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Lutar contra o desmonte do Banco do Brasil

Até o fim do ano, milhares de trabalhadores serão desligados do banco e até fevereiro de 2017, centenas de agencias serão fechadas ou diminuídas de tamanho.

O Banco do Brasil anunciou no último dia 20 de novembro um plano de reestruturação que prevê o fechamento de 31 superintendências, 402 agências e a transformação de 379 delas em Postos de Atendimento, aliado a um Programa Extraordinário de Aposentadoria Incentivada (PEAI) e a uma redução na dotação de várias unidades.

O BB também propõe a redução da jornada de trabalho de 8 para 6 horas diárias a 6 mil assessores da direção geral e superintendências, com redução de 16,25% do salário médio.

Já pelas regras do PEAI (pelo menos 50 anos de idade e 15 anos de empresa), 18 mil bancários estão apto a aderir e o banco espera que cerca de 9 mil venham realmente a aderir.

Portanto, até o fim do ano, milhares de trabalhadores serão desligados do banco e até fevereiro de 2017, centenas de agencias serão fechadas ou diminuídas de tamanho! Proporcionalmente, isso pode representar a eliminação de um HSBC inteiro no Brasil!

As razões do ataque

O governo Temer ataca o Banco do Brasil com o objetivo de integrar as empresas estatais na política de ajuste fiscal, ou seja, na redução de custos para garantir o pagamento de juros e amortizações da dívida pública.

É o aprofundamento de uma política-econômica regressiva que havia se iniciado no governo Dilma, com o intuito de reverter a expansão do crédito, as isenções fiscais e a tímida redução dos juros praticada no segundo governo Lula.

Para o PT e muitos analistas burgueses, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal foram fundamentais na aplicação de uma política “anticíclica”, ou seja, supostamente capaz de reverter a queda da economia mundial pós-2008 porque reduziram as taxas de juros de empréstimos e investimentos. Como dissemos na época, tal prática, longe de resolver o problema, apenas o empurra para frente e o agrava porque uma expansão do crédito sem base real na economia (aumento dos salários e aumento da produção industrial e do comércio mundial) levaria a um endividamento profundo das famílias e das empresas e a uma elevação dos índices de inadimplência.

Por isso, desde o primeiro mandato de Dilma, a ordem era promover o ajuste fiscal, ainda mais quando as agências de rating (que medem o risco de um país não conseguir honrar seus compromissos com o capital financeiro) rebaixaram a posição do Brasil. Era preciso cortar investimentos públicos e economizar recursos para garantir a felicidade do capital financeiro internacional e nacional!

Porém, a burguesia e o imperialismo queriam mais e – após a aventura do impeachment desenvolvida por seus representantes diretos no Congresso e no governo de coalizão – Michel Temer tenta acelerar os ataques!

“Banco de mercado, com espírito público”

O Banco do Brasil é uma sociedade de economia mista, de capital aberto, cujas ações majoritárias pertencem à União. É um banco estatal, mas totalmente integrado à dinâmica do capital. A administração do banco nos últimos anos nem fez mais questão de esconder esse fato e alterou a missão da empresa, cujo lema agora é: “ser um banco de mercado, com espírito público”.

Mais claro impossível! Se depender da direção do banco e dos governos, de público só vai restar o espírito! Isso, para quem conseguir enxergar espírito…

Não à toa que os dirigentes do banco têm dado declarações como esta: “Nossa meta é nos aproximarmos de índices de rentabilidade mais próximos aos de nossos rivais privados”, feita por Maurício Coelho, diretor de Relações com Investidores.

Índice de rentabilidade é o nome bonito que eles dão à porcentagem de retorno sobre o capital de um acionista. Itaú e Bradesco têm remunerado melhor seus acionistas do que o Banco do Brasil. O BB tem pagado menos porque a inadimplência aumentou. Por isso, a necessidade de uma reestruturação, na visão deles, é claro! Mas, o que eles gostam de omitir é que a inadimplência está concentrada em grandes tomadores, como a Oi e a Sete Brasil que entraram em recuperação judicial, ou seja, os grandes caloteiros estão perdoados ou podem pagar suas dívidas no dia de “São Nunca”, mas os bancários e a população que têm que pagar a conta da crise!

