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Lições do Chile – Parte 3 (Final)

Encerramos aqui, com a publicação da terceira parte do artigo de Alan Woods, escrito em 1979, a análise da trágica experiência das lutas dos trabalhadores chilenos, que se ergueram em massa em defesa de uma revolução.

Encerramos aqui, com a publicação deste terceira parte do artigo de Alan Woods, escrito em 1979, a análise da trágica experiência das lutas dos trabalhadores chilenos, que se ergueram em massa em defesa de uma revolução, que pela traição efetuada por meio dos dirigentes que abraçaram a política da colaboração de classes, foram derrotados em 1973, por um violento e sanguinário golpe ditatorial. Hoje, quando as massas chilenas estão diante da possibilidade da volta do odiado governo Bachelet, depois das recentes e grandiosas manifestações da juventude e dos trabalhadores, uma vez mais, se coloca a necessidade de erguer a construção de um verdadeiro partido revolucionário, capaz de levar adiante a realização das tarefas históricas do proletariado chileno ao lado do proletariado mundial, na luta pela edificação do socialismo.  
 
Crise Econômica
 
A desgraça da ditadura chilena foi que o golpe de Estado teve lugar às vésperas da recessão mais grave, desde o final da II Guerra Mundial. A economia chilena, que sempre dependeu totalmente de suas exportações, sofreu efeitos muito graves em conseqüência da queda da demanda de cobre nos mercados exteriores, o que provocou uma caída estrepitosa de seu preço.
 
Nos anos anteriores à recessão de 1974-75, as exportações de cobre representavam quase 75% do total das exportações do país. O valor das exportações de cobre em 1975 era 45% mais baixo que em 1974 e 34% mais baixo que a média de 1973-74. Em 1975, o déficit exterior cifrava-se em torno de 400 milhões de dólares (436.000.000 de pesos chilenos; um peso chileno = 1,15 dólares em 1976). Só a generosidade do imperialismo mundial salvou a Junta da bancarrota. Em junho de 1976, o FMI aprovou uma ajuda de 79 milhões de pesos para compensar o déficit comercial de 1975. Em dezembro do mesmo ano, o Banco Mundial, a instâncias dos EUA e da República Federal Alemã, aprovou dois empréstimos, num total de 60 milhões de dólares, o quarto e quinto empréstimos desde o golpe de Estado. Em maio de 1976, um grupo de 16 bancos estadunidenses e canadenses concedeu um empréstimo de 125 milhões de dólares em três anos e meio. Em julho desse mesmo ano, o Banco Interamericano de Desenvolvimento aprovou outro empréstimo de 20 milhões de dólares, com um prazo de 20 anos. Em seus primeiros quatro anos, a Junta recebeu aproximadamente um bilhão de dólares em empréstimos de bancos privados americanos. Tudo isso contrasta com o boicote sistemático ao governo Allende pelo imperialismo mundial.
 
A atitude do imperialismo não é difícil de compreender. Assim que chegou ao poder, a Junta começou a destruir sistematicamente as conquistas da classe trabalhadora, devolvendo as fábricas nacionalizadas a seus antigos proprietários e as terras aos latifundiários. A política econômica da Junta é a da famosa “Escola Econômica de Chicago”, de Milton Friedman, que, entre outras coisas, defende a política de “portas abertas” às inversões estrangeiras. Novamente, o Chile se vê submetido à humilhação de uma dupla exploração: a dos capitalistas e latifundiários chilenos e a dos grandes monopólios norte-americanos.
 
Depois do golpe de Estado, Friedman visitou o Chile e recomendou friamente a redução em 20% dos gastos estatais e a demissão de funcionários públicos. Desvalorizou-se o peso. O custo de vida aumentou em 340,7% em 1975.
 
A política de “portas abertas” e as tentativas de atrair o capital estrangeiro conduziram ao enfrentamento com os demais países do Pacto Andino, que era uma tentativa de se proteger da exploração imperialista. O Chile o abandonou em outubro de 1976.
 
O “programa de austeridade” de abril de 1975 conduziu a uma situação verdadeiramente catastrófica. Segundo os números oficiais publicados em 1976, em 1975 o Produto Interno Bruto caiu 16,2% e a produção industrial 25%. A inflação cifrava-se em 340,7% (380% em 1974). No final de 1976, a inflação tinha baixado até 174,3%, mas esta melhoria relativa se devia, antes de tudo, à falta de demanda e à situação totalmente deprimida da economia.
 
Condições Insuportáveis
 
Em meados de 1976, segundo cálculos oficiais, o desemprego superava 23% (50% em alguns setores). As cifras do desemprego continuam muito altas, apesar da “recuperação econômica” dos últimos anos. Num informe datado de seis de julho de 1978, o presidente do Banco Central do Chile, Álvaro Bardon, tenta demonstrar que houve certa melhoria a este respeito. Ele dá as seguintes cifras do desemprego em Santiago, nos últimos anos:
 
– junho de 1972: 2,3%
– junho de 1973: 2,3%
– junho de 1974: 7,5%
– junho de 1975: 12,0%
– junho de 1976: 13,4%
– junho de 1977: 10,2%
– junho de 1978: 9,4%
 
… e acrescenta a seguinte divisão dos trabalhadores e desempregados por atividades, na grande Santiago, em junho de 1978:
 
 
Este banqueiro conservador afirma, de maneira triunfante, que “aproximamo-nos dos níveis normais, como os de 1969”. Segundo dados publicados em uma pesquisa de um Departamento da Universidade do Chile, comparando dados de 1974 e 1977, o nível de desemprego aumentou de 9,7% a 13,2%, e os desempregados, de 6,1% a 9,9%. Não obstante isso, as cifras oficiais falsificam a autêntica realidade. Segundo um grupo de deputados do SPD alemão, que visitou o Chile recentemente, o autêntico nível de desemprego, neste momento, pode oscilar em torno de 30%, e não em 12-13% como diz o governo.
 
Uma coisa está fora de dúvida: a classe trabalhadora chilena vive em condições totalmente insuportáveis de miséria, fome e desemprego. A queda de setores da população em condições de subproletarização revela-se pelo aumento da prostituição e da mendicidade em todas as localidades do país. Todas as conquistas econômicas e sociais da Unidade Popular foram destruídas em 11 de setembro. O aumento constante da inflação (ainda que a um ritmo menos acelerado, pelas razões anteriormente explicadas) faz o custo de vida tornar-se insuportável para a classe trabalhadora.
 
Apesar de todas as medidas econômicas do governo, a economia chilena continua num beco sem saída. De fato, os “métodos de Chicago” agravaram a situação, aumentando o desemprego e a miséria, destruindo o mercado interno e minando a base da indústria nacional.
 
As perspectivas para a economia chilena não são nada favoráveis neste momento. O déficit comercial exterior era de 196 milhões de dólares no primeiro semestre de 1978, com um aumento das importações e uma queda das exportações. Os mercados mais importantes para as exportações chilenas são o Brasil, os EUA e a Argentina. Neste momento, o governo chileno está em conflito com todos estes países. No caso da Argentina, as tensões chegaram à ruptura de relações políticas e econômicas. A instabilidade da Junta traduz-se em uma crise de confiança da burguesia chilena, cujo reflexo mais claro foi a queda dos valores bursáteis em 2% em uma só semana de junho deste ano. Segundo o presidente da Bolsa de Santiago, em uma entrevista em La Segunda, o mesmo confessou que a queda da Bolsa foi “reflexo da situação política interna e externa de nosso país”. Tudo isso mostra o nervosismo dos capitalistas chilenos, sua falta de confiança e seu pessimismo quanto ao futuro.
 
O regime bonapartista de Perón na Argentina durou muitos anos e logrou conquistar uma base de apoio de massas, graças aos sindicatos peronistas e ao auge econômico do pós-guerra, que estimulou a demanda dos produtos argentinos (carne de vaca) nos mercados mundiais. Mas o regime de Pinochet surgiu, precisamente, no mesmo momento da recessão internacional e do colapso do preço do cobre. Os anos de 1972 a 1974, eram anos de altos preços para este produto. O preço do cobre caiu estrepitosamente em 1975 e 1976. Nos últimos dois anos tem ocorrido uma ligeira recuperação, sem, no entanto, atingir o nível anterior. O periódico londrino The Times (4/4/78) comenta:
 
“Em termos reais, as receitas do cobre estão em seu nível mais baixo e a primeira autêntica evidência de reduções massivas da produção estão agora surgindo à luz”.
 
Os principais países produtores de cobre, organizados na CIPEC, estão reduzindo a produção para manter os preços. Mas o Chile, o maior país exportador, negou-se a entrar na CIPEC. Vê-se que a Junta tem medo de uma redução drástica da produção de cobre, pelos efeitos sociais que poderia provocar. Os EUA continuam sendo o mercado mais importante para o cobre chileno. Paradoxalmente, os EUA, além de ser o país que mais importa cobre, é também o país que mais o produz. O problema é que o cobre “made in USA” é caro e pouco competitivo. Os monopólios do cobre, localizados nos EUA, estão pressionando Carter para restringir as importações de países do terceiro mundo. Estas tendências protecionistas terão conseqüências catastróficas para o Chile. A desvalorização, de fato, do dólar estadunidense, nos últimos meses, é uma medida protecionista disfarçada, que vai ter repercussões muito graves para as exportações e para a economia chilena em geral nos próximos meses.
 
