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Malvinas: a provocação de Cameron

A decisão do governo de Cameron de enviar o navio HMS Dauntless às costas das Ilhas Malvinas no Atlântico Sul representa uma provocação injustificada ao povo da Argentina. Alan Woods redigiu este texto em 29 de fevereiro de 2012.

O Ministério da Defesa disse que era um “movimento rotineiro”. Um porta-voz do Ministério da Defesa disse à BBC que o movimento “não tinha nada a ver com o aumento das tensões entre o Reino Unido e a Argentina sobre a quem pertencem as Ilhas Malvinas”.

Um porta-voz da Royal Navy [Marinha Real] disse: “A Royal Navy teve presença contínua no Atlântico Sul durante muitos anos. O envio do HMS Dauntless ao Atlântico Sul foi planejado com muita antecedência, é totalmente rotineiro e substitui outro navio de patrulha”. Mas não há nada de “rotineiro” a respeito.

Ninguém que esteja remotamente ao corrente da situação na zona acreditará nisto. Cameron e sua quadrilha sabem muito bem que esta ação equivale a meter um dedo no olho da Argentina.

O chanceler argentino, Héctor Timerman, assinalou que com o envio de um destróier tipo 45, a Grã-Bretanha “multiplicou por quatro seu poderio naval no Atlântico Sul, que nenhum país da América do Sul possui um avião como o Typhoon 2, que foi utilizado em suas guerras no Afeganistão, Iraque e Líbia.”

O Typhoon pode sobrevoar até mais da metade do território argentino e disparar mísseis Taurus a mais de 500 km. Isto dá à Grã-Bretanha uma capacidade ofensiva que também se estende a todo o Uruguai, Chile e grande parte do sul do Brasil. É a arma mais mortífera no Atlântico Sul.

Os destróieres tipo 45 têm quase o dobro do alcance – uns sete mil quilômetros – e são 45% mais eficientes no uso de combustíveis que os destróieres tipo 42, que estão sendo substituídos dentro de um projeto que custou seis bilhões de libras. Este será o primeiro dos novos destróieres de defesa aérea tipo 45 da Armada que irão à zona. Dessa forma, esta é sem dúvida uma grave escalada e uma intensificação da militarização do Atlântico Sul.

Buenos Aires também afirma que o Reino Unido introduziu armas nucleares no arquipélago. Verdade ou não, estas ações, exatamente depois da intervenção militar britânica na Líbia, estavam destinadas a ser vistas como um ato de agressão e uma provocação à Argentina. Pretender o contrário é um cinismo diplomático descarado.

O correspondente da BBC, tentando justificar estas ações, se viu obrigado a admitir que representavam “sem dúvida, um aumento das tensões”. Isso é um eufemismo grosseiro.

Para agregar elementos de farsa à situação, fomos informados de que o príncipe Guilherme, neto da rainha britânica Isabel II e o segundo na linha de sucessão ao trono, também foi enviado às ilhas “por sua capacidade de piloto de buscas e salvamento da Royal Air Force (RAF)”. Isto é tão absurdo quanto o anterior “envio” de seu irmão Harry no Afeganistão, onde posou para algumas fotos e se retirou rapidamente à segurança de Londres e à boa vida, deixando para os soldados britânicos comuns a tarefa de lutar e morrer numa guerra impossível de ser ganha no Afeganistão.

Isto seria divertido, se as possíveis consequências não fossem tão graves. Tomados em conjunto, estes anúncios, coincidindo com o trigésimo aniversário do início da guerra com a Argentina pelas Ilhas Malvinas, não podem ser vistos mais que como um insulto calculado e uma provocação à Argentina. Recordemos que a guerra em 1982 causou a morte de 649 soldados argentinos e 255 soldados britânicos. Agora, Cameron voltou a lançar lenha na fogueira.

A política externa é a continuação da política interna

A classe trabalhadora sempre deve focalizar a política externa a partir de um ponto de vista de classe. Temos que aprender a penetrar além da espessa camada das mentiras oficiais, da propaganda e da diplomacia e expor os verdadeiros interesses que se escondem por trás de tudo isto.

