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Lições do Chile 1973

Por ocasião dos 35 anos do golpe militar que derrubou o governo Allende no Chile, neste 11 de Setembro publicamos um texto de fundo escrito em Janeiro de 1979.

Burguesia e latifundiários

A conquista do Chile, iniciada em 1536-37, por Diego de Almagro e, mais tarde, por Pedro de Valdivia, foi realizada com a mesma brutalidade que em outras partes do continente americano. Porém, os conquistadores não encontraram no Chile nenhum “El Dorado”. Os depósitos de ouro, muito mais escassos, não compensaram as custosas guerras contra os índios araucanos, que fizeram do Chile um território deficitário para a Coroa espanhola.

O clima do país, tanto no norte como no sul, dificultava o desenvolvimento da agricultura. Enquanto o México e o Peru atraíam os indivíduos mais aventureiros e criativos da classe dominante castelhana, o Chile não oferecia as mesmas perspectivas de enriquecimento e prestígio pessoais. Por outro lado, os araucanos resistiram heroicamente até 1880, dando mostras de uma grande inteligência e força de ânimo, modificando sua tática militar e seu modo de vida conforme mudavam as condições da luta. Sua “pacificação” só ocorreu através de uma política de extermínio sistemático. Nas guerras sanguinárias contra os índios se vê claramente o verdadeiro caráter dos proprietários de terras chilenos, um caráter forjado na conquista e na redução da população à escravidão, métodos aos quais se acostumaram durante séculos, considerando os índios como seres inferiores, como pouco menos que animais.

Esta mesma mentalidade de raça superior caracterizou a classe dominante chilena até os dias de hoje. Atrás de sua pele “civilizada” e “culta” se oculta a mentalidade do conquistador e do senhor feudal, com a ressalva de que, hoje em dia, os “fidalgos” chilenos e seus aliados burgueses não são nada mais do que meros agentes de segunda classe do imperialismo, do qual dependem voluntariamente ainda que de forma vergonhosa.

Durante séculos, a melhor terra cultivável do país, concentrada na parte central, estava dividida em enormes latifúndios privados (fazendas ou fundos) estabelecidos depois da conquista e que em alguns casos superavam os cinco mil hectares. Somente uma ínfima parte pertencia aos pequenos camponeses, que apenas podiam sobreviver delas. Segundo o censo de 1925, estas fazendas ocupavam quase 90% de toda a terra da região. No vale do rio Aconcágua, próximo a Valparaíso, 98% da terra estava nas mãos de apenas 3% dos proprietários.

O problema da terra, junto ao da emancipação do país frente ao imperialismo, sempre foi o problema central da sociedade chilena. Sempre houve escassez de terra cultivável: no Norte, por insuficiência de chuva; e, no Sul, por excesso da mesma. Só a região central oferecia boas condições para o desenvolvimento de uma agricultura próspera, semelhante à do mediterrâneo, baseada na produção de vinhos, azeitonas, frutas… Porém precisamente o maior obstáculo para este desenvolvimento tem sido a concentração de terras cultiváveis nas mãos dos grandes latifundiários.

Os grandes latifundiários sempre foram criadores de gado. A maior parte da terra foi dedicada ao cultivo da alfafa e outros tipos de forragem para o gado. Com a mão-de-obra barata, proporcionada por uma população agrícola que vivia em condições próximas à servidão feudal, os latifundiários não tinham o menor interesse em modernizar a agricultura.

Os métodos rudimentares dos grandes proprietários de terras foram o principal fator que impediu o desenvolvimento agrícola. Ainda que no sul chileno, a partir de 1850, os imigrantes alemães estabelecessem minifúndios, baseados na produção de trigo e vacas leiteiras, na maior parte do país não existia uma classe numerosa de camponeses prósperos, e sim uma clara divisão entre os grandes proprietários de terra e seus arrendatários, que viviam em condições semifeudais, com uma classe numerosa de semi-proletários rurais, os “rotos”, submetidos à exploração mais brutal e vivendo em condições subumanas.

Ao contrário de outros países, o Chile nunca conheceu uma reforma agrária digna de tal nome. A partir de 1925 e, particularmente, de 1945, houve tentativas de dividir as grandes fazendas. Mas estas tentativas, muito modestas, diga-se de passagem, não foram conseqüência de uma revolução (como no México) ou da política do governo (como na Bolívia), e sim da iniciativa dos próprios latifundiários, que se deram conta de que, em alguns casos, era mais rentável dividir suas terras e vendê-las em parcelas. A mentalidade feudal dos latifundiários chilenos não representou nenhum obstáculo sério quando chegou a hora de participar da especulação mais descarada. Os latifundiários venderam uma parte de suas terras e investiram seus lucros em negócios urbanos. Controlavam os bancos e outras instituições financeiras.

De uma forma muito mais clara do que em outros países da América Latina, no Chile, os interesses dos grandes proprietários de terra, dos banqueiros e dos capitalistas se fundem totalmente em uma oligarquia poderosa que controla toda a vida econômica do país, junto com o imperialismo. Torna-se quase impossível estabelecer uma linha clara de demarcação entre os grandes latifundiários e a burguesia chilena, que rapidamente se deram conta de sua comunhão de interesses e se uniram em um bloco mais ou menos homogêneo, contrário a mudanças radicais na estrutura da sociedade. Isto explica a ausência de uma revolução democrático-burguesa no Chile e a frustração de todas as tentativas de se realizar uma autêntica reforma agrária, como uma das tarefas históricas mais importantes de tal revolução. A concessão, no passado, de uma série de direitos democráticos foi resultado da existência de uma classe trabalhadora forte e de alguns sindicatos poderosos. As pressões da classe trabalhadora obrigaram a oligarquia a fazer uma série de concessões, o que só foi possível devido a situação relativamente privilegiada da economia chilena no período transcorrido entre as duas guerras mundiais.

Após a conquista da independência, em 1818, os melhores e mais radicalizados elementos do Exército, fortemente influenciados pelo exemplo da Revolução francesa, tentaram realizar uma série de reformas que atentavam contra os interesses da Igreja e dos grandes proprietários de terra. Porém, seus atos se chocaram com a resistência dos “pelucones”, a fração feudalista, que impuseram a constituição reacionária de 1833.

O desenvolvimento de rudimentos capitalistas provocou o confronto entre liberais e conservadores, na segunda metade do século XIX. Mas, no final desse século, fundiram-se, repartindo os benefícios, graças ao controle do governo e do Estado. Um fator importante nessa fusão foram as guerras constantes com o Peru e a Bolívia, pela posse dos recursos minerais da região norte. A guerra do Pacífico, em 1883, resolveu a questão a favor do Chile. Com a conquista do deserto de Atacama, importantes jazidas de nitratos passaram às mãos da oligarquia chilena. O Chile tomou posse das antigas províncias peruanas de Tacna e Arica, com o compromisso de realizar um referendo (que, obviamente, nunca aconteceu). Os capitalistas chilenos não viam nenhuma razão para enfrentar a classe feudal e a casta militar (a qual as vitórias bélicas haviam aberto perspectivas de enriquecimento sem precedentes) e se contentaram em compartilhar o poder com elas, que, por sua vez, não vacilaram em participar dos negócios da burguesia.

Desta forma, desde o instante de seu nascimento, a burguesia nacional chilena mostrou todos os sintomas de uma degeneração servil. Em vez de lutar conseqüentemente contra o poder dos grandes proprietários de terras, se conformaram com uma aliança servil, entregando a eles a melhor parte do poder estatal e compartilhando com eles a riqueza extraída da superexploração dos trabalhadores e camponeses, assim como os benefícios das guerras fronteiriças. Os burgueses possuíam terras e os grandes proprietários de terras possuíam ações na indústria, na mineração e no comércio: ambas as classes estavam estreitamente vinculadas através dos bancos e dos interesses financeiros.

Por todas essas razões, a burguesia chilena foi incapaz de realizar as tarefas fundamentais da revolução democrático-burguesa, como tinham feito as burguesias inglesa e francesa nos séculos XVII e XVIII respectivamente.

A aliança entre a burguesia e os grandes proprietários de terras viu-se fortalecida depois da vitória militar de 1883 e da derrota final dos índios araucanos na mesma década. Esta aliança deu-lhes resultados muito satisfatórios: expansão das fronteiras nacionais e enorme aumento da riqueza nacional, derivada dos nitratos. O “compromisso histórico” entre as diferentes frações da classe dominante encontrou sua expressão no terreno da política por um longo período de parlamentarismo. O boom econômico mundial de 1891-1913 deu a classe dominante chilena certa margem de manobra. A neutralidade do Chile, na Primeira Guerra Mundial, também produziu uma série de benefícios econômicos. A fusão dos interesses dos banqueiros, dos grandes proprietários de terras e dos grandes industriais era total. Não existiam diferenças fundamentais entre os partidos políticos representados no Parlamento.

Os números seguintes demonstram o segredo da “democracia” chilena daquela época:

Produção de Nitratos
Ano de 1892 ………………………….. 300 mil toneladas
Ano de 1896 ………………………….. 1 milhão de toneladas
De 1901 a 1910 (média anual) …… 1 milhão, 720 mil toneladas
De 1911 a 1920 (média anual) …… 2 milhões e meio de toneladas

O aumento do comércio mundial e a demanda de nitratos chilenos fizeram subir o preço deste produto, que aumentou cerca de 75% entre 1910 e 1918. Algo parecido ocorreu com o cobre, que pouco a pouco foi substituindo os nitratos como principal exportação do país. A produção anual de cobre passou de 33.000 toneladas/ano de média, entre 1901 e 1910, a 68.000 toneladas/ano, entre 1911 e 1920. O valor total do comércio exterior passou de 140 milhões de pesos, em 1896, a 580 milhões em 1906.

Mas da mesma forma que a burguesia chilena foi totalmente incapaz de realizar uma reforma agrária, no terreno da indústria e da mineração se entregou da forma mais servil ao imperialismo estrangeiro, apesar dessa “idade de ouro” do capitalismo chileno. Já nos anos da Primeira Guerra Mundial, 50% dos investimentos na mineração eram estrangeiros. Rapidamente, o imperialismo, sobretudo o norte-americano, se apossou da indústria do cobre. Em 1904, a mina El Teniente, que produzia a terça parte do total nacional, passou às mãos de uma empresa norte-americana. Chuquicamata, que produzia aproximadamente a metade do total nacional, foi comprada por outra empresa norte-americana em 1912. Em 1927, Anaconda comprou Potrerillos, que representava 1/6 da produção nacional de cobre. Durante mais de meio século, companhias como Anaconda e Kennecott Copper levaram a cabo uma autêntica sangria dos recursos minerais do país, acumulando imensas fortunas às custas da classe trabalhadora chilena.

Controle imperialista

Ocorreu o mesmo em outros setores, como o do ferro, abundante e de qualidade. A Bethlehem Steel tomou o controle da El Tojo em 1913 e a explorou até esgotá-la. A maior parte do ferro chileno viajou para os EUA.

Neste aspecto, a burguesia chilena também deu demonstrações suficientes de sua total incapacidade para realizar outra das tarefas fundamentais da revolução democrático-burguesa: a emancipação do país do domínio imperialista. Antes da Primeira Guerra Mundial, o Chile era um país semi-satélite do imperialismo britânico; depois da Segunda, a burguesia mudou de jugo e passou a depender do imperialismo norte-americano. Esta gente, que hoje em dia enche a boca para falar de “pátria e nação”, é e sempre foi totalmente incapaz de emancipar o Chile de sua dependência humilhante do imperialismo. Desde o primeiro momento estavam felizes com o papel de administradores locais dos interesses imperialistas, os capachos das grandes multinacionais. Sob domínio da burguesia, toda a enorme riqueza do Chile foi saqueada pelos imperialistas ou desperdiçada pela oligarquia.

Sequer foram capazes de modernizar o país e de desenvolver uma infra-estrutura minimamente decente, como demonstra a condição deplorável das estradas. As poucas estradas boas que existem no Norte foram construídas pelas empresas mineradoras estrangeiras. A maior parte das exportações chilenas é transportada por navios estrangeiros.

Tudo isso demonstra a necessidade de se implementar no Chile toda uma série de tarefas históricas que na Europa Ocidental já se resolveram há muito tempo, na época da Revolução democrático-burguesa. Mas toda a história do Chile demonstra contundentemente a total incapacidade da burguesia “nacional” para realizá-las. Ainda que, mesmo antes da Primeira Guerra Mundial, o capitalismo tenha se convertido na força decisiva do país, desde seu nascimento está vinculado de forma decisiva, de um lado, aos interesses imperialistas e, de outro, aos interesses dos grandes proprietários de terras, através dos bancos e do comércio. Esta é precisamente a razão pela qual a burguesia “nacional” nunca foi capaz de realizar as tarefas históricas da revolução democrático-burguesa e jamais será capaz de fazê-lo.

Como se podia decidir lutar seriamente contra o controle imperialista do país, quando os interesses vitais da burguesia chilena dependiam dos investimentos e do comércio estrangeiros? Como se podia estabelecer uma autêntica reforma agrária, quando uma parte importante do seu capital provinha dos latifundiários, com os quais os burgueses estavam vinculados por milhares de laços econômicos, políticos, familiares, educacionais etc.?

Se a burguesia era incapaz de realizar essas tarefas históricas, que outra classe social poderia fazê-lo? O campesinato? As massas camponesas dispersas, analfabetas e submetidas durante séculos a opressão mais brutal, só eram capazes de realizar, periodicamente, atos de rebeldia desesperada, sem nenhuma possibilidade de êxito, a não ser que encontrassem uma direção consciente em uma outra classe social, baseada nos centros nevrálgicos do país, as cidades. O campesinato, a classe mais heterogênea da sociedade, sempre foi a classe menos capacitada para desempenhar um papel político independente. Ou atua sob a direção da burguesia ou sob a direção do proletariado. De fato, a luta pela hegemonia política do campesinato é uma questão fundamental para a revolução socialista no Chile. Mas o primeiro passo neste sentido é reconhecer a impossibilidade de que esta classe social possa desempenhar um papel independente.

A classe média? Os representantes políticos da classe média não tinham nada a ver com os jacobinos franceses, os pequeno-burgueses revolucionários do século XVIII que formaram a ponta de lança da Revolução de 1789. O longo período de boom econômico de 1891-1918 permitiu à oligarquia chilena uma ampla margem de manobra para comprar a lealdade da classe média, oferecendo-lhes carreiras burocráticas na Administração. Assim surgiu toda uma nova casta de políticos profissionais. Os políticos “liberais” da classe média se vendiam à oligarquia por pouco dinheiro. A classe média chilena, desde então, considerou a política como um negócio muito rentável; e isto é mais verdade ainda para os chamados políticos “progressistas” da burguesia: os “liberais”, os “radicais” e os “democrata-cristãos”, que participavam intensamente no espetáculo repugnante de corrupção e prostituição, enquanto as massas trabalhadoras e camponesas permaneciam como meros espectadores passivos do jogo parlamentar. Os representantes políticos da classe média estavam de mãos e pés atados ao carro da oligarquia que lhes garantiam postos na administração. Para eles o sistema funcionava muito bem. Desde o princípio, os “liberais” chilenos foram a ala esquerda da oligarquia.

A ascensão do movimento dos trabalhadores e a Revolução Russa

Por outro lado, o auge da economia chilena deu suporte ao desenvolvimento da indústria e da classe trabalhadora, motivando a emigração de massas camponesas pobres para as cidades. Em 1907, 43,2% da população viviam nos centros urbanos; em 1920, subiu para 46,4%. 14% da população do país viviam na capital, Santiago. Esse processo acelerado de proletarização conduziu às primeiras tentativas de organizar a classe trabalhadora, começando pelo terreno sindical.

Já no princípio do século, Luis Emilio Recabarren lidera o processo de organização nas minas de nitratos. Mais tarde, em 1910, forma-se a Federação Operária Chilena (FOCh). Dois anos depois, Recabarren tenta dar a primeira expressão política ao movimento trabalhador chileno, com a formação do Partido Obrero Socialista (POS) em Iquique.

Contudo, foram os acontecimentos que se seguiram à Primeira Guerra Mundial, sobre tudo a Revolução Russa, que provocaram uma enorme radicalização da jovem classe trabalhadora chilena. A recessão mundial, que começou em 1918, provocou uma queda dos preços do cobre e dos nitratos. Todas as contradições sociais ocultas no período anterior vieram à tona. Entre 1913 e 1923, os salários reais dos trabalhadores diminuíram 10%, devido à inflação. A importância deste período de radicalização ficou demonstrada pela onda de greves que ocorreram entre 1911 e 1920: contabilizou-se 293.

Mas o episódio fundamental nesse processo de tomada de consciência dos trabalhadores chilenos foi a Revolução de Outubro. Em um ambiente de radicalização generalizada, o POS se declara a favor da Revolução Russa e, em 1922, aceita as 21 condições para ingressar na Internacional Comunista, mudando seu nome para Partido Comunista do Chile (PCCh).

Nos anos seguintes, a sociedade chilena viveu uma crise permanente em todos os níveis, o que dava enormes possibilidades para o triunfo da revolução socialista. As ilusões das massas nos políticos “progressistas” da burguesia se viram frustradas após as eleições de 1918. O governo da Aliança Liberal de Alessandri Palma demonstrou sua total incapacidade para solucionar sequer um dos inúmeros e imensos problemas da classe trabalhadora.

Os trabalhadores aprenderam, por meio de uma experiência amarga, a desconfiar totalmente dos políticos “liberais” da burguesia. O poder econômico permanecia nas mãos dos monopólios e dos latifundiários. A crise econômica ia de mal a pior. Com o crescente controle imperialista da economia, ficou claro para todos que a burguesia chilena não era mais que a sucursal local dos capitalistas estrangeiros. A instabilidade política se viu refletida numa série de pronunciamentos e na mudança da Constituição em 1925.

A recessão mundial de 1929 golpeou duramente o Chile, obrigando-o a abandonar o padrão ouro e a repudiar a dívida externa. Nesse ano, a produção mineira só alcançou 52% da média do período 1927-1929. O desemprego aumentou consideravelmente. Dos 91 mil mineradores, que existiam em 1929, somente restaram 31 mil, no final de 1931.

O descontentamento, generalizado em todos os níveis da sociedade, encontrou sua expressão mais clara em uma onda de agitação entre os estudantes universitários. Em geral, os estudantes e os intelectuais são o termômetro mais sensível das contradições e tensões no âmago da sociedade. Lênin explicava que as condições objetivas necessárias para se fazer a revolução socialista são quatro: em primeiro lugar, que a classe dominante perca a confiança em si mesma e não possa seguir exercendo seu domínio com os mesmos métodos de antes; segundo, que as classes médias, a reserva social da reação, estejam vacilantes ou, pelo menos, neutras; terceiro, que a classe trabalhadora esteja disposta a lutar pela transformação radical e decisiva da sociedade; e quarto, que exista um partido revolucionário, com uma direção revolucionária capaz de dirigir as massas até a tomada do poder.