Crise da Junta
 
Todo regime bonapartista tende necessariamente a expressar-se através do poder pessoal de um só homem, o “homem forte”, que representa a “Nação” acima de “interesses de classe ou partido”. As críticas de Leigh Guzmán ao caudilhismo de Pinochet explicam-se, em primeiro lugar, pelo descontentamento de um setor da casta militar, que se sente marginalizado do poder. Sua parte do “bolo” não corresponde as suas aspirações. Mas esta luta de bandidos entre diferentes camarilhas tem um alcance muito maior que o aborrecimento pessoal deste ou de outro militar da Junta.
 
Os elementos descontentes, aglutinados em torno de Leigh, tentam encontrar pontos de apoio na sociedade, aproveitando-se do descontentamento geral e dando a entender que sua oposição a Pinochet representa, de alguma forma, uma opção mais “liberal” dentro da Junta. Apesar de seu crescente isolamento, o Bonaparte chileno, rodeado por sua camarilha de vulgares arrivistas militares e aplaudido com força pelas massas de jovens bem subvencionadas, tem ilusões de grandeza. Pinochet vive em um mundo totalmente irreal, como um imperador romano, com seus sonhos de uma “nova institucionalidade” e de “uma democracia autoritária, protegida, integradora, tecnificada e de autêntica participação social”. Segundo a nova “Constituição Pinochet”, a volta à “normalidade” terá três etapas:
 
Recuperação (1973/80)
Transição (1980/84)
Normalidade ou Consolidação (1985)
 
Segundo este esquema, não haverá eleições presidenciais por voto popular até 1991! E ainda assim, o autêntico poder permaneceria nas mãos dos militares, os partidos “marxistas” continuariam proibidos e as atividades dos demais estariam muito restringidas.
 
Os representantes mais astuciosos da burguesia compreendem perfeitamente o enorme perigo que representa, para o capitalismo chileno, os sonhos de Pinochet. A crise econômica, as crescentes tensões sociais, a recuperação lenta, mas segura, da classe trabalhadora e a total carência de uma base social de massas da Junta preocupam profundamente à burguesia mais inteligente e, sobretudo, a Washington.
 
Os estrategistas do imperialismo norte-americano calculam de uma forma totalmente fria as possibilidades de sobrevivência do atual governo e as conseqüências de sua queda sobre os investimentos norte-americanos no Chile, que, depois do golpe, voltaram a ser importantes. Washington está preocupado pela situação em toda a América Latina. Os imperialistas têm seus agentes, no Chile, infiltrados em todos os níveis, até no próprio governo, e estão perfeitamente informados da situação interna. Sabem que, atualmente, a ditadura não tem apoio em nenhum setor importante da sociedade. Mantém-se somente pela inércia temporária das massas, deprimida pelos efeitos da crise econômica, da fome e da miséria. Mas o prolongamento da repressão pode provocar uma explosão revolucionária em determinado momento, que colocaria em perigo, não somente a ditadura, mas também a existência do capitalismo no Chile, com graves repercussões em todos os demais países da América Latina. Esta é a autêntica explicação da mudança da política exterior dos EUA e de seu interesse inesperado pelos “direitos humanos”.
 
O assassinato de Orlando Letelier serviu de desculpa a Washington para pressionar Pinochet, com a finalidade de obrigar-lhe a modificar sua política. Sem dúvida, a polícia política do regime (a DINA) tinha exagerado. Uma coisa é massacrar milhares de operários e camponeses no Chile, e outra, muito diferente, criar problemas para a Administração Carter, assassinando em plena luz do dia e no centro de Washington, a um ex-diplomata chileno que, além disso, gozava de boas relações com a Administração estadunidense.
 
Com grandes esperanças no apoio de Washington e de determinados setores da oligarquia chilena e da casta militar, Leigh se lançou à luta em 18 de julho, no periódico italiano Corriere della Sera. Lendo as entrelinhas desse artigo e outras declarações suas, vê-se claramente o medo do setor mais inteligente da burguesia com uma explosão no Chile, quando adverte que “existe o risco de que o povo busque vias de saída violentas para a situação atual” (ênfase nossa) e afirma: “Já é tarde, mas é de todas as maneiras necessário um programa para o retorno à normalidade, indicando o tempo e a forma, tudo”. E Leigh propõe um período de transição de cinco anos (“não é possível uma passagem rápida ao poder civil”), defendendo a legalidade de partidos burgueses, como a Democracia Cristã e aqueles partidos dos trabalhadores que “agem à escandinava” (!).
 
O miserável fracasso dessa tentativa de uma “revolução palaciana” não demorou a produzir-se. A estupidez de Leigh deu a Pinochet o pretexto que necessitava para desembaraçar-se dele e concluir uma limpeza no alto comando das forças armadas chilenas. “Estou firme, muito firme, no governo”, afirmou Pinochet mais tarde. Mas o episódio Leigh tinha deixado explícitas as divisões e as tensões no seio da Junta. O nervosismo dos militares ficou demonstrado pelo fato de que as forças armadas e a polícia permaneciam aquarteladas em regime de tensão e que próximo ao Ministério da Defesa havia um forte cordão militar.
 
Alarmada pelas alterações no seio da Junta, a imprensa reacionária (El Mercúrio e La Tercera) clamou desesperadamente pela “unidade nacional”, insistindo numa “conciliação de alternativas dentro da junta de governo”. O sentimento de pânico nos círculos reacionários recolhe-se perfeitamente nas palavras de La Tercera: “Se a unidade não é mantida” – eles o sabem melhor que ninguém – “horas negras esperam o Chile. Todo o esforço realizado terá sido perdido”.
 
Não obstante isso, o espetáculo de uma luta no seio da Junta foi uma amostra muito clara da instabilidade do atual regime. Amanhã, inevitavelmente, surgirão novas crises, novas tensões e novas divisões, sob a pressão intolerável das contradições acumuladas da sociedade chilena.
 
Os porta-vozes da Junta insistem teimosamente na “absoluta tranqüilidade que existe no país”. A repressão diminuiu um pouco nos últimos meses. A DINA foi agora batizada com outro nome, a CNI (segundo seu diretor, o general Odlavier Mena, “basicamente, nesse aspecto, não são diferentes”) (!). Mas não é necessário se aprofundar muito para ver os primeiros sintomas de uma recuperação das massas, cinco anos depois do trauma de 11 de setembro.
 
Lenta Recuperação das Massas
 
A fermentação estudantil, o movimento cada vez mais aberto em favor dos direitos civis dos familiares dos desaparecidos ou o crescente distanciamento entre a Igreja e a Junta são sintomas claros de descontentamento generalizado no seio das massas. O efeito do terror e da repressão é cada vez menor. Se bem seja verdade que o medo ainda exista, já não é igual ao de antes. A situação pode mudar de forma inesperada. E, de fato, há sintomas – ainda não são mais que sintomas – de que a mudança está começando.
 
O regime bonapartista de Pinochet, que se baseia fundamentalmente no aparelho estatal, tenta ganhar certa independência, equilibrando-se entre as classes. Desta forma, Pinochet pretendia ganhar pontos de apoio nas massas, usando certas camadas da burocracia sindical. Depois do golpe de Estado, as velhas organizações sindicais foram ilegalizadas e seus dirigentes detidos ou assassinados. Não obstante, o movimento sindical seguiu existindo sob a Junta. O mero fato da existência dos sindicatos, ainda que com dirigentes sindicais nomeados pelos militares, é outra prova do caráter bonapartista do regime.
 
Pinochet tinha a idéia de um movimento sindical “domesticado”, mas, na atual situação de crise econômica, a tentativa se voltou contra seus autores. Os burocratas sindicais, além de atuar como agentes da Junta no seio do movimento trabalhador, também têm seus próprios interesses, que nem sempre coincidem com os do regime. Em condições de crise, e submetidos à pressão das bases, alguns desses elementos, começando como “interlocutores” ou “intermediários” entre o governo, os patrões e os trabalhadores, podem adotar posições de semi-oposição ou inclusive de oposição aberta.
 
Um dado muito significativo da situação no Chile é o alto nível de organização sindical, que segue existindo, apesar de tudo. Segundo os dados oficiais, no verão de 1978, havia mais de um milhão de trabalhadores filiados em 7.047 sindicatos, distribuídos da seguinte forma: 235 mil trabalhadores em 319 sindicatos industriais; 283 mil trabalhadores em 877 sindicatos de trabalhadores agrícolas; 495 mil, em 4.144 sindicatos profissionais; e 13 mil em 207 sindicatos de empregados agrícolas.
 
A velha organização unitária dos trabalhadores, a CUT, deixou de existir no mesmo dia do golpe, salvo como um aparelho burocrático. A Junta colocou como dirigentes sindicais a uma série de democratas cristãos de direita, os quais defendiam a Junta e sua política sindical diante da OIT e das organizações sindicais mundiais. Mas o controle da burocracia sindical, e, portanto, da Democracia Cristã, só existia na cúpula. A Junta não foi capaz de destruir as organizações dos trabalhadores em âmbito local. E, apesar de tudo, o nível de filiação não diminuiu de forma significativa. Antes do golpe, a CUT tinha 1.800.000 filiados. Calcula-se que, agora, entre as diferentes organizações sindicais, pode haver até 1.200.000 filiados. O enorme perigo que isto pode representar para a Junta em um momento determinado foi explicitado por Nicanor, ex-ministro do Trabalho, quando comentou que “os trabalhadores não têm o que comer e há um milhão de sindicalistas”.
 
