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Marxismo x Interseccionalidade

A crise do capitalismo deu vazão a um sentimento de questionamento e a movimentos de massa por todo o mundo. Dos Indignados da Espanha ao movimento da praça Syntagma na Grécia, e mais recente as Nuit Debout [Noites em Claro] na França, jovens começam a agir e desafiar o sistema capitalista. Como parte desse sentimento geral, nos últimos anos também têm surgido um grande número de movimento espontâneos contra a múltiplas formas de opressão que diferentes camadas da classe trabalhadora experimentam sob o capitalismo.

Movimentos inspiradores como o Idle No More[1], o Black Lives Matter, as manifestações por todo o mundo contra a violência contra mulheres em 8 de março e partes do movimento anti-Trump são apenas alguns exemplos recentes do desejo cada vez maior entre os trabalhadores e a juventude de lutar contra a opressão e a discriminação. A visão majoritária adotada pelas lideranças desses movimentos – que muitas vezes fazem parte ou são influenciados pela esquerda acadêmica – é a da “interseccionalidade”. Assim sendo, não é surpresa que uma camada da juventude e dos estudantes que estão começando a se politizar nesses movimentos venha a enxergar a opressão através desse viés. Mas o que significa a interseccionalidade? Ela é útil para lutar contra a opressão? É compatível com o marxismo?

A interseccionalidade é comumente utilizada para explicar a existência de múltiplas e sobrepostas formas de opressão que se interseccionam em diferentes configurações para cada indivíduo, criando experiências e barreiras sociais únicas. A frase “é preciso pensar interseccionalmente” é muito usada no movimento, implicando que toda luta deva ser inclusiva e representativa dos indivíduos que experimentam opressões sobrepostas e opondo-se à defesa estrita de um grupo ou forma de opressão.

Os marxistas concordam que indivíduos ou grupos podem experimentar múltiplas formas de opressões sobrepostas e simultâneas e que cada configuração apresenta um cenário único de barreiras sociais. De um ponto de vista marxista, nenhuma forma de opressão pode ser entendida ou superada isoladamente e a luta contra a opressão e a exploração deve contemplar e incluir todas as camadas de oprimidos. Os marxistas também se opõem firmemente a atitudes e comportamentos discriminatórios e argumentam que eles só servem para nos dividir, impedindo a unidade da classe trabalhadora necessária para alcançar sua emancipação. À primeira vista, portanto, pode parecer que o marxismo e a interseccionalidade são complementares. No entanto, se examinarmos mais a fundo a teoria subjacente à interseccionalidade, veremos que seu entendimento da opressão e de como combatê-la é bem diferente do marxismo. A interseccionalidade, apesar das melhores intenções de muitos dos seus defensores, não pode explicar de maneira adequada as origens das várias formas de opressão e, portanto, as soluções para elas.

Nunca é demais dizer que o marxismo luta contra todas as formas de opressão. Criticar uma abordagem ao entendimento das opressões no movimento não equivale a ignorar a realidade das múltiplas formas de opressão. Ao contrário, justamente porque é nosso objetivo final acabar com todas as formas de opressão e exploração de uma vez por todas é nosso dever fazer avançar as ideias e métodos que os trabalhadores e a juventude precisam para alcançar sua emancipação. Esconder nossas diferenças não faz qualquer bem ao movimento.

A “interseccionalidade” em contexto

Para que se entenda as limitações da interseccionalidade a partir de uma perspectiva marxista, nós precisamos, é claro, considerar os aspectos principais da interseccionalidade em si mesma e o contexto histórico em que ela ganhou popularidade. A ascensão da interseccionalidade coincidiu com a derrota das ondas revolucionárias dos anos 1960 e 1970, seguidas pela reação nos anos 1980 que culminou no colapso da União Soviética.  Durante o subsequente refluxo da luta de classes, as políticas identitárias ganharam força. As políticas identitárias, que se desenvolveram naquele período, baseiam-se na definição das pessoas a partir de características pessoais (etnia, sexo etc.) em vez de sua classe ou ponto de vista político.

Isso foi utilizado pela classe dominante para promover o avanço de elementos carreiristas pequeno burgueses que são facilmente incorporados ao sistema capitalista. As políticas identitárias são usadas pela burocracia do movimento dos trabalhadores e pela classe dominante contra a esquerda e os que defendem a luta de classes dentro do movimento. Essa orientação crescente em direção a eixos separados de identidade e opressão resultou da incapacidade das lideranças trabalhistas, socialdemocratas e stalinistas de liderar os trabalhadores rumo à superação do capitalismo, o que teria erradicado as bases econômicas e sociais das várias formas de opressão.

O stalinismo, em particular, desempenhou um papel traidor. Enquanto a Revolução Russa de 1917 liderada pelos bolcheviques sob o comando de Lenin e Trotsky teve grandes avanços para mulheres, lésbicas, gays e nacionalidades oprimidas, a degeneração da União Soviética sob Stalin fez com que muitas dessas conquistas fossem perdidas. O isolamento e o atraso da União Soviética fizeram com que a escassez continuasse e os stalinistas utilizaram todas as antigas divisões e formas de opressão para manter seu poder e frear a revolução proletária internacional. Políticas stalinistas como a de recriminalizar a homossexualidade na União Soviética, que se refletiram em práticas discriminatórias nos partidos comunistas stalinistas em todo o mundo, compreensivelmente afastaram da luta socialista muitos trabalhadores e jovens que viviam sob o peso da opressão. Tais políticas não têm nada em comum com o marxismo verdadeiro e influenciaram a divisão do movimento em eixos separados de luta, enquanto o verdadeiro marxismo se opõe a todas as formas de opressão e apela à unidade de classe.