A crise da classe dominante chilena se manifestou com a crise governamental permanente que caracterizou a década de 20. A efervescência entre os estudantes refletia o descontentamento generalizado no seio da classe média. Aos protestos dos estudantes se somaram os dos médicos e de outros setores profissionais. Houve uma série de manifestações violentas que levaram ao colapso a ditadura de Ibáñez, que fugiu do país. Se houvesse um autêntico partido revolucionário de massas no Chile, a situação pré-revolucionária poderia ter se transformado em uma situação revolucionária, com a tomada do poder por parte da classe trabalhadora.

A tragédia da classe trabalhadora chilena foi que a consolidação do Partido Comunista coincidiu com a degeneração stalinista da URSS. O mesmo processo se deu em todos os partidos da Internacional Comunista, que seguiam cegamente a linha política determinada pelos interesses da burocracia russa. A partir de 1928, a Internacional criada sob a política leninista do internacionalismo proletário, aprovou oficialmente a teoria stalinista do “socialismo em um só país”, o que converteu os partidos comunistas em meros instrumentos da política exterior da burocracia russa. Este foi o fator decisivo da degeneração nacional-reformista de todos os partidos da Internacional Comunista.

Ao mesmo tempo, seguindo as instruções da camarilha stalinista de Moscou, os partidos da Internacional aprovaram a loucura ultra-esquerdista do chamado “terceiro período”, segundo a qual todas as demais organizações da classe trabalhadora eram “socialfacistas”. Esta política foi a causa do terrível fracasso da classe trabalhadora alemã em 1933. Nos demais países, os partidos comunistas perderam sua base entre as massas como conseqüência desta loucura, que ia diretamente contra a política de frente única preconizada por Lênin. Também no Chile os resultados da política stalinista foram funestos. O PCCh se viu reduzido a um grupelho sectário, isolado das massas no momento decisivo e totalmente incapaz de dar uma direção séria ao movimento revolucionário.

Como conseqüência da ausência de um partido revolucionário de massas, a oportunidade se perdeu. O breve governo “socialista” de Carlos Dávila foi derrotado pelo golpe de Estado de Arturo Alessandri em setembro de 1932. É interessante ressaltar que os radicais, o partido “liberal” da burguesia chilena, apoiaram Alessandri. De fato, nos anos trinta, o Partido Radical foi controlado por uma camarilha de latifundiários e grandes capitalistas.

O governo Dávila havia proclamado a “República Socialista” no Chile, mas por não contar com o apoio ativo das massas ficou suspenso no ar. Às vezes um “pronunciamento” é suficiente para realizar uma mudança radical, sem romper com a ordem burguesa, porém a revolução socialista tem que se basear no movimento consciente da classe trabalhadora. Neste contexto, Adonis Sepúlveda comenta em seu artigo sobre a história do PSCh:

“O movimento não se sustentava nas massas, não se entregaram armas ao povo para defender o governo, não havia um partido que liderasse a resolução de luta dos trabalhadores”. (Socialismo chileno, maio 1976, n. 1).

A experiência destes acontecimentos convenceu os melhores lutadores da classe trabalhadora chilena da necessidade urgente de um novo partido, de um partido que realmente defendesse os interesses da classe trabalhadora, que não se baseasse nem no reformismo social-democrata da Segunda Internacional, nem na perversão stalinista da Terceira, e sim que devia se abrir às autênticas idéias do marxismo-leninismo, do bolchevismo e da Revolução de Outubro. A esta iniciativa se somaram também muitos quadros do velho POS, descontentes com a linha stalinista do PCCh.

Aqui seria conveniente resumir alguns dos pontos mais importantes da velha Declaração de Princípios do PSCh.

Métodos de interpretação:
O Partido aceita como método de interpretação da realidade o marxismo, enriquecido e retificado por todos os aportes científicos do constante devir social.

Lutas de Classes:
A atual organização capitalista divide a sociedade humana em duas classes cada dia mais definidas. Uma classe que se apropriou dos meios de produção e que os explora em seu benefício, e outra classe que trabalha, que produz e que não tem outro meio de vida que não seja seu salário. A necessidade da classe trabalhadora de conquistar seu bem-estar econômico e o afã da classe possuidora de conservar seus privilégios determina a luta entre estas classes.

O Estado:
A classe capitalista está representada pelo Estado atual, que é um organismo de opressão de uma classe sobre a outra. Eliminadas as classes, deve desaparecer o caráter opressor do Estado, limitando-se a guiar, harmonizar e proteger as atividades da sociedade.

Transformação do regime:
O regime de produção capitalista, baseado na propriedade privada da terra, dos instrumentos de produção, do câmbio, do crédito e do transporte, deve necessariamente ser substituído pelo regime socialista no qual a dita propriedade privada se transforme em coletiva.

Ditadura dos trabalhadores:
Durante o processo de transformação total do sistema é necessária uma ditadura dos trabalhadores organizados.
A transformação evolutiva por meio do sistema democrático não é possível porque a classe dominante se organizou em corpos civis armados e instituiu sua própria ditadura para manter os trabalhadores na miséria e na ignorância e impedir sua emancipação.

Internacionalismo e anti-imperialismo econômico:
A doutrina socialista é de caráter internacional e exige uma ação solidária e coordenada dos trabalhadores do mundo. Para realizar este postulado, o Partido Socialista proporá a unidade econômica e política dos povos da América Latina para se chegar à Federação das Repúblicas Socialistas do Continente e à criação de uma política anti-imperialista.
(Socialismo chileno, pp.15-16).

Esses princípios básicos se mantiveram inscritos na carne de cada militante do PSCh durante os primeiros 25 anos de sua existência. A partir da vitória de Hitler na Alemanha, a política exterior da burocracia russa deu um novo giro. Em um primeiro momento, Stalin tentou chegar a um acordo com Berlim, mas ao fracassar lançou uma nova política, baseada na idéia de uma aliança com “os países democráticos” (fundamentalmente com o imperialismo francês e inglês) contra a Alemanha. Da noite para o dia, os partidos “comunistas” receberam novas ordens: acabar com a política anterior do “terceiro período” e entrar em pactos e alianças não só com partidos social-democratas (que até ontem eram qualificados de “socialfacistas”), mas também com partidos “progressistas” da burguesia, para afastar o perigo do fascismo.

A Frente Popular

Dessa maneira, os dirigentes dos partidos “comunistas” se converteram nos aliados mais fervorosos da burguesia “liberal”. Lênin havia lutado toda a sua vida contra esta política de colaboração com os chamados elementos “progressistas” da burguesia, negando-se, após a Revolução de Fevereiro na Rússia, a entrar no governo provisório de coalizão com os liberais burgueses. Os mencheviques e os social-revolucionários, naquele momento, justificaram sua entrada no governo provisório – a primeira formação de uma frente popular na história –, alegando que, na Rússia, um país atrasado onde a classe trabalhadora era uma pequena minoria da população, as tarefas imediatas eram as tarefas da revolução democrático-burguesa e que, portanto, os socialistas deviam aliar-se com os partidos burgueses “progressistas” para lutar contra os restos do feudalismo e da contra-revolução fascista. A resposta de Lênin foi taxativa: não confiar na burguesia, nenhum apoio ao governo provisório, desconfiar sobretudo dos elementos burgueses mais “radicais”, como Kerensky, nenhuma aproximação com os demais partidos (se referia principalmente aos mencheviques). Em outras palavras, confiar exclusivamente na força da classe trabalhadora organizada nos conselhos de trabalhadores (sovietes), como único poder capaz de derrotar a reação, conquistar as liberdades democráticas, realizar todas as tarefas da revolução democrático-burguesa em aliança com as massas de camponeses pobres mediante a tomada de poder e, em seguida, passar, de uma forma ininterrupta, para a revolução socialista, a expropriação da burguesia e o início da transformação socialista da sociedade. Lênin e os bolcheviques compreendiam que a construção do socialismo não era possível em um só país, e muito menos em um país atrasado como a Rússia de então, e por isso reconheceram a necessidade imperativa da extensão da Revolução a outros países, sobretudo aos países desenvolvidos da Europa. Por isso foi criada a III Internacional, a Internacional Comunista, que proclamou a necessidade da Revolução mundial, dos Estados Unidos Socialistas da Europa e, por último, da Federação Socialista Mundial.

Sob Lênin e Trotsky, a Internacional Comunista aglutinou os elementos mais revolucionários e conscientes da classe trabalhadora do mundo. Aprendendo com a experiência funesta da II Internacional (que, nas palavras de Lênin, não era uma Internacional, e sim “uma agência de correios”, por causa da fraca vinculação entre os diferentes partidos nacionais), os bolcheviques se voltaram para o conceito de Internacional que tinham Marx e Engels nos tempos da Associação Internacional dos Trabalhadores: o partido mundial da revolução socialista, com uma política, uma estratégia e uma direção comuns. Esta idéia não supunha em absoluto uma concepção antidemocrática, nem tampouco a hegemonia de um partido sobre os demais. Ao contrário. Nos primeiros quatro congressos da terceira Internacional, os debates internos demonstraram a existência de uma ampla margem de democracia interna, de liberdade de discussão, onde inclusive o menor partido podia expressar suas diferenças políticas com o maior partido, o partido bolchevique. Havia uma ampla autonomia para as seções nacionais, dentro da política geral estabelecida pelos congressos da Internacional, que até a morte de Lênin aconteciam anualmente, apesar de todas as dificuldades.

Com a degeneração burocrática da Revolução Russa, que se produziu devido ao isolamento de um Estado proletário em um país atrasado, esta situação mudou totalmente. O processo de stalinização do Partido Comunista russo foi seguido por um processo paralelo na Internacional. Todos os militantes críticos foram eliminados burocraticamente, coisa que nunca se deu nos tempos de Lênin. Os dirigentes da Internacional se converteram em funcionários stalinistas, cujo único fim era aplicar as ordens de Moscou. Antes, estes elementos haviam implementado a política ultra-esquerdista do “terceiro período”. Agora, sem nenhum tipo de problema, deram um giro de 180º, na direção da política de “frente popular”, uma política que Trotsky caracterizou corretamente como “uma caricatura maliciosa do menchevismo” e “uma conspiração fura-greve”.

Contudo, os stalinistas chilenos não podiam realizar sua política de colaboração entre as classes sem a participação dos socialistas. Os trabalhadores chilenos haviam aprendido a desconfiar totalmente dos políticos “liberais” da burguesia. A criação do PSCh era a expressão do desejo instintivo da classe trabalhadora da necessidade de uma política de independência de classes. A política declarada dos socialistas era a de frente única de trabalhadores, que propunha a candidatura de Marmaduke Grove, destacado líder do movimento dos trabalhadores detido pelo governo e eleito senador por Santiago com o lema “da cadeia ao Senado”.

O espírito revolucionário do movimento de então foi expresso nas famosas palavras de Grove: “Quando chegarmos ao poder, faltar-nos-ão postes para pendurar a oligarquia”. Estas palavras refletiam o clima entre os trabalhadores e demais setores oprimidos da sociedade chilena, que estavam buscando o caminho da revolução socialista, não o da colaboração com a burguesia.

A radicalização das massas e a crise do capitalismo empurraram a oligarquia á busca “da solução final”, como na Alemanha, Itália ou Espanha, organizando e armando os setores fascistas. O governo bonapartista de Alessandri não tinha resolvido nenhum dos problemas da sociedade chilena. Porém o movimento fascista se deparou com a resistência heróica da classe trabalhadora: as milícias de trabalhadores do Partido e a juventude socialista, “os camisas de aço”, que lutaram contra os fascistas em todo o Chile. Assustado, o próprio Alessandri se viu obrigado a atuar contra os fascistas quando estes tentaram um golpe.

O fracasso do ataque fascista, a crise do governo Alessandri e a crescente onda de radicalização das massas criaram de novo condições muito favoráveis para uma ofensiva da classe trabalhadora. Mas os stalinistas chilenos assumiram um papel totalmente nefasto. Infelizmente, os dirigentes do PSCh foram completamente incapazes de oferecer uma alternativa. Os stalinistas tomaram a iniciativa, pressionando fortemente a direção do PSCh para que aceitasse uma frente popular com o Partido Radical. Esta idéia era contrária a todos os princípios do partido e se chocou com a oposição decidida da base dos trabalhadores, que compreendia instintivamente o caráter traiçoeiro dos liberais burgueses e queriam um governo dos trabalhadores. Nas palavras de Adonis Sepúlveda:

“Quando as mudanças na estratégia do movimento dos trabalhadores colocaram na mesa de discussão a formação da Frente Popular, o Partido Socialista resistiu a essa aliança que entrega a hegemonia do movimento dos trabalhadores a determinados setores da burguesia. Tem a essa altura uma profunda raiz popular e um líder carismático. Há um impulso imenso na sua militância. Nenhum socialista aceita que se entregue a liderança a outra força”. (Socialismo chileno, p.20, ênfase nossa).

Infelizmente, a falta de experiência dos jovens quadros e as hesitações da direção do PSCh, que não souberam resistir às insistentes pressões dos stalinistas conduziram ao erro fatal de entrar na Frente Popular, apesar da oposição da base e em aberta contradição com os princípios e a política do partido. No congresso extraordinário convocado em 1938, custou ao secretário geral, Óscar Schnake, cinco horas para que os delegados aceitassem a retirada da candidatura de M. Grove, que vinha sendo proposta desde 1936.

Decisão desastrosa

Esta decisão, tragicamente errônea, teve conseqüências desastrosas para o socialismo chileno e para toda a classe trabalhadora. Da entrada dos socialistas no governo da Frente Popular, que ganhou as eleições de 1938, Sepúlveda tira as seguintes conclusões:

“O jovem partido não resiste à colaboração de classes. Seus setores menos maduros e mais oportunistas se ”mesclam” com o aparato do Estado e esquecem dos objetivos que motivaram sua instalação nele. Afloram as debilidades e o reformismo de alguns dirigentes, que permaneceram ocultos nas duras lutas dos primeiros anos. Os de maior formação marxista e forte consciência de classe combatem com firmeza a onda reformista que invade o Partido. A juventude, combativa e revolucionária, está à frente da luta interna pela recuperação doutrinária. A base reage com veemência à corrupção e ao compromisso com o status quo que se inicia nas altas esferas burocráticas. O inconformismo não é de grupos radicalizados, e sim de antigos contingentes de trabalhadores. A expulsão do Comitê Central da Juventude é a gota que transborda o copo: ocorre o mais grave rompimento dos 43 anos de vida do socialismo”. (Socialismo chileno, pp. 20-21).

Apesar de todos os acordos do partido, a liderança da coalizão governamental passou para as mãos dos políticos burgueses do Partido Radical. Sob pressão das massas, a Frente Popular fez certas reformas, mas logo optou por uma política de contra-reformas que provocou confrontos abertos com o movimento dos trabalhadores. Um documento oficial do PSCH, publicado em abril de 1978 para comemorar o 45º aniversário de sua fundação, recorda a resposta dos trabalhadores às medidas contra eles tomadas pelo governo:

“A classe trabalhadora de Santiago respondeu ao decreto original com uma vigorosa mobilização de massas, tragicamente reprimida pela força pública. Ao massacre seguiu-se uma greve geral, a renúncia do gabinete e, como primeiro ato de uma aventura descabida entre a direção do PSCH e certos setores das forças armadas, selou-se uma coalizão bastarda carente de princípios, de programa e de base popular. No congresso de 1946 todos os dirigentes foram drasticamente substituídos” (45º aniversário do PSCH, pp. 4-5).

Desde o primeiro momento, a participação dos dirigentes socialistas em uma coalizão com a burguesia tinha sido uma aventura sem princípios, que teve conseqüências catastróficas para o partido. Começa uma série de crises internas e rompimentos. O partido só se salvou graças à Juventude Socialista e aos marxistas, que lutaram contra a política colaboracionista da direção e a favor de uma política revolucionária, de independência de classes. Nas eleições presidenciais de 1946, os stalinistas chilenos voltam a apoiar uma candidatura burguesa e entram no governo de Gabriel González com os liberais e radicais. Ao final de dois anos recebem sua recompensa: expulsão do governo e ilegalidade até 1958.

Uma vez mais, o governo González demonstra a todos o caráter puramente reacionário da burguesia “liberal” chilena. Este governo “radical”, “de esquerda”, transforma-se no instrumento mais servil nas mãos do imperialismo norte-americano e da oligarquia chilena. Em uma conferência sobre seu programa, realizada em 1947, os socialistas chilenos destacaram “a falta de independência demonstrada pela burguesia para enfrentar o imperialismo e as oligarquias mestiças” e aprovaram novamente a política de Frente de Trabalhadores contra a de colaboração com a burguesia liberal. É interessante citar algumas linhas do programa aprovado nessa conferência, que compilam a experiência do movimento dos trabalhadores chilenos nas décadas anteriores e tiram uma série de conclusões muito importantes:

Revolução socialista:

No momento atual, cabe aos partidos socialistas e afins da América Latina implementar em nossos países semicoloniais as realizações econômicas e as mudanças jurídicas que em outras partes impulsionaram e dirigiram a burguesia. As condições anormais e contraditórias com as quais nos deparamos, determinadas pelo atraso de nossa evolução sócio-econômica em meio a uma crise que parece definitiva do capitalismo, exigem uma aceleração do processo da vida coletiva; temos que encurtar as etapas a partir de esforços nacionais e solidários para o aproveitamento planejado do trabalho, da técnica e do capital que temos a nossa disposição.

O processo material, nas nações mais favorecidas, resultou do jogo espontâneo de forças vitais e sociais sob uma tensão criadora. Entre nós, terá que ser o resultado da organização da atividade coletiva, feita com critério técnico e dirigida com um propósito social. A virada dos acontecimentos mundiais e a urgência dos problemas internos não nos dão oportunidade para esperar. Por imperativo inelutável das circunstâncias históricas, as grandes transformações econômicas da revolução democrático-burguesa (reforma agrária, industrialização, soberania nacional) serão realizadas em nossos países latino-americanos através da Revolução socialista
(ênfase nossa).

Independência de classe

A experiência de sucessivos governos burgueses dava razão a estas teses. Depois dos anos de vacas gordas durante a Segunda Guerra Mundial e pouco depois, o preço do cobre começou a cair novamente, provocando uma crise na economia nacional. O nível de emprego na indústria chilena, em 1949, ficou abaixo do nível de 1947. A inflação seguiu aumentando e os capitalistas chilenos fizeram fortunas especulando com a divisa nacional. 75% da terra cultivável permaneciam nas mãos de 5% da população e o capital americano aumentou sua influência na indústria nacional.

Enquanto isso, é obtida a reunificação do movimento sindical, dividido desde 1946, com a criação da Central Única dos Trabalhadores (CUT) em 1953, que, em sua declaração de princípios, proclama como meta principal a organização de todos os trabalhadores do campo e da cidade “para lutar contra a exploração do homem pelo homem, até chegar ao socialismo completo”.