Descontentamento Trabalhista
 
Um claro sintoma da recuperação de ânimo da classe trabalhadora foram as mobilizações que tiveram lugar em 10 de maio deste ano. Apesar da proibição governamental, os sindicatos conseguiram concentrar em Santiago 30 mil trabalhadores. Celebraram-se assembléias nas fábricas e outros atos em diversos lugares do país.
 
Apesar das enormes dificuldades para organizar uma greve no Chile, há agitação dentro das fábricas. Houve paralisações de cinco a dez minutos para pressionar os patrões. Pouco a pouco se perde o medo. Os trabalhadores se tornam mais audazes e preparam novas formas de luta e de protesto. Na mina de Chichiquemata, no norte, organiza-se uma “greve de fome”: os trabalhadores negam-se a comer nos refeitórios da empresa. Esta forma de protesto estende-se a El Teniente, uma mina chave onde, durante meses, tem ocorrido uma fermentação entre os trabalhadores, como recolheu a imprensa: “há inquietação econômica em El Teniente (…) porque faz cinco anos e meio que estamos sem convenção coletiva” (revista Hoy). “Em dois de novembro de 1977, mil e duzentos dos quatro mil trabalhadores de El Teniente não se apresentaram ao trabalho. Dias antes tinham sido distribuídos panfletos e apareceram palavras de ordem nos muros, convidando a não trabalhar no dia 2” (Revista de América Contemporânea, no 7, dezembro 1977, p. 21). Esta situação forçou os patrões a conceder a antecipação de um bônus de produção correspondente a dezembro. Ao mesmo tempo, foram despedidos 49 mineiros, “ante a indiferença da Confederação dos Trabalhadores do Cobre”.
 
A mesma fonte informa que “numa assembléia de três mil trabalhadores do sindicato Sevell y Minas, realizada em meados de novembro, pediram a demissão do presidente do sindicato por suas declarações justificatórias diante dos patrões”.
 
Estes dados revelam claramente o início de um processo de reativação do movimento sindical. As condições intoleráveis da classe trabalhadora, com uma taxa de inflação que oficialmente superou 60% em 1977, provocam uma atitude cada vez mais crítica da burocracia sindical. Muitas famílias operárias só podem comer uma vez ao dia. Os trabalhadores e suas famílias sustentam-se com chá e pão. O desespero converte-se em rebeldia, como revela o caso de El Teniente. Em vão, os burocratas do sindicato do cobre (cujo líder, Guillermo Medina, é membro do Conselho de Estado) se opuseram à greve, alegando que “o ocorrido no dia 2 é o resultado da ação de ativistas políticos que se aproveitam do descontentamento dos mineiros”. Em vão são feitas represálias contra os dirigentes locais dos trabalhadores, com demissões e desterros a lugares remotos.
 
O descontentamento trabalhista estende-se a outros setores, como o dos estivadores portuários que, praticamente ao mesmo tempo, organizaram uma operação tartaruga que chegou a reduzir a produtividade do porto de Valparaíso em 50%.
 
A fermentação na base e o descontentamento generalizado dos trabalhadores começam a ter repercussões no seio da própria burocracia. Numa reunião no Teatro Caupolicán, de Santiago, durante uma comemoração, os dirigentes da Federação de Trabalhadores da Construção, Carpintaria e Edificação, expressaram o descontentamento da base: “com 1.411 pesos, que é o mínimo de um diarista, temos dinheiro para dois quilos diários de pão; numa família de cinco a sete pessoas, ter-se-ia de gastar a metade unicamente em pão”. (Revista de América Contemporânea, p. 21).
 
Por outro lado, a penosa situação dos trabalhadores fica evidente no fato de que 10% das mortes no país se devem a acidentes de trabalho, de trânsito e caseiros. Este nível é um dos mais altos na América Latina.
 
O descontentamento das massas chega a ter eco inclusive nas páginas da imprensa burguesa. Em 17 de julho de 1978, La Tercera denunciou a perseguição dos trabalhadores da mina El Salvador. Segundo Bernardino Castillo, presidente da Confederação dos Trabalhadores do Cobre: “Não somente os gerentes médios, como também outros superiores, estão perseguindo sistematicamente os trabalhadores do cobre, humilhando-os, procedendo a dispensas arbitrárias, violando disposições legais e negando-se a aceitar propostas trabalhistas justas”.
 
Medo da Burguesia
 
Castillo acrescenta: …“decidi defender os direitos dos membros da Confederação (!), afrontando todas as conseqüências. Não me importam em absoluto as medidas que podem adotar contra mim. No momento, os trabalhadores mantêm a calma, mas me manifestam diariamente seu mal-estar e sua inquietação”. (La Tercera, 17/7/78).
 
Nestas poucas palavras vêem-se todas as pressões da base operária sobre a burocracia sindical, que, quando se vê obrigada a distanciar-se da Junta e dos patrões, faz uma série de advertências. Da mesma forma que em El Teniente, também em El Salvador houve uma greve em novembro de 1977, disfarçada de “absenteísmo laboral”, por questões econômicas e maus tratos infligidos pela gerência. La Tercera “simpatiza” com os trabalhadores, afirmando que os gerentes “estão desafiando diretamente a posição das autoridades (!) sobre a matéria” e que “com suas atitudes erradas somente contribuem para provocar intranqüilidade social”.
 
Tal “benevolente interesse” pelos problemas dos mineiros revela o medo crescente da burguesia ante um possível ressurgimento do movimento dos trabalhadores, especialmente no setor do cobre, que representa 60% das receitas em divisas para o orçamento nacional. Esta é a causa das petições da imprensa burguesa ao governo para que “investigue as denúncias trabalhistas”, para evitar qualquer perspectiva de conflito.
 
O medo da burguesia estende-se à Junta. Não por casualidade, desde o primeiro momento, Leigh Guzmán centralizou suas críticas ao governo na política econômica. Já em agosto de 1975, Leigh se queixou de que a política econômica da Junta estava “causando sofrimentos intensos nas classes mais desfavorecidas (…) O custo social desta política supera o que eu esperava. O desemprego está alcançando níveis mais altos que os previstos e as classes mais pobres sofrem de forma intensa”.
 
Não há dúvidas de que as lágrimas deste militar reacionário não são provocadas por nenhum sentimento de culpa e sim pelo medo das conseqüências sociais que esta situação pode provocar. O próprio Pinochet convocou reuniões com os burocratas sindicais repetidas vezes este ano, para inteirar-se da situação e tentar encontrar uma saída.
 
Por seu lado, a burocracia sindical ficaria encantada de poder chegar a um entendimento com o governo e os patrões. Mas a situação catastrófica do capitalismo chileno não lhe deixa margem de manobra suficiente. Os empresários não estão dispostos a fazer concessões; os trabalhadores e suas famílias não estão em condições de agüentar mais. Esta é uma receita pronta e acabada para uma explosão social.
 
Os dirigentes sindicais dos funcionários públicos qualificam de “insuficiente” o aumento salarial de 10%. Insistem na urgência de sua petição “porque a situação econômica dos empregados fiscais é difícil”. O presidente de Fentena (Federação Nacional de Trabalhadores Eletrometalúrgicos e Automotrizes), numa carta dirigida a La Tercera (10/7/78), atribui a redução do poder aquisitivo “à falta de negociação coletiva com os empresários e às facilidades para despedir pessoal”. Nesta carta, Castro também descreve de forma realista os efeitos da política econômica da Escola de Chicago e a “porta aberta”, quando assinala que “… as importações massivas em detrimento da indústria nacional e a deterioração do poder aquisitivo são os fatores básicos do desemprego e da recessão econômica. Fentena tem sido um dos mais prejudicados, passando de 12 mil filiados, em 1973, a somente 7 mil, em junho de 1978. O desemprego se deve à redução de empresas montadoras (de 14 a 3, atualmente) e à rebaixa dos impostos alfandegários de importadores das eletrônicas”.
 
Acordo Impossível
 
No dia 28 de junho, a Federação Nacional de Comércio (Fenatrobeco) enviou a Pinochet uma carta solicitando o restabelecimento das “conquistas trabalhistas obtidas após longos anos de luta”, desfeitas por um decreto-lei publicado pouco antes, que, como se diz ingenuamente na carta, “não concorda com o que você reiterou em várias oportunidades, de que se respeitarão todos os direitos adquiridos pelos trabalhadores”.
 
