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Lições do Chile – Parte II

Apresentamos a seguir a segunda parte do artigo de Alan Woods sobre os ensinamentos da revolução e do golpe de 1973 no Chile.  Alan diz: “A única forma de desarmar a reação e esmagar a resistência dos grandes proprietários de terra teria sido a de armar os camponeses pobres, organizando-os em comitês de ação para ocupar as terras, com o apoio do governo.

Apresentamos a seguir a segunda parte do artigo de Alan Woods sobre os ensinamentos da revolução e do golpe de 1973 no Chile.  Alan diz: “A única forma de desarmar a reação e esmagar a resistência dos grandes proprietários de terra teria sido a de armar os camponeses pobres, organizando-os em comitês de ação para ocupar as terras, com o apoio do governo. Diante de um movimento poderoso das massas armadas, os proprietários de terra e seus pistoleiros poderiam ter sido derrotados, com um mínimo derramamento de sangue”. Era necessário romper com a burguesia e não ter ilusões na legalidade da democracia e nas instituições burguesas. 

Pressão das Massas

Sob a pressão das massas, o governo da UP foi bem mais longe do previsto por muitos de seus dirigentes. O esquema mecanicista do estalinismo de uma divisão artificial entre as tarefas democrático-burguesas e as tarefas da revolução proletária foi rompido pelo movimento das massas. O governo Allende realizou medidas importantes de nacionalização, que representavam um duro golpe contra os interesses da oligarquia.

As medidas de nacionalização do governo Frei tinham reduzido a 49% a indústria do cobre nas mãos dos grandes monopólios norte-americanos, como a Anaconda ou a Kennecott Copper, a quem Frei pagou enormes indenizações (80 milhões de dólares a Kennecott Copper, entre 1967 e 1969, somente pela mina El Teniente). Os trabalhadores chilenos viram-se sobrecarregados por este peso. Em julho de 1971, Allende esclareceu que os monopólios estadunidenses tinham investido entre 50 e 80 milhões de dólares no Chile e que seus lucros subiram a 1.566 milhões de dólares. Portanto, tais empresas deviam ao Chile 642 milhões de dólares.

A nacionalização do cobre em julho de 1971 representou um grande avanço. Da mesma forma, foram nacionalizadas a indústria do carvão, as minas de ferro e de nitratos, a indústria têxtil, a ITT, a INASA etc.

Uma série de reformas sociais em benefício da classe trabalhadora também serviu para aumentar drasticamente o apoio popular ao governo: a distribuição gratuita de leite às crianças nos colégios, o congelamento dos aluguéis e dos preços, o aumento de salários e de pensões…

Estas medidas, por sua vez, deram um enorme impulso ao movimento das massas. Por fim, os setores mais atrasados, apolíticos e apáticos da sociedade conheceram um governo que agia em seu benefício. O resultado foi uma crescente onda de radicalização no campo e na cidade.

A incapacidade do governo Frei para realizar uma reforma agrária séria foi uma das principais razões da vitória eleitoral de Allende. Nas vésperas das eleições, a situação no campo caracterizou-se, nas palavras do ex-ministro da Agricultura da UP, Jacques Chonchol, por “uma frustração crescente”. Ele mesmo explica como a deflagração da nova reforma agrária se deveu à forte pressão das massas rurais:

“O primeiro aspecto que o governo da Unidade Popular teve de abordar em sua política agrária foi o de acelerar o processo das desapropriações para atender à pressão e inquietação dos camponeses. Estes, com efeito, pensavam que, uma vez que o novo governo era dos trabalhadores, todas as suas aspirações de acesso à terra deviam ser satisfeitas do modo mais rápido possível”. (Chile-América, no 25-26-27, pp. 27-28, ênfase nossa).

Por outro lado, os latifundiários iniciaram uma campanha sistemática de sabotagem, abandonando suas terras e desmantelando as instalações de suas fazendas. Muitos deles já estavam financiando grupos armados da ultradireita, com a finalidade de resistir à reforma agrária. Pablo Goebels, um grande latifundiário da província de Cautín, afirmou publicamente que qualquer funcionário do governo que tentasse expropriar suas terras seria recebido com metralhadoras. Segundo um informe oficial da polícia, “mais de dois mil homens foram recrutados em comandos de assalto com o objetivo de provocar o colapso do sistema de transporte, a interrupção do abastecimento de água, gás e eletricidade, e, dessa forma, provocar um descontentamento generalizado”. (Militant, 1/10/71).

Desde o primeiro momento, a classe dominante chilena esteve fazendo seus preparativos para um golpe. Como explica o mesmo artigo do Militant:

“Enquanto Allende exorta as massas à responsabilidade e à disciplina, a reação está acumulando forças para um golpe. Profundamente deprimidos pela vitória de Allende e assustados pelo movimento das massas, os proprietários de terra e os capitalistas compreendem a impossibilidade de derrubar Allende imediatamente. Estão dispostos a esperar. Não obstante, estão fazendo preparativos cuidadosos, estão recolhendo armas, os oficiais superiores do quartel general estão conspirando. O perigo é muito real”.

Resistência do Estado

A única forma de desarmar a reação e esmagar a resistência dos grandes proprietários de terra teria sido a de armar os camponeses pobres, organizando-os em comitês de ação para ocupar as terras, com o apoio do governo. Diante de um movimento poderoso das massas armadas, os proprietários de terra e seus pistoleiros poderiam ter sido derrotados, com um mínimo derramamento de sangue. De fato, esta era a única via possível para defender as conquistas obtidas pelas massas com a Unidade Popular. Mas os dirigentes da UP desconfiavam totalmente da iniciativa revolucionária das massas e estavam atemorizados pela ideia de “provocar a reação”. Por isso, opunham-se terminantemente a cada tentativa, por parte dos camponeses pobres, de realizar “ocupações ilegais”, inclusive ordenando às “forças da ordem pública” para desalojar os camponeses que tinham realizado tais ações. Hoje em dia, alguns dos dirigentes da UP tentam justificar-se alegando que esses movimentos estavam organizados por grupos ultra esquerdistas e que, às vezes, os camponeses exageravam, ocupando não somente as terras dos latifundiários, como também de camponeses médios.