Todo trabalhador sabe que os governos mentem. Mentem sobre o estado real da economia. Mentem quando dizem que os trabalhadores e os banqueiros estão “todos no mesmo barco”, e que todos nós devemos fazer sacrifícios por igual. Mentem quando dizem que não há dinheiro para os serviços públicos, enquanto entregam bilhões aos banqueiros na City de Londres. Mentem sobre suas verdadeiras intenções em política interna. E mentem ainda mais sobre suas verdadeiras intenções em política externa.

A diplomacia é a arte de mentir com habilidade com o objetivo de demonstrar que o negro é branco e de apresentar os atos mais repugnantes e criminosos como se fossem tão brancos e puros como a neve. É suficiente recordar a forma como trataram de embelezar a violação do Iraque como uma missão humanitária e uma “guerra pela democracia”. No Afeganistão, dez anos depois da ocupação, estão matando civis todos os dias, o governo de Cabul é corrupto até a medula, 30 mil crianças morrem de fome a cada ano e não se vislumbra o final da guerra.

Este governo dos capitalistas nunca defenderá qualquer causa progressista em nenhum lugar da terra. Sua única preocupação é salvaguardar os interesses de seus ricos patrocinadores. Enquanto enche a boca de “democracia”, está apoiando alguns dos regimes mais repressivos e reacionários do mundo.

Apoiou as ditaduras na Tunísia e no Egito antes que fossem derrubadas pelas massas. Fala hipocritamente de “democracia” na Líbia e na Síria, enquanto mantém silêncio cúmplice sobre a sangrenta repressão dos protestos pró-democracia no Bahrein por forças reacionárias sauditas. Mantém vínculos com os regimes ditatoriais dos sheiks árabes no Golfo Pérsico. Mantém lucrativo comércio de armas com o regime cruel e corrupto na Arábia Saudita.

A política externa não é mais que a continuação da política interna. É impossível realizar em casa uma política reacionária contra a classe trabalhadora, enquanto se defende a democracia e autodeterminação no exterior. O governo de Cameron está atacando os padrões de vida da classe trabalhadora, aumentando os impostos indiretos e cortando o gasto social.

Considera-se que não há dinheiro, não somente para escolas, hospitais e aposentadorias, mas também para as forças armadas da Grã-Bretanha. Muitos dos soldados e pilotos que o príncipe Harry deixou para trás para combaterem e morrerem no Afeganistão estão regressando para casa e descobrem que foram despedidos devido aos cortes nos gastos de defesa.

“Não há dinheiro”, dizem-nos constantemente. Contudo, há um montão de dinheiro para enviar o príncipe Guilherme para uma pequena e agradável excursão no Atlântico Sul, onde posará para as fotos da imprensa brincando em um helicóptero com uniforme de combate, embora não haja um só soldado inimigo no horizonte.

Este é um governo dos banqueiros e dos capitalistas que, ao mesmo tempo em que ataca os pobres, de forma sistemática defende os interesses dos ricos – os banqueiros e os capitalistas – tanto em casa quanto no exterior. A classe trabalhadora britânica não pode apoiar a política externa dos conservadores, da mesma forma que não apoiamos sua política contra os trabalhadores na Grã-Bretanha.

Qual é o motivo?

A pergunta óbvia é: por que Cameron decidiu gastar tanto dinheiro público numa aventura no Atlântico Sul, quando se considera que deve enfrentar um déficit enorme?

A explicação oficial é que se trata de defender o “direito de autodeterminação” dos habitantes das Ilhas Malvinas, que desejam continuar sendo britânicos. Isso é uma bobagem. A ideia de que Cameron e sua camarilha gastariam todo esse dinheiro para defender o direito de menos de três mil indivíduos que cuidam de um rebanho de ovelhas numa rocha a oito mil km de distância é desprezível. Somente um completo idiota acreditaria nisto.

A suposta autodeterminação dos habitantes das Malvinas nunca foi a força motriz por trás da política do imperialismo britânico. Ao longo da história, o “direito de autodeterminação” sempre foi utilizado pelos imperialistas como moeda de troca para ocultar sua cínica motivação.

Os endurecidos indivíduos que decidem sobre a política externa britânica em Whitehall não se caracterizam pelo sentimentalismo. Quanto aos conservadores, se fosse do interesse das grandes empresas britânicas, venderiam suas avós por dois centavos e iriam dormir com a consciência tranquila. O destino de dois ou três milhares de “kelpers” é uma questão que absolutamente não lhes interessa.

