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Loucuras capitalistas nos limites da Grande Derrocada

O que significam de fato as medidas de tentar salvar o Citibank e outros bancos.

As pessoas sensatas e que conhecem pelo menos um pouquinho de economia estão estupefatas com os destrambelhados volumes de recursos orçamentários gastos nas últimas semanas pelo governo dos Estados Unidos e de outras grandes economias para salvar seus bancos e seus capitalistas da inevitável derrocada.

Os recursos já gastos e os prometidos solenemente pelo Tesouro americano e Banco Central (Federal Reserve, Fed) atingem somas absurdamente inimagináveis. “O governo dos Estados Unidos se comprometeu a descarregar mais de 7,76 trilhões de dólares nas contas dos contribuintes depois de garantir US$306 bilhões de dívidas do Citigroup* na data de ontem. Os compromissos, envolvendo a metade do valor de tudo que foi produzido pela nação no último ano, são direcionados ao resgate do sistema financeiro atingido pelo travamento do mercado de crédito nos últimos 15 meses. Esse inédito compromisso inclui 3,18 trilhões de dólares já fornecidos a instituições financeiras, na maior resposta a uma emergência econômica desde o New Deal dos anos 1930, de acordo com dados coletados pela Bloomberg. Os empréstimos do Federal Reserve na última semana foram 1.900 vezes maiores que a média semanal dos três anos anteriores à crise” (Bloomberg.com, 24/11/2008).

TOO BIG TO FAIL (Grande demais para falir)

Outros levantamentos indicam que o dinheiro público já gasto ou comprometido até este final de novembro de 2008 com as operações de resgate nos EUA bate os 4,6 trilhões de dólares, incluídos os US$326 bilhões do Citicorp. O montante é aproximadamente um terço do Produto Interno Bruto (PIB) estadunidense. É mais que o dobro do que o país gastou com a Segunda Guerra Mundial (2 trilhões em dólares atualizados); quase a metade da atual dívida pública do país (US$10,6 trilhões); cerca de dez vezes o total gasto na Guerra do Iraque até agora (US$600 bilhões).

O maior risco de que nenhum centavo destes gastos retorne para os cofres públicos – nas palavras de William Poole, antigo presidente do Federal Reserve de St. Louis – vem de empresas resgatadas “grandes demais para falir” (Bloomberg.com, idem). Além desta ingênua observação sobre despesas fiscais a fundo perdido, reside um grande potencial destrutivo das finanças públicas, uma explosão do crédito público da maior economia do planeta em níveis tão elevados quanto às insanas quantias disponibilizadas para salvar um sistema que pede para descansar em paz.

Esses gastos atuais, independentemente de serem minimamente recuperáveis para os cofres públicos, de nunca mais retornarem ao credor-governo, são necessariamente esterilizados no circuito bancário. O dinheiro desses gastos é direta e indiretamente improdutivo, quer dizer, não se transforma em capital-dinheiro em nenhuma circunstância. Da mesma forma que não retorna para os cofres públicos, também não se encaminha de nenhuma forma para a circulação ampliada do capital. Na linguagem da economia vulgar, não terão nenhum efeito multiplicador da demanda agregada, como certamente ocorreria com gastos públicos em armamentos, guerras, etc.

De qualquer ângulo que se observe essas loucuras financeiras dos capitalistas, em todo mundo verifica-se que são totalmente desprovidas de racionalidade teórica ou de qualquer utilidade prática para diminuir os ventos devastadores da atual crise de superprodução de capital. Ao contrário, dirigem seu poder de fogo exatamente para o lado oposto do que seria uma ação mais inteligente de gasto do dinheiro público para se contrapor à queda da taxa de lucro industrial. O dinheiro público destinado nesta semana ao Citigroup, por exemplo, serviu apenas, como em situações anteriores, para ridículas “recuperações” das bolsas de valores em todo o mundo com histéricas taxas de 10% de “valorização” em um único dia.

Essas “recuperações” das bolsas são como saltos convulsivos de um corpo que se aproxima da paralisia final. De todo modo, essas montanhas irracionais de dinheiro público queimadas improdutivamente servem para uma coisa muito importante: uma sinalização invertida da magnitude da catástrofe real que está em pleno aprofundamento neste tempestuoso final de novembro de 2008. Continuando o que fizemos em nosso boletim anterior, voltaremos a destacar novos fatos e números que comprovam mais racionalmente esse curso catastrófico do capital.

* O maior e outrora mais sólido banco do mundo está à beira da falência. Suas ações estão valendo um décimo do que valiam há um ano. O resgate do Citicorp pelo governo no dia 24 de novembro de 2008 transforma o Tesouro em fiador de US$306 bilhões de dívidas do banco, além da compra de ações no valor de 20 bilhões de dólares do banco, depois dessas ações caírem 60% na última semana.

** Este texto foi publicado no boletim Crítica Semanal da Economia.

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