Indubitavelmente, qualquer movimento revolucionário, sobretudo por parte dos estratos mais oprimidos e atrasados da população, sempre tende a “exagerar” e, até certo ponto, estes “excessos” são inevitáveis. Também pode ser verdade que alguns grupelhos ultra esquerdistas aproveitaram-se do movimento espontâneo dos camponeses para aumentar sua influência. Mas a responsabilidade por esta situação é totalmente dos dirigentes da UP, e principalmente do PCCH e do PSCH.

A melhor forma de se evitar os abusos e “excessos”, de minimizar a violência e o derramamento de sangue e de assegurar a transferência o mais pacífica e ordeiramente possível dos latifúndios às mãos dos camponeses pobres era que os mesmos dirigentes, em vez de denunciar estas “ações ilegais” e de mandar a polícia para “restabelecer a ordem”, tivessem se colocado à frente do movimento das massas, dando-lhe um caráter organizado.

Jacques Chonchol, no artigo anteriormente mencionado, tenta minimizar a importância dos conselhos camponeses. Contudo, ele mesmo explica as razões que impediram o fortalecimento e a generalização desses organismos de poder popular no campo:

Buscando sua ampliação para fazer participar estes grupos, iniciou-se, ademais, uma luta política entre a UP e a Democracia Cristã, e entre os próprios partidos da Unidade Popular, para tratar de controlar os conselhos, o que levou, posteriormente, alguns partidos da UP a não apoiar a organização dos Conselhos Camponeses”. (Chile-América, p. 32).

Uma afirmação incrível! Alguns dos dirigentes da UP se opunham à criação dos conselhos camponeses, porque existia uma luta pela hegemonia política nesses órgãos. Mas, acaso não existe a mesma luta em cada fábrica, em cada bairro de trabalhadores, em cada convocação eleitoral, em cada sindicato? E, entretanto, os dirigentes da UP não defendiam a abolição dos sindicatos e do parlamento. A verdadeira razão foi que “alguns dirigentes” da UP desconfiavam do movimento das massas camponesas e tinham medo de que escapasse de seu controle. O dever elementar dos dirigentes era o de apoiar cada iniciativa revolucionária das massas de camponeses pobres, o de fortalecer ativamente a criação dos conselhos camponeses, apesar de todas as dificuldades, e o de lutar dentro deles por uma política socialista revolucionária, contra a influência funesta dos democrata-cristãos.

Desde o primeiro momento os dirigentes da UP depositavam toda sua confiança na legalidade burguesa, deixando intacto todo o velho aparato estatal. Isto teve consequências desastrosas para a reforma agrária, como admite o próprio Jacques Chonchol:

Além disso, as limitações jurídicas do governo impediam-no de dar aos Conselhos Camponeses, a não ser através de uma lei que não tinha possibilidades de aprovar por ser minoritário no Parlamento, foro jurídico para seus dirigentes e financiamento para seu trabalho”. (Chile-América, p. 32).

O caráter utópico da ideia de utilização do velho aparato burocrático do Estado burguês para realizar a reforma agrária, fica reconhecido implicitamente, mesmo a contragosto, nas seguintes palavras de Chonchol, que admite que os “Conselhos Camponeses” frequentemente se chocavam com a resistência do aparato burocrático:

“Da mesma maneira, um dos problemas que o governo da UP não pôde resolver, apesar das tentativas feitas, foi o do funcionamento do aparato burocrático do Estado (…) Para todo o processo de mudança agrária, que incluía problemas tão diversos, como o das desapropriações, o da assistência técnica e de crédito aos camponeses, o da reorganização do sistema econômico entre a agricultura e o resto da sociedade etc., seria necessário dar ao aparato burocrático, que tinha uma considerável responsabilidade em todo o processo de mudança (!), um dinamismo, uma coerência e uma eficácia muito superiores ao que tinha sido o seu comportamento tradicional”.

“Várias tentativas foram feitas durante o governo da UP para alcançar este objetivo, mas, definitivamente, as limitações legais, a resistência da burocracia a mudar seus hábitos, a diferença de classes entre os burocratas e os camponeses, a localização urbana de grande parte desta burocracia agrária e as lutas partidárias impediram avançar de um modo significativo na transformação da burocracia tradicional num corpo mais orgânico (?) e eficiente a serviço do processo da transformação agrária”. (Chile-América, p. 33, ênfase nossa).

Todos os argumentos de Chonchol mostram claramente a impossibilidade de implantar uma mudança radical e irreversível das relações sociais no campo chileno, a não ser como consequência da luta revolucionária do campesinato armado contra a contrarrevolução e da organização dos conselhos camponeses, intimamente ligados com os sindicatos camponeses e as organizações da classe trabalhadora nas cidades.