A interseccionalidade, uma ramificação do feminismo, foi na verdade uma reação contra as políticas identitárias tradicionais que tendiam a isolar o movimento em lutas separadas. As mulheres negras em particular destacaram por décadas que o movimento de mulheres era amplamente dominado por mulheres brancas e de classe alta que ignoravam a realidade e as necessidades das mulheres negras e trabalhadoras, e que o movimento antirracismo era dominado por homens negros que muitas vezes relevavam a opressão das mulheres – críticas muito importantes. No entanto, a fundamentação ideológica da interseccionalidade está em teorias pós-marxistas como o pós-modernismo e o pós-estruturalismo, teorias que ganharam popularidade nos círculos acadêmicos precisamente em um período de reação capitalista e colapso do stalinismo, quando as lideranças dos trabalhadores e da esquerda abandonaram até mesmo o fingimento de estarem lutando pelo socialismo e passaram a defender abertamente um capitalismo “mais humano”.

Enquanto a transformação econômica e social era enfatizada no período anterior, o corpo de ideias, pensamentos e linguagem passou a ser alvo de análise e mudança durante o refluxo da luta de classes que se seguiu. Tendo perdido a fé na capacidade da classe trabalhadora de transformar radicalmente as fundações econômicas e sociais da sociedade, a esquerda acadêmica recuou para uma defesa da mudança de como os indivíduos pensam. Herdeira dessa tendência ideológica, a interseccionalidade defende a experiência subjetiva e o pensamento individual, a linguagem e o comportamento como o viés pelos quais se deve entender e superar a opressão.

Essa é uma abordagem profundamente idealista, baseada na ideia de que para mudar a sociedade é preciso primeiro mudar a visão das pessoas – ou ainda pior, que mudando o “discurso” é possível transformar a realidade. A verdade é que a ideologia dominante em uma sociedade de classes é a da classe dominante. A ideologia das pessoas que realizam revoluções, as massas exploradas e oprimidas, está imbuída de todas as ideias e preconceitos reacionários impostos pela classe dominante. É durante a luta para transformar a sociedade que as pessoas (em grande quantidade) se transformam e mudam (de maneira ampla) seus pontos de vista. Isso é muito bem explicado por Marx em “A ideologia Alemã”:

“Tanto para a produção massiva desta consciência comunista como para a realização da própria causa, é necessária uma transformação massiva dos homens que só pode processar-se num movimento prático, numa revolução; portanto, a revolução não é só necessária porque a classe dominante de nenhum outro modo pode ser derrubada, mas também porque a classe que a derruba só numa revolução consegue sacudir dos ombros toda a velha porcaria e tornar-se capaz de uma nova fundação da sociedade”

Atribui-se à jurista afro-americana Kimberlé Crenshaw a criação do termo “interseccionalidade” em 1989, especificamente para descrever como o sistema legal americano não era capaz de responder à discriminação sofrida por mulheres negras em seu ambiente de trabalho. Em seu artigo “Desmarginalizando a intersecção entre raça e sexo: Uma crítica feminista negra à doutrina antidiscriminatória, à teoria feminista e às políticas antirracistas”, Crenshaw citou diversos casos legais nos quais os tribunais só consideravam denúncias ou de discriminação sexual ou de discriminação racial no ambiente de trabalho, recusando-se a aceitar que mulheres negras experimentam discriminações conjuntas, não apenas por serem mulheres ou pessoas negras, mas enquanto mulheres negras. No caso “DeGraffenreid x General Motors”, por exemplo, a corte rejeitou a queixa de discriminação sexual e racial porque a General Motors havia contratado mulheres brancas e homens negros anteriormente.

Não há qualquer argumentação a ser feita contra a realidade de que mulheres negras e outros grupos que experimentam discriminação conjunta passam despercebidos pelo sistema legal capitalista. Essas são lacunas estruturais que formam uma barreira real e significativa às camadas oprimidas da classe trabalhadora para alcançar verdadeira igualdade de direitos. Os marxistas apoiam reformas legais que permitam o aumento da capacidade dos trabalhadores e das camadas oprimidas da classe de lutar por seus direitos e melhorar suas condições de vida. Mas nós também precisamos explicar que o racismo e o sexismo estão enraizados na sociedade de classes e nas necessidades do capitalismo, ao qual o sistema legal em última instância existe para defender.

A natureza de classe da justiça burguesa não pode ser reformada fora do sistema legal, uma vez que se fundamenta sobre bases capitalistas. Enquanto a exigência de Crenshaw era para que se criasse uma nova designação de minoria a ser protegida dentro do sistema legal para as mulheres negras, nós devemos frisar que isso não mudaria fundamentalmente as condições sociais e materiais que levam à discriminação conjunta que ela habilmente destacou que elas experimentavam em seu ambiente de trabalho e na sociedade como um todo. Embora os escritos que algumas feministas interseccionalistas tenham contribuído com observações valorosas sobre como a discriminação conjunta é experimentada por aqueles vivendo sob múltiplas opressões e as barreiras que eles enfrentam, os marxistas explicam que é preciso ir além da observação. Um número infinito de categorias poderia ser criado dentro do sistema legal para refletir todas as possíveis intersecções de opressões, mas enquanto marxistas devemos colocar a questão: por que essa opressão acontece, em primeiro lugar, e como ela pode ser erradicada de uma vez por todas?