O problema para a burocracia sindical é que não é possível chegar a um acordo com o governo e os capitalistas na atual situação de crise. Os dirigentes sindicais vêem-se obrigados a enfrentar a ditadura, em parte devido à pressão da classe trabalhadora, que começa a despertar para a luta, em parte para defender seus próprios interesses. Por exemplo, a utilização de decretos-lei no terreno sindical torna ilusória e desnecessária a existência da burocracia sindical, pois lhe priva de seu papel de “intermediários”. Esta é outra das razões da onda de protestos enviados a Pinochet pelos dirigentes sindicais nos últimos meses. Por isso, a Coordenadoria Nacional Sindical (CNS), que antes tinha relações privilegiadas com a Junta e “representava” a mais de um milhão de sindicalistas chilenos, viu-se obrigada a rechaçar as modificações introduzidas pelo decreto-lei no 2.200, de 15 de junho, por considerá-las “regressivas e contrárias aos interesses trabalhistas”. A burocracia da CNS enviou uma carta ao ministro do Trabalho, datada de sete de junho, assinada, entre outros, pelos presidentes do sindicato único nacional gráfico, dos pintores, da Confederação “Unidade Operário-Camponesa”, dos metalúrgicos e dos mineiros, que diz textualmente: “rechaçamos categoricamente essas normas, uma vez que constituem um novo desmentido às promessas de respeito aos direitos adquiridos dos trabalhadores (…) Não podemos aceitar a eliminação da garantia do emprego, uma vez que deixa o trabalhador atado de mãos e pés, para decidir entre a exploração descarada ou a demissão sem dificuldades (…) dessa forma, começou-se a aplicar o Plano Kelly sobre o desemprego, proposto pelo governo algum tempo atrás e que foi rechaçado por todos os setores do movimento sindical, inclusive por aqueles que são próximos do governo”.
 
Da mesma forma, manifestaram que, com o encerramento do convênio coletivo “perdemos tudo o que se havia conquistado durante anos” e que, para enfraquecer a organização sindical, “limitam-se os direitos dos dirigentes, em termos que os fazem ilusórios”.
 
No que se refere ao aumento salarial de 10% no mês de julho, anteriormente mencionado: “reiteramos que os reajustes não compensam a alta real do custo de vida e os trabalhadores não podemos prosseguir subsistindo com os salários de fome que ganhamos e que atentam contra nossa dignidade de seres humanos”.
 
E, finalmente: “porque a situação faz-se insustentável (…) brevemente, apresentaremos ao governo um documento que conterá as petições que consideramos indispensáveis à sobrevivência da classe trabalhadora, entre elas um aumento substancial das remunerações dos trabalhadores, empregados e profissionais que representamos”.
 
A crise aberta entre Pinochet e os líderes sindicais “respeitáveis” de tendência democrata cristã, que até pouco tempo atrás se contavam entre os mais fervorosos aderentes ao governo militar, é um claro sintoma do crescente isolamento da Junta. A crise econômica, o desemprego, a fome e a miséria, agravados pela aplicação rigorosa da loucura de Milton Friedman, serviram para polarizar a toda a classe trabalhadora, ao campesinato e a grandes setores da classe média contra o governo. Somente a inércia temporária das massas mantém Pinochet no poder. Mas, já se vê claramente como o processo molecular de tomada de consciência da classe trabalhadora vai acumulando forças sob a aparência superficial de “calma e tranqüilidade”. O distanciamento cada vez maior entre a Junta e os burocratas sindicais, a Igreja, a Democracia Cristã etc., é um claro sintoma deste processo, que ameaça, em um momento dado, com uma nova erupção de protesto generalizado.
 
A Democracia Cristã
 
Se a situação dos trabalhadores é penosa, a dos camponeses e de suas famílias é mil vezes pior. A reforma agrária foi sistematicamente minada pela Junta, que devolveu as melhores terras expropriadas aos antigos latifundiários.
 “Até 31 de julho de 1976, dos 5.809 imóveis expropriados, com uma superfície de 9.965.868 hectares brutos, equivalentes a 895.752 hectares irrigados, foram devolvidos integralmente a seus antigos proprietários 1.415 imóveis, com 1.992.217 hectares brutos, equivalentes a 177.775 hectares irrigados, e, além disso, foram feitas devoluções parciais de 2.109 imóveis com 649.159 hectares brutos, equivalentes a 104.959 hectares irrigados; conseqüentemente, foi devolvida, no total, até 31 de julho de 1976, uma superfície de 2.641.377 hectares brutos, equivalente a 222.736 hectares irrigados, pouco mais de 25% de toda a terra expropriada pela reforma agrária durante os governos de Frei e Allende”. (Chile-América, nov. 1976 – jan. 1977, p. 35).
Segundo Enrique Mellado, presidente da Confederação “O Triunfo Camponês”, de tendência democrata cristã, inclusive os camponeses que continuam donos da terra vivem mal: “Ficaram apenas com a terra nua. Sem animais, sem maquinaria. Têm muito pouco para obter adubos, sementes, fertilizantes, pesticidas e o sustento diário. As famílias do setor reformado apenas conseguem sobreviver. Há pessoas que dizem que ninguém morre de fome no campo porque há de tudo. A verdade é que se coletou um ou outro produto e ninguém pode seguir vivendo comendo batatas durante todo o ano”.
 
Questionado sobre os assalariados do campo, Mellado responde: “Eu diria que é o setor que está pior no país. Ganham o mínimo estabelecido por lei: 600 pesos aproximadamente”.
E, sobre o desemprego no campo: “Nas pesquisas oficiais de desemprego, a agricultura aparece englobada em outros setores e não se pode, portanto, precisar em que grau o desemprego afetou aos trabalhadores agrícolas. Há desempregados no campo? Claro que sim, e o impacto mais forte o sofreu o setor reformado, devido ao sistema de propriedade que o governo está implantando.
 
A terra que se divide é, necessariamente, insuficiente para as pessoas que trabalham. 25% dos trabalhadores agrícolas, no mínimo, ficam sem trabalho”.
E que faz um camponês desempregado? “Fica sem terra e sem casa. Trabalha no pior emprego e se protege junto aos parentes mais próximos”.
 
E, continuando, este dirigente camponês democrata cristão faz uma observação muito significativa:
“O que acontece é que os patrões voltaram a segurar a frigideira pelo cabo e o governo não fez nada para evitar isso. Então, para que e para quem foi realizado o pronunciamento militar? Para mim, significava justiça para todos”. (Chile-América, p. 36).
 
A política econômica do governo fracassou também na agricultura. Segundo a revista Ercilla (20/9/76), que cita cálculos de diversos especialistas, a produção agrícola caiu de forma drástica depois do golpe de Estado:
 “Fixando a base 100 em 1971, a de 1974 seria 81,6; a de 1975, 83,4; e a de 1976 desce a 73,8. De modo que a produção agrícola por habitante, em 1976, seria 10% inferior a de 1975 e 26,4% inferior a de 1971. Isso num país ‘pacificado’, sem ‘conflito de classes’ e sem greve de caminhoneiros”. (Chile-América, p. 37).
A tentativa de aplicar os métodos da “livre empresa” e de “porta aberta” significou a depauperação de amplos setores da classe trabalhadora e do campesinato, e, inclusive, a ruína para certos setores da própria burguesia. A incapacidade dos capitalistas chilenos de competir com a avalanche de importações estrangeiras provocou uma série de fechamentos de fábricas. Inclusive alguns setores dos grandes agricultores sofreram os efeitos de tal política. Domingo Durán, dirigente dos grandes proprietários de terra do sul do Chile, disse que a política do ministro da Fazenda “levaria à ruína a agricultura nacional”, e esclareceu que “a liberação da importação de vinho argentino pelo Banco Central significa a abertura para uma política que conduz a um sério colapso de nossa agricultura”.
 
O profundo descontentamento das massas de operários, camponeses e pequenos proprietários vê-se refletido na mudança de atitude da hierarquia da Igreja e da Democracia Cristã face ao regime. Antes, durante e depois do golpe de Estado, a hierarquia eclesiástica pôs-se abertamente ao lado da reação. Em 28 de setembro de 1974, um ano depois do golpe, quando a repressão, a tortura e os massacres estavam no auge, o comitê permanente do Episcopado do Chile, dirigido pelo Cardeal Raúl Silva Henríquez, ofereceu à Junta sua “cooperação no desenvolvimento espiritual e material do Chile”, afirmando a vontade da Igreja chilena de participar na “pacificação espiritual” do país. Mas, sob a pressão das massas de trabalhadores, camponeses e camadas médias, a Igreja viu-se obrigada a distanciar-se cada vez mais da ditadura, fazendo críticas, não somente com referência aos desaparecidos e detidos, mas também à política econômica do governo. O Vicariato da Solidariedade foi acusado de recolher fundos para financiar greves. A heróica campanha conduzida pelas famílias dos desaparecidos é outro sintoma de que o medo à repressão está diminuindo pouco a pouco. No dia 19 de julho de 1978, celebrou-se em pleno centro de Santiago uma manifestação pacífica a favor dos direitos humanos, da democracia e da liberdade. A manifestação de cerca de uma centena de jovens universitários dissolveu-se rapidamente sem que tivesse ocorrido a intervenção por parte dos carabineiros.
 
A crescente oposição das massas, a fermentação das camadas médias e os claros sintomas de divisão e debilidade no seio da Junta permitem aos liberais burgueses levantar um tímido e embargado protesto contra os “excessos” da ditadura. Num discurso, em 1 de julho de 1978, o presidente da Associação Nacional de Imprensa permitiu-se ao luxo de expressar um morno protesto contra a censura: “A imprensa não devia ser controlada por leis especiais. A situação em que, atualmente, vive o país não justifica a existência de algumas disposições restritivas”.
Esta situação também explica a mudança de posição da Democracia Cristã. Este partido dos exploradores, formado por políticos da camada média, faz o jogo de situar-se, em tempos “normais”, entre os “conservadores”, por um lado, e os “marxistas”, por outro. Como vimos antes, seu papel é o de enganar e confundir aos milhões de camponeses, pequenos comerciantes e operários politicamente atrasados, para mantê-los sob o domínio do grande capital.
 