Mas, apesar de tudo, devido às pressões das massas (já antes do 1º de janeiro de 1971 houve entre 250-300 ocupações “não oficiais”), o governo da UP realizou a reforma agrária mais profunda de toda a história do Chile. Nas palavras de Chonchol:

“Nestas circunstâncias, o governo da UP fixou, para 1971, uma meta de desapropriação de mil imóveis rurais, que era quase o que tinha sido feito pelo governo democrata-cristão durante seus seis anos de mandato (1.139 imóveis rurais) e que significava quase quadruplicar as desapropriações de 1970 (273 imóveis, com 634 mil hectares, haviam sido desapropriados pelo governo Frei em 1970). Isto implicava um enorme esforço do sistema burocrático do Estado, dadas as complexidades e limitações do processo de desapropriação contemplado na lei 16.640. Apesar disso, e sob a pressão camponesa, a aceleração do processo devia ser ainda maior e, no final de 1971, foram desapropriados 1.378 imóveis rurais com 2.600.000 hectares. Este ritmo se acelerou ainda mais em 1972, ano em que foram desapropriados mais de 2 mil imóveis com uns 2.800.000 hectares, com o que praticamente se liquidou com o grande latifúndio no Chile. Em 1973, até o golpe de Estado, foram expropriados outros 1.050 imóveis, sobretudo imóveis mal explorados de tamanho médio e latifúndios remanescentes, com 1.200.000 hectares”. (Chile-América, p. 28).

As medidas tomadas pelo governo Allende, em benefício das massas de trabalhadores e camponeses, provocaram uma enorme onda de entusiasmo popular, que se refletiu nos resultados das eleições municipais de 4 de abril de 1971.

Enquanto que, nas eleições presidenciais, Allende só obteve 36,3% dos votos, agora os partidos da UP conseguiram 49,7% dos votos, frente a 48,05% da oposição em conjunto.

A onda de radicalização no país teve sua expressão no surgimento de órgãos incipientes de poder operário nas fábricas e nos bairros de trabalhadores. No campo houve tentativas, da parte dos camponeses pobres, de ocupar terras. Esta fermentação nas massas populares também sacudiu os partidos tradicionais da classe média, provocando no seu seio uma série de convulsões e divisões. Sete deputados da DC abandonaram suas fileiras para formar um novo partido, o MIC (Esquerda Cristã), que recebeu a adesão de uma parte da juventude do partido, declarando-se a favor da “construção do socialismo” com o governo da UP. O Partido Radical sofreu uma divisão à direita depois do 25o Congresso, quando o partido formalmente se declarou a favor da “luta de classes e da necessidade de acabar com a exploração do homem pelo homem”. Alberto Baltra, que participou da formação do MRI “para representar os interesses da classe média”, tampouco se atreveu imediatamente a manifestar-se abertamente contra o governo da UP. A corrente popular a favor do governo era muito forte, inclusive entre as massas da pequena burguesia.

De fato, a correlação de forças no parlamento não era mais que um pálido reflexo da enorme força do movimento dos trabalhadores e camponeses naquele momento. Todas as condições objetivas para a transformação pacífica da sociedade chilena estavam dadas. A classe dominante encontrava-se desmoralizada e vacilava. O movimento das massas estava no auge e, de fato, já havia deixado muito para trás os esquemas reformistas da sua direção. A classe média, e, sobretudo o campesinato, olhava com esperança para o governo. Os dirigentes socialistas e comunistas ocupavam postos decisivos do governo e da administração pública. Tinham a vantagem de ser o governo legítimo do país, o que facilitava a tarefa da revolução socialista face às massas mais atrasadas da classe média. Inclusive nas forças armadas, a Unidade Popular tinha muito apoio, não somente entre os soldados e marinheiros, mas também entre amplos setores dos suboficiais, que apoiavam ao PSCH ou ao PCCH. O presidente da República podia convocar um referendo sobre temas importantes. Não se pode imaginar uma situação objetiva mais favorável. Não obstante, as direções do PSCH e do PCCH não aproveitaram o momento para dar o golpe definitivo e acabar com o poder da oligarquia.

Nesta situação, surgiram elementos de duplo poder na sociedade chilena:

“Neste ponto, é muito importante destacar que a contradição fundamental está dada pela aspiração do poder popular das massas expressa nos chamados comandos comunais, cordões industriais, assembleias populares, formas de controle de abastecimento de alimentos, conselho de administração de empresas etc.”. (45o aniversário do PSCH, p. 17).

Não obstante, os dirigentes do movimento de trabalhadores deixaram todas as alavancas do poder nas mãos da classe dominante. Não se atreveram a intervir no exército e na polícia. “A Unidade Popular tem o poder executivo”, diz Sepúlveda, “mas o inimigo controla toda a institucionalidade burguesa e se protege através dela para seus preparativos contrarrevolucionários”.

O governo tinha poderes legais para convocar um plebiscito e novas eleições legislativas, que, sem dúvida alguma, teriam significado uma vitória decisiva para os partidos dos trabalhadores. Mas, em um momento tão favorável, os dirigentes da UP desperdiçaram a oportunidade, confiando cegamente na “boa vontade” do inimigo de classe.

A Contraofensiva Burguesa

“A Unidade Popular triunfa com 36% em quatro de setembro. Em cinco de novembro, depois do assassinato do Comandante em Chefe do Exército, general René Schmeider, o Presidente Allende assume [o poder] ante uma burguesia dividida e aterrorizada. As próprias forças armadas esperam uma limpeza profunda. Todos se mantêm imóveis. Inicia-se a aplicação das linhas gerais do Programa e das 40 medidas. Em cinco meses de exercício de governo realizam-se as eleições de regentes: a UP obtém 51% dos votos”. (Socialismo Chileno, p. 38).

Dessa maneira, os dirigentes da UP perderam a melhor oportunidade de conseguir uma transformação relativamente pacífica da sociedade: a convocação de novas eleições; a obtenção de uma maioria absoluta, que teria retirado aos partidos burgueses seu último pretexto legal para bloquear a legislação socialista; e um apelo, a partir do governo, de toda a classe trabalhadora e do campesinato para conduzir a total eliminação do poder dos capitalistas e grandes proprietários de terra no Chile, armando os operários e camponeses em defesa de suas conquistas democráticas, econômicas e sociais, e organizando de forma generalizada, por todo o país, conselhos de operários, camponeses, soldados, donas de casa e pequenos comerciantes, visando organizar a produção e fiscalizar a manutenção da ordem revolucionária. Esses conselhos, eleitos democraticamente e revogáveis a todo o momento, constituiriam, finalmente, os autênticos órgãos do poder dos operários e camponeses chilenos. Confrontadas por um movimento revolucionário com essas características, a classe dominante, a casta militar e a burocracia estatal teriam ficado suspensas no ar, sem nenhum tipo de base social. Mas os dirigentes dos principais partidos de trabalhadores, ao esquecer os princípios mais elementares do marxismo e ao perder a oportunidade, deixaram que a iniciativa passasse às mãos da reação.

