Máquinas – Crítica

O capitalismo transformou o homem em um apêndice da máquina. Marx e Engels falaram sobre isso há mais de um século, mas a situação, apesar de toda a tecnologia existente hoje, parece não ter se modificado. O documentário indiano Máquinas mostra exatamente isso. Em tempos de ataques às leis trabalhistas no Brasil e no mundo, talvez seja ilustrativo assistir ao filme, pois mostra uma situação atual, a qual nos rememora ao nosso passado sem leis trabalhistas e, talvez também, ao nosso futuro.

A primeira parte do filme é silenciosa de falas, não ouvimos nenhuma voz. Escutamos ruídos das máquinas, teares, malhas, fios tudo sendo mexido de um lado para o outro. O ambiente é sujo, as pessoas parecem exaustas e mesmo assim a imagem segue bonita, conseguimos ver a beleza em cada quadro. Os planos longos nos ajudam a observar melhor a beleza de cada sequência. Enquanto o enquadramento da câmera nos passa a sensação de uma caverna, a fábrica parece nos espremer entre as máquinas e malhas, um ambiente sufocante.

De acordo com o diretor, a intenção ao produzir imagens “bonitas” era chamar atenção das pessoas para a situação vivida por esses trabalhadores. O diretor citou o trabalho do fotografo brasileiro Sebastião Salgado em Gênese, como exemplo de inspiração. Não houve trabalho de direção de arte, a beleza da imagem não é produto de nenhuma estrutura de produção ou planejamento, mas foi lapidada por um artesão paciente.

O cineasta cuidou dos detalhes e isso faz diferença na obra. Três anos de filmagens e 600 entrevistas foi um grande esforço. Isso lhe permitiu uma sintonia com os trabalhadores, apesar de eles parecerem confusos com o diretor. Não entendem o objetivo do cineasta, nem o significado do filme.

Quando olham em direção à câmera, não ouvimos nenhuma voz, nem som fora do campo da imagem. Eles reclamam, perguntam qual o motivo de trabalharem doze e não oito horas por dia, querem saber o que precisam fazer para mudar a situação e o motivo de tanta exploração. Nesse momento parecem estar falando com o espectador do lado de fora da tela, as perguntas provocam quem assiste.

Sentimos um desconforto com o olhar e o questionamento dos trabalhadores, mas uma revolta quando ouvimos as declarações do patrão. Para ele, o salário baixo é o necessário para os operários, a longa jornada é uma forma de ocupar aquelas pessoas, ao fim ele acredita REALMENTE estar ajudando. Os relatos do patrão e dos operários são as únicas opiniões expressas, no mais temos apenas o silêncio da imagem.

O olhar do documentário é de um observador, o cineasta parece não interferir, nem fazer nenhum direcionamento, os relatos dos operários e patrões são naturais dentro da narrativa. A opinião política não precisa estar explicita para ser válida. Está claro na forma da montagem, na sensação claustrofóbica dos enquadramentos e nas escolhas das falas dos personagens o posicionamento do diretor. A própria escolha do tema do documentário mostra a posição política.

O filme parece mostra uma situação do século XIX, mas não é. As relações de trabalho em pleno século XXI parece não ter evoluído e em alguns casos, talvez regridam. O filme do cineasta indiano Rahul Jain não mostra apenas a realidade de Gujarat na Índia, um lugar “exótico”, mas nos alertar sobre um possível futuro.

Filme visto no Olhar de Cinema de Curitiba.

* João Diego é jornalista e especialista em cinema pela Universidade Tuiuti do Paraná.

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