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México: conflito entre Obrador e a burguesia

Este artigo foi publicado em espanhol em 10 de maio, antes da eleição de Andrés Manuel López Obrador (AMLO) como Presidente do México. No entanto, pensamos que ainda é relevante mesmo depois das eleições mexicanas, uma vez que revela a preparação do conflito entre AMLO e a classe dominante mexicana.

O executivo do Estado moderno é apenas um comitê para administrar os assuntos comuns de toda a burguesia” – Marx e Engels, O Manifesto Comunista.

Nas últimas semanas, a burguesia mexicana se polarizou em relação ao candidato do Movimento Nacional de Regeneração (Morena), Andrés Manuel López Obrador (AMLO). O conflito começou quando o candidato presidencial manifestou sua discordância sobre a construção de um novo aeroporto na Cidade do México, de acordo com os planos do governo Federal e da grande burguesia. Alguns dias mais tarde, o homem mais rico do México se apresentou para defender o projeto do aeroporto, replicando: “suspender o projeto é suspender o progresso da nação”, e que isso seria um revés para milhares de famílias. Quando um jornalista perguntou quanto do dinheiro do multibilionário Carlos Slim havia sido investido no aeroporto, ele cinicamente respondeu que não havia investido um só peso [moeda mexicana], que o que havia sido investido eram fundos de aposentadoria administrados por uma de suas empresas, a Inbursa.

Mais tarde vazou que, depois de uma reunião que Obrador teve com os banqueiros, estes ficaram muito insatisfeitos com suas propostas. Em mensagens de WhatsApp, representantes do Bancomer disseram que se opunham totalmente a AMLO. E esse não é um sentimento isolado. De fato, todo o capital financeiro internacional, que controla os bancos nacionais, não confia em Andrés Manuel.

Os representantes mais poderosos da oligarquia se posicionaram em apoio ao candidato de direita do PRI, Anaya. Foto: Flickr, RAC conferencia

Mais tarde, em uma assembleia pública, Obrador disse que alguns empresários – da máfia no poder – haviam se reunido com Ricardo Anaya, o candidato da direita do Partido de Ação Nacional (PAN), para preparar a retirada de Meade, o candidato do Partido Revolucionário Institucional (PRI), em favor de Anaya. Isso provocou uma resposta furiosa dos empresários, que disseram que era uma mentira, que eles não estavam pressionando ninguém e que AMLO os estava caluniando.

A partir de então, a controvérsia se intensificou. Obrador deu os nomes dos oligarcas, particularmente de cinco deles (Claudio X González, Alberto Bailleres, German Larrea, Eduardo Tricon e Alejandro Amírez), e os acusou de estar diretamente envolvidos na fraude eleitoral de 2006 e de financiar as campanhas dos candidatos da direita. Ele os acusou de enriquecimento à custa dos interesses da nação e classificou-os como vorazes e egoístas.

De acordo com especialistas, o Conselho Empresarial Mexicano consiste de 60 das famílias mais poderosas do país. Eles divulgaram um comunicado intitulado “Assim não”, onde exigiram que AMLO não os chamasse de mentirosos e disseram que tinham o direito de defender seus pontos de vista e de dizer que não gostam das propostas dos candidatos. Dias depois, publicaram uma carta contendo centenas de assinaturas de empresas e empresários, enchendo mais de duas páginas em todos os jornais de circulação nacional. A burguesia estava cerrando fileiras como classe contra Obrador. Na carta, defenderam seu ponto de vista de classe, seus interesses e deixaram claro que são eles que proporcionam emprego e que não ficariam em silêncio.

Obrador ataca aos capitalistas?

AMLO insistiu em diversas entrevistas e assembleias que não tinha nada contra os capitalistas, que em seu governo haverá espaço para todos e que lhes dará oportunidades para que continuem aumentando seus negócios. No programa que apresentou para seu governo, em nenhum momento diz que nacionalizará empresas ou que é contra o capitalismo – uma posição que criticamos – nem fala sobre expropriações. Longe disso, o que propõe é apoiar as médias e pequenas empresas e seu desenvolvimento. Também propõe a abertura de corredores industriais no Norte e no Sul do país com convites às maiores empresas externas e nacionais a investir. Em seu Programa para a Nação, ele se oferece para abrir uma faixa de 30 quilômetros de largura ao longo de toda a fronteira mexicana como uma zona livre para investimentos: o capital israelense é mencionado especificamente. Essa zona de livre comércio também oferecerá impostos mais baixos sobre a coleta de água e eletricidade.