Utilizando seu controle da imprensa, a oligarquia chilena, com o apoio ativo da CIA, começa sua contraofensiva nas páginas de El Mercúrio. A Democracia Cristã intensifica sua campanha contra o governo em aliança com o Partido Nacional, exigindo o “desarmamento de todos os grupos armados”. Esta gente, logicamente, estava pensando somente nos grupos de esquerda, já que “Pátria e Liberdade” e outros grupos fascistas faziam suas provocações terroristas nas ruas com impunidade. Assim, estabelece-se uma conveniente divisão do trabalho entre a oposição “respeitável” da DC, que sistematicamente bloqueia as novas leis, e os fascistas, que semeiam o terror e a confusão nas ruas.

Os capitalistas e grandes proprietários de terra chilenos boicotaram a economia nacional. O imperialismo americano cortou toda ajuda econômica ao governo Allende e tentou organizar um boicote mundial ao cobre chileno. As nacionalizações realizadas de forma parcial e sem um planejamento econômico global deram lugar a convulsões, provocando um enorme aumento da inflação, que eliminou as vantagens dos aumentos salariais e afetou seriamente a classe média. Muito rapidamente a simpatia dos estratos médios pelo novo governo converteu-se em crescente oposição.

A ofensiva da contrarrevolução começa com a paralisação dos caminhões, em outubro de 1972. As massas da classe trabalhadora, compreendendo o perigo, responde com mobilizações impressionantes, logrando frustrar a tentativa contrarrevolucionária; mas, como agiram os dirigentes? Com uma remodelação do governo para, pela primeira vez, incluir representantes da casta militar no gabinete governamental.

Novamente, o triunfo logrado pela mobilização e iniciativa da classe trabalhadora converte-se em derrota, devido à bancarrota e à miopia reformista de seus dirigentes. “As forças armadas são convidadas como árbitros em um conflito que tinha um vencedor”, comenta A. Sepúlveda com amargura. O Comitê Central do Partido Socialista, expressando a indignação da base de trabalhadores contra a capitulação do governo, protesta contra “essa saída que escamoteia uma vitória numa fase decisiva do processo” (Socialismo chileno, p. 40).

Conspirações Golpistas

Entre a paralisação de outubro e quatro de março, foram quatro meses de preparação contrarrevolucionária: propaganda contra o “desabastecimento” e o “mercado negro” provocados artificialmente pela burguesia. Ao mesmo tempo, intensificam-se as conspirações golpistas nos quartéis. Nesta situação, os dirigentes da UP, envolvidos em seus esquemas reformistas e confiando cegamente na “lealdade” dos generais “patriotas”, mostram-se totalmente impotentes para deter a ofensiva da direita. Apesar de tudo, a Unidade Popular obteve 44% dos votos nas eleições de março de 1973. “No primeiro momento, que o povo considera um triunfo, o inimigo está deprimido. È a ocasião de lançar-se à ofensiva… É o que planeja o Partido Socialista. Mas não há ofensiva” (Socialismo chileno, pp. 40-41).

Indubitavelmente, as bases de trabalhadores, tanto do PSCH quanto do PCCH, queriam passar à ofensiva. Os trabalhadores esperavam por uma palavra de seus dirigentes para sair às ruas e esmagar a reação. Pediam armas, mas só conseguiram boas palavras, promessas e apelos à disciplina, à responsabilidade e à serenidade. Contudo, como diz Sepúlveda já em março de 1973, o proletariado “não queria mais desfiles, aspirava ao poder” (Socialismo chileno, p.41).

Segundo o documento do PSCH anteriormente citado:

“O governo da UP, diante da insurreição da burguesia, não é capaz, devido às posições reformistas, de resolver a favor da revolução chilena, com ações organizadas de massas, de por fim a essa ofensiva, e, a partir de posições conciliatórias, trata de adiar o desenlace de uma situação que se faz cada vez mais insustentável” (45o aniversário do PSCH, p. 18).

A base de trabalhadores do PSCH, seguindo seu instinto de classe, opôs-se terminantemente à entrada de militares no governo. Desta maneira, os operários socialistas demonstraram que compreendiam, muito melhor que sua direção, o que estava acontecendo no país. A capitulação dos dirigentes da UP em novembro somente estimulou o apetite dos reacionários. Os resultados das eleições de março só serviram para adiar o desenlace fatal. Se a contrarrevolução apenas dependesse dos dirigentes, teria triunfado no Chile quase um ano antes. Afortunadamente, o enorme poder do movimento de trabalhadores e seu grande nível de combatividade fizeram vacilar as forças reacionárias. Como disse o jornalista inglês Laurence Whitehead, em um artigo no The Economist (30/7/73):

“Se até agora o exército chileno manteve-se imobilizado, a explicação não se encontra em nenhuma tradição nacional específica, e sim no poder formidável agora adquirido pelo movimento operário”.

A prova desse enorme poder foi o fracasso rotundo do “tancazo” do dia 29 de junho. Em questão de horas, milhares de trabalhadores fizeram greves, ocuparam as fábricas e, deixando piquetes para proteger as fábricas ocupadas, marcharam até o “Palácio de La Moneda”. “Outra conjuntura extraordinária para avançar e golpear”, afirma Sepúlveda. “Os camponeses estavam próximos. Abortado o movimento, os parlamentares de direita tremiam nos corredores do Congresso” (Socialismo chileno, p. 41).