Nos anos 50, os socialistas chilenos chegam a seguinte conclusão, sobre a base de toda sua experiência anterior:

“Esta situação ocorre em paralelo às possibilidades de colaboração com governos que não representam os trabalhadores, isto caracteriza a trajetória histórica do socialismo, até que, enfrentando seu pobre porvir ideológico, decide buscar em seus princípios uma política que lhe trace uma perspectiva de independência ideológica, de classe, e que fundamentalmente represente os trabalhadores. É assim que aparece, em Agosto de 1956, a chamada tese da Frente dos Trabalhadores, cuja fundamental e primeira lição é que a burguesia não é em nossos países uma classe revolucionária. O são, em contrapartida, os trabalhadores industriais e mineiros, os camponeses, a pequena burguesia intelectual, os artesãos e operários independentes, todos os setores da população cujos interesses se chocam com a ordem estabelecida. E neste conjunto cada vez mais a classe trabalhadora assume um papel determinante. Por sua organização, sua experiência sindical e política, sua consciência de classe, é o núcleo mais resoluto da luta social”. (45º aniversário do PSCH, p.9, ênfase nossa).

O mesmo documento afirma:

“Muitos detalhes objetivos estão por se alcançar e devem constituir, portanto, metas vitais para o Chile, mas negamos que nossa incipiente e anêmica burguesia tenha independência e capacidade para conquistá-los. É aqui uma classe tributária do imperialismo, profundamente ligada aos latifundiários, usufruindo ilegitimamente de privilégios econômicos que já carecem de toda justificação. Concluímos, então, que unicamente as classes exploradas, os trabalhadores manuais e intelectuais, podem assumir essa missão em vias de construir uma sociedade nova, sustentada por uma estrutura produtiva, moderna e progressista”.

Ao mesmo tempo se explica que “a tarefa de nossa geração não consiste em realizar a última etapa das transformações democrático-burguesas, e sim em dar o primeiro passo na revolução socialista”. Na realidade, as tarefas fundamentais da revolução democrático-burguesa no Chile só podem ser realizadas mediante a tomada do poder pela classe trabalhadora, à frente das massas de camponeses pobres e demais setores oprimidos da sociedade. Mas um governo de trabalhadores no Chile não poderia se limitar às tarefas democrático-burguesas, dado que o mesmo pressupõe um ataque contra o sistema capitalista e conduziria de forma ininterrupta à transformação socialista da sociedade.

Nas eleições presidenciais de 1958, Salvador Allende, candidato comum do PSCH e do PCCH, sob a sigla FRAP (Frente de Ação Popular), obteve 356.000 votos, contra apenas 30.000 votos do candidato burguês, Alessandri. O governo de direita implementou um programa de austeridade, que pesava sobre os ombros da classe trabalhadora. A resposta foi uma onda de greves contra a repressão governamental.

Infelizmente, na FRAP, vê-se novamente a tendência dos dirigentes socialistas a vacilar diante das pressões do PCCH. No programa comum nota-se uma mudança fundamental com respeito ao programa do Partido Socialista. Como está no documento 45º aniversário do PSCH:

“Novamente é difícil identificar os princípios do socialismo implementados [aplicados] na trajetória da FRAP, incluídos nela o que já é uma nebulosa de princípios e na qual é impossível reconhecer os do partido (…) 20 anos mais tarde temos uma política correta nacional e internacional, uma identificação social adequada: a Frente dos Trabalhadores, que é absolutamente coerente com nossos princípios, mas nos desgastamos no caminho comum; no qual cada aliança foi nos abrandando e nos fazendo vacilar e, pela terceira vez, voltamos a decidir erroneamente, voltamos a pactuar esquecendo-nos da classe trabalhadora, da luta de classes, de que a burguesia não é revolucionária e, ainda que esteja escrito em nossos princípios, em nossos informes aos Congressos, nas polêmicas interpartidárias, voltamos a estabelecer uma santa aliança que contradiz os postulados básicos de nosso partido e da Frente dos Trabalhadores. Nasce assim uma nova coalizão, a possibilidade da unidade popular”.

Outra vez mais, os dirigentes do partido “comunista” insistem em suas teses do caráter democrático-burguês da Revolução chilena e na necessidade de buscar pactos e alianças com os chamados partidos burgueses “progressistas”.

E, de novo, os dirigentes socialistas não souberam resistir às pressões. Ainda que evidentemente suas intenções fossem boas (manter como era a unidade das principais forças da classe trabalhadora chilena), os dirigentes do PSCH pagaram um preço alto demais, cujos resultados só ficaram evidentes com o golpe de Estado de 11 de setembro de 1973.

O que está claro é que para dirigir a classe trabalhadora até a tomada de poder não é suficiente ter princípios ideológicos mais ou menos corretos. Certamente, sem idéias claras, sem um programa revolucionário, sem princípios marxistas e sem perspectivas corretas, nunca será possível construir o partido revolucionário nem fazer a revolução socialista. Porém também faz falta uma direção revolucionária, uma direção bolchevique, que não vacile nos momentos decisivos, que não perca de vista o objetivo principal da Revolução e que, sob a aparência de “acordos táticos” ou da “unidade”, não faça concessões em questões de princípios. Lênin, neste aspecto, sempre se mostrava totalmente intransigente. Mais de uma vez acusaram-no de “sectarismo” e “dogmatismo” por se negar a entrar em acordo de princípios, e não só com os burgueses (isto ocorreu certamente), como também com outros partidos de trabalhadores. O exemplo mais claro é a atitude que adotou em 1917 em relação aos mencheviques, que precisamente o acusaram de “sectarismo” e de “romper a unidade do campo revolucionário”. Tais acusações nunca devem assustar uma direção revolucionária. Lênin compreendia perfeitamente a necessidade de pactos e acordos temporários com outros partidos de trabalhadores. Mas a palavra de ordem de Lênin era sempre: “marchar separados, golpear juntos”. Nunca confundir os diferentes programas e as diferentes bandeiras dos partidos de trabalhadores quando estes se põem de acordo sobre alguma ação concreta. A tragédia do socialismo chileno, durante toda a sua historia, tem sido a de que, depois de tirar uma série de conclusões corretas da experiência de luta, seus dirigentes sempre vacilaram em questões fundamentais diante das exigências dos stalinistas, que em cada ocasião conseguiram dominar a frente comum que unia ambos os partidos, impondo suas idéias, seus programas e seus critérios. E esta receita conduziu sempre ao fracasso mais absoluto da classe trabalhadora.

A política reacionária do governo Alessandri levou a uma onda de radicalização no país, refletida no movimento grevista. O ritmo anual de crescimento econômico oscilava em torno de 4,5%. Enquanto que a inflação aumentou significativamente, o salário real do trabalhador permanecia praticamente no mesmo nível de 1945. 60% da população recebiam somente 20% da renda nacional. A situação no campo era tão ruim que, nas províncias agrícolas mais ricas, 7% dos proprietários de terras possuíam mais de 90% da terra. Em geral, em torno de 86% de toda a terra cultivável do país estava concentrada em aproximadamente 10% das entidades agrícolas. Apesar de todas as promessas de reforma agrária, as condições dos camponeses pobres, dos inquilinos e “pequenos arrendatários”, continuavam exatamente como antes: miséria, fome, analfabetismo, enfermidades endêmicas e alcoolismo.

O Governo Frei

O controle asfixiante da agricultura pelos latifundiários faz com que o Chile tivesse de importar produtos agrícolas para alimentar sua população, apesar de ter mais terras cultiváveis per capita que muitos países europeus. A razão disso não é difícil de entender. Os latifundiários empregam mão-de-obra barata em vez de maquinaria e não se preocupam minimamente em modernizar suas explorações. Dessa forma, os salários de fome do campesinato chileno são também a causa principal do baixo nível de produtividade da agricultura chilena. A urgente necessidade de uma profunda reforma agrária no Chile tem sido evidente durante décadas. Mas nenhum dos governos “progressistas” da burguesia foi capaz de enfrentar o problema seriamente, pelas razões anteriormente apresentadas.

Ainda que, nas décadas anteriores, o processo de urbanização se tenha intensificado (52% de população urbana, em 1940; 66%, em 1960), às vésperas das eleições presidenciais de 1964 o campesinato continuava representando em torno de 30% da população ativa.

A onda de greves e o alto nível de consciência da classe trabalhadora chilena serviram de advertência para a burguesia do que poderia acontecer naquelas eleições. O governo Alessandri estava totalmente desprestigiado. A oligarquia necessitava de uma alternativa política capaz de deter o avanço dos partidos da classe trabalhadora. Essa alternativa foi a Democracia Cristã (DC).

A Democracia Cristã

Como um exemplo muito transparente da debilidade da burguesia chilena e da crescente radicalização da sociedade, tanto no campo quanto na cidade, as eleições de 1964 reduziram-se a uma luta entre os democrata-cristãos, representados por Frei, e a FRAP, representado por Allende. Os dois lados lutaram sob a bandeira de uma reforma radical da sociedade chilena.

Os democrata-cristãos, inegavelmente os representantes mais hábeis dos interesses da oligarquia, utilizaram-se de uma demagogia muito “esquerdista” para ganhar os votos das massas pequeno-burguesas da cidade e, sobretudo, do campo. O campesinato, como a classe média em geral, não é uma classe homogênea, como o são a classe trabalhadora ou a burguesia. Existem camponeses pobres, camponeses ricos e, ainda, toda uma gama de estratos intermediários. Em seus estratos superiores, os camponeses aproximam-se da burguesia, enquanto que os camponeses pobres, pequenos arrendatários e trabalhadores agrícolas temporários são os aliados naturais do proletariado. Partidos burgueses “liberais”, como a Democracia Cristã, têm sua influência entre as massas de camponeses e a classe média, através dos estratos privilegiados desta última classe: os advogados, os professores, os intelectuais, os médicos e, naturalmente, os padres; enfim, os que “sabem falar bem”, as “forças vivas” de cada localidade, diante dos quais o camponês acostumou-se desde pequeno a cumprimentar humildemente, e que, às vezes, são capazes de empregar uma verborréia muito radical, inclusive “revolucionária”, com a finalidade de manter sua influência no seio das massas. Apresentam-se diante dos camponeses e pequenos comerciantes como os “amigos do povo”, como os interlocutores entre o povo e as autoridades, como os defensores da gente pobre e humilde. Mas, uma vez eleitos, esses elementos acomodados põem-se inevitavelmente ao serviço do grande capital da forma mais servil. De fato, esta é a sua verdadeira função: a de servir como correia de transmissão entre os monopolistas e os grandes banqueiros, de um lado, e as massas da classe média, de outro. A utilidade desses exploradores políticos da classe média para o grande capital depende de sua capacidade para enganar e confundir os milhões de camponeses, pequenos comerciantes e trabalhadores politicamente pouco desenvolvidos etc. A revolução socialista só se torna possível quando o controle asfixiante dos liberais e democrata-cristãos sobre a classe média e o campesinato é rompido. Não obstante, a política totalmente anti-leninista do Partido “Comunista” do Chile baseou-se, desde há muito tempo, na necessidade de uma aliança com esses inimigos viscerais do socialismo.

Como um sintoma claro da fermentação social e do descontentamento das massas, basta recordar que o lema da Democracia Cristã nas eleições de 1964 era, nem mais nem menos, “Revolução com Liberdade”. E, efetivamente, as massas depositaram sua confiança em Frei, que obteve a maioria absoluta: 56% do total de 2,5 milhões de votos. Os resultados das eleições ao Congresso, no ano seguinte, confirmaram o triunfo da DC, que passou de 23 cadeiras a 82. Por outro lado, os partidos direitistas sofreram uma derrota completa. Todas as esperanças da maioria da população estavam depositadas na “Revolução com Liberdade”, ou seja, a reforma agrária e a nacionalização da economia.

A experiência do governo Frei colocou novamente em destaque a incapacidade dos liberais burgueses para realizar as tarefas mais urgentes da revolução democrático-burguesa. Sob o governo de Frei, o Estado obteve o controle de 51% das ações das grandes companhias norte-americanas de cobre, mas tal fato de forma alguma eliminou o rígido controle do imperialismo americano sobre a economia chilena. A reforma agrária avançava a passos de tartaruga. Seus resultados estão resumidos nas seguintes palavras:

“Desde o ponto de vista quantitativo, a ação do governo da Democracia Cristã favoreceu, no que diz respeito à distribuição da terra, cerca de 30 mil famílias camponesas, que foram organizadas em assentamentos ou cooperativas nas 1.300 áreas desapropriadas ou destinadas à reforma agrária, que tinham uma superfície total de 3,4 milhões de hectares. Isto representava 13% do total de terras cultivadas no Chile ou 14,5% das terras produtivas, e os beneficiados constituíam entre 5 e 10% das famílias camponesas sem terra ou com terra insuficiente. A própria meta fixada pelo governo democrata-cristão, para seu período de seis anos, era a de dar acesso à terra a 100 mil famílias camponesas, o que significa que realizou apenas 1/3 de seu programa, neste aspecto”. (Chile-América no 25-26-27, p. 26).

Outros aspectos do programa de Frei, um deles a intervenção estatal no setor bancário, não foram cumpridos. As massas de trabalhadores e camponeses tinham passado pela escola da DC e compreenderam o que ela representava: uma fraude gigantesca. O que queriam era a transformação profunda da sociedade; o que tinham conseguido era a continuação do domínio imperialista e oligárquico sob uma fachada mais “democrática”. O verdadeiro papel da DC, a defensora mais fiel da oligarquia, foi revelado na repressão brutal de trabalhadores e camponeses. Entre as vítimas das minas de El Salvador (a terceira maior reserva de cobre, com 5.634 trabalhadores) e de Puerto Montt encontrava-se mais de 20 socialistas, assassinados pelas “forças da ordem” do governo Frei.

Fracasso da Democracia Cristã

Logo após a derrota eleitoral de 1964, os dirigentes do Partido “Comunista” planejaram a possibilidade de uma colaboração com o governo democrata-cristão. As conseqüências desastrosas que tal colaboração desencadearia teriam sido evidentes. Em palavras de A. Sepúlveda:

“O que teria acontecido, depois da eleição presidencial de 1964, se o Partido concordasse ou estivesse inclinado a um acordo com o partido governante? Unicamente a submissão da classe trabalhadora à hegemonia burguesa por um longo período (…) Se esta [a conduta do PSCH frente à DC] tivesse sido de colaboração direta, de apoio crítico ou de oposição meramente legislativa, não teríamos debilitado sua base social de sustentação e não se teria aberto passagem à alternativa popular”. (Socialismo chileno, pp. 26, 27 e 28).

O apoio à Democracia Cristã entre as massas ia desaparecendo rapidamente. O descontentamento e a fermentação no seio da pequena burguesia tiveram o seu impacto no seio do próprio partido de Frei, que sofreu uma cisão à esquerda, com a constituição do MAPU, que evoluiu para uma posição radicalizada.

Nessas condições, há mais uma tentativa de se reconstituir uma frente eleitoral entre o PSCH e o PCCH. Na mesa de discussões, quando se lançou a idéia da Unidade Popular (UP), houve discordância entre os representantes socialistas e comunistas. Estes últimos viam a questão do socialismo no Chile como “uma perspectiva indefinida no tempo”. (Socialismo chileno, p. 31).

Enquanto Allende, sem dúvida, acreditava sinceramente na possibilidade de transformação socialista da sociedade pela via parlamentar, para os dirigentes stalinistas a questão do socialismo sequer se apresentava. O resultado foi um documento incoerente e cheio de ambigüidades:

“Esta mesa de discussões terminaria por se chamar ‘Unidade Popular”. Esta mesa de discussões obteve como resultado o programa de governo da UP. Programa que, essencialmente, recolhe as propostas contraditórias de dois projetos políticos diferentes: o caráter socialista e o caráter democrático-burguês da revolução chilena, o primeiro defendido pelo PS. Esta contradição estará presente ao longo de todo o governo da UP”. (45o aniversário do PSCh, p. 16).

A Unidade Popular

O triunfo de quatro de setembro e a aplicação conseqüente do programa deflagra um processo revolucionário que coloca as classes em uma situação de tensão histórica: revolução ou contra-revolução. Não são unicamente as realizações do Governo Popular, nem mesmo o seu programa, o que temem as classes dominantes, e sim a dinâmica revolucionária das massas, que põe o sistema capitalista duplamente em perigo. Temem, sobretudo, à direção trabalhadora do processo, expressa pelo predomínio socialista-comunista no Governo, na UP e no movimento de massas.

Todavia, é este último elemento subjetivo – o fator da direção – que não sabe enfrentar a nova realidade configurada pela Revolução em marcha, realidade que ultrapassa os objetivos explícitos que a Unidade Popular traçou em 1968.
(Socialismo chileno, p. 35).

A coalizão da Unidade Popular incluía, além do PCCH e do PSCH, um leque de pequenos partidos e grupelhos pequeno-burgueses (MAPU, API, SDS e o Partido Radical) de pequena penetração nas massas. Os radicais, no momento de sua entrada na coalizão, formavam indiscutivelmente um partido burguês, que, mais tarde, se dividiu sob a pressão das massas. Diferentemente da Frente Popular dos anos 30, em que o velho Partido Radical era a força majoritária, agora os radicais de Alberto Baltra formavam apenas uma seita sem peso decisivo, enquanto que as forças dominantes da coalizão eram os partidos dos trabalhadores, o PSCH e o PCCH. Não obstante isso, aos dirigentes stalinistas interessava a presença dos radicais no governo, não por sua importância política e sim como uma desculpa para não levar a termo um programa socialista. “Não podemos ir muito rápido, porque isto pode significar uma ruptura da coalizão”. A mesma tática foi empregada, com o minúsculo Partido Radical, pelos dirigentes do PC e do PS, na França.

Contra a Unidade Popular apresentam-se os dois partidos da burguesia: o Partido Nacional, de Alessandri, os representantes declarados da oligarquia, e a Democracia Cristã, representada por Tomic, que, desesperadamente, tentava recuperar a imagem de partido de esquerda, defendendo a “nacionalização total da indústria do cobre” e dos bancos estrangeiros, bem como a “aceleração” da reforma agrária. Mas, desta vez, as massas não se deixaram enganar pelas falsas promessas dos democrata-cristãos. Os resultados das eleições foram os seguintes:

Allende …………… 1.075.616 votos …… 36,3%
Alessandrini …….. 1.036.278 votos …… 34,9%
Tomic ………………. 824.849 votos ……. 27.8%

O profundo colapso do voto da DC revela claramente o processo de polarização entre as classes na sociedade chilena. De fato, os democratas-cristãos já haviam perdido sua maioria absoluta nas eleições ao Congresso de março de 1969.