Basta olhar o registro histórico. Deixemos de lado o pequeno detalhe de centenas de anos de domínio colonial na África e no subcontinente indiano. Seu direito à autodeterminação nunca foi mencionado. Em tempos mais recentes, a Grã-Bretanha nunca deu aos habitantes de Hong Kong o direito de decidir se queriam ser entregues a Pequim. E os mesmos conservadores, que com tanta ternura se preocupam com a autodeterminação de duas mil e quinhentas pessoas no Atlântico Sul, opõem-se rotundamente a permitir que os escoceses sequer votem sobre se querem por um fim a sua união com a Inglaterra.

Por que o governo de Cameron deu este passo? Em parte, isto foi ditado por considerações estratégicas – o papel mundial da Grã-Bretanha sofreu um grave declínio durante mais de cem anos. Já faz muito tempo que o imperialismo britânico foi substituído pelos EUA como polícia do mundo. Contudo, a Grã-Bretanha ainda tem conexões que ficaram de seu passado imperial e que quer conservar.

Uma consideração importante é o negócio das armas, que proporciona aos fabricantes de armas britânicos contratos muito lucrativos com países como a Arábia Saudita e Bahrein. É por isso que Londres mantém um discreto silêncio sobre a péssima situação dos direitos humanos nestes Estados, com os quais a Grã-Bretanha mantém acordos de defesa.

Esta foi uma das principais razões por que Margaret Thatcher decidiu, em 1982, enviar a frota a oito mil milhas de distância para expulsar das Malvinas o exército argentino. Não podia aceitar a humilhação causada pela derrota, nem a exibição pública das fotos de soldados britânicos estendidos no chão, que deram a volta ao mundo.

Para os imperialistas, o prestígio é uma questão material. O governo de Londres está tratando de flexionar o músculo militar numa tentativa de demonstrar aos aliados da Grã-Bretanha e a seus Estados clientes que ainda somos uma potência militar séria, apesar dos profundos cortes nos gastos de defesa que foram ordenados recentemente pelo governo de Londres.

A guerra de 1982

A guerra de 1982 com a Argentina não ocorreu para defender o direito de autodeterminação de ninguém. Foi uma guerra para defender os interesses do imperialismo britânico, cujo papel no mundo se viu socavado pela invasão argentina das ilhas. As atuais manobras militares não são diferentes. A força impulsionadora das ações da classe dirigente britânica não é a preocupação pela “autodeterminação”, e sim o cínico e sórdido egoísmo, como sempre o foi.

Em geral, ninguém se lembra, tanto na Inglaterra quanto na Argentina, que o governo de Margaret Thatcher em Londres tinha excelentes relações com a sangrenta ditadura de Galtieri em Buenos Aires. Os imperialistas britânicos vendiam armas à Junta militar. Somente depois de que explodiu a guerra descobriram de repente que era uma ditadura monstruosa. Somente então começaram a se opor a seus assassinatos e torturas.

Antes de 1982, o ministro das Relações Exteriores britânico, Lord Carrington, estava negociando secretamente um processo de entrega das Ilhas Malvinas à Argentina. O ministro favorito de Thatcher, Nicholas Ridley, estava buscando um compromisso negociado sobre as Malvinas com a Argentina na ONU. O plano era uma transferência de soberania sobre as Ilhas a Buenos Aires, com arrendamento posterior à Grã-Bretanha, para administrá-las em nome dos habitantes das ilhas, que conservariam seu direito de continuar sendo britânicos.

Mas a Junta, que enfrentava uma crescente onda de rebelião, tinha pressa. Se Galtieri estivesse disposto a esperar, tudo indica que os britânicos estariam dispostos a entregar as ilhas, que não tinham nenhuma utilidade real para eles. O problema é que Galtieri não podia esperar. Em 1982, a ditadura, que havia realizado uma guerra suja contra ativistas de esquerda, que deixou pelo menos 30 mil mortos, se encontrava em dificuldades. Havia uma onda de descontentamento social.

Como resultado de suas relações com Lord Carrington, Galtieri acreditou que isto seria fácil. Confiando que seus amigos em Londres não iriam lutar para reter o controle das ilhas, Galtieri ordenou a invasão. Esse foi um grave erro de cálculo. Pelas razões já expostas, o imperialismo britânico não poderia aceitar o confisco das ilhas por meios militares e lutou para voltar a toma-las.