E qual foi a reação da direção? Allende fez um apelo aos trabalhadores para que voltassem ao trabalho. A polícia dispersou as massas que circulavam sem rumo pelas ruas da capital.

Este comportamento do governo deu ânimo novo às forças reacionárias, que se lançaram novamente à luta contra outra greve dos caminhoneiros. Os trabalhadores responderam com uma greve geral de 24 horas no dia nove de agosto. Como dizia um artigo no Militant (17/08/73): “Não faltam o ânimo e a vontade de lutar. O que falta é a direção”. Quase três anos depois, o dirigente socialista Adonis Sepúlveda, chega, retrospectivamente, à mesma conclusão: “A direção do movimento não deu orientação alguma. Tampouco a CUT” (Socialismo chileno, p. 41, ênfase nossa).

Sem Direção

Aí estava a tragédia da classe trabalhadora chilena. Apesar de todo o enorme poder que se encontrava em suas mãos; apesar do ânimo de luta e do heroísmo dos trabalhadores, suas direções falharam no momento decisivo. Em troca, os representantes da classe burguesa atuavam de forma séria. Pouco lhes importava “as regras do jogo”. Sabiam que seus interesses de classe estavam sob risco e atuaram agressivamente para defendê-los:

“O inimigo sempre soube o que tinha de fazer”, acrescenta Sepúlveda. “Retrocedeu ou avançou por seus objetivos de acordo com as circunstâncias. Contrariamente à UP, não perdeu uma oportunidade para ganhar terreno. Organizou com decisão e seriamente o golpe e o assestou no momento mais propício: no de maior confusão e quando as contradições sobre o que fazer tinham virtualmente paralisado a direção” (Socialismo chileno, p. 42).

Talvez Sepúlveda exagere sobre a inteligência e perspicácia da classe dominante chilena, mas o que é realmente verdade é que, se os dirigentes chilenos tivessem defendido os interesses da classe trabalhadora com a quarta parte da seriedade dos políticos burgueses, o proletariado chileno poderia ter tomado o poder não somente uma, mas três ou quatro vezes durante o período da Unidade Popular. As condições objetivas estavam dadas, a vontade de lutar estava presente. Faltava apenas uma autêntica direção revolucionária, com a vontade e a capacidade de levar à prática uma política marxista-leninista.

As tentativas por parte de Allende e demais dirigentes da UP de chegar a um acordo com a reação, pactuando com a Democracia Cristã e deixando entrar os militares no governo, serviram apenas para desorientar a classe trabalhadora e animar aos contrarrevolucionários. Uma grande parte da responsabilidade por esta política a tem Corvalán e os dirigentes do Partido Comunista do Chile que, desde o primeiro momento, pressionaram Allende e os dirigentes socialistas a seguir esse caminho desastroso. Após o fracasso do “tancazo” de junho, Corvalán fez um discurso, ironicamente republicado na revista do PC britânico Marxist Today em setembro de 1973, no qual elogiava a “ação rápida e decidida do comandante em chefe do exército, a lealdade das forças armadas e da polícia”. Rechaçando terminantemente a ideia de que seu partido estava a favor de uma milícia trabalhadora, Corvalán responde: “Não, senhores! Seguimos apoiando o caráter absolutamente profissional das instituições armadas. Seus inimigos não estão nas fileiras do povo e sim no campo da reação”. Mas Allende e os dirigentes do PSCH também tinham uma grande responsabilidade pelo que aconteceu, já que tinham aceitado a mesma política. Por exemplo, no dia 24 de junho, Allende “pediu a seus seguidores para iniciar um diálogo com aqueles grupos da oposição que também queriam a transformação do país” (referia-se aos mesmos democratas cristãos que precisamente naquele momento estavam apoiando aos conspiradores fascistas) e “fez uma advertência contra a classificação das forças armadas como ‘reacionárias’ e evitando assim que estas se convertessem em uma força dinâmica no desenvolvimento do Chile”. E isto há apenas cinco dias antes do “tancazo” de 29 de junho.

Não cabe a menor dúvida de que as intenções de Salvador Allende e dos demais dirigentes da UP eram honradas. Desejavam sinceramente uma “mudança pacífica e sem traumas” da sociedade. Desgraçadamente, para se fazer uma revolução socialista, não basta ter boas intenções. Como muito bem o disse um dos dirigentes do Partido Socialista do Chile (Interior) em um artigo publicado em Nuevo Claridad (no 24, abril 1978):

“Se os processos fossem medidos pelas intenções, teríamos de afirmar que a intenção da UP era a de construir o socialismo no Chile, mas, infelizmente, temos hoje fascismo e ditadura”.

Atualmente, alguns dirigentes da UP no exílio tentam justificar-se aproximadamente da seguinte forma: “Se tivéssemos lutado, isso teria significado uma guerra civil sangrenta, com milhares de mortos”. Como soam irônicas, hoje, estas palavras! Milhares de operários e camponeses, a flor e a nata da classe trabalhadora foram exterminados, torturados, levados aos campos de concentração ou simplesmente “desaparecidos”. E segue-se insistindo na necessidade de se evitar a violência “custe o que custar”. Que fique claro, nenhum revolucionário quer a violência. Todos nós queremos uma transformação “pacífica e sem traumas”, mas também aprendemos algo da história: jamais alguma classe dominante renunciou a seu poder e a seus privilégios sem lutar ferozmente.