O resultado das eleições de 1970 mostrou que a Unidade Popular tinha ganhado, mas sem a maioria absoluta. Isto foi utilizado pela direita para impor condições a Allende, antes de permitir-lhe formar o governo. Os dirigentes da Unidade Popular tinham, então, duas alternativas: ou rechaçar a chantagem da burguesia, denunciando suas manobras sujas para impedir a vontade popular e fazendo um apelo às massas através da organização de mobilizações massivas por todo o país, ou vacilar diante das pressões e aceitar as condições impostas.

Muitos militantes socialistas estavam indignados com essa manobra da burguesia. E, indubitavelmente, a indignação das massas teria sido ainda maior se os dirigentes da UP tivessem organizado uma campanha de mobilizações e de esclarecimentos. Já em julho de 1970, a CUT ameaçava com uma greve geral. Naquele momento, a classe trabalhadora tinha se convertido na maioria decisiva da sociedade: 75% da população ativa eram formados por assalariados, fundamentalmente urbanos (nas indústrias e nos serviços); menos de 25% se dedicavam à agricultura. O poder do movimento da classe trabalhadora no Chile já tinha sido revelado nas ondas de greves sob os governos de Ibáñez e de Alessandri. Os trabalhadores sabiam que a campanha eleitoral tinha se caracterizado por todo tipo de truques e sujas manobras contra a UP, promovidos pelo imperialismo e pela oligarquia. A tentativa de bloquear o acesso de Allende ao governo teria sido o sinal para um movimento sem precedentes que provocaria uma radicalização generalizada por todo o país.

Além disso, para os marxistas, ainda que os resultados eleitorais tenham importância para aferir o grau de consciência das massas, não podem ser nunca o único fator, nem sequer o fator determinante em nossa estratégia. Os marxistas não somos anarquistas. Por isso, participamos e estamos dispostos a utilizar todos os mecanismos da democracia burguesa e, inclusive, a tentar mudar a sociedade de modo pacífico, através da legislação parlamentar, na medida em que nos seja permitido fazê-lo. Entretanto, toda a história, e sobretudo a história do Chile, mostra como a classe dominante está disposta a tolerar a existência da democracia e sua utilização pelos socialistas somente dentro de certos limites claramente demarcados. No momento em que a burguesia vê ameaçado seu poder e seus privilégios não vacila em romper unilateralmente com as “regras do jogo” (regras estabelecidas por eles mesmos em defesa de seu poder e privilégios) e em destruir as conquistas democráticas da classe trabalhadora. Não, os socialistas não somos anarquistas. Somos sim realistas e aprendemos alguma coisa da história. Neste aspecto, tem razão o companheiro Sepúlveda quando afirma:

“Na questão do poder, não se trata de correlação de forças numéricas, de ter a maioria. Por exemplo, se em março de 1973 obtivermos uns 51 ou 55%, será que o imperialismo e a grande burguesia deixariam de preparar o golpe, não continuariam desenvolvendo forças para derrubar-nos? Pelo menos a experiência histórica revela que, ainda estando em minoria, a reação defende com violência seu predomínio de classe”. (Socialismo chileno, p. 36).

Muitos companheiros socialistas, e provavelmente também comunistas, previam a armadilha que a burguesia estava preparando com suas famosas condições. O principal protagonista dessa manobra era, naturalmente, a Democracia Cristã, que novamente pôs em evidência sua autêntica natureza de defensora mais hábil dos interesses de seus amos: os grandes capitalistas, os banqueiros e o imperialismo norte-americano.

Sob a pressão insistente do secretário geral do PCCH, Luís Corvalán e companhia, Allende pôs-se de acordo com a DC e aceitou o chamado “pacto de garantias constitucionais”, proibindo, por considerar “inconstitucional”, a formação de “milícias privadas” ou a nomeação, como oficiais, de membros das forças armadas não formados nas academias militares. Por outro lado, não se poderia fazer nenhum tipo de mudança no exército de terra, do ar, da marinha ou na polícia nacional, salvo com a aprovação do Congresso, onde os partidos burgueses ainda mantinham a maioria. Dessa forma, Allende e os demais dirigentes da UP caíram na armadilha desde o primeiro momento, esquecendo os princípios fundamentais do marxismo e o programa de fundação do socialismo chileno:

“A transformação evolutiva por meio do sistema democrático não é possível porque a classe dominante se organizou em corpos civis armados e instituiu sua própria ditadura, para manter os trabalhadores na miséria e na ignorância e para impedir sua emancipação”.

Teoria do Estado

Lênin tinha explicado repetidas vezes que o Estado consiste fundamentalmente em “grupos de homens armados em defesa da propriedade”. A aceitação do “pacto de garantias constitucionais”, pelos dirigentes da UP, significou um compromisso, de sua parte, de não armar a classe trabalhadora e de manter incólume o aparelho repressivo montado pela burguesia “para manter os trabalhadores na miséria e na ignorância e para impedir sua emancipação”. Mas, então, como lhes ia ser possível conduzir uma luta séria contra a oligarquia e o imperialismo? Durante todo o período de governo da UP, os dirigentes do PSCH e, sobretudo, do PCCH enganaram-se a si mesmos e, portanto, enganaram às massas de trabalhadores e camponeses, quando insistiram no caráter “patriótico” e imparcial de sua casta militar. Pensavam, de uma forma totalmente utópica: neutralizar os generais e os almirantes com boas palavras, condecorações e aumentos salariais.

O aparelho estatal, e principalmente toda a casta militar, não estão acima das classes e da sociedade. Constituem, sim, um órgão de repressão nas mãos da classe dominante. O alto comando do exército, no Chile como em qualquer outro país, está intimamente vinculado, por milhares de laços (de classe, familiares, de educação, de interesses econômicos etc.) com a alta burguesia, os banqueiros e os latifundiários. Tudo isso é o abc para um marxista. Por outro lado, a burguesia e seus representantes políticos, os democrata-cristãos, compreendiam isso perfeitamente. O “pacto” não era uma questão secundária, um detalhe ou um capricho. Era o centro do assunto, como se viu claramente três anos depois, com conseqüências catastróficas para a classe trabalhadora e para todo o povo chileno.

Não obstante, a formação do governo da UP abriu uma nova etapa para o processo revolucionário no Chile. Como aconteceu na Espanha em 1936, o programa inicial do governo viu-se muito rapidamente ultrapassado pelo movimento das massas.

“Durante o primeiro ano e meio de governo, a aplicação de medidas de caráter democrático-burguês esgota rapidamente a agenda de reformas da UP e as massas começam a exigir a aplicação do programa em matéria de economia, saúde, educação ou moradia. É assim como as massas começam a se mobilizar em torno de aspirações, como a passagem dos grandes monopólios têxteis, madeireiros etc. para as mãos dos trabalhadores. Aspirações que o governo só pode cumprir em parte, devido ao grau de seu compromisso com a oposição e aos obstáculos que o reformismo militante das próprias fileiras da UP colocou à obtenção desses objetivos. É neste ponto que os setores reformistas dão início a uma ação que tende a paralisar toda iniciativa que mobilize as massas para objetivos ou perspectivas socialistas e revolucionárias, impondo-a com firmeza aos seus representantes na direção do aparelho econômico, utilizando a CUT para essa finalidade. Tudo isso tem como conseqüência o divórcio entre os objetivos das massas e os objetivos do governo”. (45o aniversário do PSCH, p. 17, ênfase nossa).

Pressão das Massas

Sob a pressão das massas, o governo da UP foi bem mais longe do previsto por muitos de seus dirigentes. O esquema mecanicista do stalinismo de uma divisão artificial entre as tarefas democrático-burguesas e as tarefas da revolução proletária foi rompido pelo movimento das massas. O governo Allende realizou medidas importantes de nacionalização, que representavam um duro golpe contra os interesses da oligarquia.

As medidas de nacionalização do governo Frei tinham reduzido a 49% a indústria do cobre nas mãos dos grandes monopólios norte-americanos, como a Anaconda ou a Kennecott Copper, a quem Frei pagou enormes indenizações (80 milhões de dólares a Kennecott Copper, entre 1967 e 1969, somente pela mina El Teniente). Os trabalhadores chilenos viram-se sobrecarregados por este peso. Em julho de 1971, Allende esclareceu que os monopólios estadunidenses tinham investido entre 50 e 80 milhões de dólares no Chile e que seus lucros subiram a 1.566 milhões de dólares. Portanto, tais empresas deviam ao Chile 642 milhões de dólares.

A nacionalização do cobre em julho de 1971 representou um grande avanço. Da mesma forma, foram nacionalizadas a indústria do carvão, as minas de ferro e de nitratos, a indústria têxtil, a ITT, a INASA etc.

Uma série de reformas sociais em benefício da classe trabalhadora também serviu para aumentar drasticamente o apoio popular ao governo: a distribuição gratuita de leite às crianças nos colégios, o congelamento dos aluguéis e dos preços, o aumento de salários e de pensões…

Estas medidas, por sua vez, deram um enorme impulso ao movimento das massas. Por fim, os setores mais atrasados, apolíticos e apáticos da sociedade conheceram um governo que agia em seu benefício. O resultado foi uma crescente onda de radicalização no campo e na cidade.

A incapacidade do governo Frei para realizar uma reforma agrária séria foi uma das principais razões da vitória eleitoral de Allende. Nas vésperas das eleições, a situação no campo caracterizou-se, nas palavras do ex-ministro da Agricultura da UP, Jacques Chonchol, por “uma frustração crescente”. Ele mesmo explica como a deflagração da nova reforma agrária se deveu à forte pressão das massas rurais:

“O primeiro aspecto que o governo da Unidade Popular teve de abordar em sua política agrária foi o de acelerar o processo das desapropriações para atender à pressão e inquietação dos camponeses. Estes, com efeito, pensavam que, uma vez que o novo governo era dos trabalhadores, todas as suas aspirações de acesso à terra deviam ser satisfeitas do modo mais rápido possível”. (Chile-América, no 25-26-27, pp. 27-28, ênfase nossa).

Por outro lado, os latifundiários iniciaram uma campanha sistemática de sabotagem, abandonando suas terras e desmantelando as instalações de suas fazendas. Muitos deles já estavam financiando grupos armados da ultra-direita, com a finalidade de resistir à reforma agrária. Pablo Goebels, um grande latifundiário da província de Cautín, afirmou publicamente que qualquer funcionário do governo que tentasse expropriar suas terras seria recebido com metralhadoras. Segundo um informe oficial da polícia, “mais de dois mil homens foram recrutados em comandos de assalto com o objetivo de provocar o colapso do sistema de transporte, a interrupção do abastecimento de água, gás e eletricidade, e, dessa forma, provocar um descontentamento generalizado”. (Militant, 1/10/71).

Desde o primeiro momento, a classe dominante chilena esteve fazendo seus preparativos para um golpe. Como explica o mesmo artigo do Militant:

“Enquanto Allende exorta as massas à responsabilidade e à disciplina, a reação está acumulando forças para um golpe. Profundamente deprimidos pela vitória de Allende e assustados pelo movimento das massas, os proprietários de terra e os capitalistas compreendem a impossibilidade de derrubar Allende imediatamente. Estão dispostos a esperar. Não obstante, estão fazendo preparativos cuidadosos, estão recolhendo armas, os oficiais superiores do quartel general estão conspirando. O perigo é muito real”.

Resistência do Estado

A única forma de desarmar a reação e esmagar a resistência dos grandes proprietários de terra teria sido a de armar os camponeses pobres, organizando-os em comitês de ação para ocupar as terras, com o apoio do governo. Diante de um movimento poderoso das massas armadas, os proprietários de terra e seus pistoleiros poderiam ter sido derrotados, com um mínimo derramamento de sangue. De fato, esta era a única via possível para defender as conquistas obtidas pelas massas com a Unidade Popular. Mas os dirigentes da UP desconfiavam totalmente da iniciativa revolucionária das massas e estavam atemorizados pela idéia de “provocar à reação”. Por isso, opunham-se terminantemente a cada tentativa, por parte dos camponeses pobres, de realizar “ocupações ilegais”, inclusive ordenando às “forças da ordem pública” para desalojar os camponeses que tinham realizado tais ações. Hoje em dia, alguns dos dirigentes da UP tentam justificar-se alegando que esses movimentos estavam organizados por grupos ultra-esquerdistas e que, às vezes, os camponeses exageravam, ocupando não somente as terras dos latifundiários, como também de camponeses médios.

Indubitavelmente, qualquer movimento revolucionário, sobretudo por parte dos estratos mais oprimidos e atrasados da população, sempre tende a “exagerar” e, até certo ponto, estes “excessos” são inevitáveis. Também pode ser verdade que alguns grupelhos ultra-esquerdistas aproveitaram-se do movimento espontâneo dos camponeses para aumentar sua influência. Mas a responsabilidade por esta situação é totalmente dos dirigentes da UP, e principalmente do PCCH e do PSCH.

A melhor forma de se evitar os abusos e “excessos”, de minimizar a violência e o derramamento de sangue e de assegurar a transferência o mais pacífica e ordeiramente possível dos latifúndios às mãos dos camponeses pobres era que os mesmos dirigentes, em vez de denunciar estas “ações ilegais” e de mandar a polícia para “restabelecer a ordem”, tivessem se colocado à frente do movimento das massas, dando-lhe um caráter organizado.

Jacques Chonchol, no artigo anteriormente mencionado, tenta minimizar a importância dos conselhos camponeses. Contudo, ele mesmo explica as razões que impediram o fortalecimento e a generalização desses organismos de poder popular no campo:

“Buscando sua ampliação para fazer participar estes grupos, iniciou-se, ademais, uma luta política entre a UP e a Democracia Cristã, e entre os próprios partidos da Unidade Popular, para tratar de controlar os conselhos, o que levou, posteriormente, alguns partidos da UP a não apoiar a organização dos Conselhos Camponeses”. (Chile-América, p. 32).

Uma afirmação incrível! Alguns dos dirigentes da UP se opunham à criação dos conselhos camponeses, porque existia uma luta pela hegemonia política nesses órgãos. Mas, acaso não existe a mesma luta em cada fábrica, em cada bairro de trabalhadores, em cada convocação eleitoral, em cada sindicato? E, entretanto, os dirigentes da UP não defendiam a abolição dos sindicatos e do parlamento. A verdadeira razão foi que “alguns dirigentes” da UP desconfiavam do movimento das massas camponesas e tinham medo de que escapasse de seu controle. O dever elementar dos dirigentes era o de apoiar cada iniciativa revolucionária das massas de camponeses pobres, o de fortalecer ativamente a criação dos conselhos camponeses, apesar de todas as dificuldades, e o de lutar dentro deles por uma política socialista revolucionária, contra a influência funesta dos democrata-cristãos.

Desde o primeiro momento os dirigentes da UP depositavam toda sua confiança na legalidade burguesa, deixando intacto todo o velho aparato estatal. Isto teve conseqüências desastrosas para a reforma agrária, como admite o próprio Jacques Chonchol:

“Além disso, as limitações jurídicas do governo impediam-no de dar aos Conselhos Camponeses, a não ser através de uma lei que não tinha possibilidades de aprovar por ser minoritário no Parlamento, foro jurídico para seus dirigentes e financiamento para seu trabalho”. (Chile-América, p. 32).

O caráter utópico da idéia de utilização do velho aparato burocrático do Estado burguês para realizar a reforma agrária, fica reconhecido implicitamente, mesmo a contragosto, nas seguintes palavras de Chonchol, que admite que os “Conselhos Camponeses” freqüentemente se chocavam com a resistência do aparato burocrático:

“Da mesma maneira, um dos problemas que o governo da UP não pôde resolver, apesar das tentativas feitas, foi o do funcionamento do aparato burocrático do Estado (…) Para todo o processo de mudança agrária, que incluía problemas tão diversos, como o das desapropriações, o da assistência técnica e de crédito aos camponeses, o da reorganização do sistema econômico entre a agricultura e o resto da sociedade etc., seria necessário dar ao aparato burocrático, que tinha uma considerável responsabilidade em todo o processo de mudança (!), um dinamismo, uma coerência e uma eficácia muito superiores ao que tinha sido o seu comportamento tradicional.”

“Várias tentativas foram feitas durante o governo da UP para alcançar este objetivo, mas, definitivamente, as limitações legais, a resistência da burocracia a mudar seus hábitos, a diferença de classes entre os burocratas e os camponeses, a localização urbana de grande parte desta burocracia agrária e as lutas partidárias impediram avançar de um modo significativo na transformação da burocracia tradicional num corpo mais orgânico (?) e eficiente a serviço do processo da transformação agrária”. (Chile-América, p. 33, ênfase nossa).

Todos os argumentos de Chonchol mostram claramente a impossibilidade de implementar uma mudança radical e irreversível das relações sociais no campo chileno, a não ser como conseqüência da luta revolucionária do campesinato armado contra a contra-revolução e da organização dos conselhos camponeses, intimamente ligados com os sindicatos camponeses e as organizações da classe trabalhadora nas cidades.

Mas, apesar de tudo, devido às pressões das massas (já antes do 1º de janeiro de 1971 houve entre 250-300 ocupações “não oficiais”), o governo da UP realizou a reforma agrária mais profunda de toda a história do Chile. Nas palavras de Chonchol:

“Nestas circunstâncias, o governo da UP fixou, para 1971, uma meta de desapropriação de mil imóveis rurais, que era quase o que tinha sido feito pelo governo democrata-cristão durante seus seis anos de mandato (1.139 imóveis rurais) e que significava quase quadruplicar as desapropriações de 1970 (273 imóveis, com 634 mil hectares, haviam sido desapropriados pelo governo Frei em 1970). Isto implicava um enorme esforço do sistema burocrático do Estado, dadas as complexidades e limitações do processo de desapropriação contemplado na lei 16.640. Apesar disso, e sob a pressão camponesa, a aceleração do processo devia ser ainda maior e, no final de 1971, foram desapropriados 1.378 imóveis rurais com 2.600.000 hectares. Este ritmo se acelerou ainda mais em 1972, ano em que foram desapropriados mais de 2 mil imóveis com uns 2.800.000 hectares, com o que praticamente se liquidou com o grande latifúndio no Chile. Em 1973, até o golpe de Estado, foram expropriados outros 1.050 imóveis, sobretudo imóveis mal explorados de tamanho médio e latifúndios remanescentes, com 1.200.000 hectares”. (Chile-América, p. 28).

As medidas tomadas pelo governo Allende, em benefício das massas de trabalhadores e camponeses, provocaram uma enorme onda de entusiasmo popular, que se refletiu nos resultados das eleições municipais de 4 de abril de 1971.

Enquanto que, nas eleições presidenciais, Allende só obteve 36,3% dos votos, agora os partidos da UP conseguiram 49,7% dos votos, frente a 48,05% da oposição em conjunto.