A invasão das ilhas em 1982 foi uma aventura militar que conduziu a uma catástrofe nacional para a Argentina. Ao levantar a bandeira das Ilhas Malvinas, a Junta desmobilizou com êxito o movimento revolucionário. Se tivesse tido êxito na tomada das ilhas, provavelmente, a Junta teria durado mais tempo. Mas a derrota, como acontece frequentemente, conduziu à queda do regime e abriu um período revolucionário na Argentina.

No que se refere à situação das ilhas, a derrota da Argentina deixou a Grã-Bretanha em plena posse. Tomaram-se medidas para fortalecer as defesas das ilhas e estas foram convertidas em fortaleza inexpugnável. Atualmente, as possibilidades de que a Argentina recupere as ilhas por meios militares são insignificantes.

Como uma guerra por umas ilhotas no Atlântico Sul poderia servir aos interesses da classe trabalhadora da Grã-Bretanha e da Argentina? Não lhes serviu de nada. Se a guerra tivesse concluído com uma derrota da Grã-Bretanha, isso teria significado o colapso imediato do governo de Thatcher, que era profundamente impopular em consequência da elevada taxa de desemprego e da queda dos padrões de vida. A vitória militar mudou tudo. Thatcher logrou se apresentar como uma dirigente militar vitoriosa. Como resultado, a classe trabalhadora teve que suportar um governo conservador reacionário por mais vários anos.

A guerra de 1982 não teve um só átomo de conteúdo progressista. Não resolveu absolutamente nada e simplesmente espalhou as sementes de novas tensões e conflitos que ainda estão conosco atualmente.

Necessita a Grã-Bretanha das Ilhas Malvinas?

Até há pouco tempo, a posse das ilhas do ponto de vista do imperialismo britânico trouxe mais problemas que vantagens. Custava-lhe muito mais dinheiro que o que recebia. Isto já era verdade antes da guerra de 1982. Essa guerra custou aos contribuintes britânicos três bilhões de libras. A Grã-Bretanha agora tem quase tantos soldados nas ilhas, 1.200, quantos habitantes havia nas ilhas no momento da invasão.
O custo do abastecimento às ilhas através de uma ponte aérea a partir da Grã-Bretanha e da Ilha de Ascensão é de milhões de libras.

Garantir sua segurança custa milhões de libras adicionais. E por que têm que pagar os contribuintes britânicos para que os capitalistas tenham direito à exploração de petróleo numa plataforma continental em disputa na América do Sul? A presença militar na zona custará ao Reino Unido 61 milhões de libras (96 milhões de dólares) em 2012-13, um custo que se calcula que vai aumentar em dois milhões de libras (3,14 milhões de dólares) a cada ano depois disso.

Trinta anos se passaram desde a invasão e a situação mudou em um aspecto importante. Enquanto que, no passado, as ilhas eram uma carga financeira para o Reino Unido, agora as coisas estão mudando. Uma empresa britânica, Desire Petroleum, começou perfurações exploratórias buscando petróleo nas águas territoriais das Ilhas Malvinas em 2010 (embora no início tenha tido pouca sorte). O então secretário de Defesa do Reino Unido do governo trabalhista, Bill Rammel, disse que o governo (trabalhista) britânico tinha o “direito legítimo” de desenvolver uma indústria petrolífera em suas águas.

Rammel disse à Câmara dos Comuns que seu governo tomaria “todas as medidas [que fossem] necessárias” para proteger as ilhas e que a Argentina estava “consciente disso”. Como de costume, os dirigentes trabalhistas reformistas defenderam lealmente os interesses da classe capitalista britânica. Quando se fala da “proteção” das ilhas não se trata da defesa dos poucos habitantes e sim da defesa dos possíveis e enormes lucros da extração do petróleo. Liam Fox, quando era secretário de Defesa (Tory) na oposição (mais tarde se converteria em secretário de Defesa de Cameron) disse que “nenhuma quantidade de intimidação” por parte de Buenos Aires poderia alterar o que era uma “questão fundamental de autodeterminação”.

Mais recentemente, no final do ano passado, a empresa Rockhopper Exploration disse que tinham conseguido descobrimentos significativos fora das ilhas. Rockhopper calculou que poderia haver até 350 milhões de barris de petróleo no campo específico que estava explorando. Isto seria suficiente para que as Malvinas se tornassem rentáveis como produtoras de petróleo. Isto também provocou a ira renovada por parte do governo argentino.