Os trabalhadores socialistas e comunistas queriam lutar contra a reação. Isto ficou claro no dia 4 de setembro, quando 800 mil trabalhadores, muitos deles armados com porretes, desfilaram pelas ruas de Santiago. Adonis Sepúlveda descreve assim os acontecimentos:

Os estratos atrasados, suburbanos e camponeses, muitas donas de casa dos setores mais pobres, embora não estivessem inscritos, faziam parte da força social da Unidade Popular. No dia 29 de junho, respondem à tentativa de golpe com uma formidável demonstração de força. O presidente da República esteve mais de cinco minutos nos balcões do La Moneda, sem poder iniciar seu discurso diante dos gritos ensurdecedores das massas, exigindo o fechamento do parlamento. No dia quatro de setembro, sete dias antes do golpe, em todos os povoados e cidades do Chile, realizam-se fabulosas concentrações de apoio ao governo. Em Santiago, desfilam 800 mil pessoas exigindo com fervor: ‘Mano dura, mano dura, no vivimos por las puras’, ‘Crear, crear, poder popular’, ‘Allende, Allende, el pueblo te defiende’. (Socialismo chileno, pp. 36-37).

Os trabalhadores chilenos confiavam em seus dirigentes, a quem pediram armas e uma estratégia de luta. Se, em vez de porretes, tivessem armas, mesmo que poucas e deficientes, a história do Chile teria sido muito diferente. A manifestação gigantesca de quatro de setembro demonstra que a classe trabalhadora não tinha perdido sua vontade de lutar, e sim que pedia armas para resistir. Desgraçadamente, seus dirigentes, em vez de armas, ofereceram-lhes boas palavras e recomendaram-lhes voltar para suas casas, coisa que só serviu para debilitá-los frente ao golpe iminente.

É aqui onde, naturalmente, surge o problema do exército. Segundo algumas fontes, Allende perguntou a Altamirano: “Quantos homens são necessários para conduzir um tanque?”. Contudo, esta é uma forma completamente errada de encaminhar a questão. Se o exército pudesse ser reduzido sempre a “tantos generais controlando tantas baionetas”, nenhuma revolução teria sido possível na história. Mas, como disse uma vez o rei Frederico da Prússia: “Quando essas baionetas começarem a pensar… estaremos perdidos”.

No exército chileno havia muitos soldados, cabos, inclusive oficiais, que simpatizavam com a UP. Muitos inclusive tinham carnês, socialista ou comunista. A tentativa de sublevação dos marinheiros de esquerda, em sete de agosto, dava uma ideia do que seria possível no caso de uma convocação séria de Allende às tropas.

Infelizmente, até o último momento, Allende confiou que os generais não violariam a legalidade e que, inclusive, defenderiam seu governo. Como uma ironia macabra da história, pouco antes do golpe, o mesmo Allende nomeou os generais Leigh Guzmán e Pinochet chefes das Forças Aéreas e do Exército, respectivamente. Até o final, quando os tanques já se encontravam nas ruas, Allende pedia “calma” e “serenidade” aos trabalhadores, enquanto tentava, em vão, telefonar a Pinochet.

O erro fundamental dos dirigentes da UP foi o de pensar que o Estado burguês poderia adotar uma atitude “imparcial” no desenvolvimento da luta de classes e que o Chile era um caso excepcional devido às tradições “democráticas” de suas forças armadas. Estas ilusões foram fomentadas até o último momento pelos próprios militares. Pouco antes do golpe, depois de sua nomeação, o general Leigh Guzmán pronunciou um discurso e afirmou que as forças armadas “nunca romperiam com sua tradição de respeitar o governo legalmente constituído”. Estas mesmas ilusões dominavam os dirigentes da UP, sobretudo os do PCCH. Desde o primeiro momento, Corvalán insistiu teimosamente no “profissionalismo” e no “patriotismo” dos militares chilenos. Num artigo publicado em World Marxist Review (dezembro de 1970), Corvalán fixou-se no caráter especial das forças armadas chilenas, que “mantinham seu espírito de profissionalismo, seu respeito à Constituição e à lei”. Segundo ele, seria incorreto afirmar “que são os servidores leais dos imperialistas e das classes superiores”. Novamente, em novembro de 1972, na mesma revista, Corvalán insiste que “apesar de sua diversidade, os militares têm valores morais comuns: respeito à Constituição e à lei, e lealdade para com o governo eleito”. O mesmo Corvalán escreveu no jornal diário do PC britânico, The Morning Star (29/12/70): “Admitir a inevitabilidade de um enfrentamento armado implica na formação imediata de uma milícia popular armada. Na atual situação, isto equivaleria a um desafio ao exército (…) [este] deve ser ganho para a causa do progresso no Chile e não empurrado para o outro lado das barricadas”.

Conquistar os Soldados

Se os dirigentes da UP tivessem dedicado a décima parte das energias gastas em tentar ganhar a confiança e o respeito da casta militar, a um trabalho sério para ganhar a base do exército, a derrota de 11 de setembro teria sido totalmente impossível.

Se Allende tivesse usado de seu enorme prestígio pessoal e de sua autoridade legal como Presidente da República para fazer um apelo às fileiras do exército, por cima das cabeças dos generais, o desenlace da situação teria sido muito diferente. As fileiras do exército, uma vez frente a frente com o movimento das massas, teriam sofrido inevitavelmente uma série de tensões e divisões. Ainda que, em qualquer exército, a cúpula da casta militar esteja vinculada à classe dominante, a base está sempre próxima da classe operária e do campesinato. Os soldados e os marinheiros simpatizavam com o movimento da classe trabalhadora e com o governo da UP. Mas, detrás do soldado, está o oficial com sua pistola e seu bastão de comando. Para que se produza um movimento de solidariedade ativa no seio do exército é necessário que os soldados estejam convencidos da firme vontade dos trabalhadores de levar a luta até o final, até suas últimas consequências. Em poucas palavras: que confiem no êxito. Se não for assim, o temor aos oficiais será suficiente para manter a disciplina na tropa.