A onda de radicalização no país teve sua expressão no surgimento de órgãos incipientes de poder operário nas fábricas e nos bairros de trabalhadores. No campo houve tentativas, da parte dos camponeses pobres, de ocupar terras. Esta fermentação nas massas populares também sacudiu os partidos tradicionais da classe média, provocando no seu seio uma série de convulsões e divisões. Sete deputados da DC abandonaram suas fileiras para formar um novo partido, o MIC (Esquerda Cristã), que recebeu a adesão de uma parte da juventude do partido, declarando-se a favor da “construção do socialismo” com o governo da UP. O Partido Radical sofreu uma divisão à direita depois do 25o Congresso, quando o partido formalmente se declarou a favor da “luta de classes e da necessidade de acabar com a exploração do homem pelo homem”. Alberto Baltra, que participou da formação do MRI “para representar os interesses da classe média”, tampouco se atreveu imediatamente a manifestar-se abertamente contra o governo da UP. A corrente popular a favor do governo era muito forte, inclusive entre as massas da pequena burguesia.

De fato, a correlação de forças no parlamento não era mais que um pálido reflexo da enorme força do movimento dos trabalhadores e camponeses naquele momento. Todas as condições objetivas para a transformação pacífica da sociedade chilena estavam dadas. A classe dominante encontrava-se desmoralizada e vacilava. O movimento das massas estava no auge e, de fato, já havia deixado muito para trás os esquemas reformistas da sua direção. A classe média, e sobretudo o campesinato, olhava com esperança para o governo. Os dirigentes socialistas e comunistas ocupavam postos decisivos do governo e da administração pública. Tinham a vantagem de ser o governo legítimo do país, o que facilitava a tarefa da revolução socialista face às massas mais atrasadas da classe média. Inclusive nas forças armadas, a Unidade Popular tinha muito apoio, não somente entre os soldados e marinheiros, mas também entre amplos setores dos suboficiais, que apoiavam ao PSCH ou ao PCCH. O presidente da República podia convocar um referendo sobre temas importantes. Não se pode imaginar uma situação objetiva mais favorável. Não obstante, as direções do PSCH e do PCCH não aproveitaram o momento para dar o golpe definitivo e acabar com o poder da oligarquia.

Nesta situação, surgiram elementos de duplo poder na sociedade chilena:

“Neste ponto, é muito importante destacar que a contradição fundamental está dada pela aspiração do poder popular das massas expressa nos chamados comandos comunais, cordões industriais, assembléias populares, formas de controle de abastecimento de alimentos, conselho de administração de empresas etc.”. (45o aniversário do PSCH, p. 17).

Não obstante, os dirigentes do movimento de trabalhadores deixaram todas as alavancas do poder nas mãos da classe dominante. Não se atreveram a intervir no exército e na polícia. “A Unidade Popular tem o poder executivo”, diz Sepúlveda, “mas o inimigo controla toda a institucionalidade burguesa e se protege através dela para seus preparativos contra-revolucionários”.

O governo tinha poderes legais para convocar um plebiscito e novas eleições legislativas, que, sem dúvida alguma, teriam significado uma vitória decisiva para os partidos dos trabalhadores. Mas, em um momento tão favorável, os dirigentes da UP desperdiçaram a oportunidade, confiando cegamente na “boa vontade” do inimigo de classe.

A Contra-ofensiva Burguesa

“A Unidade Popular triunfa com 36% em quatro de setembro. Em cinco de novembro, depois do assassinato do Comandante em Chefe do Exército, general René Schmeider, o Presidente Allende assume [o poder] ante uma burguesia dividida e aterrorizada. As próprias forças armadas esperam uma limpeza profunda. Todos se mantêm imóveis. Inicia-se a aplicação das linhas gerais do Programa e das 40 medidas. Em cinco meses de exercício de governo realizam-se as eleições de regentes: a UP obtém 51% dos votos”. (Socialismo Chileno, p. 38).

Dessa maneira, os dirigentes da UP perderam a melhor oportunidade de conseguir uma transformação relativamente pacífica da sociedade: a convocação de novas eleições; a obtenção de uma maioria absoluta, que teria retirado aos partidos burgueses seu último pretexto legal para bloquear a legislação socialista; e um apelo, a partir do governo, de toda a classe trabalhadora e do campesinato para conduzir a total eliminação do poder dos capitalistas e grandes proprietários de terra no Chile, armando os operários e camponeses em defesa de suas conquistas democráticas, econômicas e sociais, e organizando de forma generalizada, por todo o país, conselhos de operários, camponeses, soldados, donas de casa e pequenos comerciantes, visando organizar a produção e fiscalizar a manutenção da ordem revolucionária. Esses conselhos, eleitos democraticamente e revogáveis a todo o momento, constituiriam, finalmente, os autênticos órgãos do poder dos operários e camponeses chilenos. Confrontadas por um movimento revolucionário com essas características, a classe dominante, a casta militar e a burocracia estatal teriam ficado suspensas no ar, sem nenhum tipo de base social. Mas os dirigentes dos principais partidos de trabalhadores, ao esquecer os princípios mais elementares do marxismo e ao perder a oportunidade, deixaram que a iniciativa passasse às mãos da reação.

Utilizando seu controle da imprensa, a oligarquia chilena, com o apoio ativo da CIA, começa sua contra-ofensiva nas páginas de El Mercúrio. A Democracia Cristã intensifica sua campanha contra o governo em aliança com o Partido Nacional, exigindo o “desarmamento de todos os grupos armados”. Esta gente, logicamente, estava pensando somente nos grupos de esquerda, já que “Pátria e Liberdade” e outros grupos fascistas faziam suas provocações terroristas nas ruas com impunidade. Assim, estabelece-se uma conveniente divisão do trabalho entre a oposição “respeitável” da DC, que sistematicamente bloqueia as novas leis, e os fascistas, que semeiam o terror e a confusão nas ruas.

Os capitalistas e grandes proprietários de terra chilenos boicotaram a economia nacional. O imperialismo americano cortou toda ajuda econômica ao governo Allende e tentou organizar um boicote mundial ao cobre chileno. As nacionalizações realizadas de forma parcial e sem um planejamento econômico global deram lugar a convulsões, provocando um enorme aumento da inflação, que eliminou as vantagens dos aumentos salariais e afetou seriamente a classe média. Muito rapidamente a simpatia dos estratos médios pelo novo governo converteu-se em crescente oposição.

A ofensiva da contra-revolução começa com a paralisação dos caminhões, em outubro de 1972. As massas da classe trabalhadora, compreendendo o perigo, respondem com mobilizações impressionantes, logrando frustrar a tentativa contra-revolucionária; mas, como agiram os dirigentes? Com uma remodelação do governo para, pela primeira vez, incluir representantes da casta militar no gabinete governamental.

Novamente, o triunfo logrado pela mobilização e iniciativa da classe trabalhadora converte-se em derrota, devido à bancarrota e à miopia reformista de seus dirigentes. “As forças armadas são convidadas como árbitros em um conflito que tinha um vencedor”, comenta A. Sepúlveda com amargura. O Comitê Central do Partido Socialista, expressando a indignação da base de trabalhadores contra a capitulação do governo, protesta contra “essa saída que escamoteia uma vitória numa fase decisiva do processo” (Socialismo chileno, p. 40).

Conspirações Golpistas

Entre a paralisação de outubro e quatro de março, foram quatro meses de preparação contra-revolucionária: propaganda contra o “desabastecimento” e o “mercado negro” provocados artificialmente pela burguesia. Ao mesmo tempo, intensificam-se as conspirações golpistas nos quartéis. Nesta situação, os dirigentes da UP, envolvidos em seus esquemas reformistas e confiando cegamente na “lealdade” dos generais “patriotas”, mostram-se totalmente impotentes para deter a ofensiva da direita. Apesar de tudo, a Unidade Popular obteve 44% dos votos nas eleições de março de 1973. “No primeiro momento, que o povo considera um triunfo, o inimigo está deprimido. É a ocasião de lançar-se à ofensiva… É o que planeja o Partido Socialista. Mas não há ofensiva” (Socialismo chileno, pp. 40-41).

Indubitavelmente, as bases de trabalhadores, tanto do PSCH quanto do PCCH, queriam passar à ofensiva. Os trabalhadores esperavam por uma palavra de seus dirigentes para sair às ruas e esmagar a reação. Pediam armas, mas só conseguiram boas palavras, promessas e apelos à disciplina, à responsabilidade e à serenidade. Contudo, como diz Sepúlveda já em março de 1973, o proletariado “não queria mais desfiles, aspirava ao poder” (Socialismo chileno, p.41).

Segundo o documento do PSCH anteriormente citado:

“O governo da UP, diante da insurreição da burguesia, não é capaz, devido às posições reformistas, de resolver a favor da revolução chilena, com ações organizadas de massas, de por fim a essa ofensiva, e, a partir de posições conciliatórias, trata de adiar o desenlace de uma situação que se faz cada vez mais insustentável” (45o aniversário do PSCH, p. 18).

A base de trabalhadores do PSCH, seguindo seu instinto de classe, opôs-se terminantemente à entrada de militares no governo. Desta maneira, os operários socialistas demonstraram que compreendiam, muito melhor que sua direção, o que estava acontecendo no país. A capitulação dos dirigentes da UP em novembro somente estimulou o apetite dos reacionários. Os resultados das eleições de março só serviram para adiar o desenlace fatal. Se a contra-revolução apenas dependesse dos dirigentes, teria triunfado no Chile quase um ano antes. Afortunadamente, o enorme poder do movimento de trabalhadores e seu grande nível de combatividade fizeram vacilar as forças reacionárias. Como disse o jornalista inglês Laurence Whitehead, em um artigo no The Economist (30/7/73):

“Se até agora o exército chileno manteve-se imobilizado, a explicação não se encontra em nenhuma tradição nacional específica, e sim no poder formidável agora adquirido pelo movimento operário”.

A prova desse enorme poder foi o fracasso rotundo do “tancazo” do dia 29 de junho. Em questão de horas, milhares de trabalhadores fizeram greves, ocuparam as fábricas e, deixando piquetes para proteger as fábricas ocupadas, marcharam até o “Palácio de la Moneda”. “Outra conjuntura extraordinária para avançar e golpear”, afirma Sepúlveda. “Os camponeses estavam próximos. Abortado o movimento, os parlamentares de direita tremiam nos corredores do Congresso” (Socialismo chileno, p. 41).

E qual foi a reação da direção? Allende fez um apelo aos trabalhadores para que voltassem ao trabalho. A polícia dispersou as massas que circulavam sem rumo pelas ruas da capital.

Este comportamento do governo deu ânimo novo às forças reacionárias, que se lançaram novamente à luta contra outra greve dos caminhoneiros. Os trabalhadores responderam com uma greve geral de 24 horas no dia nove de agosto. Como dizia um artigo no Militant (17/08/73): “Não faltam o ânimo e a vontade de lutar. O que falta é a direção”. Quase três anos depois, o dirigente socialista Adonis Sepúlveda, chega, retrospectivamente, à mesma conclusão: “A direção do movimento não deu orientação alguma. Tampouco a CUT” (Socialismo chileno, p. 41).

Sem Direção

Aí estava a tragédia da classe trabalhadora chilena. Apesar de todo o enorme poder que se encontrava em suas mãos; apesar do ânimo de luta e do heroísmo dos trabalhadores, suas direções falharam no momento decisivo. Em troca, os representantes da classe burguesa atuavam de forma séria. Pouco lhes importava “as regras do jogo”. Sabiam que seus interesses de classe estavam sob risco e atuaram agressivamente para defendê-los:

“O inimigo sempre soube o que tinha de fazer”, acrescenta Sepúlveda. “Retrocedeu ou avançou por seus objetivos de acordo com as circunstâncias. Contrariamente à UP, não perdeu uma oportunidade para ganhar terreno. Organizou com decisão e seriamente o golpe e o assestou no momento mais propício: no de maior confusão e quando as contradições sobre o que fazer tinham virtualmente paralisado a direção” (Socialismo chileno, p. 42).

Talvez Sepúlveda exagere sobre a inteligência e perspicácia da classe dominante chilena, mas o que é realmente verdade é que, se os dirigentes chilenos tivessem defendido os interesses da classe trabalhadora com a quarta parte da seriedade dos políticos burgueses, o proletariado chileno poderia ter tomado o poder não somente uma, mas três ou quatro vezes durante o período da Unidade Popular. As condições objetivas estavam dadas, a vontade de lutar estava presente. Faltava apenas uma autêntica direção revolucionária, com a vontade e a capacidade de levar à prática uma política marxista-leninista.

As tentativas por parte de Allende e demais dirigentes da UP de chegar a um acordo com a reação, pactuando com a Democracia Cristã e deixando entrar os militares no governo, serviram apenas para desorientar a classe trabalhadora e animar aos contra-revolucionários. Uma grande parte da responsabilidade por esta política a tem Corvalán e os dirigentes do Partido Comunista do Chile que, desde o primeiro momento, pressionaram Allende e os dirigentes socialistas a seguir esse caminho desastroso. Após o fracasso do “tancazo” de junho, Corvalán fez um discurso, ironicamente republicado na revista do PC britânico Marxist Today em setembro de 1973, no qual elogiava a “ação rápida e decidida do comandante em chefe do exército, a lealdade das forças armadas e da polícia”. Rechaçando terminantemente a idéia de que seu partido estava a favor de uma milícia trabalhadora, Corvalán responde: “Não, senhores! Seguimos apoiando o caráter absolutamente profissional das instituições armadas. Seus inimigos não estão nas fileiras do povo e sim no campo da reação”. Mas Allende e os dirigentes do PSCH também tinham uma grande responsabilidade pelo que aconteceu, já que tinham aceitado a mesma política. Por exemplo, no dia 24 de junho, Allende “pediu a seus seguidores para iniciar um diálogo com aqueles grupos da oposição que também queriam a transformação do país” (referia-se aos mesmos democratas cristãos que precisamente naquele momento estavam apoiando aos conspiradores fascistas) e “fez uma advertência contra a classificação das forças armadas como ‘reacionárias’ e evitando assim que estas se convertessem em uma força dinâmica no desenvolvimento do Chile”. E isto há apenas cinco dias antes do “tancazo” de 29 de junho.

Não cabe a menor dúvida de que as intenções de Salvador Allende e dos demais dirigentes da UP eram honradas. Desejavam sinceramente uma “mudança pacífica e sem traumas” da sociedade. Desgraçadamente, para se fazer uma revolução socialista, não basta ter boas intenções. Como muito bem o disse um dos dirigentes do Partido Socialista do Chile (Interior) em um artigo publicado em Nuevo Claridad (no 24, abril 1978):

“Se os processos fossem medidos pelas intenções, teríamos de afirmar que a intenção da UP era a de construir o socialismo no Chile, mas, infelizmente, temos hoje fascismo e ditadura”.

Atualmente, alguns dirigentes da UP no exílio tentam justificar-se aproximadamente da forma seguinte: “Se tivéssemos lutado, isso teria significado uma guerra civil sangrenta, com milhares de mortos”. Como soam irônicas, hoje, estas palavras! Milhares de operários e camponeses, a flor e a nata da classe trabalhadora foram exterminados, torturados, levados aos campos de concentração ou simplesmente “desaparecidos”. E segue-se insistindo na necessidade de se evitar a violência “custe o que custar”. Que fique claro, nenhum revolucionário quer a violência. Todos nós queremos uma transformação “pacífica e sem traumas”, mas também aprendemos algo da história: jamais alguma classe dominante renunciou a seu poder e a seus privilégios sem lutar ferozmente.

Os trabalhadores socialistas e comunistas queriam lutar contra a reação. Isto ficou claro no dia 4 de setembro, quando 800 mil trabalhadores, muitos deles armados com porretes, desfilaram pelas ruas de Santiago. Adonis Sepúlveda descreve assim os acontecimentos:

“Os estratos atrasados, suburbanos e camponeses, muitas donas de casa dos setores mais pobres, embora não estivessem inscritos, faziam parte da força social da Unidade Popular. No dia 29 de junho, respondem à tentativa de golpe com uma formidável demonstração de força. O presidente da República esteve mais de cinco minutos nos balcões do La Moneda, sem poder iniciar seu discurso diante dos gritos ensurdecedores das massas, exigindo o fechamento do parlamento. No dia quatro de setembro, sete dias antes do golpe, em todos os povoados e cidades do Chile, realizam-se fabulosas concentrações de apoio ao governo. Em Santiago, desfilam 800 mil pessoas exigindo com fervor: ‘Mano dura, mano dura, no vivimos por las puras’, ‘Crear, crear, poder popular’, ‘Allende, Allende, el pueblo te defiende’. (Socialismo chileno, pp. 36-37).

Os trabalhadores chilenos confiavam em seus dirigentes, a quem pediram armas e uma estratégia de luta. Se, em vez de porretes, tivessem armas, mesmo que poucas e deficientes, a história do Chile teria sido muito diferente. A manifestação gigantesca de quatro de setembro demonstra que a classe trabalhadora não tinha perdido sua vontade de lutar, e sim que pedia armas para resistir. Desgraçadamente, seus dirigentes, em vez de armas, ofereceram-lhes boas palavras e recomendaram-lhes voltar para suas casas, coisa que só serviu para debilitá-los frente ao golpe iminente.

É aqui onde, naturalmente, surge o problema do exército. Segundo algumas fontes, Allende perguntou a Altamirano: “Quantos homens são necessários para conduzir um tanque?”. Contudo, esta é uma forma completamente errada de encaminhar a questão. Se o exército pudesse ser reduzido sempre a “tantos generais controlando tantas baionetas”, nenhuma revolução teria sido possível na história. Mas, como disse uma vez o rei Frederico da Prússia: “Quando essas baionetas começarem a pensar, estaremos perdidos”.

No exército chileno havia muitos soldados, cabos, inclusive oficiais, que simpatizavam com a UP. Muitos inclusive tinham carnês, socialista ou comunista. A tentativa de sublevação dos marinheiros de esquerda, em sete de agosto, dava uma idéia do que seria possível no caso de uma convocação séria de Allende às tropas.

Infelizmente, até o último momento, Allende confiou que os generais não violariam a legalidade e que, inclusive, defenderiam seu governo. Como uma ironia macabra da história, pouco antes do golpe, o mesmo Allende nomeou os generais Leigh Guzmán e Pinochet chefes das Forças Aéreas e do Exército, respectivamente. Até o final, quando os tanques já se encontravam nas ruas, Allende pedia aos trabalhadores calma e “serenidade”, enquanto tentava, em vão, telefonar a Pinochet.