Obrador quer promover condições de capitalismo iguais às do Primeiro Mundo, onde o Estado desempenha um papel na promoção de obras públicas e no apoio ao capital privado. Por sua vez, também proporciona programas de bem-estar e apoio às pessoas que mais necessitam deles. Podemos afirmar que AMLO quer fortalecer um estado assistencialista que possa oferecer pequenas reformas para aliviar a dor da imensa maioria da população. Ao mesmo tempo, ele quer fortalecer o capitalismo mexicano e tirá-lo do atraso ao qual foi submetido tanto pelos imperialistas estadunidenses quanto pela covarde burguesia nacional, que ganha mais dinheiro alinhando-se ao imperialismo do que desempenhando um papel independente no desenvolvimento da economia da nação.

Um setor da burguesia e da pequena burguesia favorece uma mudança na política e apoia a AMLO, mas apenas porque o caos do status quo está atingindo seus cofres. Foto: Eneas De Troya

Portanto, a posição de AMLO é muito clara: ele não quer conflitos com a burguesia, não vai atacá-la como classe, e a única coisa que vai fazer é remover seus privilégios – por exemplo, os descontos de vários milhões em impostos que as maiores empresas recebem e os contratos secretos que elas mantêm com diferentes setores do governo. É também por isso que há uma parte da pequena burguesia mexicana, e até mesmo da grande burguesia, que apoia AMLO. Essas camadas não se beneficiaram totalmente de todas as reformas (do período “neoliberal”), nem da privatização dos bens públicos. A violência brutal que impregna o país atinge-os em seus bolsos, pois tiveram que abandonar áreas para os carteis e assim por diante. Pensam ser necessário que essa situação se acalme. Pedem uma mudança na política do país, mas não são uma classe revolucionária. Querem continuar gerenciando seus negócios, continuar obtendo lucros com os recursos naturais, com a força de trabalho e assim por diante. Mas não podem continuar fazendo isso nas presentes condições.

Qual é o problema fundamental?

O Conselho Empresarial Mexicano (CEM) é a oligarquia. Eles, junto ao imperialismo estadunidense, são os que realmente governam o país. Eles decidiram a política econômica durante os últimos 30 anos e escolheram quem deve estar no governo e o que deve ou não ser feito no México.

“A composição [do CEM] inclui os proprietários ou administradores de empresas importantes tais como o Presidente de Kimberly-Clark do México, Claudio X. González; de Televisa, Emilio Azcárraga Jean; de Industrias Peñoles, Alberto Bailleres; e de FEMSA, José Antonio Fernández Carbajal, cognome ‘El Diablo’.
“Adicionalmente: o presidente de Alfa, Armando Garza; do Grupo Lala, Eduardo Tricon; de Bachoco, da família Bours de Sonora; de Vitro, Adrián Sada; do Grupo Carso, Carlos Slim; de Bimbo, Daniel Servitje Montull.
“Na lista também estão os proprietários ou administradores de: Soriana, Ricardo Marín Bringas; Grupo México, German Larrea; Softek, Blanca Treviño; e Alejandro Ramírez de Cinéopolis, o atual presidente do Conselho…” (El Universal).

Da lista de 60 nomes e famílias, pelo menos 16 são bilionários listados em “Os Bilionários do Mundo” da Forbes, em 2018. Essas damas e cavalheiros aumentaram suas riquezas em meio à dor, sofrimento e miséria.

Como foi explicado em um artigo publicado em El Sur:

“O número de bilionários no México não cresceu muito nos últimos anos, mas suas fortunas como um todo aumentaram exponencialmente, visto que acumularam um total de 142,9 bilhões de dólares, de acordo com o informe “Desigualdade Extrema no México, Concentração do Poder Econômico e Político’ do pesquisador Gerardo Esquivel Hernández.
“… Esquivel Hernández explica que os 16 indivíduos mais ricos do México concentravam, em 1996, uma fortuna acumulada de 25,6 bilhões de dólares… em 2002, a riqueza de apenas quatro mexicanos representava 2% do Produto Interno Bruto (PIB), mas, entre 2003 e 2014, essa percentagem aumentou para 9%. Isso corresponde a cerca de 1/3 da renda de quase 20 milhões de mexicanos”.