Pensamento e realidade social

Em uma palestra proferida em 2016 no TED Talks com o título “A urgência da interseccionalidade”, Crenshaw se refere à incapacidade do sistema legal de abordar a dupla discriminação que as mulheres negras enfrentam em seus ambientes de trabalhos como “um problema de enquadramento”. A sugestão é que, se os juízes e políticos tivessem um quadro melhor para entender a opressão e a natureza da discriminação conjunta, indivíduos ou grupos que experimentam opressões sobrepostas não passariam despercebidos. Atitudes discriminatórias de juízes que influenciam seus julgamentos obviamente têm impacto nas vidas de grupos oprimidos e perpetuam sua marginalização. Enquanto homens e mulheres negras experimentam altos índices de abusos e assassinatos por parte de policiais que desfrutam de impunidade, os juízes nos EUA e no Canadá diversas vezes deixaram livres homens brancos que cometeram crimes sexuais. É evidentemente claro que os juízes têm liberdade para agir conforme suas atitudes discriminatórias desprezíveis e que isso serve para sustentar a opressão na sociedade e manter grupos oprimidos subjugados. Mas de onde surgem essas atitudes e como podemos livrar a sociedade delas?

As danosas atitudes discriminatórias de juízes e políticos refletem as necessidades do sistema capitalista. O estado capitalista e seu sistema legal existem para defender a dominação e os lucros da classe capitalista. Sob esse sistema – onde representantes da justiça não são eleitos, promessas de campanha são quebradas assim que os políticos chegam ao poder sem opção de destituí-los e muitas das decisões mais importantes são tomadas a portas fechadas por pessoas não eleitas (i.e., banqueiros e executivos) –, não há verdadeira democracia ou responsabilidade. Da mesma maneira, no ambiente de trabalho é muito difícil responsabilizar empregadores por práticas discriminatórias porque eles controlam nossa subsistência e não há qualquer controle democrático na produção capitalista. Embora processos por discriminação tenham sido defendidos arduamente e vencidos, eles costumam levar anos nos tribunais, custos astronômicos e muitas outras barreiras que tornam esse um caminho impossível para muitos dos trabalhadores oprimidos, especialmente considerando o fato de que os empregadores sempre podem pagar por uma equipe de advogados melhor e que o sistema de justiça é sempre distorcido a favor de seus interesses. Mesmo quando os patrões recebem penalidades, elas geralmente representam um pequeno troco para eles, enquanto a vida de quem iniciou o processo foi jogada na lama. Portanto, embora atitudes claramente possam desempenhar um papel pernicioso na perpetuação da opressão, é a fundação econômica e social nas quais estas instituições se baseiam a verdadeira barreira para a superação da opressão. Falando de outro modo, é a natureza capitalista dessas instituições a raiz do problema, não as atitudes dos funcionários que ocupam cargos nelas.

Portanto, para os marxistas não se trata fundamentalmente de um problema de “enquadramento” ou de como as pessoas pensam a opressão. A noção de que a linguagem e o pensamento são as forças dominantes a moldar a realidade social deriva do idealismo filosófico, enquanto os marxistas abordam a história de um ponto de vista materialista e argumentam que é a realidade social que molda o pensamento. Nós não nascemos com visões de mundo pré-fabricadas nem as que nós desenvolvemos com o tempo caem do céu. O que nós aprendemos e acreditamos sobre o mundo é influenciado e moldado pelas condições materiais e sociais do momento histórico em que nós vivemos e pelo modo de produção que lança as bases para o modo como o restante da sociedade é organizado. Isso não significa que todo pensamento ou elemento cultural é um produto direto da base econômica da sociedade, mas que a base econômica lança as fundações gerais para as visões dominantes de cada época e estabelece determinados limites para o modo como nós pensamos.

Claro que não são somente indivíduos em posições de poder que defendem e disseminam ideias discriminatórias que atendem a seus próprios e mesquinhos interesses. Trabalhadores e pessoas pobres são igualmente socializadas todos os dias com essas atitudes. As ideias dominantes na sociedade são aquelas da classe dominante, que sob o capitalismo é a burguesia. A classe capitalista lança mão de atitudes discriminatórias para manter a classe trabalhadora dividida em raças, etnias, linguagem, sexo, gênero, religião e diversas outras. Essas divisões servem a múltiplas funções, como criar uma pressão para diminuição de salários e uma “corrida ao topo” entre trabalhadores e nações concorrentes, evitando que a maioria dos explorados e oprimidos se unam contra seu opressor comum, a burguesia. A burguesia detém e controla os meios fundamentais de disseminação de ideias, como a grande mídia e os meios culturais. As ideias da classe dominante também são reproduzidas através da igreja, do sistema de educação e da família. O conteúdo de nossos pensamentos é moldado por essas instituições, as quais refletem a sociedade capitalista.