O banco também diz que, paralelamente a esse corte, irá ampliar o atendimento digital, abrindo mais 255 “escritórios digitais”. Já há 245 unidades desse tipo em operação no Brasil, cujo resultado é uma maior concentração de carteiras de clientes sob responsabilidade de equipes cada vez menores. Portanto, o banco esperar aumentar a produtividade dos bancários, ou seja, fazer mais com menos pessoas, sobrecarregando e adoecendo ainda mais bancários ao longo do tempo.

Sem falar que os clientes ficam impossibilitados de falar com seu gerente, a não ser que tenha a sorte de encontrá-lo via chat ou telefone, pois os “escritórios digitais” não abrem para atendimento ao público. Isso se agravará com a transformação das agências em meros Postos de Atendimento.

Lutar contra o desmonte do BB

A direção da Contraf/CUT não está respondendo à altura esse golpe do governo Temer e da direção do BB, presidido por Paulo Caffarelli. Isso não é nenhuma surpresa para quem acaba de assinar um acordo bianual na campanha salarial, que não garante nem a reposição da inflação, mesmo após 31 dias de uma forte greve nacional.

Estão marcadas reuniões entre os representantes sindicais e do BB para negociar a reestruturação. Porém, “a postura da Contraf/CUT é vergonhosa. Não se propõe a enfrentar a reestruturação, não é capaz de propor que o banco suspenda o processo de reestruturação. Não estabelece um calendário de luta e uma rodada nacional de assembleias. As garantias estabelecidas já estavam dadas antes da reunião. O BB respeitar os regulamentos dos planos de saúde e previdência é uma garantia legal, e o banco já tinha comunicado que seguiria esses regulamentos. Hoje em dia, ninguém é obrigado a migrar para seis horas em movimentação lateral para cargo equivalente. O banco já deixou claro que vai manter assim desde o início. Por exemplo, um colega que trabalha atualmente em uma agência como assistente de negócio, se conseguir uma vaga de assistente pleno em unidade de apoio, vai poder manter as oito horas. Esse critério já é aplicado hoje e sobre ele não existem novidades. A grande exigência da CONTRAF/CUT é aumentar o prazo do “esmolão” por mais 4 meses, uma proposta que não enfrenta a reestruturação e não é capaz de lutar pela defesa da comissão dos nossos colegas“, conforme comunicado da assessoria do mandato de Juliana Donato, representante dos funcionários no Conselho de Administração do BB.

Sem encontrar uma direção sindical pronta a enfrentar o banco e o governo na defesa dos interesses dos trabalhadores, fica muito mais difícil organizar a resistência dos bancários, pois muitos colegas estão com medo de serem transferidos ou de perderem a comissão referente à sua função.

Mesmo assim, há sinais claros de que os trabalhadores estão prontos para resistir, como no dia 25 de novembro, no qual milhares de bancários foram trabalhar vestindo preto em repúdio às medidas do BB, numa campanha espontânea, incentivada posteriormente pelos sindicatos. Algumas entidades sindicais estão organizando plenárias ou paralisações e atos de protesto, mas que devem se transformar numa campanha nacional urgente contra a reestruturação, contra o fechamento das agencias, em defesa dos empregos e dos salários!

A CUT tem também impulsionado por todo o Brasil, comitês “se é público, é para todos”. Essa é uma boa hora para mostrar a validade dessa campanha junto aos trabalhadores e à população, de sair dos auditórios e tomar as ruas em defesa do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal, que também estuda lançar uma reestruturação  parecida com a do BB e de abrir seu capital no mercado de ações.

Em Campinas, o Coletivo Bancários de Luta, impulsionado pela Esquerda Marxista, está convocando uma reunião para este dia 30 de novembro, com o objetivo de trocar informações sobre o processo de reestruturação, lançar um chamado à Contraf/CUT e entidades sindicais para que organizem a luta contra o desmonte do BB e discutir outras iniciativas que podem ajudar na mobilização e na resistência a esses ataques!

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