A esses números, devemos adicionar os diretores e proprietários de capital financeiro, que é dominado pelas multinacionais. São esses os indivíduos que exploram e saqueiam o país:

“A propriedade do Bancomer, baseada em Bilbao, Espanha, controla 23,19% do mercado. Banamex é de propriedade do Citibank de Nova Iorque e controla 14% dos ativos. Santander, também espanhol, tem 13,5%. Incluindo Scotiabank, com 6,2%, e HSBC com 6,5%, isso significa praticamente que 70% do setor bancário é de propriedade de empresas estrangeiras e, naturalmente, os lucros são devolvidos aos seus centros. De fato, esses lucros são a causa principal de estabilidade para os bancos espanhóis, que já não são mais tão fortes, mas que gostam de comentar e ameaçar. É muito comum que nos conselhos de administração encontremos antigos ou futuros funcionários do Estado: Agustin Casterns, Ernesto Zedillo, Carlos Salinas, Jesus Reyes Heroles, Luis Ramírez Corzo, Georgina Kessel, Juan José Suárez Coppel e Pedro Aspe Armella. Sem dúvida, José Antonio Meade será membro de algum conselho de administração, dada sua já longa permanência como Secretário de Finanças e de Crédito Público e em outros postos, prometendo informação privilegiada que os bancos estão dispostos a pagar, mas há algo que caracteriza todos esses políticos que trabalharam para os bancos, eles fizeram isso como empregados”.

A posição que adotam com relação a um possível governo de AMLO é clara: não gostam disso, não estão preparados para um político que fala pobremente o espanhol, “que não sabe falar inglês” – como o proprietário da cadeia comercial Coppel declarou publicamente. Eles não querem oferecer sequer uma migalha aos pobres.

O conflito no México ainda não se intensificou porque até o momento Obrador é apenas um candidato. Presentemente, os oligarcas da nação e os imperialistas estão tentando resolver seus conflitos internos para chegar às eleições o mais fortes e unificados que possam. Embora não possam convencer Meade a se retirar em favor de Anaya, podemos dar como certo que estão manobrando as estruturas de seus partidos e de seus fundos para que, a partir do segundo debate, fique mais claro que apoiam Anaya. Os governadores do PRI também construirão uma campanha de “votação estratégica”, para comprar e recrutar eleitores para esse detestável personagem.

Se AMLO ganhar a presidência, o que temos visto até agora só terá sido o prelúdio de uma campanha de sabotagem econômica e política dos oligarcas e dos imperialistas contra o governo. Seu objetivo é muito claro: qualquer governo tem de estar a seu serviço, se AMLO não se alinhar, eles o pressionarão ou tentarão removê-lo do governo.

A oligarquia e os governos reformistas na América Latina

Pode-se dizer que temos a vantagem do olhar retrospectivo quando se trata de eventos latino-americanos. Desde que Hugo Chávez chegou ao poder na Venezuela em 1998, uma série de movimentos e viradas bruscas à esquerda prevaleceu, o que em alguns países logrou assumir o governo. Esses chamados “governos progressistas” eram, de fato, governos reformistas que queriam oferecer algumas concessões para melhorar as condições de vida das camadas mais pobres, usando os recursos do Estado para criar programas de assistência social, mas sem romper os limites do capitalismo.

Embora não seja esse o lugar para analisar esses governos em profundidade, podemos oferecer algumas generalizações que são muito ilustrativas da resposta do imperialismo e da oligarquia. Esses governos podem ser divididos em dois períodos: antes da crise econômica internacional de 2008 e depois. No período antes da crise, esses governos foram capazes de tirar vantagem dos altos custos das matérias-primas – principalmente do petróleo – para criar infraestruturas e programas de ajuda às camadas da população mais carente. Não podemos colocar todos os países em um só campo; o caso da Revolução Venezuelana foi o mais avançado e teve o apoio decisivo da classe trabalhadora e dos pobres do campo e das cidades. Além disso, os programas sociais foram mais longe.

Tentativa de Chavez de tentar implementar reformas progressivas esbarraram em tentativas de golpe, apoiadas pela oligarquia e imperialismo. Foto: chavezcandanga

Depois da crise, a situação mudou drasticamente e, um depois do outro, os governos reformistas tiveram que recortar o gasto social e começar a aplicar contrarreformas, contra os interesses dos trabalhadores. Se um governo aceita as regras do capitalismo, tem que aceitá-las não apenas nos tempos de prosperidade, mas principalmente deve aplicá-las em tempos de crise. A isso se segue um processo de crise interna, de desmoralização e de falta de confiança nesses governos pelo lado dos trabalhadores.