O capitalismo força a classe trabalhadora a uma competição brutal e desumanizadora que distorce a forma como nós nos relacionamos com nós mesmos e com os outros. As pessoas não nascem gananciosas ou discriminatórias, mas são criadas em uma sociedade individualista que nos coloca uns contra os outros e usa mensagens poderosas para nos manter divididos. Mudar a forma como nós pensamos sem mudar as condições sociais e materiais que dão base a atitudes discriminatórias é, portanto, uma abordagem limitada para o combate à opressão.  A ênfase no pensamento e nas ideias separados de suas origens sociais e materiais inevitavelmente resulta em um entendimento individualista e subjetivo da opressão, destacado de suas raízes econômicas estruturais e que cria um risco de atomização do movimento.

Em última análise, a base material de toda divisão social é a escassez. Uma sociedade capaz de fornecer emprego, moradia e educação a seus cidadãos não precisará culpar “outro” pela falta de moradia, educação e emprego. Compreensivelmente, uma sociedade em crise terá um aumento nessas atitudes. Como bem disse Marx, “quando a necessidade é generalizada, toda a velha porcaria renasce”. Tais atitudes não podem ser completamente erradicadas enquanto a escassez persistir. Sob o capitalismo, a escassez é completamente artificial, uma vez que temos meios de produção tão avançados que já possuímos riqueza e recursos mais do que suficientes para que todos tenham um bom padrão de vida. O problema neste sistema é que a maioria da riqueza é apropriada por uma pequena minoria e o resto de nós é deixado para lutar pelas migalhas. É por isso que os marxistas defendem a expropriação da classe capitalista, de forma que possamos colocar toda essa riqueza em uso para os interesses da maioria e erradicar as raízes materiais da divisão e da opressão.

Raízes da opressão: subjetivas ou objetivas?

Em escritos feministas interseccionais costuma haver referências à opressão “estrutural”, mas de um ponto de vista idealista e não marxista, materialista.  Por exemplo, em relação às múltiplas e interseccionais formas de opressão, Bell Hooks diz: “Para mim é como uma casa, elas compartilham a mesma fundação, mas a fundação são as crenças ideológicas ao redor das quais as noções de dominação são construídas”. Alinhada a essa visão, Patricia Hill Collins afirma que “o empoderamento envolve a rejeição das dimensões de conhecimento, sejam pessoais, culturais ou institucionais, que perpetuam a objetificação e a desumanização”. Portanto, as raízes da opressão são vistas como estando no sistema de crenças de uma sociedade acerca da superioridade ou inferioridade de diferentes grupos e o fim da opressão implica rejeitar essas crenças. A principal limitação dessa abordagem é que que ela não oferece um meio para erradicar tais crenças em uma escala que alcance as massas.

Ao tornar a maneira como nós conceituamos a realidade o alvo principal de mudança, implica-se que a opressão é perpetuada predominantemente nos níveis individuais e interpessoais. Sob esse ponto de vista, qualquer um que não esteja experimentando determinada forma de opressão é cúmplice em sua perpetuação e se beneficia dela. Uma vez que há infinitas configurações de opressões sobrepostas e características dominantes, a teoria da interseccionalidade propõe que todos nós vivemos em uma rede infinita na qual estamos todos simultaneamente oprimindo e sendo oprimidos uns pelos outros. A classe trabalhadora, e não a classe capitalista, se torna o inimigo.

Embora seja óbvio que as atitudes e comportamentos discriminatórios e opressivos são realizados por indivíduos e dentro de dinâmicas interpessoais (que devem ser condenadas e combatidas pelos revolucionários), essas atitudes têm origens sociais e históricas e são enraizadas nas estruturas da sociedade de classes. Da mesma maneira, aquilo que é considerado uma característica dominante sistematicamente favorecida pela sociedade também se desenvolveu historicamente. A supremacia branca e o racismo, os quais são fenômenos inerentemente sociais e estruturais, foram desenvolvidos pela classe dominante das nações coloniais europeias para justificar a conquista e a escravidão, sobre as quais o desenvolvimento foi construído. A opressão às mulheres não existiu sempre, mas veio à tona com a divisão da sociedade em classes e o estabelecimento do casamento como uma instituição que deveria controlar a sexualidade feminina a fim de garantir a paternidade para o propósito de passar a propriedade adiante. Atitudes racistas e sexistas refletem esses processos sociais e materiais.

Embora indivíduos certamente possam defender e agir de acordo com ideias discriminatórias de formas muito danosas, essas ideias e ações em última instância beneficiam somente à classe dominante exploradora. No entanto, o conceito de “privilégio” costuma ser evocado no movimento por defensores da interseccionalidade para dizer que aqueles que não são vítimas de uma forma particular de opressão têm interesse em mantê-la sobre outras pessoas ou contribuem ativamente com ela ao receber benefícios não merecidos. Os marxistas concordam que pessoas que são oprimidas de maneiras múltiplas e sobrepostas experimentam maiores barreiras sociais e o impacto de discriminações conjuntas. No entanto, coisas que normalmente são descritas como privilégios em nossa visão deveriam ser consideradas direitos humanos acessíveis a todos de maneira igualitária. Nós precisamos abolir o sistema que estratifica a classe trabalhadora e priva as camadas oprimidas desses direitos, não nos mantendo divididos e lutando pelos restos que caem da mesa dos banqueiros e dos patrões. Nós defendemos que não se nivele por baixo e crie uma igualdade na pobreza, mas que se nivele por cima tomando o que nós necessitamos da classe opressora e exploradora.