O fato de que, em 11 de setembro, apenas uma minoria dos soldados tenha participado ativamente no golpe, enquanto que a maioria ficou nos quartéis, indica que Pinochet percebia muito melhor que Allende as tensões existentes dentro do exército.

Mas, na ausência de uma resistência massiva e feroz, não existia a menor possibilidade de atrair os soldados que, de maneira passiva, simpatizavam com a causa dos trabalhadores. Neste sentido, os métodos “pacifistas” do reformismo sempre conduzem a resultados diametralmente opostos aos previstos.

Agora, no exílio, muitas das pessoas que tinham uma responsabilidade pessoal na situação tentam justificar-se de qualquer maneira. Um dos argumentos utilizados é o de que a classe trabalhadora, no momento decisivo, encontrava-se isolada. O certo é que mostrava sinais de cansaço. Não via recompensados seus esforços diante da contemporização que se tinha com o inimigo. “Estava cansada de desfiles. Queria ações reais para liquidar o conflito social e não percebia firmeza em sua direção política. Mas estava pronta a combater à primeira ordem. No dia 11, e em alguns casos até os dias 12 e 13, ficaram esperando” (Socialismo chileno, p. 37, ênfase nossa).

As Massas Abandonadas

Tanto o PSCH quanto o PCCH tinham armas e, teoricamente, uma política militar. Mas, na hora da verdade, as armas não apareceram, a política militar não serviu de nada e a maior parte dos dirigentes fugiu, abandonando as bases a sua sorte. Foi um final indigno para três anos de lutas heroicas da classe operária e do campesinato chilenos. Há quem diga que a morte de Allende “salvou a honra” do socialismo chileno. Como se tratasse de uma questão abstrata e moral de “honra” e não da vitória ou do fracasso da revolução socialista; como se tratasse da vida ou da morte de um homem, num dia em que a flor e a nata da classe trabalhadora chilena foram massacradas sem poder se defender.

Sem dúvida que honra Salvador Allende ter permanecido até a morte no palácio La Moneda, à diferença de muitos, que abandonaram seus militantes para, depois, desde um confortável exílio, escrever circunspectos artigos sobre “a heroica resistência do Chile”. Salvador Allende é um mártir do movimento da classe trabalhadora. Mas toda a simpatia do mundo não pode mudar o que aconteceu no dia 11 de setembro de 1973, nem absolver Allende de sua responsabilidade pelo acontecido. As tentativas de desviar a atenção dos trabalhadores do que realmente ocorreu e do porque ocorreu, por meio de sentimentalismos e mitos, são indignas de socialistas e revolucionários. Se, realmente, queremos honrar a memória de Allende e dos milhares de homens e mulheres anônimos que caíram mortos naquele dia, e depois, pela causa da classe trabalhadora, nosso primeiro dever é o de aprender da experiência para não repeti-la.

Que Tipo de Regime?

Toda a história nos mostra que não há nada pior para a classe trabalhadora que sucumbir sem luta. Vendo a paralisação de suas organizações no momento da verdade, as massas caem em profunda desmoralização. Uma derrota depois de uma luta heroica, como a da Comuna de Paris ou a da Revolução das Astúrias em 1934, tem efeitos menos desastrosos, ao deixar uma tradição sobre a qual as próximas gerações podem reconstruir o movimento.

O exemplo mais terrível deste processo de desmoralização foi o da Alemanha em 1933. Utilizando quase os mesmos argumentos dos dirigentes da UP, os dirigentes da socialdemocracia alemã deixaram Hitler subir ao poder “sem quebrar uma vidraça”, como ele mesmo comentou depois. Quais foram os resultados da atitude pacífica e conciliadora dos dirigentes operários na Alemanha? O movimento da classe trabalhadora alemã – anteriormente, o mais poderoso do mundo – desintegrou-se totalmente da noite para o dia. O desânimo e a desorientação da classe trabalhadora alemã, em consequência da política míope de seus dirigentes, são a explicação mais fundamental de sua passividade sob a tirania hitlerista e da quase total inexistência de uma resistência organizada contra os nazistas na Alemanha, contrariamente ao que aconteceu em outros países.

Depois do golpe de 11 de setembro, muita gente caracterizou o regime de Pinochet como fascista. E, de fato, os métodos empregados contra a classe trabalhadora pela Junta – os assassinatos, as torturas, os campos de concentração – são os mesmos métodos empregados no passado por Hitler, Mussolini ou Franco.

Mas, entre o Chile e a Alemanha, contudo, há diferenças fundamentais. Em primeiro lugar, as condições no Chile, às vésperas do golpe, eram muito mais favoráveis para o movimento da classe trabalhadora que na Alemanha. A classe trabalhadora alemã tinha sofrido já uma série de derrotas muito graves entre 1919 e 1933. Pelo contrário, no Chile os trabalhadores tinham derrotado várias tentativas contrarrevolucionárias nos meses anteriores e, em quatro de setembro, uma semana antes do golpe, tinham feito uma nova demonstração de sua vontade de lutar.

A diferença fundamental foi que Hitler baseava-se em um movimento de massas, o “nacional-socialismo”, que contava com o apoio ativo de milhões de pequeno-burgueses frustrados e centenas de milhares de pessoas desclassificadas armadas e organizadas nas SA (“camisas pardas”). É precisamente esta base de massas o que diferencia o fascismo de outras formas de reação, por muito violentas e sangrentas que estas sejam. O objetivo do fascismo é a total destruição das organizações dos trabalhadores, a completa erradicação dos embriões da nova sociedade nas entranhas da velha. Mas os instrumentos normais do Estado burguês não são suficientes para esta tarefa. A base do Estado é demasiadamente estreita para lograr a total desintegração do proletariado. Para consegui-lo, é necessária uma base de massas entre a população: por isso, o fascismo caracteriza-se, num primeiro momento, por ser um movimento de massas da pequena burguesia, que “enlouquece” como resultado da crise do capitalismo e que, perdendo a confiança na capacidade de luta da classe trabalhadora para oferecer uma alternativa viável, procura uma saída no fascismo, com sua demagogia radical e seu “socialismo nacional”. É esta base de massas que dá uma relativa estabilidade a um regime fascista e permite a total destruição do movimento da classe trabalhadora (na Alemanha, fecharam até os clubes de xadrez dos trabalhadores). O fascismo durou 12 anos na Alemanha, 20 na Itália e quase 40 na Espanha, se bem seja verdade que, finalmente, o regime franquista se tenha convertido em uma ditadura policial-militar sustentada pela inércia temporária das massas.