Há dois anos, o porta-voz de Desire Petroleum, David Willie, disse: “Desire é uma empresa petrolífera e está explorando em busca de petróleo e não está envolvida no que a Argentina está falando em levar à ONU. A plataforma está assentada firmemente dentro de águas territoriais do Reino Unido”. Isto é totalmente falso.

Através do envio de navios de guerra às Malvinas, é a Grã-Bretanha que está intimidando a Argentina. Quanto à “questão fundamental da autodeterminação”, devemos fazer a seguinte pergunta: “autodeterminação” para quem? Para os 2.500 criadores de ovelhas ou para as grandes empresas petrolíferas?

Os magnatas do petróleo e seus partidários conservadores estão conscientes de que o fortalecimento da presença militar da Grã-Bretanha na região estava destinado a provocar uma resposta furiosa dos argentinos, que não aceitam que estas águas sejam “águas territoriais do Reino Unido”. De fato, é difícil entender como pode haver “águas territoriais do Reino Unido” separadas da costa britânica por oito mil milhas de mar aberto.

Um fator adicional ao descobrimento de reservas de petróleo nas águas em torno das ilhas é sua proximidade à Antártida, que tem vastas reservas de recursos minerais sob a superfície. A posse das Malvinas é importante para os interesses do imperialismo britânico, porque estas ilhas são uma continuação da plataforma continental da Antártida, onde a Grã-Bretanha reclama o domínio sobre uma parte do continente antártico (da mesma forma que a Argentina, o Chile e outros países).

Para colocar as coisas nas devidas proporções, a exploração de petróleo nas Malvinas se encontra em etapa precoce, e mesmo que se encontrem quantidades comercialmente viáveis, passariam vários anos antes que o petróleo começasse a fluir. Contudo, as grandes empresas petrolíferas e os banqueiros da City de Londres – isto é, os verdadeiros governadores da Grã-Bretanha – são pessoas pacientes e estão dispostas a esperar sua recompensa.

Seus interesses, e nada mais que seus interesses, são o que determina a política da Grã-Bretanha sobre esta questão e qualquer outra. Esta é a causa por que os jovens soldados britânicos e argentinos derramaram seu sangue em uma guerra sem sentido. Esta é a razão por que uma Grã-Bretanha, que se encontra às bordas da quebra, está disposta a gastar bilhões de libras em umas ilhas áridas no Atlântico Sul. Tudo o mais é conversa fiada.

A Argentina e a questão das Malvinas

Na Argentina, assim como na Grã-Bretanha, a questão central é a questão de classe: a verdadeira guerra é a guerra entre ricos e pobres. Mas, durante muitos anos, a burguesia utilizou esta questão para desviar a luta de classes. Em intervalos regulares, sobretudo quando a luta de classes se torna extremamente polarizada, tira-se do armário a questão das Malvinas com a finalidade de se estabelecer um “consenso nacional”.

A burguesia da América Latina teve 200 anos para mostrar a que veio. O que conseguiu? Um poderoso continente, que é rico em recursos humanos e materiais, se viu submetido à pobreza, aos caos e à humilhação. A burguesia latino-americana demonstrou sua incapacidade total para livrar uma luta séria contra o imperialismo. O conflito atual é mais uma prova disto. A própria burguesia argentina estaria interessada em chegar a um acordo amistoso com a Grã-Bretanha, no qual serviria como um sócio menor na exploração do petróleo das Malvinas sem ter que armar tanto barulho.

A posição atual do governo argentino reflete a variante da esquerda do peronismo, representada por Nestor Kirchner no passado, e agora por sua viúva, Cristina Fernández. O governo de Cristina Fernández entrou em conflito com a burguesia argentina, que considera a posição do governo argentino imprudente.

A crise econômica mundial está começando a ter efeito negativo sobre a economia argentina. A inflação está aumentando muito mais rápido do que se diz nas estatísticas oficiais e está, provavelmente, em torno de 25%. Está claro que Cristina está tratando de utilizar este tema para ampliar sua base de apoio e desviar a atenção dos problemas internos que derivarão disto.

Como resultado, as tensões aumentaram com os governos de Londres e Buenos Aires utilizando linguagem forte. David Cameron disse que a Argentina tinha uma atitude “colonialista” com relação às Malvinas – como se a Grã-Bretanha fosse inocente dessa acusação. Isto foi condenado pelo senado da Argentina. Mas estamos falando principalmente de discursos, palavras, palavras e mais palavras.

