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Mais negros assassinados nas mãos da polícia carioca

Vemos que a Justiça não é imparcial. Ela enxerga muito bem as classes. Se você  é pobre, já  é potencialmente culpado e, provavelmente, não terá direito à defesa.

No dia da consciência negra (20/11), vários negros foram assassinados na favela da Cidade de Deus. Ao que tudo indica as mortes foram causadas por uma “vingança” da policia. Isso porque um helicóptero da Polícia caiu na região e a imprensa noticiou que ele havia sido alvejado por criminosos. Nesse processo 4 policiais morreram. 

As investigações da perícia não comprovaram qualquer vestígio de balas na aeronave ou nos corpos dos policiais. Os peritos sugerem que a queda foi causada por uma pane na aeronave, ou seja, teria sido fruto de mais um exemplo de descaso do Estado com o servidorismo público e seus funcionários. 

A verdade é que desde a ocorrência desse fato a polícia tem feito várias intervenções na favela da Cidade de Deus (e varias outras) e o resultado foi mais mortes. Já foram confirmadas ao menos 13 assassinatos na região. Em alguns desses casos não há nenhuma prova de envolvimento com o crime organizado. Além dos homicídios comprovados, há inúmeros relatos de desaparecimentos e agressões físicas e morais.

O nível de violência do Estado é tão grande que estão sendo emitidos mandatos de busca coletivos, com cobertura de bairros inteiros. Ou seja, para o Estado burguês, e sua polícia, basta morar na favela para que alguém seja definido como criminoso. Obviamente que esse tipo de mandato não é usado nas regiões mais abastadas da cidade. Nenhum morador do Leblon terá seu prédio de luxo invadido se houver alguma denúncia de que jovens consomem drogas na região. Já nas favelas, a polícia entra nas casas, esculacha trabalhador e, por vezes, ainda aplica a pena de morte, o que é proibido no Brasil, mas que já foi liberado nas favelas e periferias do país.

Primeiro mata, depois averigua. Esse é o procedimento padrão. 

Vemos que a Justiça não é imparcial. Ela enxerga muito bem as classes. Se você  é pobre, já  é potencialmente culpado e, provavelmente, não terá direito à defesa.

Quem mais morre nessa guerra? 

Muito tem se discutido se devemos defender os policias ou os criminosos. E se esquece nessa discussão como se classifica o policial que mata por “vingança”, que mata alguém que já está rendido, com tiros nas costas.

Como se classifica o policial que achaca crianças com 8, 10, 12 anos, que não podem carregar tesoura e cola para ir à escola porque “este é material para manusear droga”?

Como se classifica o policial que para e revista um jovem negro mais de três vezes no caminho para casa porque “você tem o tipo que parece criminoso”?

Os jovens negros do Leblon não são parados. Se você veste roupa de grife, tem um carrão e está na companhia do seu amigo, branco ou negro, bebendo cerveja naquele botequim chique, não vai ser revistado três vezes pela polícia que passa ao lado.

O racismo tem cor e tem classe.

O fato é que tanto policiais quanto agentes do crime estão sendo mortos. E no meio dessa história, vários moradores também sofrem com essa guerra. E qual a cor da pele dessas pessoas? Quase todos pretos.

Nessa guerra, quem mais sofre são os trabalhadores e seus filhos, que são obrigados a conviver nesse clima de guerra, com as armas da polícia apontadas de um lado e as armas do tráfico apontadas de outro.

Morrem jovens, policiais, bandidos, trabalhadores, quase todos pretos. Querermos o fim das mortes e da violência nas periferias.

Como acabar com assassinato da juventude?

Os números são alarmantes. Morrem mais de 60 mil pessoas por armas de fogo por ano. Mais gente que em guerras. E as maiores vítimas são a juventude, juventude negra. 
Esses números incluem os policiais, e cada ano aumentam. Temos uma das polícias que mais mata e que mais morre. Muitos deles negros também e de origem popular. Ou seja, o capitalismo faz suas guerras e quem paga é a classe trabalhadora; paga com sua vida.

Quando não é isso, são as drogas e as cadeias que aprisionam nossos corpos e mentes. 

Com o aumento da crise do capitalismo (política e econômica), a violência também aumenta, necessariamente. A guerra é um dos instrumentos que o capitalismo usa para contornar as suas crises. E é só isso que o capitalismo tem para nós: barbárie sem fim. 

É preciso lutar pela nossa sobrevivência 

Enquanto aqui “em baixo” os pobres negros se matam, “lá em cima” os ricos  continuam consumindo tudo que há de mais caro e melhor, como se ainda fossem senhores da casa grande. Os burgueses e seus lacaios se divertem com toda essa guerra, afinal, é assim que eles se mantêm no poder: roubando, matando e destruindo.

A classe trabalhadora negra precisa organizar sua auto-defesa, assim como os Panteras Negras fizeram nos anos 1960 nos EUA. Lá também o Estado usou o tráfico e a polícia (FBI) para impedir que os negros lutassem  por suas vidas e por seus direitos. As drogas eram despejadas na periferia para anestesiar os lutadores e para incriminar seus líderes. Aqui não é diferente. O mesmo estado que reprime é o que permite que as drogas entrem nas periferias e destruam a vida de milhares de famílias.

Precisamos lutar primeiro pela nossa sobrevivência. Mas também pelo direito à saúde, transporte, educação, cultura e lazer. Nenhum negro merece ter esses direitos negados. Além disso temos que lutar por nossa liberdade. Não podemos mais viver levando esculacho e sendo assassinados. O tempo do chicote e do açoite do feitor já acabou.

Para nós, marxistas, isso inclui lutar contra Temer e Pezão, uma vez que todas as suas ações têm sido no sentido de piorar ainda mais a vida do trabalhador, a vida dos negros. Essa luta exige unidade entre todos aqueles que não aceitam mais viver sendo tratados de forma desumana. Precisamos da unidade de todos os explorados, contra essa casta de privilegiados que é a burguesia, nossos verdadeiros inimigos históricos.

Para derrotar essa barbárie, é preciso enfrentar o capitalismo e todos seus instrumentos formados para dividir a classe trabalhadora, como por exemplo o racismo e o racialismo. 

Ou socialismo ou barbárie. 

Nem polícia, nem tráfico e nem legalização das drogas. Liberdade, emprego e educação para os jovens.

Pelo fim da PM! Mano não mate, mano não morra. Paz entre nós e guerra aos senhores.

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