O papel completamente contra-revolucionário da DC foi suficientemente revelado por sua atitude com relação ao governo Allende. Na primeira etapa, os parlamentares democratas cristãos atuaram como o braço “respeitável” dos grupos fascistas, boicotando sistematicamente ao governo da UP. O voto de censura do Congresso contra o governo Allende facilitou enormemente a tarefa da contra-revolução, dando luz verde a Pinochet, pois, assim, tinha um pretexto “constitucional” para intervir.
 
Depois de 11 de setembro, os dirigente democratas cristãos esperavam que os militares agradecessem por sua ajuda. Desgraçadamente para eles, há muito pouca gratidão em política. Destruído o velho equilíbrio e com uma ditadura feroz instalada no poder, os serviços dos “intermediários” democratas cristãos não mais eram interessantes. Apesar de todas as suas tentativas de aproximar-se da Junta, Pinochet ria-se abertamente deles, qualificando-os, não sem razão, de “políticos afastados do poder que agora pretendem manter-se flutuando”.
Pouco a pouco, a repressão começou também a alcançar aos democratas cristãos, ainda que, naturalmente, não da mesma maneira que aos operários e camponeses. A estes senhores não se fuzilava nem torturava. Simplesmente os “afastaram do poder”. Perderam seus mandatos e sua situação privilegiada na vida política. No máximo, alguns deles sofreram o desterro, relativamente cômodo, no interior do país.
 
Uma vez rechaçados seus serviços, a obsessão comum dos dirigentes da DC foi a de se voltar o quanto antes à “normalidade”, ou seja, ter novamente seus focinhos metidos no cocho temporariamente ocupado por outros. Além disso, esses vigaristas perceberam que o regime de Pinochet não podia durar para sempre e que qualquer pessoa comprometida com ele perderia toda credibilidade junto às massas. Uma velha raposa como Frei compreendeu que, mesmo sendo hoje supérfluos seus serviços para a burguesia, amanhã, após a queda de Pinochet, iam se tornar mais necessários que nunca. Por isso, profissionais cínicos como ele estão procurando seu novo “certificado de boa conduta democrática”, pensando no futuro.
 
Em 13 de julho de 1978, Frei publicou nas páginas do semanário Hoy um artigo intitulado “O Retorno da Democracia”, em que adverte à classe dominante dos perigos, potenciais para ela, da continuação do regime ditatorial. Analisando a experiência de Portugal, Alemanha, Itália e Espanha, chega à conclusão de que “todos os esforços para destruir ou aniquilar as forças políticas resultaram estéreis” e que “enquanto mais se prolonguem, mais vigorosas renascem as forças democráticas antagônicas ou as que melhor trabalhem na clandestinidade”.
Com estas palavras, o dirigente da DC quer advertir aos capitalistas e grandes proprietários de terra chilenos que a ditadura não serviu para destruir o movimento operário, mas sim para radicalizá-lo cada vez mais, empurrando as massas para o lado de “forças democráticas antagônicas” (?) ou “as que melhor trabalhem na clandestinidade”, que não são precisamente os líderes “moderados” da DC ou da social-democracia.
 
Os “bons conselhos” de Frei
 
No mesmo artigo, Frei adota sua posição de sempre, de “interlocutor entre as classes”: “O retorno à democracia não somente é impedido por seus inimigos confessos e declarados, mas também por setores do país que, acreditando no regime democrático, temem que este signifique uma volta ao passado e a repetição dos erros básicos que ocasionaram sua queda (…) por outro lado, setores que pertencem ao governo temem que sua saída provoque um clima de perseguições, revanchismo e ódios contra eles”.
 
Frei pretende tranqüilizar a burguesia que, mesmo podendo prescindir dos serviços de Pinochet, que a cada dia se tornam inócuos, está atemorizada pela idéia de uma nova edição do governo Allende, com novas nacionalizações e expropriações de terras, com a conseqüente radicalização das massas. Por outro lado, este grande representante da moralidade cristã assegura aos torturadores, violadores e assassinos da Junta que não se pretende absolutamente criar um clima de “perseguições, revanchismo e ódios contra eles”. Em outras palavras, o retorno à “democracia”, propugnado pela DC, significa, em primeiro lugar, uma garantia firme de respeito à propriedade dos grandes monopolistas e dos latifundiários, além de um perdão geral para todas as bestas fascistas que, durante os últimos cinco anos, converteram o Chile num inferno para as famílias operárias e camponesas.
Hipocrisia dos democratas cristãos
 
Enquanto Frei dá seus “bons conselhos” à oligarquia e à Junta, seu partido predica às massas oprimidas, com um autêntico espírito de Pôncio Pilatos: “A DC, inspirada na não violência [também no 11 de setembro?] empurra os chilenos a restaurar as instituições democráticas básicas [em primeiro lugar, o “pão de cada dia” do grupo parlamentar democrata cristão] e a construir uma perspectiva de convivência sem ódios nem vinganças [isto é, detêm-nos, matam-nos com balas e com a fome e nós devemos esquecer]”.
Este tipo de declarações deveria encher de indignação a qualquer operário. Não obstante isso, parece que há certos dirigentes do movimento operário que levam as palavras de Frei e companhia muito a sério. Os dirigentes do Partido “Comunista” do Chile, ainda que pareça mentira, têm como ponto fundamental de sua estratégia para o Chile uma aliança… com a Democracia Cristã.
 
Os dirigentes do PCCH, e seus amigos no Kremlin, têm um enorme interesse em limpar a imagem “democrática” dos democratas cristãos. Nos últimos cinco anos empregaram seus consideráveis meios de propaganda para evitar que o movimento operário, tanto no Chile como internacionalmente, tirasse as conclusões corretas da experiência do governo da UP. A Rádio Moscou, através de seu programa “Escuta, Chile”, faz esforços tremendos para pintar os democratas cristãos com as cores mais atraentes.
 
Graças a isso, os democratas cristãos conseguiram conquistar pontos chave no movimento sindical no Chile depois de 11 de setembro. A direção do PCCH considera a esta gente como “aliados democráticos” na luta comum contra Pinochet. Mas, que atividades concretas realiza esta gente? Uma entrevista de Frei com a Comissão de Direitos Humanos da ONU! Este tipo de atividade não supõe muitos problemas para um político “responsável”. Os militantes socialistas e comunistas sofrem nos campos de concentração, os operários e camponeses morrem de fome e os mineiros lutam heroicamente contra o governo e os patrões. E Frei senta-se num cômodo escritório em Santiago para uma breve conversa com os senhores da ONU. E esta é a proposta de união de trabalho entre a classe operária e os políticos liberais da burguesia! Da Venezuela, a Democracia Cristã faz apelos para a criação de um “movimento nacional para a restauração da democracia”. Mas, ao mesmo tempo, propõe uma transição gradual, sem “métodos armados, conspiradores ou clandestinos”. Esta é a tônica geral da DC.
 
Uma coisa está clara: se dependesse somente destes senhores, a ditadura de Pinochet duraria até o ano 2000. E, não obstante isso, uma grande parte dos antigos dirigentes da UP, sobretudo os dirigentes do mal chamado Partido Comunista, insiste numa aliança com a DC, como a única forma de acabar com a ditadura. Tiraram as conclusões mais errôneas da experiência da UP. São como os Bourbons na França, que não aprenderam nada e esqueceram tudo. A linha que propõem – mil vezes pior que a política anterior – somente conduziria a novos fracassos e novas derrotas sangrentas para a classe trabalhadora chilena.
 
Uma alternativa social-democrata?
 
Um dado muito positivo na atual situação do Chile é que o Partido Socialista, que conseguiu se renovar no interior do país depois do 11 de setembro, sentiu a necessidade de uma política de independência de classe, baseada nas melhores tradições do PSCH, expressa na palavra-de-ordem do Partido: “Fé em nós mesmos”.
 
Ainda que ninguém possa fazer previsões exatas de quando vai acontecer, a queda de Pinochet e um novo período de mobilizações de massas são inevitáveis. Precisamente porque compreendem isto, os estrategistas da burguesia e do imperialismo, que durante os últimos cinco anos mantiveram seu domínio através dos métodos fascistas de Pinochet, estão preparando uma alternativa por meio de Frei e da DC, cujo papel será o de manter o poder e os privilégios dos grandes proprietários de terra, dos banqueiros e dos capitalistas, mas com outros métodos.
 
A atual direção do PSCH insiste, com razão, na necessidade de uma frente única dos trabalhadores, como a única maneira de levar a termo a transformação socialista da sociedade. Diferentemente, os líderes do PCCH e alguns dos antigos dirigentes socialistas, fortemente ligados a este partido, insistem em que a tarefa imediata do movimento operário chileno é a conquista das liberdades democráticas e não a revolução socialista e que, portanto, é necessário aliar-se com os setores “progressistas” da burguesia e, em primeiro lugar, com a DC. Como se fosse possível construir uma muralha chinesa entre a luta contra a ditadura e a luta contra a oligarquia que a sustenta! Toda a história do Chile mostra que a luta contra a Junta Militar, se é levada até as últimas conseqüências, necessariamente implica também numa luta contra os interesses econômicos que a sustentam no poder: os grandes proprietários de terra, os banqueiros e os grandes monopólios. Em outras palavras, uma luta revolucionária contra o capitalismo.
 
