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Lula se despede, mas a aliança com a burguesia continua

O que esperar do novo Governo Dilma-Temer e da herança política deixada pelos 8 anos de Governo Lula?

O ex-presidente Lula deixa o governo federal após oito anos de mandato com um dos maiores índices de popularidade da história do Brasil. É um fato: o povo gosta do Lula! A direita se contorce de ódio ao ver que a principal figura do Partido dos Trabalhadores manteve e mantém uma influência política sem precedentes sobre milhões de trabalhadores e, desnorteada, aumentou e aumentará sua histeria reacionária, utilizando-se de todos os meios (da mídia, do Judiciário e das forças repressivas do Estado, por exemplo) para enganar e reprimir o povo brasileiro.

Já os partidos da ultra-esquerda são incapazes de compreender essa ligação de Lula e do PT com as massas e, por isso, sua ação política, normalmente, é estéril. Cometem erros após erros do ponto de vista do socialismo científico e, por isso, padecem de inanição.

A burguesia que gosta do Lula

Mas, o interessante é notar que a burguesia se faz representar de outras formas também. Pressiona o governo para acalmar a luta de classes e aceita o convite da direção do PT para fazer parte da coalizão. Isso se expressa na quantidade de partidos burgueses e pequeno-burgueses que fazem parte da “base aliada” e que se aprofunda hoje, com a ida do PMDB para a vice-presidência.

Outro exemplo disso é o elogio que Lula recebeu de Roberto Setubal, dono do Itaú, maior banqueiro do país: “Lula foi o maior presidente da história do Brasil”. Sim, os burgueses não têm do que reclamar. A produção e a produtividade cresceram, o crédito fácil garantiu lucros extraordinários aos banqueiros e financiou a construção civil, o agronegócio e a mineração. Os especuladores que apostaram nos títulos do Tesouro, no real e nos papéis das companhias brasileiras ficaram bilionários.

A crise chegou e o governo despejou dinheiro público nos bancos e grandes empresas para salvá-los da recessão e inflar artificialmente o consumo ao ponto de, agora, Dilma ser obrigada a falar em cortes de gastos públicos para evitar um déficit no orçamento nacional e em aumento dos juros para conter a inflação e encarecer o crédito.

A verdade é que não dá para manter as coisas do jeito que estavam porque os EUA desvalorizaram o dólar e isso ameaça a balança comercial e as reservas internacionais do Brasil e tende a diminuir o Investimento Direto do Exterior (IDE), secando as fontes que, até então, jorravam crescimento econômico.

Por outro lado, o corte de gastos públicos e o aumento dos juros não são capazes, por si só, de voltar a atrair dólares e, ao contrário, desestimulam a atividade econômica e podem levar à recessão, como já vivenciamos em toda a década de 90.

Mas, enfim, a burguesia segue combatendo. Seja esgoelando como oposição de direita, conjurando as forças mais obscuras e reacionárias da sociedade, seja colaborando com a propaganda governamental de que mais capitalismo é mais felicidade, afinal, estão lucrando como nunca!

Contentamento popular e luta de classes

Acontece que os trabalhadores também estão contentes com Lula. Mostraram isso centenas de vezes em 8 anos e deram mais uma mostra disso nas eleições que passaram. Essa confiança é consequência não só da história do Lula e do PT junto ao povo, mas também à sensação de que o Brasil está indo bem, pois o fantasma do desemprego já não é tão temível, não falta comida na mesa e é possível financiar roupa, computador, móveis, eletrodomésticos e até carro e apartamento. O jovem pode pegar uma bolsa do governo para estudar numa faculdade particular e os mais pobres recebem um dinheirinho todo mês para ajudar na vida.

Em seu último discurso como presidente, Lula ressaltou todos esses aspectos e voltou a concluir que é possível “governar para todos”, burgueses e trabalhadores. Aparentemente, esse “é o rumo certo”, mas é preciso olhar para além do horizonte.

Inevitavelmente, a crise mundial voltará a castigar o Brasil, cedo ou tarde, numa situação na qual as medidas adotadas anteriormente não serão mais suficientes e talvez nem seja possível de que sejam aplicadas. A fábula reformista de que é possível a felicidade tanto para burgueses quanto para proletários pode se sustentar nos períodos de auge econômico, mas na crise, o que prevalece é a guerra de classes. E períodos extremos pedem medidas extremas. Serão inúteis os esforços para restabelecer as atuais condições de “paz social”. Nada será como antes e o joio será separado do trigo. O reformismo soará como utopia e o socialismo como uma necessidade.

* Rafael Prata é jornalista, trabalhador bancário e membro do Diretório Municipal do PT de Campinas.

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