A opressão de um grupo serve para manter o sistema capitalista que explora e oprime a todos nós de diferentes maneiras. Não é do interesse de nenhum trabalhador que a dominação e a opressão sobre outro grupo continue. Por exemplo, é bem sabido que homens ganham mais do que mulheres em todo o mundo pelo mesmo trabalho. No entanto, os homens não ganham mais porque as mulheres ganham menos ou vice-versa. Há riqueza mais do que suficiente para que todos tenham um grande aumento de salários, mas a maioria da riqueza gerada pelos trabalhadores é apropriada pela classe dominante minoritária. A classe capitalista se beneficia dos baixos salários e da discriminação às mulheres trabalhadoras, imigrantes e minorias raciais e de gênero porque, como explicado anteriormente, isso gera uma pressão para a redução de todos os salários e força camadas da classe trabalhadora a serem mais “flexíveis” e dispostas a aceitar empregos precários e temporários.

Os marxistas trabalham ativamente para educar a classe trabalhadora para o fato de que não é de seu interesse oprimir e discriminar uns aos outros. É principalmente através da experiência concreta na luta que os indivíduos serão transformados e mudarão suas ideias. Um trabalhador dito “privilegiado” que perpetua atitudes discriminatórias está na verdade contribuindo para baixar seu próprio salários através da competição de outros trabalhadores mais oprimidos e dispostos a salários menores, o que mantém os lucros dos patrões e o sistema capitalista que explora e oprime a todos nós. Trabalhadores que não experimentam múltiplas opressões têm muito a perder perpetuando a opressão sobre os outros, uma vez que isso só perpetua a sua própria exploração. Todos os trabalhadores têm o mundo a ganhar através da união e da luta pelo socialismo, que deve permitir um aumento massivo nos padrões de vida de todas as pessoas. Ao invés da solidariedade de classe, a interseccionalidade propõe o conceito de “aliados”, sugerindo que diferentes setores da classe trabalhadora e dos oprimidos têm interesses diferentes e deveriam ter suas próprias organizações separadas. Os marxistas defendem uma luta conjunta baseada em interesses comuns, organizada através de sindicatos e partidos de trabalhadores socialistas e de massas que lutam contra todas as opressões infligidas aos trabalhadores e contra a exploração de classe – ou seja, contra todo o sistema capitalista e tudo o que ele traz consigo.

O perigo da “política de privilégios” é que ela leva ativistas a tentarem convencer setores da classe trabalhadora de que eles na verdade se beneficiam da opressão contra outras camadas da classe trabalhadora e, portanto, têm interesses opostos a elas, em vez de explicar que é do interesse de todos nós a união contra a classe capitalista. Isso cai como uma luva na mão dos capitalistas, que tentam ativamente perpetuar esse mito e usam o racismo, o sexismo e outras formas de opressão e discriminação para justificá-lo. Quando trabalhadores “privilegiados” e oprimidos se unem contra os patrões e reivindicam pagamentos e condições de trabalhos iguais, o poder dessa unidade permite a todos os setores arrancar mais conquistas da classe exploradora.

A opressão e a discriminação de algumas camadas da classe trabalhadora também servem como um bode expiatório conveniente para a classe dominante. Quando o capitalismo está em crise, a classe dominante e seus representantes no estado culpam esse ou aquele grupo oprimido e marginalizado, tentando nos colocar uns contra os outros. Quando as pessoas estão lutando para sobreviver e nenhum alternativa genuinamente de esquerda é apresentada, essas ideias podem ganhar terreno. Isso ficou claramente demonstrado nas eleições americanas: uma vez que Bernie Sanders foi tirado do páreo, Donald Trump pôde chegar ao poder destilando sentimentos racistas, misóginos e xenófobos sobre uma camada de trabalhadores frustrados (notavelmente, apenas 25% da população de fato votou nele) que via Hillary Clinton como representante do sistema. Pesquisas sugerem que um grande número desses trabalhadores poderia ter sido ganho através de uma plataforma de esquerda que atacasse a “classe bilionária” em vez de usar grupos oprimidos como bode expiatório. Aqueles que votaram em Trump não nasceram opressores ou discriminatórios, mas receberam essas ideias como explicação para sua própria pobreza e dificuldade de vida. Esse é um exemplo concreto de como atitudes discriminatórias estão enraizadas nas estruturas da sociedade de classes e reforçadas pela escassez, a pobreza e a frustração com o sistema capitalista, especialmente quando a esquerda é incapaz de fornecer uma alternativa real.

Não é difícil imanar o quanto menos terreno as ideias discriminatórias iriam ganhar se todos tivessem um alto padrão de vida com acesso universal à educação profissional e superior, creches, saúde, transporte, moradia, lazer, cultura etc. No entanto, isso não é possível sob o capitalismo, pois ele se baseia na produção para o lucro em vez de para as necessidades humanas. É preciso uma luta de classes conjunta para unificar todas as camadas dos oprimidos no combate contra o sistema capitalista que explora e oprime a todos nós.