O erro fundamental dos dirigentes da UP foi o de pensar que o Estado burguês poderia adotar uma atitude “imparcial” no desenvolvimento da luta de classes e que o Chile era um caso excepcional devido às tradições “democráticas” de suas forças armadas. Estas ilusões foram fomentadas até o último momento pelos próprios militares. Pouco antes do golpe, depois de sua nomeação, o general Leigh Guzmán pronunciou um discurso e afirmou que as forças armadas “nunca romperiam com sua tradição de respeitar o governo legalmente constituído”. Estas mesmas ilusões dominavam os dirigentes da UP, sobretudo os do PCCH. Desde o primeiro momento, Corvalán insistiu teimosamente no “profissionalismo” e no “patriotismo” dos militares chilenos. Num artigo publicado em World Marxist Review (dezembro de 1970), Corvalán fixou-se no caráter especial das forças armadas chilenas, que “mantinham seu espírito de profissionalismo, seu respeito à Constituição e à lei”. Segundo ele, seria incorreto afirmar “que são os servidores leais dos imperialistas e das classes superiores”. Novamente, em novembro de 1972, na mesma revista, Corvalán insiste que “apesar de sua diversidade, os militares têm valores morais comuns: respeito à Constituição e à lei, e lealdade para com o governo eleito”. O mesmo Corvalán escreveu no jornal diário do PC britânico, The Morning Star (29/12/70): “Admitir a inevitabilidade de um enfrentamento armado implica na formação imediata de uma milícia popular armada. Na atual situação, isto equivaleria a um desafio ao exército (…) [este] deve ser ganho para a causa do progresso no Chile e não empurrado para o outro lado das barricadas”.

Conquistar os Soldados

Se os dirigentes da UP tivessem dedicado a décima parte das energias gastas em tentar ganhar a confiança e o respeito da casta militar, a um trabalho sério para ganhar a base do exército, a derrota de 11 de setembro teria sido totalmente impossível.

Se Allende tivesse usado de seu enorme prestígio pessoal e de sua autoridade legal como Presidente da República para fazer um apelo às fileiras do exército, por cima das cabeças dos generais, o desenlace da situação teria sido muito diferente. As fileiras do exército, uma vez frente a frente com o movimento das massas, teriam sofrido inevitavelmente uma série de tensões e divisões. Ainda que, em qualquer exército, a cúpula da casta militar esteja vinculada à classe dominante, a base está sempre próxima da classe operária e do campesinato. Os soldados e os marinheiros simpatizavam com o movimento da classe trabalhadora e com o governo da UP. Mas, detrás do soldado, está o oficial com sua pistola e seu bastão de comando. Para que se produza um movimento de solidariedade ativa no seio do exército é necessário que os soldados estejam convencidos da firme vontade dos trabalhadores de levar a luta até o final, até suas últimas conseqüências. Em poucas palavras: que confiem no êxito. Se não for assim, o temor aos oficiais será suficiente para manter a disciplina na tropa.

O fato de que, em 11 de setembro, apenas uma minoria dos soldados tenha participado ativamente no golpe, enquanto que a maioria ficou nos quartéis, indica que Pinochet percebia muito melhor que Allende as tensões existentes dentro do exército.

Mas, na ausência de uma resistência massiva e feroz, não existia a menor possibilidade de atrair os soldados que, de maneira passiva, simpatizavam com a causa dos trabalhadores. Neste sentido, os métodos “pacifistas” do reformismo sempre conduzem a resultados diametralmente opostos aos previstos.

Agora, no exílio, muitas das pessoas que tinham uma responsabilidade pessoal na situação tentam justificar-se de qualquer maneira. Um dos argumentos utilizados é o de que a classe trabalhadora, no momento decisivo, encontrava-se isolada. O certo é que mostrava sinais de cansaço. Não via recompensados seus esforços diante da contemporização que se tinha com o inimigo. “Estava cansada de desfiles. Queria ações reais para liquidar o conflito social e não percebia firmeza em sua direção política. Mas estava pronta a combater à primeira ordem. No dia 11, e em alguns casos até os dias 12 e 13, ficaram esperando” (Socialismo chileno, p. 37).

As Massas Abandonadas

Tanto o PSCH quanto o PCCH tinham armas e, teoricamente, uma política militar. Mas, na hora da verdade, as armas não apareceram, a política militar não serviu de nada e a maior parte dos dirigentes fugiu, abandonando as bases a sua sorte. Foi um final indigno para três anos de lutas heróicas da classe operária e do campesinato chilenos. Há quem diga que a morte de Allende “salvou a honra” do socialismo chileno. Como se tratasse de uma questão abstrata e moral de “honra” e não da vitória ou do fracasso da revolução socialista; como se tratasse da vida ou da morte de um homem, num dia em que a flor e a nata da classe trabalhadora chilena foram massacradas sem poder se defender.

Sem dúvida que honra Salvador Allende ter permanecido até a morte no palácio La Moneda, à diferença de muitos, que abandonaram seus militantes para, depois, desde um confortável exílio, escrever circunspectos artigos sobre “a heróica resistência do Chile”. Salvador Allende é um mártir do movimento da classe trabalhadora. Mas toda a simpatia do mundo não pode mudar o que aconteceu no dia 11 de setembro de 1973, nem absolver Allende de sua responsabilidade pelo acontecido. As tentativas de desviar a atenção dos trabalhadores do que realmente ocorreu e do porque ocorreu, por meio de sentimentalismos e mitos, são indignas de socialistas e revolucionários. Se, realmente, queremos honrar a memória de Allende e dos milhares de homens e mulheres anônimos que caíram mortos naquele dia, e depois, pela causa da classe trabalhadora, nosso primeiro dever é o de aprender da experiência para não repeti-la.

Que Tipo de Regime?

Toda a história nos mostra que não há nada pior para a classe trabalhadora que sucumbir sem luta. Vendo a paralisação de suas organizações no momento da verdade, as massas caem em profunda desmoralização. Uma derrota depois de uma luta heróica, como a da Comuna de Paris ou a da Revolução das Astúrias em 1934, tem efeitos menos desastrosos, ao deixar uma tradição sobre a qual as próximas gerações podem reconstruir o movimento.

O exemplo mais terrível deste processo de desmoralização foi o da Alemanha em 1933. Utilizando quase os mesmos argumentos dos dirigentes da UP, os dirigentes da social-democracia alemã deixaram Hitler subir ao poder “sem quebrar uma vidraça”, como ele mesmo comentou depois. Quais foram os resultados da atitude pacífica e conciliadora dos dirigentes operários na Alemanha? O movimento da classe trabalhadora alemã – anteriormente, o mais poderoso do mundo – desintegrou-se totalmente da noite para o dia. O desânimo e a desorientação da classe trabalhadora alemã, em conseqüência da política míope de seus dirigentes, são a explicação mais fundamental de sua passividade sob a tirania hitlerista e da quase total inexistência de uma resistência organizada contra os nazistas na Alemanha, contrariamente ao que aconteceu em outros países.

Depois do golpe de 11 de setembro, muita gente caracterizou o regime de Pinochet como fascista. E, de fato, os métodos empregados contra a classe trabalhadora pela Junta – os assassinatos, as torturas, os campos de concentração – são os mesmos métodos empregados no passado por Hitler, Mussolini ou Franco.

Mas, entre o Chile e a Alemanha, contudo, há diferenças fundamentais. Em primeiro lugar, as condições no Chile, às vésperas do golpe, eram muito mais favoráveis para o movimento da classe trabalhadora que na Alemanha. A classe trabalhadora alemã tinha sofrido já uma série de derrotas muito graves entre 1919 e 1933. Pelo contrário, no Chile os trabalhadores tinham derrotado várias tentativas contra-revolucionárias nos meses anteriores e, em quatro de setembro, uma semana antes do golpe, tinham feito uma nova demonstração de sua vontade de lutar.

A diferença fundamental foi que Hitler baseava-se em um movimento de massas, o “nacional-socialismo”, que contava com o apoio ativo de milhões de pequeno-burgueses frustrados e centenas de milhares de pessoas desclassificadas armadas e organizadas nas SA (“camisas pardas”). É precisamente esta base de massas o que diferencia o fascismo de outras formas de reação, por muito violentas e sangrentas que estas sejam. O objetivo do fascismo é a total destruição das organizações dos trabalhadores, a completa erradicação dos embriões da nova sociedade nas entranhas da velha. Mas os instrumentos normais do Estado burguês não são suficientes para esta tarefa. A base do Estado é demasiadamente estreita para lograr a total desintegração do proletariado. Para consegui-lo, é necessária uma base de massas entre a população: por isso, o fascismo caracteriza-se, num primeiro momento, por ser um movimento de massas da pequena burguesia, que “enlouquece” como resultado da crise do capitalismo e que, perdendo a confiança na capacidade de luta da classe trabalhadora para oferecer uma alternativa viável, procura uma saída no fascismo, com sua demagogia radical e seu “socialismo nacional”. É esta base de massas que dá uma relativa estabilidade a um regime fascista e permite a total destruição do movimento da classe trabalhadora (na Alemanha, fecharam até os clubes de xadrez dos trabalhadores). O fascismo durou 12 anos na Alemanha, 20 na Itália e quase 40 na Espanha, se bem seja verdade que, finalmente, o regime franquista se tenha convertido em uma ditadura policial-militar sustentada pela inércia temporária das massas.

O regime de Pinochet nunca teve uma base de massas comparável às dos regimes fascistas tradicionais. Grupos fascistas, como “Pátria e Liberdade”, semeavam o terror e a confusão, mas eram minoritários. Não jogavam nenhum papel independente, eram meros chacais da reação que preparavam o caminho para a intervenção militar. Representavam, apenas, uma arma auxiliar do Estado burguês. Sequer chegaram a ter a mesma força da Falange Espanhola nos anos 30.

É verdade que, quando se produziu o golpe de Estado, certo setor das classes médias, golpeadas por uma inflação que superava 300% e desmoralizadas pela política do governo da UP, olhavam com alguma simpatia para os militares, de quem esperavam uma solução para seus problemas econômicos. Mas, em nenhum momento, esse apoio passivo pode-se comparar com os movimentos fascistas dos anos 30. O golpe de Pinochet foi um golpe militar com as mesmas características de muitos outros golpes de Estado, mas com uma diferença terrível: seu caráter particularmente sangrento e selvagem foi algo novo, inclusive na América Latina. A explicação deste fato consiste no medo que tinha a classe dominante do governo de Allende que, sob a pressão das massas, tinha chegado muito mais longe que o esperado. Os capitalistas e grandes proprietários de terra vingaram-se de uma forma terrível, com o objetivo de “dar um bom exemplo”. Por outro lado, a própria força do movimento operário fez com que a burguesia, para dobrá-lo, tivesse que implementar uma repressão mais sangrenta e massiva que em outros países.

Um Regime Bonapartista

Uma ditadura policial-militar baseada no “domínio da espada” é um regime bonapartista. Mas o regime bonapartista no Chile, pelas razões anteriormente mencionadas, tem necessariamente um caráter particularmente virulento. É um regime bonapartista que tenta imitar os métodos fascistas. Mas Pinochet não tem e nunca teve a base social de massas essencial para realizar a tarefa central do fascismo: a destruição total do movimento operário e a dispersão da classe trabalhadora. Apesar de seu caráter extraordinariamente repressivo, o regime da Junta é intrinsecamente instável e não tem a menor possibilidade de durar tanto tempo quanto os regimes de Hitler e Mussolini. Trata-se mais de um regime do tipo da “ditadura dos coronéis” da Grécia, que a duras penas se manteve por sete anos, sem poder solucionar nada para o capitalismo grego, e finalmente sofreu um colapso que abriu o caminho para uma nova onda de radicalização e de convulsões sociais.

O que deu, em curto prazo, uma aparência de falsa estabilidade e solidez à Junta foi o profundo desânimo das massas chilenas e seu sentimento de impotência ante a reação triunfante, após o colapso das organizações trabalhadoras. O terrível massacre dos quadros operários e a desarticulação de seus partidos e sindicatos criaram um ambiente generalizado de desorientação.

Nesta situação, a crise econômica, o desemprego e a fome, longe de estimularem a luta, serviram para abater ainda mais o ânimo dos trabalhadores. Este desânimo, e sua conseqüente inércia, é o que explica o prolongamento da vida da ditadura, apesar de todos os seus problemas e contradições internas.

Era irônico ver como, nos meses que se seguiram ao 11 de setembro, os mesmos dirigentes que se tinham negado sistematicamente a armar os operários e camponeses, quando isso era a chave para a vitória, agora se dedicavam, normalmente em lugares distantes e seguros, a escrever artigos sobre a necessidade da luta armada contra a ditadura. Mais de um ano depois do golpe, um porta-voz do PCCH declarou a La Stampa que “as organizações de esquerda chilenas ainda possuíam quantidades importantes de armas” e que “se está realizando uma luta para derrubar o regime militar”. Em que mundo de sonhos viviam estes heróis do exílio!

Que fique claro! A última coisa que se devia planejar nesta situação era a luta armada, a guerra de guerrilhas ou o terrorismo individual. Os resultados obtidos pelos grupos minoritários que propunham esta idéia no Chile foram totalmente negativos: a perda desnecessária e sem sentido de uma série de companheiros jovens e heróicos, mas totalmente equivocados, e a desarticulação dos grupos envolvidos.

Não obstante isso, os pequenos núcleos de quadros operários, tanto socialistas quanto comunistas, começaram a desenvolver, da forma mais lenta e penosa, um trabalho sério na clandestinidade. Estes companheiros, diferentemente dos dirigentes no exílio, nunca tentaram ocultar com palavras bonitas a terrível situação; pelo contrário, falaram honradamente da realidade de “um povo subjugado, oprimido, faminto e aterrorizado”. Os melhores elementos da classe trabalhadora, nos cárceres, na clandestinidade, nos campos de concentração, estão tentando cumprir com seu dever fundamental: tirar as conclusões corretas de sua terrível experiência. Desgraçadamente, parece que muitos dos velhos dirigentes não sabem ou não querem fazer o mesmo.

Crise Econômica

A desgraça da ditadura chilena foi que o golpe de Estado teve lugar às vésperas da recessão mais grave, desde o final da II Guerra Mundial. A economia chilena, que sempre dependeu totalmente de suas exportações, sofreu efeitos muito graves em conseqüência da queda da demanda de cobre nos mercados exteriores, o que provocou uma queda estrepitosa de seu preço.

Nos anos anteriores à recessão de 1974-75, as exportações de cobre representavam quase 75% do total das exportações do país. O valor das exportações de cobre em 1975 era 45% mais baixo que em 1974 e 34% mais baixo que a média de 1973-74. Em 1975, o déficit exterior cifrava-se em torno de 400 milhões de dólares (436.000.000 de pesos chilenos; um peso chileno = 1,15 dólares em 1976). Só a generosidade do imperialismo mundial salvou a Junta da bancarrota. Em junho de 1976, o FMI aprovou uma ajuda de 79 milhões de pesos para compensar o déficit comercial de 1975. Em dezembro do mesmo ano, o Banco Mundial, a instâncias dos EUA e da República Federal Alemã, aprovou dois empréstimos, num total de 60 milhões de dólares, o quarto e quinto empréstimos desde o golpe de Estado. Em maio de 1976, um grupo de 16 bancos estadunidenses e canadenses concedeu um empréstimo de 125 milhões de dólares em três anos e meio. Em julho desse mesmo ano, o Banco Interamericano de Desenvolvimento aprovou outro empréstimo de 20 milhões de dólares, com um prazo de 20 anos. Em seus primeiros quatro anos, a Junta recebeu aproximadamente um bilhão de dólares em empréstimos de bancos privados americanos. Tudo isso contrasta com o boicote sistemático ao governo Allende pelo imperialismo mundial.

A atitude do imperialismo não é difícil de compreender. Assim que chegou ao poder, a Junta começou a destruir sistematicamente as conquistas da classe trabalhadora, devolvendo as fábricas nacionalizadas a seus antigos proprietários e as terras aos latifundiários. A política econômica da Junta é a da famosa “Escola Econômica de Chicago”, de Milton Friedman, que, entre outras coisas, defende a política de “portas abertas” às inversões estrangeiras. Novamente, o Chile se vê submetido à humilhação de uma dupla exploração: a dos capitalistas e latifundiários chilenos e a dos grandes monopólios norte-americanos.

Depois do golpe de Estado, Friedman visitou o Chile e recomendou friamente a redução em 20% dos gastos estatais e a demissão de funcionários públicos. Desvalorizou-se o peso. O custo de vida aumentou em 340,7% em 1975.

A política de “portas abertas” e as tentativas de atrair o capital estrangeiro conduziram ao enfrentamento com os demais países do Pacto Andino, que era uma tentativa de se proteger da exploração imperialista. O Chile o abandonou em outubro de 1976.

O “programa de austeridade” de abril de 1975 conduziu a uma situação verdadeiramente catastrófica. Segundo os números oficiais publicados em 1976, em 1975 o Produto Interno Bruto caiu 16,2% e a produção industrial 25%. A inflação cifrava-se em 340,7% (380% em 1974). No final de 1976, a inflação tinha baixado até 174,3%, mas esta melhoria relativa se devia, antes de tudo, à falta de demanda e à situação totalmente deprimida da economia.

Condições Insuportáveis

Em meados de 1976, segundo cálculos oficiais, o desemprego superava 23% (50% em alguns setores). As cifras do desemprego continuam muito altas, apesar da “recuperação econômica” dos últimos anos. Num informe datado de seis de julho de 1978, o presidente do Banco Central do Chile, Álvaro Bardon, tenta demonstrar que houve certa melhoria a este respeito. Ele dá as seguintes cifras do desemprego em Santiago, nos últimos anos:

– junho de 1972: 2,3%
– junho de 1973: 2,3%
– junho de 1974: 7,5%
– junho de 1975: 12,0%
– junho de 1976: 13,4%
– junho de 1977: 10,2%
– junho de 1978: 9,4%

… e acrescenta a seguinte divisão dos trabalhadores e desempregados por atividades, na grande Santiago, em junho de 1978:

Indústria ……….. 84.900 desempregados ……….. 325.000 ocupados
Construção …….. 25.900 desempregados ……….. 77.500 ocupados
Serviços ………… 3.500 desempregados …………. 20.000 ocupados
Outros ………….. 8.500 desempregados ………….. 5.300 ocupados

Este banqueiro conservador afirma, de maneira triunfante, que “aproximamo-nos dos níveis normais, como os de 1969”. Segundo dados publicados em uma pesquisa de um Departamento da Universidade do Chile, comparando dados de 1974 e 1977, o nível de desemprego aumentou de 9,7% a 13,2%, e os desempregados, de 6,1% a 9,9%. Não obstante isso, as cifras oficiais falsificam a autêntica realidade. Segundo um grupo de deputados do SPD alemão, que visitou o Chile recentemente, o autêntico nível de desemprego, neste momento, pode oscilar em torno de 30%, e não em 12-13% como diz o governo.

Uma coisa está fora de dúvida: a classe trabalhadora chilena vive em condições totalmente insuportáveis de miséria, fome e desemprego. A queda de setores da população em condições de subproletarização revela-se pelo aumento da prostituição e da mendicidade em todas as localidades do país. Todas as conquistas econômicas e sociais da Unidade Popular foram destruídas em 11 de setembro. O aumento constante da inflação (ainda que a um ritmo menos acelerado, pelas razões anteriormente explicadas) faz o custo de vida tornar-se insuportável para a classe trabalhadora.