O que queremos sublinhar neste momento é a atitude das diversas oligarquias, as quais, junto com o imperialismo estadunidense, prepararam uma reação raivosa a todas essas reformas. Na Venezuela, recordamos o golpe que foi derrotado pelas massas em 2002, a greve do petróleo de 2004, a sabotagem econômica, a greve de capital, as sanções às exportações de petróleo e as tentativas de assassinato contra Chávez. Na Bolívia, houve tentativas de golpe de estado contra Evo Morales. Em Honduras, vimos o golpe de estado contra “Mel” Zelaya, acompanhado por escandalosas fraudes eleitorais.

Vemos aqui os métodos dos gângsters que governam esses diferentes países, que decidem tudo. Quando alguém se opõe a eles, mesmo minimamente, sabemos como agem. Não é que qualquer um dos presidentes mencionados quisesse o socialismo, eles apenas queriam reformas, “para tornar o capitalismo mais humano”, diriam alguns. Mesmo Chávez, que queria ir mais longe, não rompeu totalmente com o capitalismo. Em todos os casos, a oligarquia e o imperialismo responderam a essas “boas intenções” com um chute nos dentes.

Deveria AMLO expropriar e governar por decretos?

Paco Taibo (famoso novelista e ativista de esquerda mexicano) disse em uma conferência há alguns meses que, se um governo de AMLO for sabotado pelos empresários, o povo deveria exigir que eles fossem expropriados. Essa ideia foi introduzida no debate – de forma indireta e em termos reduzidos – pela mídia.

Como ele mesmo explicou, na realidade, os meios de comunicação de massa querem usar essa ideia para conduzir uma campanha de medo entre as pessoas, para dizer: “vejam, há radicais propondo expropriações!” Em uma entrevista ao jornal espanhol El País, ele respondeu à questão de, se Obrador não obtivesse uma maioria parlamentar, como ele governaria? Ele respondeu: por decreto. O presidente da república tem o direito de apresentar decretos presidenciais para realizar suas políticas.

Nem expropriação nem governo por decreto são suficientes por si mesmos para transformar a sociedade. Houve governos na história do México que fizeram expropriações e estas só serviram para recapitalizar empresas para logo voltar a privatizá-las. No melhor dos casos, o General Cárdenas expropriou a indústria do petróleo para desenvolver o capitalismo mexicano e industrializar o país, provendo-o de infraestruturas.

Estamos a favor de voltar a expropriar as empresas que foram privatizadas, mas não somente isso. Também estamos a favor de expropriar todas as grandes empresas, bancos e as grandes cadeias comerciais para termos recursos suficientes para satisfazer as necessidades mais urgentes de toda a população. O país deve ser industrializado para que haja empregos para todos. Estamos a favor de que as empresas sejam administradas e dirigidas pelos próprios trabalhadores, que devem concentrar seu poder político em um governo da classe trabalhadora.

Expropriações ou reformas “por decreto” sozinhas não são o suficiente: os trabalhadores precisam participar da transformação da sociedade. Foto: Eneas De Troya

Apoiamos a utilização de decretos sempre que fortaleçam a política antes mencionada: dar poder ao povo, não na forma de um presidente populista, mas de uma grande assembleia nacional – uma ferramenta de luta – onde todas as forças progressistas e revolucionárias estão concentradas. Apoiamos esse método se ele permitir ao país e à luta revolucionária manter as conquistas dos trabalhadores. Em outras palavras, acreditamos que, se as massas não participarem plenamente na condução da luta vindoura e delegarem suas aspirações, o governo de AMLO, apesar de todas as suas boas intenções, simplesmente não será capaz de derrotar a oligarquia e o imperialismo.

Ao mesmo tempo, a classe trabalhadora deve entrar na luta com um programa de revolução socialista. Nossa tarefa não é lutar pelo capitalismo com face humana, o que, como vimos na América Latina, é uma ideia utópica e reacionária. Temos de romper os limites do capitalismo com base nas massas organizadas, com as armas na mão. Esta é a única forma de se defender um governo que respeita os interesses da classe trabalhadora.

Os argumentos baratos da oligarquia – que diz que cria nove entre dez empregos – são falsos. A juventude está desempregada ou em empregos precários. A burguesia cria empregos para explorar o trabalho. Eles não têm uma visão do emprego para toda a sociedade, eles criam postos de trabalho unicamente para seu lucro. A única forma de se proporcionar empregos bem remunerados e para todos é dar um fim ao poder da burguesia, expropriando o que eles nos roubaram durante décadas.

Tradução Fabiano Leite.

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