A luta de classes e o combate contra a opressão

Os marxistas são contra a divisão das pessoas em diferentes eixos de opressão e defendem a necessidade da unidade. A luta de um grupo oprimido não pode ser entendida separadamente de outras formas de opressão e do sistema capitalista que dá base a elas. Mesmo quando os defensores da interseccionalidade criticam a divisão das pessoas em eixos unitários, o resultado dessa abordagem subjetivista é a divisão das pessoas de acordo com uma infinitude de configurações de opressões e privilégios conjuntos, sem um denominador comum entre eles. É isso que sugere a acadêmica e teórica do feminismo interseccional Patricia Hill Collins em seu livro “Pensamento feminista negro: Conhecimento, consciência e a política do empoderamento” (1990), quando afirma que “a matriz abrangente da dominação abriga diversos grupos, cada um com diferentes experiências com desvantagens e privilégios que produzem perspectivas parciais correspondentes… Nenhum grupo tem um ângulo de visão claro. Nenhum grupo detém a teoria ou a metodologia que permita descobrir a ‘verdade’ absoluta”.

Essa visão é bastante pessimista, deixando-nos apenas com nossas realidades subjetivas parciais e nada que explique as origens da opressão ou como superá-las de uma vez por todas. Esse é um ponto de vista que leva ao individualismo e à autocontemplação, em vez de uma luta conjunta para transformar a realidade. O mundo existe de maneira concreta fora de nossos pensamentos e sentimentos. Nosso entendimento desse mundo é necessariamente parcial e individual, mas ainda assim permanece como o reflexo de uma realidade objetiva e nossas ideias sobre essa realidade são constantemente testadas na prática ao agirmos nela. O conjunto de relações econômicas e sociais que formam o capitalismo existem objetivamente. Se alguém não acredita, é só ver o que acontece se não trabalhar para viver ou pagar o aluguel. Devido ao fato que de a grande maioria de nós vive sob o capitalismo e é explorada por ele, a análise da luta de classes representa o melhor “ângulo de visão” e a maior ferramenta teórica em direção à unidade e à conquista da emancipação para todos.

Enquanto a interseccionalidade enxerga todas as formas de opressão como igualmente fundamentais, os marxistas destacam que a classe é a divisão fundamental na sociedade capitalista. O modo de produção capitalista é baseado, em sua essência, na extração da mais-valia dos trabalhadores pelos donos dos meios de produção, os capitalistas. Isso não significa que a exploração de classe seja a pior forma de opressão em termos de sofrimento ou que a classe trabalhadora é de alguma forma superior a outros grupos oprimidos. O que isso significa é que enquanto vivermos em uma sociedade onde uma classe dominante parasitária explora e oprime a maioria, nenhum grupo oprimido poderá jamais ser genuinamente emancipado uma vez que sempre haverá desigualdade sistemática. Qualquer representante da classe dominante minoritária, independentemente de seu gênero, raça ou orientação sexual, em última análise servirá aos seus interesses de classe, os quais se baseiam na divisão e opressão da maioria de nós.

Os imensos lucros acumulados pela classe capitalista representam o trabalho não-pago da classe trabalhadora, que não recebe o valor completo de seu trabalho. É isso que os marxistas querem dizer com exploração de classe – não confundir com “classismo”, que se refere à discriminação de pessoas pobres como se fossem de uma classe inferior em vez de fruto de uma relação econômica. Enquanto os marxistas reconhecem o papel significativo da discriminação e da opressão na manutenção do sistema capitalista, a realidade econômica da exploração coloca os trabalhadores em uma posição única para derrubar o sistema, uma vez que são eles que produzem toda a riqueza na sociedade. Além disso, embora nem todos os trabalhadores experimentem opressões sobrepostas, a grande maioria dos oprimidos são explorados enquanto trabalhadores, marginalizados, desempregados ou vivem em escravidão moderna. Isso torna a exploração de classe o fator unificador de todos os oprimidos. A classe trabalhadora abarca a grande maioria das camadas oprimidas da sociedade e é precisamente a luta de classes que pode unir todas as camadas de oprimidos contra nosso inimigo comum, a classe exploradora, e destruir todas as atitudes discriminatórias pelo caminho.

Infelizmente, muitos líderes de movimentos estudantis e dos trabalhadores falharam em organizar uma luta de classes ativa que possa unir todas as camadas dos oprimidos. Enquanto isso, esses mesmos burocratas costumam adotar a linguagem da interseccionalidade para mascarar a realidade de que eles não estão lutando por reformas significativas que melhorem as condições de vida dos estudantes e dos trabalhadores. Políticas simbólicas como paridade de gênero e outras cotas identitárias são empregadas sem qualquer consideração à visão de classe ou orientação política, o que na verdade resulta em algumas poucas posições de vantagem para meia dúzia de burocratas que não estão comprometidos em mobilizar uma luta por condições que iriam aliviar a opressão e a exploração para a maioria dos que compõem sua base e também para a sociedade em geral. A classe dominante usa políticas semelhantes para tentar acalmar os oprimidos enquanto deixam seu sistema de exploração intacto. Não é preciso olhar muito longe, basta acessar os principais sites de bancos que exibem a diversidade de seus empregados. A representatividade de grupos oprimidos em bancos e grandes empresas não muda a realidade para a maioria das camadas oprimidas da classe trabalhadora. Sem que se mude as condições materiais que dão base à opressão, a representatividade em nossas organizações estudantis e sindicatos também não será capaz de mudar essa realidade.

