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Mineiros da Bolívia explicam o conflito de Huanuni no Encontro PanAmericano

Uma montanha repleta de minérios foi o palco de terríveis e heróicos combates entre mil mineiros assalariados e quatro mil cooperativistas, em outubro do ano passado, na região de Huanuni (Bolívia). Dois dias de conflito, dezesseis mortos e centenas de feridos. As mortes, o sangue e as lágrimas derramadas foram o sacrifício exigido pela história para a conquista da nacionalização das minas na região e para a adesão dos cooperativistas de base à empresa estatal Corporação Mineira da Bolívia (COMIBOL), não mais como trabalhadores por conta própria e sim como assalariados do povo boliviano.

Os companheiros da Federação Sindical dos Trabalhadores Mineiros da Bolívia (FSTMB) e da Central Operária da Bolívia (COB) estiveram presentes ao Encontro PanAmericano para explicar o que houve, sob a luz da luta de classes, além de ligarem suas reivindicações à luta dos trabalhadores das fábricas ocupadas do continente.

“Oito meses antes do confronto, pedimos a reversão das minas para o Estado, mas o governo não atendeu. Depois do conflito, pedimos que o governo decretasse em Huanuni a nacionalização e a transformação dos cooperativistas de base em assalariados da COMIBOL. Se isso valeu a pena ou não é só ver que agora muitos cooperativistas de base são assalariados trabalhando para o Estado e o povo boliviano. Além disso, a mina está sob controle operário e estatizada, com 5 mil trabalhadores filiados ao sindicato e à FSTMB. E esse sindicato vai dar a direção à classe operária para que todas as minas sejam nacionalizadas sob controle operário”, avalia o sindicalista mineiro Roberto Chávez.

Mas por que isso aconteceu?

O avanço das cooperativas é o resultado da política de privatização do setor mineiro promovida nas décadas anteriores. Algumas pessoas que trabalham por conta própria nas minas se tornaram, na prática, pequenos patrões que lucram com a exploração barata e anárquica dos demais cooperados. Essas pessoas, que mantém ligação com empresários e dirigentes políticos da direita, se aproveitaram da aliança que estabeleceram com Evo Morales para tentar tomar a mina mais rica de América.

“O interesse dos cooperativistas é econômico, impulsionado pelos contratos de privatização. O governo Evo Morales se equivocou em fazer alianças com setores que antes conjuravam com a direita. O grande erro de Morales foi essa aliança, porque entregou o Ministério e a COMIBOL para os interesses das cooperativas. O governo também teve parte da responsabilidade sobre o que ocorreu porque a decisão de nacionalizar veio muito tarde”, explica Roberto Chávez.

Entenda a situação

“Através de grandes mobilizações, derrubamos um governo de direita e oligárquico e se temos um presidente, através do voto, que teve o apoio majoritário da população e de indígenas é porque está comprometido com a agenda de 2003, que é a recuperação, sem indenização, dos hidrocarbonetos e a estatização das minas que estão em mãos privadas.

Huanuni é o eixo fundamental para a reativação da COMIBOL. A FSTMB, em muitos eventos nacionais, tirou resoluções muito importantes de impor ao governo Evo Morales a recuperação de todo o setor mineiro para as mãos do Estado e dos trabalhadores”, ressalta o sindicalista.

Assim, a questão a ser revertida nessa luta é exatamente a situação caótica das minas, deixada pelos contratos de privatização. “Os assalariados trabalham sob uma direção técnica, com hora certa, sob proteção de leis trabalhistas e sob uma produção racional para beneficiar o Estado, o país. Os cooperados vão à mina e tiram o que podem, sem direção técnica, sem horário definido e seguridade social e ainda recebem rendas menores”, explica Roberto Chávez.

Por isso, a vitória dos assalariados no conflito de Huanuni impulsiona novamente a luta das grandes jornadas de outubro de 2003 e pode repetir o êxito de maio de 2005, quando o petróleo e gás foram nacionalizados. Que 2007 seja o ano da nacionalização das minas e dos minérios, como Evo Morales já vem prometendo.

Homenagem dos mineiros

Roberto Chavez, presidente da Federação Sindical dos Trabalhadores Mineiros da Bolívia (FSTMB), sempre que fala em público, veste o tradicional capacete de trabalho dos mineiros, como forma de causar identificação com a luta revolucionária da vanguarda operária boliviana.

A categoria, de fervorosa e exemplar história de luta, rendeu uma homenagem aos companheiros da Cipla, Interfibra e Flaskô. Presenteou Serge Goulart, da coordenação das Fábricas Ocupadas, com um belíssimo brasão da FSTMB esculpida em madeira e com o próprio capacete.

O público presente aplaudiu de pé, retribuindo o gesto de solidariedade dos mineiros.

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