Apesar de todas as medidas econômicas do governo, a economia chilena continua num beco sem saída. De fato, os “métodos de Chicago” agravaram a situação, aumentando o desemprego e a miséria, destruindo o mercado interno e minando a base da indústria nacional.

As perspectivas para a economia chilena não são nada favoráveis neste momento. O déficit comercial exterior era de 196 milhões de dólares no primeiro semestre de 1978, com um aumento das importações e uma queda das exportações. Os mercados mais importantes para as exportações chilenas são o Brasil, os EUA e a Argentina. Neste momento, o governo chileno está em conflito com todos estes países. No caso da Argentina, as tensões chegaram à ruptura de relações políticas e econômicas. A instabilidade da Junta traduz-se em uma crise de confiança da burguesia chilena, cujo reflexo mais claro foi a queda dos valores bursáteis em 2% em uma só semana de junho deste ano. Segundo o presidente da Bolsa de Santiago, em uma entrevista em La Segunda, o mesmo confessou que a queda da Bolsa foi “reflexo da situação política interna e externa de nosso país”. Tudo isso mostra o nervosismo dos capitalistas chilenos, sua falta de confiança e seu pessimismo quanto ao futuro.

O regime bonapartista de Perón na Argentina durou muitos anos e logrou conquistar uma base de apoio de massas, graças aos sindicatos peronistas e ao auge econômico do pós-guerra, que estimulou a demanda dos produtos argentinos (carne de vaca) nos mercados mundiais. Mas o regime de Pinochet surgiu, precisamente, no mesmo momento da recessão internacional e do colapso do preço do cobre. Os anos de 1972 a 1974 eram anos de altos preços para este produto. O preço do cobre caiu estrepitosamente em 1975 e 1976. Nos últimos dois anos tem ocorrido uma ligeira recuperação, sem, no entanto, atingir o nível anterior. O periódico londrino The Times (4/4/78) comenta:

“Em termos reais, as receitas do cobre estão em seu nível mais baixo e a primeira autêntica evidência de reduções massivas da produção estão agora surgindo à luz”.

Os principais países produtores de cobre, organizados na CIPEC, estão reduzindo a produção para manter os preços. Mas o Chile, o maior país exportador, negou-se a entrar na CIPEC. Vê-se que a Junta tem medo de uma redução drástica da produção de cobre, pelos efeitos sociais que poderia provocar. Os EUA continuam sendo o mercado mais importante para o cobre chileno. Paradoxalmente, os EUA, além de ser o país que mais importa cobre, é também o país que mais o produz. O problema é que o cobre “made in USA” é caro e pouco competitivo. Os monopólios do cobre, localizados nos EUA, estão pressionando Carter para restringir as importações de países do terceiro mundo. Estas tendências protecionistas terão conseqüências catastróficas para o Chile. A desvalorização, de fato, do dólar estadunidense, nos últimos meses, é uma medida protecionista disfarçada, que vai ter repercussões muito graves para as exportações e para a economia chilena em geral nos próximos meses.

Crise da Junta

Todo regime bonapartista tende necessariamente a expressar-se através do poder pessoal de um só homem, o “homem forte”, que representa a “Nação” acima de “interesses de classe ou partido”. As críticas de Leigh Guzmán ao caudilhismo de Pinochet explicam-se, em primeiro lugar, pelo descontentamento de um setor da casta militar, que se sente marginalizado do poder. Sua parte do “bolo” não corresponde as suas aspirações. Mas esta luta de bandidos entre diferentes camarilhas tem um alcance muito maior que o aborrecimento pessoal deste ou de outro militar da Junta.

Os elementos descontentes, aglutinados em torno de Leigh, tentam encontrar pontos de apoio na sociedade, aproveitando-se do descontentamento geral e dando a entender que sua oposição a Pinochet representa, de alguma forma, uma opção mais “liberal” dentro da Junta. Apesar de seu crescente isolamento, o Bonaparte chileno, rodeado por sua camarilha de vulgares arrivistas militares e aplaudido com força pelas massas de jovens bem subvencionadas, tem ilusões de grandeza. Pinochet vive em um mundo totalmente irreal, como um imperador romano, com seus sonhos de uma “nova institucionalidade” e de “uma democracia autoritária, protegida, integradora, tecnificada e de autêntica participação social”. Segundo a nova “Constituição Pinochet”, a volta à “normalidade” terá três etapas:

1. Recuperação (1973/80)
2. Transição (1980/84)
3. Normalidade ou Consolidação (1985)

Segundo este esquema, não haverá eleições presidenciais por voto popular até 1991! E ainda assim, o autêntico poder permaneceria nas mãos dos militares, os partidos “marxistas” continuariam proibidos e as atividades dos demais estariam muito restringidas.

Os representantes mais astuciosos da burguesia compreendem perfeitamente o enorme perigo que representa, para o capitalismo chileno, os sonhos de Pinochet. A crise econômica, as crescentes tensões sociais, a recuperação lenta, mas segura, da classe trabalhadora e a total carência de uma base social de massas da Junta preocupam profundamente à burguesia mais inteligente e, sobretudo, a Washington.

Os estrategistas do imperialismo norte-americano calculam de uma forma totalmente fria as possibilidades de sobrevivência do atual governo e as conseqüências de sua queda sobre os investimentos norte-americanos no Chile, que, depois do golpe, voltaram a ser importantes. Washington está preocupado pela situação em toda a América Latina. Os imperialistas têm seus agentes, no Chile, infiltrados em todos os níveis, até no próprio governo, e estão perfeitamente informados da situação interna. Sabem que, atualmente, a ditadura não tem apoio em nenhum setor importante da sociedade. Mantém-se somente pela inércia temporária das massas, deprimida pelos efeitos da crise econômica, da fome e da miséria. Mas o prolongamento da repressão pode provocar uma explosão revolucionária em determinado momento, que colocaria em perigo, não somente a ditadura, mas também a existência do capitalismo no Chile, com graves repercussões em todos os demais países da América Latina. Esta é a autêntica explicação da mudança da política exterior dos EUA e de seu interesse inesperado pelos “direitos humanos”.

O assassinato de Orlando Letelier serviu de desculpa a Washington para pressionar Pinochet, com a finalidade de obrigar-lhe a modificar sua política. Sem dúvida, a polícia política do regime (a DINA) tinha exagerado. Uma coisa é massacrar milhares de operários e camponeses no Chile, e outra, muito diferente, criar problemas para a Administração Carter, assassinando em plena luz do dia e no centro de Washington, a um ex-diplomata chileno que, além disso, gozava de boas relações com a Administração estadunidense.

Com grandes esperanças no apoio de Washington e de determinados setores da oligarquia chilena e da casta militar, Leigh se lançou à luta em 18 de julho, no periódico italiano Corriere della Sera. Lendo as entrelinhas desse artigo e outras declarações suas, vê-se claramente o medo do setor mais inteligente da burguesia com uma explosão no Chile, quando adverte que “existe o risco de que o povo busque vias de saída violentas para a situação atual” e afirma: “Já é tarde, mas é de todas as maneiras necessário um programa para o retorno à normalidade, indicando o tempo e a forma, tudo”. E Leigh propõe um período de transição de cinco anos (“não é possível uma passagem rápida ao poder civil”), defendendo a legalidade de partidos burgueses, como a Democracia Cristã e aqueles partidos dos trabalhadores que “agem à escandinava” (!).

O miserável fracasso dessa tentativa de uma “revolução palaciana” não demorou a produzir-se. A estupidez de Leigh deu a Pinochet o pretexto que necessitava para desembaraçar-se dele e concluir uma limpeza no alto comando das forças armadas chilenas. “Estou firme, muito firme, no governo”, afirmou Pinochet mais tarde. Mas o episódio Leigh tinha deixado explícitas as divisões e as tensões no seio da Junta. O nervosismo dos militares ficou demonstrado pelo fato de que as forças armadas e a polícia permaneciam aquarteladas em regime de tensão e que próximo ao Ministério da Defesa havia um forte cordão militar.

Alarmada pelas alterações no seio da Junta, a imprensa reacionária (El Mercúrio e La Tercera) clamou desesperadamente pela “unidade nacional”, insistindo numa “conciliação de alternativas dentro da junta de governo”. O sentimento de pânico nos círculos reacionários recolhe-se perfeitamente nas palavras de La Tercera: “Se a unidade não é mantida” – eles o sabem melhor que ninguém – “horas negras esperam o Chile. Todo o esforço realizado terá sido perdido”.

Não obstante isso, o espetáculo de uma luta no seio da Junta foi uma amostra muito clara da instabilidade do atual regime. Amanhã, inevitavelmente, surgirão novas crises, novas tensões e novas divisões, sob a pressão intolerável das contradições acumuladas da sociedade chilena.

Os porta-vozes da Junta insistem teimosamente na “absoluta tranqüilidade que existe no país”. A repressão diminuiu um pouco nos últimos meses. A DINA foi agora batizada com outro nome, a CNI (segundo seu diretor, o general Odlavier Mena, “basicamente, nesse aspecto, não são diferentes”) (!). Mas não é necessário se aprofundar muito para ver os primeiros sintomas de uma recuperação das massas, cinco anos depois do trauma de 11 de setembro.

Lenta Recuperação das Massas

A fermentação estudantil, o movimento cada vez mais aberto em favor dos direitos civis dos familiares dos desaparecidos ou o crescente distanciamento entre a Igreja e a Junta são sintomas claros de descontentamento generalizado no seio das massas. O efeito do terror e da repressão é cada vez menor. Se bem seja verdade que o medo ainda exista, já não é igual ao de antes. A situação pode mudar de forma inesperada. E, de fato, há sintomas – ainda não são mais que sintomas – de que a mudança está começando.

O regime bonapartista de Pinochet, que se baseia fundamentalmente no aparelho estatal, tenta ganhar certa independência, equilibrando-se entre as classes. Desta forma, Pinochet pretendia ganhar pontos de apoio nas massas, usando certas camadas da burocracia sindical. Depois do golpe de Estado, as velhas organizações sindicais foram ilegalizadas e seus dirigentes detidos ou assassinados. Não obstante, o movimento sindical seguiu existindo sob a Junta. O mero fato da existência dos sindicatos, ainda que com dirigentes sindicais nomeados pelos militares, é outra prova do caráter bonapartista do regime.

Pinochet tinha a idéia de um movimento sindical “domesticado”, mas, na atual situação de crise econômica, a tentativa se voltou contra seus autores. Os burocratas sindicais, além de atuar como agentes da Junta no seio do movimento trabalhador, também têm seus próprios interesses, que nem sempre coincidem com os do regime. Em condições de crise, e submetidos à pressão das bases, alguns desses elementos, começando como “interlocutores” ou “intermediários” entre o governo, os patrões e os trabalhadores, podem adotar posições de semi-oposição ou inclusive de oposição aberta.

Um dado muito significativo da situação no Chile é o alto nível de organização sindical, que segue existindo, apesar de tudo. Segundo os dados oficiais, no verão de 1978, havia mais de um milhão de trabalhadores filiados em 7.047 sindicatos, distribuídos da seguinte forma: 235 mil trabalhadores em 319 sindicatos industriais; 283 mil trabalhadores em 877 sindicatos de trabalhadores agrícolas; 495 mil, em 4.144 sindicatos profissionais; e 13 mil em 207 sindicatos de empregados agrícolas.

A velha organização unitária dos trabalhadores, a CUT, deixou de existir no mesmo dia do golpe, salvo como um aparelho burocrático. A Junta colocou como dirigentes sindicais a uma série de democratas cristãos de direita, os quais defendiam a Junta e sua política sindical diante da OIT e das organizações sindicais mundiais. Mas o controle da burocracia sindical, e, portanto, da Democracia Cristã, só existia na cúpula. A Junta não foi capaz de destruir as organizações dos trabalhadores em âmbito local. E, apesar de tudo, o nível de filiação não diminuiu de forma significativa. Antes do golpe, a CUT tinha 1.800.000 filiados. Calcula-se que, agora, entre as diferentes organizações sindicais, pode haver até 1.200.000 filiados. O enorme perigo que isto pode representar para a Junta em um momento determinado foi explicitado por Nicanor, ex-ministro do Trabalho, quando comentou que “os trabalhadores não têm o que comer e há um milhão de sindicalistas”.

Descontentamento Trabalhista

Um claro sintoma da recuperação de ânimo da classe trabalhadora foram as mobilizações que tiveram lugar em 10 de maio deste ano. Apesar da proibição governamental, os sindicatos conseguiram concentrar em Santiago 30 mil trabalhadores. Celebraram-se assembléias nas fábricas e outros atos em diversos lugares do país.

Apesar das enormes dificuldades para organizar uma greve no Chile, há agitação dentro das fábricas. Houve paralisações de cinco a dez minutos para pressionar os patrões. Pouco a pouco se perde o medo. Os trabalhadores se tornam mais audazes e preparam novas formas de luta e de protesto. Na mina de Chichiquemata, no norte, organiza-se uma “greve de fome”: os trabalhadores negam-se a comer nos refeitórios da empresa. Esta forma de protesto estende-se a El Teniente, uma mina chave onde, durante meses, tem ocorrido uma fermentação entre os trabalhadores, como recolheu a imprensa: “há inquietação econômica em El Teniente (…) porque faz cinco anos e meio que estamos sem convenção coletiva” (revista Hoy). “Em dois de novembro de 1977, mil e duzentos dos quatro mil trabalhadores de El Teniente não se apresentaram ao trabalho. Dias antes tinham sido distribuídos panfletos e apareceram palavras de ordem nos muros, convidando a não trabalhar no dia 2” (Revista de América Contemporânea, no 7, dezembro 1977, p. 21). Esta situação forçou os patrões a conceder a antecipação de um bônus de produção correspondente a dezembro. Ao mesmo tempo, foram despedidos 49 mineiros, “ante a indiferença da Confederação dos Trabalhadores do Cobre”.

A mesma fonte informa que “numa assembléia de três mil trabalhadores do sindicato Sevell y Minas, realizada em meados de novembro, pediram a demissão do presidente do sindicato por suas declarações justificatórias diante dos patrões”.

Estes dados revelam claramente o início de um processo de reativação do movimento sindical. As condições intoleráveis da classe trabalhadora, com uma taxa de inflação que oficialmente superou 60% em 1977, provocam uma atitude cada vez mais crítica da burocracia sindical. Muitas famílias operárias só podem comer uma vez ao dia. Os trabalhadores e suas famílias sustentam-se com chá e pão. O desespero converte-se em rebeldia, como revela o caso de El Teniente. Em vão, os burocratas do sindicato do cobre (cujo líder, Guillermo Medina, é membro do Conselho de Estado) se opuseram à greve, alegando que “o ocorrido no dia 2 é o resultado da ação de ativistas políticos que se aproveitam do descontentamento dos mineiros”. Em vão são feitas represálias contra os dirigentes locais dos trabalhadores, com demissões e desterros a lugares remotos.

O descontentamento trabalhista estende-se a outros setores, como o dos estivadores portuários que, praticamente ao mesmo tempo, organizaram uma operação tartaruga que chegou a reduzir a produtividade do porto de Valparaíso em 50%.

A fermentação na base e o descontentamento generalizado dos trabalhadores começam a ter repercussões no seio da própria burocracia. Numa reunião no Teatro Caupolicán, de Santiago, durante uma comemoração, os dirigentes da Federação de Trabalhadores da Construção, Carpintaria e Edificação, expressaram o descontentamento da base: “com 1.411 pesos, que é o mínimo de um diarista, temos dinheiro para dois quilos diários de pão; numa família de cinco a sete pessoas, ter-se-ia de gastar a metade unicamente em pão”. (Revista de América Contemporânea, p. 21).

Por outro lado, a penosa situação dos trabalhadores fica evidente no fato de que 10% das mortes no país se devem a acidentes de trabalho, de trânsito e caseiros. Este nível é um dos mais altos na América Latina.

O descontentamento das massas chega a ter eco inclusive nas páginas da imprensa burguesa. Em 17 de julho de 1978, La Tercera denunciou a perseguição dos trabalhadores da mina El Salvador. Segundo Bernardino Castillo, presidente da Confederação dos Trabalhadores do Cobre: “Não somente os gerentes médios, como também outros superiores, estão perseguindo sistematicamente os trabalhadores do cobre, humilhando-os, procedendo a dispensas arbitrárias, violando disposições legais e negando-se a aceitar propostas trabalhistas justas”.

Medo da Burguesia

Castillo acrescenta: …“decidi defender os direitos dos membros da Confederação (!), afrontando todas as conseqüências. Não me importam em absoluto as medidas que podem adotar contra mim. No momento, os trabalhadores mantêm a calma, mas me manifestam diariamente seu mal-estar e sua inquietação”. (La Tercera, 17/7/78).

Nestas poucas palavras vêem-se todas as pressões da base operária sobre a burocracia sindical, que, quando se vê obrigada a distanciar-se da Junta e dos patrões, faz uma série de advertências. Da mesma forma que em El Teniente, também em El Salvador houve uma greve em novembro de 1977, disfarçada de “absenteísmo laboral”, por questões econômicas e maus tratos infligidos pela gerência. La Tercera “simpatiza” com os trabalhadores, afirmando que os gerentes “estão desafiando diretamente a posição das autoridades (!) sobre a matéria” e que “com suas atitudes erradas somente contribuem para provocar intranqüilidade social”.

Tal “benevolente interesse” pelos problemas dos mineiros revela o medo crescente da burguesia ante um possível ressurgimento do movimento dos trabalhadores, especialmente no setor do cobre, que representa 60% das receitas em divisas para o orçamento nacional. Esta é a causa das petições da imprensa burguesa ao governo para que “investigue as denúncias trabalhistas”, para evitar qualquer perspectiva de conflito.

O medo da burguesia estende-se à Junta. Não por casualidade, desde o primeiro momento, Leigh Guzmán centralizou suas críticas ao governo na política econômica. Já em agosto de 1975, Leigh se queixou de que a política econômica da Junta estava “causando sofrimentos intensos nas classes mais desfavorecidas (…) O custo social desta política supera o que eu esperava. O desemprego está alcançando níveis mais altos que os previstos e as classes mais pobres sofrem de forma intensa”.

Não há dúvidas de que as lágrimas deste militar reacionário não são provocadas por nenhum sentimento de culpa e sim pelo medo das conseqüências sociais que esta situação pode provocar. O próprio Pinochet convocou reuniões com os burocratas sindicais repetidas vezes este ano, para inteirar-se da situação e tentar encontrar uma saída.

Por seu lado, a burocracia sindical ficaria encantada de poder chegar a um entendimento com o governo e os patrões. Mas a situação catastrófica do capitalismo chileno não lhe deixa margem de manobra suficiente. Os empresários não estão dispostos a fazer concessões; os trabalhadores e suas famílias não estão em condições de agüentar mais. Esta é uma receita pronta e acabada para uma explosão social.

