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Luke Cage – Um super-herói desce ao Harlem

Uma pessoa comum, negra e que mostra como as capas vermelhas não resolvem a barbárie vivenciada pela classe trabalhadora norte-americana.

A primeira vez que li um gibi do Homem Aranha eu me identifiquei. Ao contrário de super-homens ou batmans, um garoto franzino que gostava de ciência, introvertido, de óculos, sem nenhuma qualidade especial. Pobre. Que dependia de seu trabalho para viver. Uau. Aquele cara tinha algo de humano.

Quando eu vi a série de Luke Cage, algo semelhante me bateu. Um super-herói que durante o dia é faxineiro numa barbearia e à noite lava pratos numa boate? Cara, este sujeito é humano! E negro.

No punho que abre a série, o nome de Malcon X. Sim. Uma série que lembra os heróis negros e a todo momento mostra vários personagens lendo os livros de Chester Himes (se você, como eu há dois anos atrás, nunca leu esse autor, dê uma olhada na sua biografia na internet ou então veja este artigo no El Pais, que te dá uma ideia muito melhor). Sim, o Harlem é mais escuro (título de uma novela policial de Himes, pode procurar que está barata) e Ed Coveiro é um policial que representa muito mais a realidade do Harlem do que estes que aparecem na série… ou não.

O método de investigação da polícia do Harlem é simples – o culpado é um negro. E os bandidos são negros, é claro. E a representante política do Harlem é uma vereadora envolvida com todos os gangsters, mas que não quer saber “detalhes” destas transações. Afinal, o financiamento dos apartamentos populares que são seus principais projetos enche os bolsos de todos, inclusive os dela.

O tráfico de drogas domina as ruas e as boates, as armas dominam o tráfico, guerras entre traficantes produzem mortos inocentes e não tão inocentes assim, a polícia também mata. Qualquer um que já viu um morro no Rio vai ver que a vida lá nos States não é tão diferente assim. Quer dizer, no morro não tem um Luke Cage. Aqui não tivemos os Panteras Negras, nem Malcon X, mas a vida é assim.

Mas o genial é mostrar que o herói não resolve nada. Aliás, Luke faz questão de ressaltar: “não sou herói, apenas um cara comum”. E quando ele é perseguido pela polícia, todo o bairro veste roupas parecidas com a dele para escondê-lo. Sim, a solidariedade entre os oprimidos é mostrada e o discurso final de Luke vale a pena ver. Os bandidos morrem no final? Alguns sim, outros não, mas outros tomam o seu lugar. A polícia continua violenta e Luke no final vai para a prisão, que é o lugar de onde saiu e onde “foi tornado” um super-herói numa experiência ilegal. Uma prisão privatizada, aliás, que é o destino de mais de 30% dos jovens negros nos EUA.

Sim, Luke Cage vale a pena ser vista. Despida a capa de super-herói, que ele não usa. Mostra muito bem a realidade e a vida dos negros nos EUA.

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