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México: Vote e lute contra a direita e o capitalismo

[…] A democracia não suprime a opressão de classe, mas faz com que a luta de classes seja mais ferrenha, mais ampla, mais aberta e mais aguda; e isto é o que precisamos. Quanto mais plena seja a liberdade de divórcio, mais clara será para a mulher que a origem de sua “escravidão doméstica” reside no capitalismo e não na falta de direitos. Quanto mais democrático seja o regime político, tanto mais claro será para os trabalhadores que a raiz do mal está no capitalismo e não na falta de direitos. E assim sucessivamente[1]. (LENIN. Sobre la caricatura del marxismo y el economicismo imperialista. p. 29.)

No dia 1º de julho, domingo, se desenrola uma das eleições mais importantes na história recente do país. Depois de 30 anos de uma política brutal contra os trabalhadores, a juventude, as mulheres e os pobres do México, há uma situação que ameaça estourar. A burguesia militarizou e afogou o país em sangue para manter seu regime de exploração. Os candidatos expressam de maneira obscura essas forças que agora estão lutando para aprofundar esta barbárie ou pará-la.

Três décadas de miséria

O que representaram para as massas mais pobres da população essas últimas três décadas, é uma coisa espantosa, e para ter um ponto de comparação, temos que lançar mão dos números que se tinha antes do chamado neoliberalismo e comparar com as atuais:

México esteve imerso no neoliberalismo 32 anos e os resultados são contundentes: “com Porfirio Díaz, 95% da população era pobre. Em 1981 havia caído a pouco mais de 40%. Atualmente é de 85%”, assinala em entrevista para o Contralínea o doutor José Luis Calva Téllez, membro do Instituto de Pesquisas Jurídicas da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM)[2].

Além disso, o poder aquisitivo dos salários caiu 71,5%. Com o salário mínimo é praticamente impossível viver, nem se quer poder comprar a cesta básica necessária. Foi feita uma reforma fiscal para que os grandes empresários não tivessem que pagar impostos ou revertê-los e, pelo contrário, ampliar a quantidade de impostos sobre uma massa cada vez maior de comerciantes, da classe média e dos trabalhadores. Priorizou-se a gestão “macroeconômica, não importando mais nada. Privatizaram-se mais de mil empresas estatais para que o governo não tivesse que intervir na economia. Liberou-se o comércio exterior, reduzindo de maneira drástica todos os impostos ou taxas para os produtos estrangeiros; privatizou-se o sistema financeiro mexicano”.

Como resultado de tudo isso, vimos uma alta concentração da riqueza em um punhado de empresas e famílias que são as que verdadeiramente dirigem o país:

Desde a administração de Lázaro Cárdenas até o início da era neoliberal, “o produto interno bruto (PIB) cresceu a uma taxa de 6,1% anual, o que significou um crescimento acumulado de 1.597% e de 348% por habitante”, enfatiza o pesquisador José Luis Calva. Em consequência, aconteceu uma “elevação de 200% no poder aquisitivo dos salários manufaturados, enquanto que os salários mínimos aumentaram 97% seu poder de compra”[3].

Nas três décadas neoliberais, o PIB per capita cresceu a uma taxa de 0,6% anual, ou seja, um crescimento acumulado de 21%.

Isso sem contar os milhões de mexicanos que emigraram a procura de empregos que não encontram em nosso país. Então, contando os emigrados, o crescimento do PIB por habitante é de somente 0,3% anual e acumulado de 10% em 32 anos, [detalha o autor do México além do neoliberalismo]. Opções dentro da mudança global[4].

O PIB per capita, considerando a Coreia do Sul, em 1982 era a seguinte: o país asiático era de 3.925 dólares por ano, o mexicano era de 7.762 dólares em média. Agora a situação é totalmente inversa: agora na Coreia é de 20.210,70 dólares de média, no México apenas 9.755,90 dólares. Na Coreia cresceu cerca de 456,70%.

México, em 1982, era uma economia maior que a China – segundo dados do FMI – a economia mexicana era de 488.140 MDD, a China era de 390.660 MDD. Colocavam-se a nível mundial como a nona e a décima, agora isso mudou bruscamente.