O governo de Buenos Aires fala muito de “anti-imperialismo”. Mas, em que consiste realmente a suposta luta contra o imperialismo? Se a luta anti-imperialista pudesse ser ganha por meio de palavras, isto já teria ocorrido há muito tempo. Por desgraça, os imperialistas não lutam somente com palavras e sim com navios de guerra, bombas e mísseis. A experiência de 1982 é prova suficiente disso.

Está claro para todos que a Argentina, em sua composição atual, carece da capacidade militar para tomar as ilhas. Que se propõe em seu lugar? Levar a questão às Nações Unidas! “Vamos apresentar uma queixa ante o Conselho de Segurança da ONU e à Assembleia Geral da ONU, na medida em que esta militarização coloca um grave perigo para a segurança internacional”, disse Fernández.

Toda pessoa séria sabe o que vale o apoio das Nações Unidas. Todo o mundo sabe que não é mais que uma tertúlia em que as potências menores podem desafogar todas as mágoas, porque, no final, as grandes potências no Conselho de Segurança é que decidirão. E a Grã-Bretanha, como membro permanente do Conselho de Segurança, pode vetar qualquer resolução que não lhe agrade.

Será que nada aprendemos da história? Quantas resoluções foram aprovadas pela ONU sobre a questão Palestina durante o último meio século? Perdemos a conta. E o que se conseguiu? Absolutamente nada. Seja como for, as possibilidades de que a Argentina consiga aprovar sequer uma moção no Conselho de Segurança sobre a questão das Malvinas são nulas.

Por acaso a ONU impediu que os imperialistas atacassem o Iraque? Não pôde fazê-lo. Apesar do fato de que os comissários das Nações Unidas ainda estavam investigando as (falsas) acusações de que o Iraque possuía armas de destruição em massa, a coalizão liderada pelos EUA bombardeou o Iraque, invadiu e ocupou o país. De fato, inclusive usaram resoluções da ONU como cobertura para sua flagrante agressão.

Naquelas ocasiões em que a ONU interveio, desempenhou um papel contrarrevolucionário, como na Coréia, no Congo e no Iraque, para mencionar somente alguns exemplos. Portanto, fazer apelos a este organismo em nome da “luta anti-imperialista” é pior que inútil. É como apelar para Satanás contra Mefistófeles.

Tampouco é útil fazer um apelo às organizações burguesas como MERCOSUL, o acordo comercial latino-americano, que inclui a Argentina, Uruguai, Brasil e Paraguai. Foi anunciado que se proibirá aos navios que navegam sob a bandeira das Ilhas Malvinas atracarem nos portos das nações-membro. Se esta ameaça for levada a frente, causará problemas, mas não terá graves repercussões na política do imperialismo britânico, que encontrará a forma de evitar estas restrições, ou, caso contrário, continuará abastecendo as Ilhas a partir da Grã-Bretanha e da Ilha de Ascensão.

Como lutar contra o imperialismo

Durante anos, a questão das Malvinas complicou a questão de classe na Argentina. Em 1982 inclusive levou a esquerda a unir suas forças com a ditadura militar. Como o sociólogo argentino Vicente Palermo disse: “As Malvinas são vistas como uma causa nacional, independentemente de que tenha ocorrido uma guerra pelas ilhas provocada por um governo militar impopular”.

Isso nos leva uma posição falsa sobre a questão nacional: diretamente ao pântano do frente-populismo e à colaboração de classes. “Trata-se de uma velha causa nacional, e os militares se aproveitaram deste sentimento popular para tratar de manter seu controle sobre o país”, disse o sociólogo Atílio Borón. Mas, significativamente, acrescenta: “A guerra somente conseguiu atrasar o possível início de negociações entre a Argentina e a Grã-Bretanha”.

Durante um tempo, a questão se manteve em estado latente, mas com a eleição de Nestor Kirchner a presidente em 2003, houve um aumento dos esforços da Argentina para reclamar as ilhas e o governo buscou ativamente o apoio de outras nações da região e da ONU.

Agora as ações da coalizão Liberal-Democrata e dos Conservadores no Reino Unido provocou uma onda de indignação na Argentina que está reverberando em toda América Latina. Inflamaram-se os sentimentos anti-britânicos. O efeito imediato foi o aumento da agitação nacionalista na Argentina e o apoio ao governo.