A ideia confusa de alianças com os capitalistas “bons” contra os capitalistas “maus” origina-se da incompreensão do caráter de classe da sociedade. Não se trata somente do que dizem os dirigentes dos diferentes partidos políticos, e sim os interesses de classe que estão por trás deles. Apesar do enfrentamento entre eles, Frei e Pinochet servem ao mesmo amo: o grande capital e o imperialismo. A burguesia não tem preconceitos sobre que sistema de governo é o melhor. É muito flexível em seu modo de dominar a classe operária. Ás vezes, convém-lhe a “democracia”, e, por isso, mantém seus serviçais “democráticos”. Em outros momentos, é-lhe mais conveniente a ditadura, e, para isso, aí estão os Pinochet e os Videla. Aos banqueiros e capitalistas estas mudanças pouco lhes importam desde que mantenham seu poder e seus privilégios.
 
A atitude dos socialistas chilenos com relação aos pactos com os partidos burgueses “democráticos” é uma questão vital para o futuro do movimento operário. Qualquer ambigüidade ou falta de clareza sobre este ponto, nestes momentos, pagar-se-á mais tarde com sangue, suor e lágrimas.
 
Num país como o Chile, está claro que o proletariado não somente tem a possibilidade, como também tem o dever de formar frentes de ação comum com outros setores oprimidos da sociedade, fundamentalmente com os camponeses pobres e as massas oprimidas da pequena burguesia. Mas, daí a propor alianças, inclusive conjunturais, com uma inexistente “burguesia progressista”, há uma grande distância. A maioria imensa dos camponeses e pequenos comerciantes sofrem sob a exploração e a opressão dos bancos e dos grandes monopólios. Precisamente por isso, estes setores são os aliados naturais da classe operária. Diferentemente, os supostos setores “progressistas” da burguesia, isto é, os liberais e democratas cristãos, são nada mais nada menos que a bota esquerda do grande capital.
 
Instabilidade da Junta
 
Entrando em alianças, mesmo conjunturais, com esses elementos, estaríamos dizendo aos camponeses e pequenos comerciantes: “Esta gente agora é nossa aliada. Podeis esquecer o que fizeram antes. Tudo foi um pequeno mal-entendido. Mas, agora, estão no bom caminho e podeis confiar neles”. Mas, o que deveríamos dizer é exatamente o contrário: “Estes são homens que ajudaram Pinochet a subir ao poder. Suas mãos estão manchadas do sangue de operários e camponeses. Agora querem enganar-nos mais uma vez. São os representantes mais sutis, mais demagógicos e, portanto, mais traiçoeiros, dos bancos e dos monopólios. Se quereis lutar pelo pão e pela liberdade, recusai seus oferecimentos e confiai somente em vossas próprias forças”. 
Somente assim os socialistas chilenos ajudarão aos operários e aos camponeses a compreender o autêntico papel da DC. Somente se pode lutar pela hegemonia política no seio das camadas médias, lutando-se fervorosamente contra as tentativas dos liberais de seduzir as massas da pequena burguesia com sua propaganda hipócrita e traiçoeira.
 
O regime atual é muito mais instável do que pode parecer à primeira vista. Precisamente por isto explica-se a tentativa por parte de Washington de distanciar-se de Pinochet. Os estrategistas do imperialismo não têm a mínima confiança na capacidade de sobrevivência da Junta. O atual conflito com a Argentina sobre o canal de Beagle é uma amostra clara desta instabilidade. Através de um enfrentamento com o governo militar de Buenos Aires, Pinochet tenta desviar a atenção das enormes contradições internas da sociedade chilena. Sem dúvida que a região disputada tem um considerável interesse para ambos os países. Mas também é verdade que a Pinochet interessa utilizar a questão da mesma maneira que Franco utilizava a questão de Gibraltar, como uma forma conveniente de afastar a atenção das pessoas da crise interna e tentar fomentar um falso sentimento de “solidariedade nacional frente ao agressor externo”. Por outro lado, ambos os regimes devem estar tremendo ao pensar na possibilidade de que o atual enfrentamento belicoso se converta num conflito militar de verdade. Dada a correlação de forças, não resta dúvida de que uma guerra entre o Chile e a Argentina (que não se pode excluir como uma possibilidade teórica, mesmo que pareça pouco provável, salvo numa situação crítica em Santiago) seria de curta duração e acabaria com a derrota do Chile. Como disse El País (13/12/78): “em dotação humana, a diferença a favor da Argentina é notável”:
 
 
As tensões entre os dois países aumentaram consideravelmente, com uma guerra comercial já em marcha. Mas, além do conflito com Buenos Aires, o Chile tem também disputas territoriais com o Peru, a Bolívia (que rompeu as relações diplomáticas com o Chile, alegando que o governo de Santiago não tinha mostrado “suficiente flexibilidade” para facilitar à Bolívia o acesso ao Pacífico) e inclusive com o Brasil, pelo Alto Paraná. Por todas essas razões, a Junta está brincando com fogo no conflito com a Argentina, como mostram as seguintes palavras de uma porta-voz da Junta: “Posso-lhe dizer que seria uma loucura, porque ninguém ganharia, significaria a destruição dos povos sem nenhuma vantagem. Assim, não ganha a Argentina, nem o Chile”. 
 
Uma guerra entre o Chile e a Argentina, com a possibilidade de uma intervenção armada por parte do Peru e da Bolívia, para recuperar seus territórios perdidos, efetivamente seria uma loucura ou, melhor dizendo, uma catástrofe, com repercussões muito graves para toda a América Latina. O imperialismo norte-americano faria todo o possível para evitá-la. Não obstante isso, não se pode esquecer que uma “loucura” semelhante, a intervenção dos coronéis gregos em Chipre, provocou a queda da Junta militar em Atenas. Nos últimos meses, segundo a revista norte-americana Business Week, a Argentina e o Chile gastaram cerca de 2.000 milhões de dólares em preparativos bélicos. Pode ser que ambas as partes interessem-se por manter um clima de tensão permanente, por motivos políticos e como pretexto para justificar as enormes quantidades de dinheiro desperdiçadas por suas respectivas forças armadas. De qualquer forma, um conflito armado, por breve que fosse, significaria o colapso de Pinochet.
 
Por todas essas razões, a Administração Carter está intensificando sua tentativa de encontrar uma alternativa “democrática” a Pinochet, que salvaguarde os interesses do imperialismo norte-americano no Chile. Os dirigentes democratas cristãos, e inclusive alguns dos antigos dirigentes da UP, estão olhando para Washington para solucionar todos os seus problemas. Por exemplo, Benjamin Teplizki, do Partido Radical, secretário do “Comitê Chile Democrático”, disse à imprensa que acreditava que “a Junta estava vendo a possibilidade de uma retirada negociada, tendo como interlocutores a burguesia chilena e setores, é claro (!) dos EUA”. 
 
Parece que há gente que nunca aprende. Pinochet somente considerará a possibilidade de uma “retirada” – negociada ou não – quando o movimento das massas o obrigue a sair. Por seu lado, apesar de sua crescente preocupação, Washington não tem nenhuma pressa em derrubar Pinochet, ainda supondo que estivesse em condições de fazê-lo. Mas, é verdade que duvida da possibilidade de manter a situação sob controle com os brutais métodos de antes. Dentro de algum tempo – um, dois ou três anos, dependendo da situação do país, do ressurgimento do movimento operário, das divisões no seio da Junta, de uma aventura militar – vai necessitar de uma mudança. Por isso, todos os políticos “liberais” e “social-democratas” correm a Washington para oferecer seus serviços.
 
É aqui onde surge um enorme perigo para o movimento operário chileno. Depois da queda de Pinochet, a idéia dos estrategistas do imperialismo e da burguesia é a formação de um governo de coalizão entre a DC e os representantes da classe operária. No exílio, está se fortalecendo a idéia de uma colaboração entre a UP e a DC numa “frente ampla” contra a ditadura. Os principais protagonistas desta idéia são (como não!) os dirigentes do PCCH e a burocracia russa.
 
Por outro lado, a burocracia reformista da II Internacional está mostrando um interesse cada vez maior na África e na América Latina, precisamente quando surgem situações revolucionárias e pré-revolucionárias em ambos os continentes. É interessante ver como a tática dos social-democratas e a estratégia do imperialismo estadunidense caminham paralelamente. É claro que existe uma série de pressões “de fora” sobre alguns dirigentes da II Internacional. Não por casualidade o chamado “projeto social-democrata” para a América Latina está surgindo à luz precisamente nestes momentos, com a aprovação de Bonn e de Washington.
 
O minúsculo Partido Radical, de escassa implantação na classe trabalhadora chilena, não conta com base suficiente para a formação de uma coalizão com a DC que, no momento, mantém reticências ante uma coalizão com o PCCH que, por seu lado, mostra uma grande ansiedade de formá-la.
O PSCH, pois, é uma peça chave na situação. Sem a presença dos socialistas, um governo de colaboração de classe não seria viável. Por isso, há enormes pressões para que o PSCH participe nesta nova conspiração anti-operária no Chile.
 