Tudo isso é consequência de uma política implementada para retirar a riqueza e recursos do povo. O neoliberalismo concretamente significou a redução do gasto público social, a privatização das empresas estatais, o corte de subsídios para o campo e uma redução para o mínimo da intervenção do Estado em assuntos econômicos. A finalidade disso tudo era fortalecer o poder dos ricos, criar uma nova camada de milionários que encheram os bolsos à custa dos recursos do Estado e dar todas as possibilidades para que o imperialismo, particularmente o estadunidense, entrasse e inundasse o mercado com produtos que sobravam da burguesia dos Estados Unidos. Exportação da crise estadunidense a terras mexicanas.

Para manter este regime de exploração massivo, tiveram que enviar o exército, a marinha e demais forças de repressão à rua para intimidar o movimento social, assassinar ativistas e jornalistas que incomodavam, militarizar grandes regiões do país, assassinar de maneira descabida qualquer que fosse jovem, entre outras atrocidades. Tudo isso em nome de uma guerra fictícia contra o narcotráfico. O conflito aberto entre os cartéis e o governo decompôs toda a estrutura política, econômica e social do país. As estruturas estatais fragmentaram-se em importantes partes do país, dando lugar a uma situação onde o mais forte é quem domina. Isso, ao mesmo tempo, é campo fértil para o desaparecimento e assassinato de mulheres, violência familiar, desaparecimento de crianças, entre outros.

A burguesia e o imperialismo decidiram decompor e afundar o país em sangue para manter seu regime de exploração. Essa é a mostra mais clara prova de que a burguesia não se interessa absolutamente por mais nada, além de seus interesses pessoais, por seus ganhos. Não se importa que haja em 12 anos mais de 300 mil pessoas mortas, que outras milhares sejam desalojadas pela guerra, que se viole a uma mulher a cada 16 minutos etc. Há um clima de guerra civil em todo o país. A população já não suporta mais a violência.

O que oferecem as coligações encabeçadas pelo PRI e o PAN?

Quando AMLO[5] disse que o que está em jogo são dois projetos de nação distintos, tem razão. Não estamos falando que AMLO queira acabar com o capitalismo. Na realidade sua política é de reforçar o capitalismo. Ainda assim, dentro do capitalismo há diferentes modelos de acumulação e é disso que estamos falando.

Os projetos que representam o PRI[6] e o PAN[7] são o da continuidade deste clima de exploração brutal, de sangue e de dor. Estes partidos representam o programa do imperialismo e da oligarquia. Nos diferentes momentos da campanha eleitoral pudemos ver não somente seu programa, mas características pessoais de seus dois candidatos.

A primeira a se destacar em ambos os candidatos da direita são suas recorrentes mentiras. Os dois são cúmplices da corrupção, das reformas estruturais que nos mantêm na miséria. Os dois estão ligados com o pior da desgraça nacional mexicana dos últimos anos. Entretanto, ambos mentem descaradamente para acusar AMLO de culpa pelo que acontece no país.

Os dois são participantes, de maneira direta ou velada, do pior câncer que consome a sociedade capitalista: a exploração e a corrupção. Anaya[8] é investigado por lavagem de dinheiro. Meade[9] esteve à frente da Secretaria da Fazenda quando de desvios de fundos em distintas secretarias, além de estar vinculado a todas as reformas que ele diz terem beneficiado o país.

O que podem oferecer à população mais pobre? Só continuar mantendo o regime de opressão.

O que propõe AMLO?

AMLO não propõe uma mudança de sistema – o capitalista pelo socialista – o que pretende é voltar ao capitalismo mais “humano”, em alguns países chamado de “terceira via”. No programa de governo que apresentou nos debates e demais meios de comunicação, ele diz que seu objetivo fundamental é terminar com a corrupção. Não expõe um plano de desapropriações, nem desenvolver uma grande indústria nacional como se tinha previamente ao neoliberalismo. Para os empresários oferece um país de oportunidades, sem privilégios e sem corrupção.

Para os mais pobres também oferece um bom catálogo de propostas, particularmente com respeito à juventude: compromete-se a dar educação para todos, em todos os níveis, saúde universal – não o chamado seguro popular, mas os sistemas de saúde como o IMSS[10] e o ISSSTE[11] para todos – além de falar de bolsas para os jovens e programas onde o Estado ocupará milhões de jovens por ano. Diz que elevará as aposentadorias e pensões para idosos e mães solteiras, entre outros benefícios, tudo isso é um bom começo e nós apoiamos.