A ideia por trás da “representatividade” é a de que se mais pessoas de grupos oprimidos estivessem em posições de poder (como representantes eleitos em organizações de estudantes e trabalhadores ou em cargos políticos, bem como presidentes e diretores de empresas do setor privado etc.) isso ajudaria a erradicar ou aliviar sua opressão. É importante entender que os grupos oprimidos não são oprimidos por serem mal representados; eles são mal representados por causa da opressão sistemática na sociedade, que cria barreiras para a participação na vida pública e na política. A melhor maneira de alcançar verdadeira representatividade dos grupos oprimidos no movimento é criar organizações políticas de luta que realmente possam começar a erradicar essas barreiras como parte da luta pelo fim dessas opressões. Isso iria entusiasmar camadas mais amplas de grupos historicamente marginalizados e oprimidos a se unirem e lutar para superar as barreiras sistemáticas que impediram sua participação. Tal luta irá encorajar o desenvolvimento de lideranças genuínas a partir da base, em vez de ações meramente simbólicas a partir de cima. O socialismo se trata precisamente de trazer todas as camadas dos explorados e oprimidos para a luta por um mundo melhor. Nossos representantes devem ser eleitos com base em sua política e capacidade para liderar uma verdadeira luta.

As eleições de mulheres como Margaret Thatcher, Angela Merkel, Theresa May e Hillary Clinton para alguns dos mais altos cargos políticos existentes não serviu para fazer avançar a causa da emancipação feminina e os revolucionários fizeram e têm feito campanhas constantes contra elas. O mesmo pode ser dito, por exemplo, da diretora do FMI, Christine Lagarde, e a lista só cresce. Da mesma maneira, os padrões de vida dos negros americanos continuaram a cair no governo Obama. Como revolucionários, nós apoiaríamos um político de esquerda com qualquer um dos nomes mencionados, não importa sua orientação sexual, gênero, raça ou etnia. A representatividade é uma arma poderosa nas mãos da classe dominante uma vez que é usada para criar ilusões e incentivar o apoio a líderes que representam os interesses do capitalismo simplesmente por causa de sua raça, orientação sexual, gênero etc., em vez de seus interesses de classe.

Membros da classe dominante como Hillary Clinton chegaram a adotar a linguagem da interseccionalidade para conquistar apoio. Deve-se dar crédito a Crenshaw e outras defensoras da interseccionalidade por condenarem essa atitude e destacarem que, uma vez que “mulher” não é uma categoria homogênea, Hillary não representa os interesses de todas as mulheres devido a suas posições imperialistas. No entanto, o fato de que a interseccionalidade não tem como alvo as raízes da opressão significa que em última análise ela não é uma ameaça à classe capitalista e seus aliados reformistas, motivo pelo qual eles podem tão facilmente adotar sua linguagem em um esforço de parecer mais progressistas. Não é uma ameaça aos membros da classe dominante destacar que existem múltiplas e sobrepostas formas de opressão, contanto que não se questione por quê e por quais interesses. Há uma razão pela qual as “Hillary Clintons” deste mundo não adotam a linguagem marxista da necessidade de união de todas as camadas oprimidas na luta de classes e na superação do capitalismo.

Reforma ou revolução?

Isso significa que os marxistas sugerem que as pessoas e grupos experimentando múltiplas camadas de opressões deveriam colocar suas lutas em segundo plano em nome da luta de classes e que nada pode ser feito para combater ou aliviar a opressão até que haja uma revolução socialista? De maneira nenhuma. Os marxistas se mantêm firmes contra toda forma de opressão e discriminação aqui e agora e lutam com unhas e dentes contra atitudes divisionistas e discriminatórias no movimento e em toda a classe trabalhadora, uma vez que só servem aos interesses da classe capitalista. Os marxistas vão além e destacam que não se pode mudar ideias em massa sem que se mudem suas origens materiais, ou para dar nomes aos bois, a escassez e a competição. Essa é uma das razões pelas quais os marxistas participam na luta cotidiana por reformas e as conectam com a necessidade do socialismo.

Uma vez que as reformas nunca são dadas de boa vontade pela classe dominante sem que haja luta, a melhor maneira de conquistar qualquer reforma é através da ação coletiva, militante e de massas a partir de baixo que faça os patrões e os políticos tremerem de medo da revolução. A luta contra a opressão e por qualquer reforma que a alivie não deve ser de responsabilidade apenas do grupo que experimenta a forma particular de opressão ou discriminação em questão, mas deve envolver toda a classe trabalhadora, abarcando todos os grupos oprimidos. Trabalhadores homens e heterossexuais têm total interesse em defender os direitos das mulheres e LGBTs, os trabalhadores brancos devem se juntar à luta contra o racismo, e assim por diante. Nossa força está em nossa união e a vitória de qualquer camada da classe trabalhadora é uma vitória para toda a classe e todos os oprimidos.

É através da união para a luta de classes que as massas começam a aprender sobre a força de sua união e sobre os limites do capitalismo para fornecer melhorias significativas para suas vidas. Se nós olharmos para o mundo hoje veremos claramente que novas reformas não estão na ordem do dia. Ao contrário, os trabalhadores e pessoas oprimidas em todos os lugares estão lutando para manter os direitos humanos mais básicos e as vitórias do passado. Portanto, enquanto lutamos por reformas que possam aliviar a opressão e melhorar as condições de vida da classe trabalhadora, explicamos que nenhuma reforma é sustentável sob o capitalismo e suas crises sistêmicas. Para que conquistar melhorias permanentes, elas precisam ser combinadas com a luta pela transformação socialista da sociedade.