Cristina Fernández acaba de ser reeleita com um forte apoio e sua popularidade é alta. Ibarometro, firma argentina especializada em pesquisas de opinião pública, disse que o apoio dos argentinos à reivindicação das ilhas é tradicionalmente em torno de 65-70%, mas que os comentários de Cameron impulsionaram este índice a quase 74%. Houve manifestações com a queima da bandeira britânica em frente à embaixada britânica em Buenos Aires.

Parcialmente, o tema está sendo colocado porque é o trigésimo aniversário da guerra. Mas, também, coincide com uma mudança de rumo pelo governo argentino que, por trás da cortina de fumaça da retórica “antiimperialista”, está pressionando para a abertura de conversações com o governo britânico.

O governo argentino está tratando de obter o apoio de outros países da região à sua reivindicação sobre as ilhas com o objetivo de melhorar as perspectivas de forma que a Grã-Bretanha aceite abrir negociações sobre o tema. Até agora, a partir do Ministério das Relações Exteriores, em Londres, não houve nenhum indício de mudança na posição britânica.

Da mesma forma que em 1982, o imperialismo estadunidense tem uma posição diferente do imperialismo britânico neste assunto. Washington pediu à Grã-Bretanha e à Argentina que negociem, mas o governo do Reino Unido disse que “não está disposto a discutir a soberania das Ilhas Malvinas contra os desejos do povo das Malvinas”.

Especulou-se que Cristina Fernández poderia por fim à importante conexão aérea entre o Chile e as Ilhas Malvinas que deve utilizar o espaço aéreo argentino – um gesto que criaria importantes dificuldades práticas para os habitantes das ilhas. O ministro de relações exteriores do Chile também declarou recentemente seu apoio à soberania Argentina sobre as ilhas.

O fato de que isto não tenha acontecido põe de manifesto que não se está colocando o lançamento de uma luta séria, e sim que se está buscando algum tipo de acordo diplomático com o imperialismo britânico. Cristina Fernández pediu ao primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, que “desse uma oportunidade à paz”.

Em resposta, o Escritório de Relações Exteriores do Reino Unido emitiu posteriormente um comunicado que dizia: “O povo das Ilhas Malvinas é britânico por decisão própria. São livres para determinar seu próprio futuro e não haverá negociações com a Argentina sobre a soberania a menos que os habitantes das ilhas o desejem”.

Mas é possível que esta resposta oficial não reflita a situação real. É significativo que o governo tenha rejeitado a tentativa de aprovar uma lei declarando que as ilhas se manteriam indefinidamente sobre o controle britânico. Os parlamentares da direita dos conservadores, como Guy Opperman, estão exigindo leis que garantam “o direito das Ilhas a continuar sendo britânicas”, argumentando que isso seria mostrar seu apoio ao “direito inequívoco à autodeterminação”.

Apesar da guerra de palavras, há poucos indícios de que a burguesia argentina tenha a intenção de lutar a sério contra o imperialismo. O que vemos são somente sombras em luta. Diferentemente da burguesia, os trabalhadores da Argentina querem sim lutar contra o imperialismo. Isso é muito positivo e o apoiamos. Contudo, devemos nos fazer a pergunta de como estas belas palavras podem se traduzir em ações. Com a aprovação de resoluções? Isto não produzirá nenhum efeito, em absoluto. Remetendo a questão às Nações Unidas? Isto é ainda mais que inútil.

Se o governo argentino quer lutar realmente contra o imperialismo, por que não expropria as propriedades das grandes empresas britânicas na Argentina? Isso teria um efeito maior do que uma centena de mísseis Exocet. Representaria um duro golpe contra o imperialismo o qual os marxistas britânicos apoiariam com todo o entusiasmo possível.

Sem uma ação decidida desse tipo, toda conversa sobre a “luta anti-imperialista” é somente palavrório vazio e um engodo para o povo. O que se necessita é por em marcha uma verdadeira luta contra o imperialismo, que é inseparável da luta de classes contra o capitalismo na Argentina, na Grã-Bretanha e em escala mundial. Sobre essa base, podemos formar uma frente única de trabalhadores de todo o mundo. Tudo o mais é demagogia sem sentido.

Traduzido por Fabiano Adalberto

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