Ele disse que os recursos para esses projetos e um grande plano de infraestrutura nacional serão conseguidos eliminando a corrupção e diminuindo os altos salários da burocracia, bem como reduzindo o número de trabalhadores do Estado, além de economizar em gastos desnecessários etc, ou seja, o que propõe é que os interesses das grandes empresas ou dos bancos não sejam tocados, que não se peça mais empréstimos ao estrangeiro etc. Temos sinceras dúvidas acerca da possibilidade de o dinheiro que ele economize com as medidas propostas alcance todas as reformas pretendidas. Além disso, temos que ter em conta que o grande provedor do gasto estatal, PEMEX[12], está em arrematação por empresas privadas, que os custos das mercadorias em nível internacional são bem baixos e que as negociações acerca do TLC[13] não vislumbram um bom caminho, favorável para os trabalhadores mexicanos.

Se nos deixam escolher, ficamos com…

Para várias organizações sectárias, grandes e pequenas, o que acabamos de dizer, que AMLO não vai contra o capitalismo nem a favor do socialismo, que o que procura é um capitalismo com face humana, basta para dizer que é o mesmo que os demais candidatos e que, por isso, há que se abster do voto, ou se manter na luta social – como se as eleições não fossem parte dessa luta incansável do povo por sua emancipação.

O pensamento dessas organizações e de seus membros se abstrai da realidade. Para eles o fato de que existam milhões de pessoas que vão votar em AMLO não lhes interessa, o mesmo lhes parece que esses mesmos milhões enxerguem AMLO como uma alternativa para transformar sua realidade. Como eles não estão à frente dessa luta, e as bandeiras vermelhas com a foice e martelo não estão sendo agitadas, então simplesmente omitem esse “pequeno incidente eleitoral”.

Além disso, as alianças de Morena com o PES e a incorporação de nefastos candidatos a distintas candidaturas lhes é o pretexto perfeito. Em cada ocasião onde tivemos a possibilidade de expor nosso ponto de vista, dizemos claramente que somos contrários, totalmente, à política de alianças do Morena. Criticamos seu programa porque não rompe com o capitalismo (vide a crítica ao programa do Morena em Proyecto de Nación 2018-2024, una crítica desde el marxismo) e nos manifestamos contra a imposição e destruição da democracia interna desse partido. Essas são coisas que temos que dizer e explicar.

Pois bem, seria ou não importante para as massas em nosso país experimentarem um governo de AMLO? Seria importante frear essa barbárie agora mesmo e que tivéssemos a possibilidade de lutar por melhores salários, por mais educação, contra os feminicídios, contra o capitalismo, sem que o exército apontem suas armas contra nossas cabeças? Somente uma pessoa que está mal de suas faculdades mentais não responderia sim a estas perguntas (existem alguns lunáticos que dizem que quanto pior estiver nossa situação, mais radical será a luta de classes; já estamos a 12 anos de guerra civil e não é essa a perspectiva).

Nós, marxistas, pensamos que dentro do capitalismo não há solução dos problemas mais urgentes que enfrenta o país, mas isso sabemos nós, que estudamos a história e temos claro que o socialismo é a saída. Mas os 15, 20, 30 milhões que votarão em AMLO não o sabem ainda, têm que experimentar na própria carne as limitações de um programa reformista. Lenin dizia que a escola da vida é a única maneira de aprendizado para as massas.

Alguns dizem que é necessário dar-lhe uma oportunidade; nós dizemos que há de ser colocado à prova, há que precipitar a experiência das massas por via de sua experiência. Por isto, apesar de tudo o que criticamos de AMLO, pedimos um voto muito crítico nele nas próximas eleições. E, além disso, explicamos que não só é necessário votar, mas nos organizar e lutar.

As contradições de um governo da AMLO

Do mesmo modo, diremos o seguinte: um governo da AMLO estaria submetido a grandes pressões. Já vimos uma pequena prova do que pode ocorrer, multiplicado por cem. A oligarquia e uma parte do imperialismo estadunidense não têm confiança nele. Como já mencionamos, não é porque ele atacará o capitalismo, mas porque lhes vão tirar uma parte de seus privilégios – contratos exclusivos com o governo, isenções de impostos, entre outros – e, principalmente, porque a burguesia nacional e estrangeira tem a experiência do que aconteceu na América Latina.