Quando os lucros são ameaçados e o capitalismo entra em crise, os patrões, os banqueiros e seus amigos no estado não hesitam em revogar tudo pelo qual nós lutamos e conquistamos no passado. Isso também tende a levar a um aumento no racismo e em outras formas de preconceito, uma vez que populistas de direta e setores da mídia apontam os dedos para vários grupos oprimidos como culpados pelos cortes e medidas de austeridade. A única maneira de manter as conquistas do passado, lutar contra atitudes opressoras hoje e avançar para uma sociedade verdadeiramente igualitária é por um fim à produção pelo lucro de forma que as imensas riquezas e recursos já existentes possam ser colocados democraticamente em uso para o interesse da maioria.

A transformação revolucionária da sociedade

Foto: REUTERS/Mohamed Abd El Ghany

Isso não significa que as atitudes discriminatórias vão desaparecer da noite para o dia após uma revolução socialista. A opressão em suas diversas formas tem existido por gerações e em alguns casos por milhares de anos, deixando sua marca na consciência da raça humana. No entanto, um movimento de massa tem um profundo impacto na consciência uma vez que as pessoas venham a enxergar umas às outras a partir de suas semelhanças e interesses comuns em vez de enxergarem umas às outras a partir de suas diferenças, como concorrentes. É muito mais difícil defender atitudes discriminatórias contra mulheres, imigrantes ou pessoas LGBT quando elas estão nas ruas lutando pelo mesmo que você, colocando suas vidas em risco. Durante greves de trabalhadores torna-se claro que eles não têm qualquer interesse em discriminar uns aos outros, uma vez que isso só iria acabar com a greve. Durante movimentos de massa esse entendimento é alcançado em uma escala de massas.

Um forte exemplo recente foi a Revolução Egípcia de 2011 que levou à queda de Hosni Mubarak. Embora as mulheres no Egito tenham experimentado historicamente altos níveis de discriminação e violência e cristãos e muçulmanos tenham se envolvido em conflitos sangrentos por décadas, homens e mulheres de todas as origens religiosas se uniram na Praça Tahrir. Pensamentos discriminatórios e estereótipos acerca de grupos oprimidos foram deixados de lado em prol da luta contra um opressor comum. Embora a Revolução Egípcia ainda não tenha superado o capitalismo, ela é apenas uma amostra do que pode ocorrer em escala generalizada através de uma revolução socialista e do esforço coletivo para construir uma nova sociedade.

Transformando-se radicalmente as fundações sociais e econômicas da sociedade a partir do socialismo, as raízes estruturais e econômicas da opressão serão erradicadas. Sem uma classe exploradora minoritária produzindo em nome do lucro, não haveria qualquer razão social ou material para que a maioria se dividisse e estratificasse em sexo, gênero, orientação sexual, capacidades físicas, raça, idioma, religião ou qualquer outra categoria. Quando nós deixarmos de ser obrigados a competir por emprego, educação, vagas em creches, comida, água e moradia, a forma como nos relacionamos uns com os outros irá mudar de maneira fundamental.

Lideranças democraticamente eleitas e revogáveis a qualquer momento, assim como supervisão democrática dos processos de contratação, podem servir para prevenir práticas discriminatórias nos locais de trabalho. A propriedade e o controle coletivo e democrático da mídia e das instituições educacionais desempenharão um grande trabalho no combate a atitudes discriminatórias na sociedade e na garantia de que a bela diversidade humana seja ensinada e celebrada. Mudando a fundação socioeconômica da sociedade levaria a uma mudança profunda na visão de mundo e nas atitudes das massas.

Os marxistas costumam ser criticados por terem uma solução pré-moldada e imposta de cima para baixo a todos os problemas. Ao contrário, a revolução socialista se trata de pessoas comuns tomando seus destinos em suas próprias mãos e construindo uma nova sociedade para si mesmas. Os marxistas procuram guiar as massas em direção à superação bem-sucedida do capitalismo e ao estabelecimento de uma sociedade socialista, criando uma fundação econômica e social em que a desigualdade, a opressão e a exploração não tenham mais suas bases materiais. A partir daí, grupos historicamente oprimidos terão a oportunidade e os recursos que precisam para satisfazer suas necessidades únicas surgidas após sucessivas gerações de opressão e discriminação. Sobre essas bases de verdadeira igualdade social, as pessoas poderão começar a se relacionar umas com as outras em um nível fundamentalmente mais verdadeiro e humano; através da construção de uma nova sociedade, uma nova consciência coletiva se tornará possível.

[1] “Chega de esperar”, em tradução livre, é um movimento indígena canadense nascido em dezembro de 2012 e que luta contra ataques por parte do governo e das casas legislativas contra os povos originários.

Artigo publicado em 13 de julho, no site da Corrente Marxista Internacional (CMI), sob o título de “Marxism vs. Intersectionality“. Originalmente publicado no site da seção canadense da CMI, Fightback Canada.

Tradução Felipe Libório.

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