a cursos específicos sobre relações entre civis e militares, proteção das fronteiras, anti-terrorismo etc.”.

E para encobri-los contra qualquer possibilidade de acusação de que eles estavam de fato treinando as forças de segurança líbias, que nunca foram conhecidas por seu respeito aos direitos humanos, o documento agrega:

“Isto poderia incluir programas que tragam oficiais líbios aos EUA para que conheçam as práticas democráticas de respeito aos direitos humanos”.

Em 2008, os EUA alocaram 333 mil dólares em fundos IMET (International Military Education and Training) e tinham orçado mais 350 mil para 2009, destinados à Líbia, devido ao seu “compromisso de renunciar às armas de destruição em massa; de combater a ameaça terrorista da al-Qaeda na Líbia e na região; e de promover eficazmente a lei e os serviços militares e profissionais que respeitem as normas e práticas internacionais” (fonte: IMET Account Summary).

[Nota do Tradutor: o IMET, International Military Education and Training, é um programa que provê fundos para o treinamento de líderes militares e civis de países estrangeiros, principalmente em escolas e instalações dos EUA].

Tanto o Egito quanto a Tunísia receberam valores muito maiores e por tempo mais longo, sem qualquer melhoria visível nas “práticas democráticas de respeito aos direitos humanos”.

Os europeus e os russos não fizeram por menos. De acordo com um informe da União Européia, somente em 2009, os Estados membros da União Européia proporcionaram a Khadafi 334 milhões de euros em equipamentos militares. Os líderes russos nos últimos dias têm declarado que Khadafi não pode continuar no governo, mas há somente 1 ano atrás, em janeiro de 2010, assinaram um contrato de fornecimento de equipamentos militares à Líbia no valor de 13 bilhões de euros. Isto aconteceu nos maravilhosos dias em que eles podiam fazer excelentes negócios com o mesmo homem que, agora, eles dizem para deixar o poder.

Os imperialistas estão considerando a intervenção militar

O que os imperialistas estão considerando agora – se conseguirem sair dessa enrascada – é explorar a crise na Líbia para obter um ponto de apoio no Norte da África, que está sendo abalado pela revolução do Egito ao Marrocos, bem como em todo o Oriente Médio. Seu interesse fundamental, contudo, não é o bem-estar do povo líbio, mas o de garantir o fluxo do petróleo líbio e defender os interesses de suas empresas que operam no país.

Lord Trefgarne, presidente do Conselho de Negócios Líbio-Britânicos, disse ao The Independent que: “Nós temos cerca de 1,5 bilhões de libras de comércio no total, dos quais a maior parte é de importação do petróleo bruto e de gás da Líbia para o Reino Unido, mas tínhamos visíveis possibilidades de exportar aproximadamente 400 milhões de libras no último ano, o que, suponho, deve estar em jogo”.

A maioria das maiores empresas petrolíferas opera na Líbia e a produção de petróleo agora tem queda estimada de 25% e poderia cair ainda mais. Como podemos ver, o preço do petróleo levanta vôo em conseqüência de tudo isso.

A hipocrisia do súbito interesse dos imperialistas pela má situação do povo líbio evidencia-se quando a comparamos com sua reação à guerra no Congo, onde se estima que cerca de cinco milhões de pessoas foram mortas nos últimos anos. Não houve nenhuma intervenção “humanitária” no Congo; a razão para isto é que a guerra estava sendo muito lucrativa para as empresas ocidentais que estavam extraindo os minérios no Congo em condições de trabalho semi-escravo. As diferentes milícias existentes no país eram mantidas por uma ou outra das maiores potências imperialistas.

Agora, querem nos fazer acreditar em seu súbito interesse pelo sofrimento do povo líbio. Devemos dizer claramente: a razão porque a OTAN e as Nações Unidas apoiariam a intervenção militar na Líbia é o estrangulamento da genuína revolta do povo e para ganhar o controle do petróleo, ao mesmo tempo.

Khadafi, ao tentar se manter a todo custo, levou à irrupção de uma situação revolucionária na Líbia, onde setores inteiros do Exército e das Forças de Segurança se passaram para o lado do povo. O poder, de fato, caiu nas mãos dos rebeldes na maior parte do país e isto é o que aterroriza as maiores potências.

Mas o povo líbio quer se libertar por si mesmo

Todos os verdadeiros socialistas seriam contra uma invasão imperialista do país. Mas também o povo revolucionário da Líbia se opõe a uma invasão. De acordo com a rede de TV Al Jazeera, Abdel Fattah Younes, o anterior ministro líbio do interior que desertou para a oposição, declarou que a idéia de que o povo daria as boas vindas a tropas estrangeiras estava “fora de questão”.

Isto foi confirmado por Hafiz Ghoga, portavoz do recentemente formado “Conselho Nacional Líbio” que foi instalado em Benghazi. Ghoga afirmou: “Nós somos totalmente contrários a uma intervenção externa. O restante da Líbia será libertado pelo povo… e as forças de segurança de Khadafi serão eliminadas pelo povo da Líbia”.

Os jornalistas que atravessaram o país para as áreas libertadas da Líbia informaram que o povo em Benghazi levava cartazes com palavras-de-ordem como “Não à intervenção estrangeira” e estão dizendo que eles não querem armas dos EUA. Eles entendem perfeitamente bem que qualquer invasão por parte das forças da OTAN, ainda que aprovada pelas Nações Unidas, não ajudaria o povo líbio.

Eles sabem que, enquanto Khadafi estava no poder, com seu regime despótico, que usava regularmente a tortura e o assassinato para sufocar qualquer dissidência, as potências “democráticas” não tinham qualquer escrúpulo para negociar com ele. Elas fizeram acordos econômicos e financeiros com ele, enquanto o povo sofria. Elas sempre estiveram prontas a lhe vender armas e até mesmo a treinar suas forças de segurança, as mesmas forças que agora desencadearam a fúria da guerra sobre o povo líbio.

A tarefa de derrubar Khadafi pertence ao povo líbio, aos trabalhadores e à juventude, aos desempregados e aos pobres oprimidos. Se qualquer potência estrangeira intervier para removê-lo, isto equivaleria a roubar a vitória do povo líbio. O povo líbio saberá como resistir a qualquer um desses movimentos.

Londres, 1º de março de 2011.

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