Desgraçadamente, um setor dos antigos dirigentes socialistas cedeu às pressões exercidas de diversas maneiras pelos estalinistas, que contam com meios muito poderosos, sobretudo no exílio. O enfrentamento entre os elementos pró-estalinistas, que favorecem abertamente uma política de colaboração de classe, e os quadros socialistas no Chile, que estão lutando pela renovação revolucionária do partido no interior, conduziu a uma ruptura no socialismo chileno.
 
Em princípio, os socialistas que defendem uma linha de independência de classe, as idéias do marxismo-leninismo e os próprios princípios do PSCH no passado, ainda que constituam a maioria decisiva das forças socialistas atualmente dentro do Chile, contam com uma série de desvantagens frente a seus adversários políticos.
 
O PCCH, que antes do golpe tinha menos apoio que o PS, agora, na clandestinidade, é o partido operário com maior força. Mesmo que seja impossível calcular exatamente a força numérica de cada partido, o PCCH não teria menos de oito mil militantes ativos. Além disso, contam com uma infra-estrutura e meios muito mais poderosos que outros partidos e grupos: uma imprensa, uma organização juvenil ativa, vários negócios, um programa de três horas diárias na Rádio Moscou, como também programas na Rádio Berlim e na Rádio Praga…
 
Reconstrução do PSCH no interior
 
O aparato do PSCH não tinha comparação com o do PCCH. Mesmo que totalmente baseado nas idéias marxista-leninistas, o PSCH nunca assimilou realmente os métodos organizativos do bolchevismo, sem os quais o programa mais marxista do mundo não serve para nada. Inclusive antes do 11 de setembro, em que pese sua superioridade numérica e sua esmagadora maioria de votos, o PSCH não tinha nem o nível de militância nem a infra-estrutura do PCCH. Portanto, o PSCH estava em péssimas condições para enfrentar os problemas do trabalho clandestino. Não obstante isso, os melhores quadros do socialismo chileno conseguiram reagrupar-se no interior e começaram a lenta e difícil tarefa de reconstruir o partido no seio da classe operária e dos camponeses. Atualmente, o PSCH, se bem que seja numericamente inferior ao PCCH, é a segunda força operária na clandestinidade, trabalhando nas fábricas e nos bairros operários, ajudando às famílias de presos e desaparecidos etc. Apesar da falta total de ajuda do exterior (canalizada exclusivamente para o setor pró-Moscou), os companheiros do PSCH conseguem publicar quatro revistas no interior do país: Arauco, a revista teórica do partido (mensal); Nosotros, los trabajadores, a revista sindical (bimensal); Brigada, a revista estudantil (sem periodicidade) e Solidaridad (mensal). No terreno sindical, têm implantação entre os mecânicos, os calçadistas, os padeiros, os operários do cobre e as confederações agrícolas. Também têm uma organização juvenil de mulheres.
 
O problema dos socialistas do interior é que o aparato do partido no exterior está totalmente dominado pelo setor pró-estalinista, que se apoderou da direção em 1971, em aliança com a ala social-democrata do PSCH, razão pela qual toda ajuda econômica enviada do exílio chega às mãos de seus partidários que, no interior, são minoria.
 
As discrepâncias no seio do socialismo provocaram uma crescente separação entre as diferentes tendências, com a divisão das chamadas “Coordenadorias de grupos regionais”, que, após formar um novo partido, inclinaram-se pelo guerrilheirismo. Em 1975-76, este grupo logrou aglutinar um considerável número de militantes socialistas do interior, descontentes com a política oportunista e pró-estalinista da antiga direção no exílio. Mas, inevitavelmente, com uma orientação totalmente errônea e uma política confusa, sofreu uma série de crises, lutas internas e cisões, que conduziram a sua desintegração. Seus militantes mais sérios compreendem a necessidade de voltar ao PSCH, para lutar dentro contra a corrente oportunista, a favor de uma autêntica política marxista-leninista, e não por uma caricatura guerrilheirista de Mao ou Castro.
 
Hoje em dia, as forças socialistas no interior, mesmo que importantes em número, dadas as difíceis e perigosas condições da clandestinidade, são minoritárias em comparação com as forças do PCCH, que contam com meios muito mais sérios e, portanto, podem conduzir um trabalho mais eficaz, pelo menos em questões técnicas. Inclusive, o setor pró-estalinista do PSCH, mesmo com uma implantação muito menor no movimento operário que a outra tendência, conta com mais meios. Mas tudo isso pode mudar drasticamente nos próximos anos, com a condição de que os companheiros do PSCH não claudiquem diante das pressões estalinistas e social-democráticas e mantenham uma clara linha revolucionária de independência de classe.
 
Para um partido marxista-leninista, a organização é uma questão vital, mas não a questão decisiva. Com o aparato mais impressionante do mundo, um partido com uma política errônea está condenado ao fracasso. Vimos esta lição mais de uma vez na história. Em troca, com uma política, uma estratégia, uma tática e umas perspectivas corretas e com os métodos de trabalho bolcheviques, sempre se encontrarão os meios necessários.
 
Bolchevismo e menchevismo
 
As diferenças entre o bolchevismo e o menchevismo na Rússia não se fixavam somente em questões políticas (reforma ou revolução, colaboração com os liberais ou independência de classe), mas também quanto aos métodos de trabalho e de organização. Antes de 1917, os mencheviques tinham mais meios econômicos que os bolcheviques. Os oportunistas russos, como os chilenos de hoje, recebiam grandes quantidades do exterior, devido ao prestígio pessoal de líderes como Plekhanov. Também recebiam ajuda econômica importante de toda uma série de burgueses “progressistas”: pequeno-burgueses, professores, advogados etc. Contudo, Lenine estava muito orgulhoso de que o partido bolchevique e seu jornal diário o Pravda fossem financiados pelas pequenas contribuições, os copeques, dos trabalhadores russos.
 
Apesar de todos os problemas e deficiências, os companheiros chilenos também podem sentir-se orgulhosos de que, durante cinco anos, e sob as condições mais difíceis de imaginar, lograram construir uma organização sem ajuda do exterior, com o dinheiro dos operários chilenos e os sacrifícios pessoais dos militantes e quadros dirigentes. Em última instância, cada centavo que se recolhe nas fábricas e bairros operários no Chile vale mais que mil dólares recolhidos pelos oportunistas no exterior. Porque o trabalho de recolher fundos no Chile é um trabalho político que está consolidando as bases da organização da própria classe trabalhadora no interior.
 
Dos oportunistas, social-democratas e pró-estalinistas não há nada que esperar; a grande maioria é formada por incorrigíveis, com exceção de certo número de operários honrados que estão enganados pelo prestígio dos antigos dirigentes, a quem apóiam provavelmente por questões de sentimentalismo. É um erro imaginar que é sempre verdadeiro que “sendo mais, somos mais fortes”. Às vezes, um mais um pode significar zero, em vez de dois. A unidade é algo que todos queremos e propugnamos, mas que se pode pagar a um preço demasiadamente elevado. A tentativa de misturar uma política oportunista com uma política revolucionária, através de um “consenso” a favor da unidade, é o mesmo que tentar misturar água com azeite. Os mesmos companheiros do interior já puderam comprovar isso perfeitamente, com o fracasso de todas as tentativas durante os últimos cinco anos de se chegar à unidade com os oportunistas. E não se deve pensar que este “fracasso” foi totalmente negativo. Todos sabem sobre quem recai a responsabilidade da divisão agora existente. Mas a única unidade que serve aos interesses do socialismo é a unidade com princípios. Se não fosse assim, a unificação de uma série de frações, cada uma puxando no sentido contrário ao das demais, conduziria à impotência. Toda a história do PSCH mostra isso. Para que servem os princípios e o programa revolucionário, se, no momento decisivo, a direção se mostra incapaz de levá-los à prática, já que se vê envolvida numa série de acordos, compromissos e consensos com elementos oportunistas e pró-burgueses? A ruptura com os oportunistas de toda laia é a pré-condição para a renovação do PSCH. É precisamente em condições de adversidade que se conhece os verdadeiros amigos. Se os socialistas chilenos não são capazes de tirar todas as conclusões necessárias da terrível experiência dos últimos anos, todas as mortes terão sido em vão.
 
É verdade que amanhã toda a situação pode mudar radicalmente. Após a terrível experiência da ditadura, dos longos anos de fome, miséria, morte e repressão, muitos operários e camponeses pensarão nos anos da Unidade Popular como um tipo de “idade de ouro”. Paradoxalmente, as ilusões no frentepopulismo poderiam ressurgir entre as massas após a queda de Pinochet. Neste sentido, a ditadura atuou como um enorme freio no avanço da consciência da classe operária e, mais ainda, das camadas médias.
 
Hoje, na clandestinidade, os operários e camponeses identificam como “os socialistas” aos companheiros que vêem ao seu lado, lutando ombro a ombro contra os patrões e a ditadura. Sobretudo entre os ativistas, os dirigentes exilados da UP estão muito desprestigiados. Neste sentido, os “generais sem exército”, que esperam pacientemente a queda da ditadura em Berlim, Paris, Moscou ou Argel, para voltar com o triunfo conseguido e repetir os mesmos erros de antes, poderiam ter uma surpresa muito desagradável, sobretudo se os companheiros do Partido Socialista do Chile logram construir um partido forte, mais forte que agora, não só numericamente, não só organizativamente, e sim politicamente, formando os quadros socialistas no espírito de oposição implacável a qualquer pacto ou aliança com a burguesia e a qualquer concessão mínima aos oportunistas.
 