O regime de Pinochet nunca teve uma base de massas comparável às dos regimes fascistas tradicionais. Grupos fascistas, como “Pátria e Liberdade”, semeavam o terror e a confusão, mas eram minoritários. Não jogavam nenhum papel independente, eram meros chacais da reação que preparavam o caminho para a intervenção militar. Representavam, apenas, uma arma auxiliar do Estado burguês. Sequer chegaram a ter a mesma força da Falange Espanhola nos anos 30.

É verdade que, quando se produziu o golpe de Estado, certos setores das classes médias, golpeadas por uma inflação que superava 300% e desmoralizadas pela política do governo da UP, olhavam com alguma simpatia para os militares, de quem esperavam uma solução para seus problemas econômicos. Mas, em nenhum momento, esse apoio passivo pode-se comparar com os movimentos fascistas dos anos 30. O golpe de Pinochet foi um golpe militar com as mesmas características de muitos outros golpes de Estado, mas com uma diferença terrível: seu caráter particularmente sangrento e selvagem foi algo novo, inclusive na América Latina. A explicação deste fato consiste no medo que tinha a classe dominante do governo de Allende que, sob a pressão das massas, tinha chegado muito mais longe que o esperado. Os capitalistas e grandes proprietários de terras se vingaram de uma forma terrível, com o objetivo de “dar um bom exemplo”. Por outro lado, a própria força do movimento operário fez com que a burguesia, para dobrá-lo, tivesse que aplicar uma repressão mais sangrenta e massiva que em outros países.

Um Regime Bonapartista

Uma ditadura policial-militar baseada no “domínio da espada” é um regime bonapartista. Mas o regime bonapartista no Chile, pelas razões anteriormente mencionadas, tem necessariamente um caráter particularmente virulento. É um regime bonapartista que tenta imitar os métodos fascistas. Mas Pinochet não tem e nunca teve a base social de massas essencial para realizar a tarefa central do fascismo: a destruição total do movimento operário e a dispersão da classe trabalhadora. Apesar de seu caráter extraordinariamente repressivo, o regime da Junta é intrinsecamente instável e não tem a menor possibilidade de durar tanto tempo quanto os regimes de Hitler e Mussolini. Trata-se mais de um regime do tipo da “ditadura dos coronéis” da Grécia, que a duras penas se manteve por sete anos, sem poder solucionar nada para o capitalismo grego, e finalmente sofreu um colapso que abriu o caminho para uma nova onda de radicalização e de convulsões sociais.

O que deu, em curto prazo, uma aparência de falsa estabilidade e solidez à Junta foi o profundo desânimo das massas chilenas e seu sentimento de impotência ante a reação triunfante, após o colapso das organizações trabalhadoras. O terrível massacre dos quadros operários e a desarticulação de seus partidos e sindicatos criaram um ambiente generalizado de desorientação.

Nesta situação, a crise econômica, o desemprego e a fome, longe de estimularem a luta, serviram para abater ainda mais o ânimo dos trabalhadores. Este desânimo, e sua consequente inércia, é o que explica o prolongamento da vida da ditadura, apesar de todos os seus problemas e contradições internas.

Era irônico ver como, nos meses que se seguiram ao 11 de setembro, os mesmos dirigentes que se tinham negado sistematicamente a armar os operários e camponeses, quando isso era a chave para a vitória, agora se dedicavam, normalmente em lugares distantes e seguros, a escrever artigos sobre a necessidade da luta armada contra a ditadura. Mais de um ano depois do golpe, um porta-voz do PCCH declarou a La Stampa que “as organizações de esquerda chilenas ainda possuíam quantidades importantes de armas” e que “se está realizando uma luta para derrubar o regime militar”. Em que mundo de sonhos viviam estes heróis do exílio!

Que fique claro! A última coisa que se devia planejar nesta situação era a luta armada, a guerra de guerrilhas ou o terrorismo individual. Os resultados obtidos pelos grupos minoritários que propunham esta ideia no Chile foram totalmente negativos: a perda desnecessária e sem sentido de uma série de companheiros jovens e heroicos, mas totalmente equivocados, e a desarticulação dos grupos envolvidos.

Não obstante isso, os pequenos núcleos de quadros operários, tanto socialistas quanto comunistas, começaram a desenvolver, da forma mais lenta e penosa, um trabalho sério na clandestinidade. Estes companheiros, diferentemente dos dirigentes no exílio, nunca tentaram ocultar com palavras bonitas a terrível situação; pelo contrário, falaram honradamente da realidade de “um povo subjugado, oprimido, faminto e aterrorizado”. Os melhores elementos da classe trabalhadora, nos cárceres, na clandestinidade, nos campos de concentração, estão tentando cumprir com seu dever fundamental: tirar as conclusões corretas de sua terrível experiência. Desgraçadamente, parece que muitos dos velhos dirigentes não sabem ou não querem fazer o mesmo.

Leia todas as partes deste artigo de Alan Woods:

– Lições do Chile – Parte I

– Lições do Chile – Parte II

– Lições do Chile – Parte III (Final)

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