Os pobres do campo e da cidade, os trabalhadores, sentirão esse governo como seu e colocarão mãos à obra para recuperar tudo o que lhes tiraram, vão à rua e é possível que Andrés Manuel seja influenciado pelas massas e possa ir mais longe do que pretende em seu projeto. Isto o imperialismo não pode suportar.

Nessa luta de classes, as massas terão possibilidades de por à prova suas organizações políticas e sindicais, tirarão lições importantes que lhes ajudarão a compreender que somente terminando com o capitalismo se poderá avançar rumo a uma nova sociedade.

[1] LENIN. Sobre la caricatura del marxismo y el economicismo imperialista. p. 29.

[2] ROMERO, Mauricio. Neoliberalismo, la “fossa” de México. Contralínea, jan. 2015.

[3] ROMERO, Mauricio. Neoliberalismo, la “fossa” de México. Contralínea, jan. 2015.

[4] ROMERO, Mauricio. Neoliberalismo, la “fossa” de México. Contralínea, jan. 2015.

[5] Andrés Manuel López Obrador, candidato à presidência pela coligação Juntos Haremos Historia (Juntos Faremos História), liderada por Morena (Movimiento Regeneración Nacional – Movimento pela Regeneração Nacional), criado como associação civil em 2011 para impulsionar a candidatura do mesmo candidato nas eleições de 2012, virando partido de esquerda em 2014, juntamente com o Partido del Trabajo (PT – Partido do Trabalho), de esquerda e fundado em 1990, e o Partido Encuentro Social (PES – Partido do Encontro Social), de centro-direita, fundado em 2014 (Nota do Tradutor – N.T.).

[6] Partido Revolucionario Institucional (Partido Revolucionário Institucional), surgido após a Revolução Mexicana de 1929, inicialmente com o nome de Partido Nacional Revolucionário (PNR), modificado para Partido da Revolução Mexicana (PRM) em 1938 e chegando ao atual nome em 1946. Para saber mais sobre as consequências da Revolução Mexicana, leia o artigo A constituição de 1917 e o triunfo da burguesia na revolução mexicana, de Carlos Marques, publicado na revista América Socialista nº. 10, lançada pela Esquerda Marxista e disponível para venda na Livraria Marxista <http://www.livrariamarxista.com.br/acessorios/revistas/america-socialista-na10> (N.T.).

[7] Partido Acción Nacional (Partido da Ação Nacional), de direita, fundado em 1939 (N.T.).

[8] Ricardo Anaya Cortés, candidato a presidência pela coligação Por México al Frente (Por México à Frente), liderada pelo PAN juntamente com o Movimiento Ciudadano (MC – Movimento Cidadão), partido socialdemocrata fundado em 1999 (N.T.).

[9] José Antonio Meade Kuribreña, candidato a presidência pela coligação Todos por México, liderada pelo PRI juntamente com o Partido Verde Ecologista de México (PVEM), de direita, fundado em 1986, e Nueva Alianza (PANAL – Nova Aliança), partido de centro-esquerda, fundado em 2005 e ligado ao Sindicato Nacional de Trabalhadores da Educação (SNTE) do México (N.T.).

[10] Instituto Mexicano del Seguro Social (Instituto Mexicano de Seguridade Social), autarquia tripartide (governo federal, empregadores e trabalhadores) que presta serviços de saúde para seus filiados (N.T.).

[11] Instituto de Seguridad y Servicios Sociales de los Trabajadores del Estado (Instituto de Seguridade e Serviços Sociais dos Trabalhadores do Estado), órgão público de prestação de serviços de saúde (N.T.).

[12] Petróleos Mexicanos, empresa estatal criada em 1938, detentora do monopólio de exploração de petróleo no México (N.T.).

[13] Tratado de Livre Comércio na América do Norte (Nafta, em sua sigla em inglês), firmado com Canadá e Estados Unidos em 1988 (N.T.).

Artigo publicado pelo La Izquierda Socialista, seção mexicana da Corrente Marxista Internacional, sob o título “Vota y lucha contra la derecha y el capitalismo”, em 6 de junho de 2018.

Tradução de Nathan Belcavello de Oliveira

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