Os quadros do PS no Chile deram enormes passos a frente. Mas há lacunas, não somente no aparato, mas também em sua política, que, apesar da insistência, totalmente necessária e correta, em uma política de independência de classe, continua a refletir uma série de ambigüidades e omissões que, embora no momento não pareçam ser muito importantes, se não forem resolvidas, amanhã podem causar problemas, crises internas, convulsões e divisões.
 
Num momento determinado, com a queda de Pinochet e o ressurgimento do movimento de massas, o PSCH encontrar-se-á submetido a enormes pressões. A imprensa (burguesa, estalinista e social-democrata), a “opinião pública” e, inclusive, os instintos naturais e compreensíveis dos próprios trabalhadores a favor da “unidade” pressionarão fortemente para que o PSCH entre novamente numa “frente comum” com os estalinistas, com os social-democratas e, desta vez provavelmente, com os democratas cristãos, para “um governo de concentração nacional”. Se o partido não se definiu de antemão e de forma muito clara a esse respeito, é muito provável que não saiba resistir a essas pressões. Apesar da palavra-de-ordem “Fé em nós mesmos”, haverá certos companheiros, inclusive companheiros da direção do partido, que claudicarão frente a essas pressões. “Vamos ficar isolados”, “não podemos romper a unidade”, “trata-se apenas de um acordo conjuntural”, “é uma tática e manteremos nossa independência programática”, “vamos lutar contra a burguesia dentro do governo”… Nunca faltarão argumentos para justificar o abandono da política marxista revolucionária. Esta é a experiência do socialismo chileno durante toda sua história. E sempre com os mesmos resultados catastróficos.
 
De fato, é possível que o PSCH, ao negar-se a entrar no governo de coalizão, veja-se isolado, em curto prazo, da maioria da classe operária. Seria acusado de “sectário”, “dogmático”, “maximalista” ou coisas piores ainda. Mas se um partido marxista-leninista, sobretudo sua direção, não é capaz de resistir a este tipo de pressão, para que servem o partido e sua direção?
Na realidade, uma atitude intransigente com relação a um governo de coalizão com a burguesia representaria a única maneira de ganhar as massas para o partido e para a revolução socialista.
As massas aprendem de sua experiência. Muito rapidamente dar-se-ão conta de que a política do novo governo é uma política ditada pela burguesia, através dos ministros democratas cristãos. Inclusive sendo uma minoria, estes cínicos representantes da burguesia vetarão qualquer legislação anticapitalista procedente dos partidos operários, ameaçando com a demissão se estes insistem em conduzir uma política em defesa dos interesses da classe trabalhadora.
 
Todos os artigos de Frei e todas as declarações da DC indicam que o novo governo de coalizão nem sequer levaria a termo as medidas tomadas pelo governo da UP, a não ser que uma nova onda de mobilizações de massas os obrigue a fazê-lo.
 
De qualquer maneira, um novo governo de coalizão, sob condições de crise capitalista, não resolveria nada em favor da classe trabalhadora. As ilusões num suposto “projeto social-democrata” para o Chile fracassarão rapidamente frente à crise econômica. Como, em seus dias, explicou o programa original da Unidade Popular:
“No Chile, as receitas ‘reformistas’ e ‘desenvolvimentistas’ impulsionadas pela Aliança para o Progresso, e incorporadas pelo governo Frei, não conseguiram mudar nada importante. No fundamental, foi um governo da burguesia a serviço do capitalismo nacional e estrangeiro, cujas débeis tentativas de mudança social naufragaram sem pena nem glória no meio do estancamento econômico, da carestia e da repressão violenta contra o povo. Com isto, ficou demonstrado, uma vez mais, que o reformismo é incapaz de resolver os problemas do povo”, (a última frase estava sublinhada no original). 
 
E se tudo isto era verdade durante o período do governo democrata cristão de Frei, antes do início da recessão capitalista mundial, não será mil vezes mais verdadeiro agora, com 17 milhões de desempregados nos países capitalistas mais desenvolvidos da OCDE, com um estancamento generalizado das forças produtivas e do comércio mundiais, com uma escassez de mercados e com uma queda da demanda e dos preços dos produtos chilenos no exterior?
 
Hoje em dia, o capitalismo chileno não está em condições de fazer concessões importantes e duradouras à classe trabalhadora e ao campesinato. Inclusive, se sob a pressão das massas um governo de coalizão se visse obrigado, em seus primeiros meses, a conceder uma série de reformas, inevitavelmente, sob a pressão da oligarquia e do imperialismo, passaria a uma segunda fase de contra-reformas. As massas de operários e camponeses veriam o crescimento do desemprego e a inflação corroeria seus aumentos salariais. Iniciar-se-ia de novo o processo de desânimo e de desmoralização. Mas, desta vez, inevitavelmente, surgiria uma oposição na base dos partidos operários e dos sindicatos. As massas compreenderiam que os ministros burgueses da coalizão governamental representam “um cavalo de Tróia”. Cresceria um movimento a favor da expulsão dos ministros democratas cristãos e da formação de um governo de partidos operários com um programa socialista.
 
Se o PSCH cometesse o erro fatal de entrar no governo, as massas o identificariam com a política anti-operária do mesmo. Mas, se os socialistas chilenos se mantivessem firmes e na oposição, ganhariam apoio muito rapidamente e atrairiam amplos setores da base do PCCH, se, como parece inevitável, este entrasse no governo. A palavra-de-ordem “Um governo PSCH-PCCH, com um programa socialista e sem os democratas cristãos”, teria um enorme eco nas filas do PCCH.
 
Uma coisa está clara. Há somente duas alternativas para o Chile: ou a revolução socialista, que esmagará para sempre o poder dos grandes proprietários de terra, dos capitalistas e do imperialismo, ou uma nova série de fracassos e derrotas sangrentas. Para solucionar os problemas urgentes dos operários e dos camponeses é necessário realizar a expropriação dos banqueiros, dos grandes proprietários de terra e dos grandes monopolistas e começar a organização planificada das forças produtivas em benefício de todos. É imprescindível um aumento considerável da taxa de crescimento econômico para elevar o nível de vida das massas. Isto só será possível quando o Estado, nas mãos dos trabalhadores, mobilizar todos os recursos do país. E, para isso, primeiro é necessário esmagar a resistência dos capitalistas e dos grandes proprietários de terra.
 
Qual é a alternativa? Os democratas cristãos, social-democratas e estalinistas têm a ilusão de poder construir no Chile uma democracia burguesa e uma “sociedade de consumo”, semelhante à Alemanha Ocidental, Inglaterra ou EUA. Mas, precisamente nestes países o sistema capitalista já não é capaz, como antes, de manter o nível de vida ou, inclusive, o direito ao trabalho. Aí estão os oito milhões de desempregados nos EUA e os sete milhões no Mercado Comum, os ataques contra o nível de vida e os programas de austeridade em todos esses países e a onda de greves na França, Itália, Grã Bretanha, Alemanha, EUA etc.
 
A existência de uma democracia burguesa e de reformas sociais no Chile, no passado, foi possível graças à situação privilegiada da economia chilena e à demanda de seus produtos no exterior, durante um longo período de tempo. Com o desaparecimento desses fatores, todas as contradições da sociedade chilena surgem à superfície. O governo “reformista” de Frei foi incapaz de solucioná-las. O governo Allende tentou fazer uma revolução pela metade, deixando os pontos chave do poder estatal nas mãos da burguesia, com o resultado já visto. A Junta, com suas matanças e campos de concentração, longe de solucionar os problemas da sociedade chilena, agravou-os ainda mais. E não cabe a menor dúvida de que um governo de coalizão com os liberais burgueses tampouco vai solucionar nada. A alternativa que o capitalismo oferece à classe trabalhadora chilena não é a “sociedade de consumo”, mas o aumento constante do desemprego e da miséria, o estancamento econômico, a fome… não há nenhuma “via intermediária”.
 
A revolução socialista no Chile seria um exemplo para toda a classe operária e para todos os povos oprimidos da América Latina. Com um governo operário no Chile, quanto tempo durariam as ditaduras militares na Argentina, Uruguai etc.? A extensão da revolução socialista a todos os países do continente teria como resultado os Estados Unidos Socialistas da América Latina, unindo a todos os povos num esforço comum para realizar o enorme potencial econômico do continente. A planificação comum dos imensos recursos materiais e humanos da América Latina permitiria transformar a vida de todos os povos em um par de planos qüinqüenais. Os Estados Unidos Socialistas da América Latina seriam o primeiro passo no triunfo do socialismo internacionalmente e na criação da Federação Socialista Mundial, que acabaria definitivamente com o pesadelo do capitalismo e do fascismo e abriria uma nova etapa na história do homem: o Socialismo.
Janeiro de 1979
 
As 3 partes deste artigo foram traduzidas por Fabiano Adalberto
 

Leia todas as partes deste artigo de Alan Woods:

– Lições do Chile – Parte I

– Lições do Chile – Parte II

– Lições do Chile – Parte III (Final)

 

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