Os dirigentes sindicais dos funcionários públicos qualificam de “insuficiente” o aumento salarial de 10%. Insistem na urgência de sua petição “porque a situação econômica dos empregados fiscais é difícil”. O presidente da Fentena (Federação Nacional de Trabalhadores Eletrometalúrgicos e Automotrizes), numa carta dirigida a La Tercera (10/7/78), atribui a redução do poder aquisitivo “à falta de negociação coletiva com os empresários e às facilidades para despedir pessoal”. Nesta carta, Castro também descreve de forma realista os efeitos da política econômica da Escola de Chicago e a “porta aberta”, quando assinala que “… as importações massivas em detrimento da indústria nacional e a deterioração do poder aquisitivo são os fatores básicos do desemprego e da recessão econômica. Fentena tem sido um dos mais prejudicados, passando de 12 mil filiados, em 1973, a somente 7 mil, em junho de 1978. O desemprego se deve à redução de empresas montadoras (de 14 a 3, atualmente) e à rebaixa dos impostos alfandegários de importadores das eletrônicas”.

Acordo Impossível

No dia 28 de junho, a Federação Nacional de Comércio (Fenatrobeco) enviou a Pinochet uma carta solicitando o restabelecimento das “conquistas trabalhistas obtidas após longos anos de luta”, desfeitas por um decreto-lei publicado pouco antes, que, como se diz ingenuamente na carta, “não concorda com o que você reiterou em várias oportunidades, de que se respeitarão todos os direitos adquiridos pelos trabalhadores”.

O problema para a burocracia sindical é que não é possível chegar a um acordo com o governo e os capitalistas na atual situação de crise. Os dirigentes sindicais vêem-se obrigados a enfrentar a ditadura, em parte devido à pressão da classe trabalhadora, que começa a despertar para a luta, em parte para defender seus próprios interesses. Por exemplo, a utilização de decretos-lei no terreno sindical torna ilusória e desnecessária a existência da burocracia sindical, pois lhe priva de seu papel de “intermediários”. Esta é outra das razões da onda de protestos enviados a Pinochet pelos dirigentes sindicais nos últimos meses. Por isso, a Coordenadoria Nacional Sindical (CNS), que antes tinha relações privilegiadas com a Junta e “representava” a mais de um milhão de sindicalistas chilenos, viu-se obrigada a rechaçar as modificações introduzidas pelo decreto-lei no 2.200, de 15 de junho, por considerá-las “regressivas e contrárias aos interesses trabalhistas”. A burocracia da CNS enviou uma carta ao ministro do Trabalho, datada de sete de junho, assinada, entre outros, pelos presidentes do sindicato único nacional gráfico, dos pintores, da Confederação “Unidade Operário-Camponesa”, dos metalúrgicos e dos mineiros, que diz textualmente: “rechaçamos categoricamente essas normas, uma vez que constituem um novo desmentido às promessas de respeito aos direitos adquiridos dos trabalhadores (…) Não podemos aceitar a eliminação da garantia do emprego, uma vez que deixa o trabalhador atado de mãos e pés, para decidir entre a exploração descarada ou a demissão sem dificuldades (…) dessa forma, começou-se a aplicar o Plano Kelly sobre o desemprego, proposto pelo governo algum tempo atrás e que foi rechaçado por todos os setores do movimento sindical, inclusive por aqueles que são próximos do governo”.

Da mesma forma, manifestaram que, com o encerramento do convênio coletivo “perdemos tudo o que se havia conquistado durante anos” e que, para enfraquecer a organização sindical, “limitam-se os direitos dos dirigentes, em termos que os fazem ilusórios”.

No que se refere ao aumento salarial de 10% no mês de julho, anteriormente mencionado: “reiteramos que os reajustes não compensam a alta real do custo de vida e os trabalhadores não podemos prosseguir subsistindo com os salários de fome que ganhamos e que atentam contra nossa dignidade de seres humanos”.

E, finalmente: “porque a situação faz-se insustentável (…) brevemente, apresentaremos ao governo um documento que conterá as petições que consideramos indispensáveis à sobrevivência da classe trabalhadora, entre elas um aumento substancial das remunerações dos trabalhadores, empregados e profissionais que representamos”.

A crise aberta entre Pinochet e os líderes sindicais “respeitáveis” de tendência democrata cristã, que até pouco tempo atrás se contavam entre os mais fervorosos aderentes ao governo militar, é um claro sintoma do crescente isolamento da Junta. A crise econômica, o desemprego, a fome e a miséria, agravados pela aplicação rigorosa da loucura de Milton Friedman, serviram para polarizar a toda a classe trabalhadora, ao campesinato e a grandes setores da classe média contra o governo. Somente a inércia temporária das massas mantém Pinochet no poder. Mas, já se vê claramente como o processo molecular de tomada de consciência da classe trabalhadora vai acumulando forças sob a aparência superficial de “calma e tranqüilidade”. O distanciamento cada vez maior entre a Junta e os burocratas sindicais, a Igreja, a Democracia Cristã etc., é um claro sintoma deste processo, que ameaça, em um momento dado, com uma nova erupção de protesto generalizado.

A Democracia Cristã

Se a situação dos trabalhadores é penosa, a dos camponeses e de suas famílias é mil vezes pior. A reforma agrária foi sistematicamente minada pela Junta, que devolveu as melhores terras expropriadas aos antigos latifundiários.
“Até 31 de julho de 1976, dos 5.809 imóveis expropriados, com uma superfície de 9.965.868 hectares brutos, equivalentes a 895.752 hectares irrigados, foram devolvidos integralmente a seus antigos proprietários 1.415 imóveis, com 1.992.217 hectares brutos, equivalentes a 177.775 hectares irrigados, e, além disso, foram feitas devoluções parciais de 2.109 imóveis com 649.159 hectares brutos, equivalentes a 104.959 hectares irrigados; conseqüentemente, foi devolvida, no total, até 31 de julho de 1976, uma superfície de 2.641.377 hectares brutos, equivalente a 222.736 hectares irrigados, pouco mais de 25% de toda a terra expropriada pela reforma agrária durante os governos de Frei e Allende”. (Chile-América, nov. 1976 – jan. 1977, p. 35).

Segundo Enrique Mellado, presidente da Confederação “O Triunfo Camponês”, de tendência democrata cristã, inclusive os camponeses que continuam donos da terra vivem mal: “Ficaram apenas com a terra nua. Sem animais, sem maquinaria. Têm muito pouco para obter adubos, sementes, fertilizantes, pesticidas e o sustento diário. As famílias do setor reformado apenas conseguem sobreviver. Há pessoas que dizem que ninguém morre de fome no campo porque há de tudo. A verdade é que se coletou um ou outro produto e ninguém pode seguir vivendo comendo batatas durante todo o ano”.

Questionado sobre os assalariados do campo, Mellado responde: “Eu diria que é o setor que está pior no país. Ganham o mínimo estabelecido por lei: 600 pesos aproximadamente”.

E, sobre o desemprego no campo: “Nas pesquisas oficiais de desemprego, a agricultura aparece englobada em outros setores e não se pode, portanto, precisar em que grau o desemprego afetou aos trabalhadores agrícolas. Há desempregados no campo? Claro que sim, e o impacto mais forte o sofreu o setor reformado, devido ao sistema de propriedade que o governo está implantando. A terra que se divide é, necessariamente, insuficiente para as pessoas que trabalham. 25% dos trabalhadores agrícolas, no mínimo, ficam sem trabalho”.

E que faz um camponês desempregado? “Fica sem terra e sem casa. Trabalha no pior emprego e se protege junto aos parentes mais próximos”.

E, continuando, este dirigente camponês democrata cristão faz uma observação muito significativa:

“O que acontece é que os patrões voltaram a segurar a frigideira pelo cabo e o governo não fez nada para evitar isso. Então, para que e para quem foi realizado o pronunciamento militar? Para mim, significava justiça para todos”. (Chile-América, p. 36).

A política econômica do governo fracassou também na agricultura. Segundo a revista Ercilla (20/9/76), que cita cálculos de diversos especialistas, a produção agrícola caiu de forma drástica depois do golpe de Estado:

“Fixando a base 100 em 1971, a de 1974 seria 81,6; a de 1975, 83,4; e a de 1976 desce a 73,8. De modo que a produção agrícola por habitante, em 1976, seria 10% inferior a de 1975 e 26,4% inferior a de 1971. Isso num país ‘pacificado’, sem ‘conflito de classes’ e sem greve de caminhoneiros”. (Chile-América, p. 37).

A tentativa de aplicar os métodos da “livre empresa” e de “porta aberta” significou a depauperação de amplos setores da classe trabalhadora e do campesinato, e, inclusive, a ruína para certos setores da própria burguesia. A incapacidade dos capitalistas chilenos de competir com a avalanche de importações estrangeiras provocou uma série de fechamentos de fábricas. Inclusive alguns setores dos grandes agricultores sofreram os efeitos de tal política. Domingo Durán, dirigente dos grandes proprietários de terra do sul do Chile, disse que a política do ministro da Fazenda “levaria à ruína a agricultura nacional”, e esclareceu que “a liberação da importação de vinho argentino pelo Banco Central significa a abertura para uma política que conduz a um sério colapso de nossa agricultura”.

O profundo descontentamento das massas de operários, camponeses e pequenos proprietários vê-se refletido na mudança de atitude da hierarquia da Igreja e da Democracia Cristã face ao regime. Antes, durante e depois do golpe de Estado, a hierarquia eclesiástica pôs-se abertamente ao lado da reação. Em 28 de setembro de 1974, um ano depois do golpe, quando a repressão, a tortura e os massacres estavam no auge, o comitê permanente do Episcopado do Chile, dirigido pelo Cardeal Raúl Silva Henríquez, ofereceu à Junta sua “cooperação no desenvolvimento espiritual e material do Chile”, afirmando a vontade da Igreja chilena de participar na “pacificação espiritual” do país. Mas, sob a pressão das massas de trabalhadores, camponeses e camadas médias, a Igreja viu-se obrigada a distanciar-se cada vez mais da ditadura, fazendo críticas, não somente com referência aos desaparecidos e detidos, mas também à política econômica do governo. O Vicariato da Solidariedade foi acusado de recolher fundos para financiar greves. A heróica campanha conduzida pelas famílias dos desaparecidos é outro sintoma de que o medo à repressão está diminuindo pouco a pouco. No dia 19 de julho de 1978, celebrou-se em pleno centro de Santiago uma manifestação pacífica a favor dos direitos humanos, da democracia e da liberdade. A manifestação de cerca de uma centena de jovens universitários dissolveu-se rapidamente sem que tivesse ocorrido a intervenção por parte dos carabineiros.

A crescente oposição das massas, a fermentação das camadas médias e os claros sintomas de divisão e debilidade no seio da Junta permitem aos liberais burgueses levantar um tímido e embargado protesto contra os “excessos” da ditadura. Num discurso, em 1 de julho de 1978, o presidente da Associação Nacional de Imprensa permitiu-se ao luxo de expressar um morno protesto contra a censura: “A imprensa não devia ser controlada por leis especiais. A situação em que, atualmente, vive o país não justifica a existência de algumas disposições restritivas”.

Esta situação também explica a mudança de posição da Democracia Cristã. Este partido dos exploradores, formado por políticos da camada média, faz o jogo de situar-se, em tempos “normais”, entre os “conservadores”, por um lado, e os “marxistas”, por outro. Como vimos antes, seu papel é o de enganar e confundir aos milhões de camponeses, pequenos comerciantes e operários politicamente atrasados, para mantê-los sob o domínio do grande capital.

O papel completamente contra-revolucionário da DC foi suficientemente revelado por sua atitude com relação ao governo Allende. Na primeira etapa, os parlamentares democratas cristãos atuaram como o braço “respeitável” dos grupos fascistas, boicotando sistematicamente ao governo da UP. O voto de censura do Congresso contra o governo Allende facilitou enormemente a tarefa da contra-revolução, dando luz verde a Pinochet, pois, assim, tinha um pretexto “constitucional” para intervir.

Depois de 11 de setembro, os dirigente democratas cristãos esperavam que os militares agradecessem por sua ajuda. Desgraçadamente para eles, há muito pouca gratidão em política. Destruído o velho equilíbrio e com uma ditadura feroz instalada no poder, os serviços dos “intermediários” democratas cristãos não mais eram interessantes. Apesar de todas as suas tentativas de aproximar-se da Junta, Pinochet ria-se abertamente deles, qualificando-os, não sem razão, de “políticos afastados do poder que agora pretendem manter-se flutuando”.

Pouco a pouco, a repressão começou também a alcançar aos democratas cristãos, ainda que, naturalmente, não da mesma maneira que aos operários e camponeses. A estes senhores não se fuzilava nem torturava. Simplesmente os “afastaram do poder”. Perderam seus mandatos e sua situação privilegiada na vida política. No máximo, alguns deles sofreram o desterro, relativamente cômodo, no interior do país.

Uma vez rechaçados seus serviços, a obsessão comum dos dirigentes da DC foi a de se voltar o quanto antes à “normalidade”, ou seja, ter novamente seus focinhos metidos no cocho temporariamente ocupado por outros. Além disso, esses vigaristas perceberam que o regime de Pinochet não podia durar para sempre e que qualquer pessoa comprometida com ele perderia toda credibilidade junto às massas. Uma velha raposa como Frei compreendeu que, mesmo sendo hoje supérfluos seus serviços para a burguesia, amanhã, após a queda de Pinochet, iam se tornar mais necessários que nunca. Por isso, profissionais cínicos como ele estão procurando seu novo “certificado de boa conduta democrática”, pensando no futuro.

Em 13 de julho de 1978, Frei publicou nas páginas do semanário Hoy um artigo intitulado “O Retorno da Democracia”, em que adverte à classe dominante dos perigos, potenciais para ela, da continuação do regime ditatorial. Analisando a experiência de Portugal, Alemanha, Itália e Espanha, chega à conclusão de que “todos os esforços para destruir ou aniquilar as forças políticas resultaram estéreis” e que “enquanto mais se prolonguem, mais vigorosas renascem as forças democráticas antagônicas ou as que melhor trabalhem na clandestinidade”.

Com estas palavras, o dirigente da DC quer advertir aos capitalistas e grandes proprietários de terra chilenos que a ditadura não serviu para destruir o movimento operário, mas sim para radicalizá-lo cada vez mais, empurrando as massas para o lado de “forças democráticas antagônicas” (?) ou “as que melhor trabalhem na clandestinidade”, que não são precisamente os líderes “moderados” da DC ou da social-democracia.

Os “bons conselhos” de Frei

No mesmo artigo, Frei adota sua posição de sempre, de “interlocutor entre as classes”: “O retorno à democracia não somente é impedido por seus inimigos confessos e declarados, mas também por setores do país que, acreditando no regime democrático, temem que este signifique uma volta ao passado e a repetição dos erros básicos que ocasionaram sua queda (…) por outro lado, setores que pertencem ao governo temem que sua saída provoque um clima de perseguições, revanchismo e ódios contra eles”.

Frei pretende tranqüilizar a burguesia que, mesmo podendo prescindir dos serviços de Pinochet, que a cada dia se tornam inócuos, está atemorizada pela idéia de uma nova edição do governo Allende, com novas nacionalizações e expropriações de terras, com a conseqüente radicalização das massas. Por outro lado, este grande representante da moralidade cristã assegura aos torturadores, violadores e assassinos da Junta que não se pretende absolutamente criar um clima de “perseguições, revanchismo e ódios contra eles”. Em outras palavras, o retorno à “democracia”, propugnado pela DC, significa, em primeiro lugar, uma garantia firme de respeito à propriedade dos grandes monopolistas e dos latifundiários, além de um perdão geral para todas as bestas fascistas que, durante os últimos cinco anos, converteram o Chile num inferno para as famílias operárias e camponesas.

Hipocrisia dos democratas cristãos

Enquanto Frei dá seus “bons conselhos” à oligarquia e à Junta, seu partido predica às massas oprimidas, com um autêntico espírito de Pôncio Pilatos: “A DC, inspirada na não violência [também no 11 de setembro?] empurra os chilenos a restaurar as instituições democráticas básicas [em primeiro lugar, o “pão de cada dia” do grupo parlamentar democrata cristão] e a construir uma perspectiva de convivência sem ódios nem vinganças [isto é, detêm-nos, matam-nos com balas e com a fome e nós devemos esquecer]”.

Este tipo de declarações deveria encher de indignação a qualquer operário. Não obstante isso, parece que há certos dirigentes do movimento operário que levam as palavras de Frei e companhia muito a sério. Os dirigentes do Partido “Comunista” do Chile, ainda que pareça mentira, têm como ponto fundamental de sua estratégia para o Chile uma aliança… com a Democracia Cristã.

Os dirigentes do PCCH, e seus amigos no Kremlin, têm um enorme interesse em limpar a imagem “democrática” dos democratas cristãos. Nos últimos cinco anos empregaram seus consideráveis meios de propaganda para evitar que o movimento operário, tanto no Chile como internacionalmente, tirasse as conclusões corretas da experiência do governo da UP. A Rádio Moscou, através de seu programa “Escuta, Chile”, faz esforços tremendos para pintar os democratas cristãos com as cores mais atraentes.

Graças a isso, os democratas cristãos conseguiram conquistar pontos chave no movimento sindical no Chile depois de 11 de setembro. A direção do PCCH considera a esta gente como “aliados democráticos” na luta comum contra Pinochet. Mas, que atividades concretas realiza esta gente? Uma entrevista de Frei com a Comissão de Direitos Humanos da ONU! Este tipo de atividade não supõe muitos problemas para um político “responsável”. Os militantes socialistas e comunistas sofrem nos campos de concentração, os operários e camponeses morrem de fome e os mineiros lutam heroicamente contra o governo e os patrões. E Frei senta-se num cômodo escritório em Santiago para uma breve conversa com os senhores da ONU. E esta é a proposta de união de trabalho entre a classe operária e os políticos liberais da burguesia! Da Venezuela, a Democracia Cristã faz apelos para a criação de um “movimento nacional para a restauração da democracia”. Mas, ao mesmo tempo, propõe uma transição gradual, sem “métodos armados, conspiradores ou clandestinos”. Esta é a tônica geral da DC.

Uma coisa está clara: se dependesse somente destes senhores, a ditadura de Pinochet duraria até o ano 2000. E, não obstante isso, uma grande parte dos antigos dirigentes da UP, sobretudo os dirigentes do mal chamado Partido Comunista, insiste numa aliança com a DC, como a única forma de acabar com a ditadura. Tiraram as conclusões mais errôneas da experiência da UP. São como os Bourbons na França, que não aprenderam nada e esqueceram tudo. A linha que propõem – mil vezes pior que a política anterior – somente conduziria a novos fracassos e novas derrotas sangrentas para a classe trabalhadora chilena.

Uma alternativa social-democrata?

Um dado muito positivo na atual situação do Chile é que o Partido Socialista, que conseguiu se renovar no interior do país depois do 11 de setembro, sentiu a necessidade de uma política de independência de classe, baseada nas melhores tradições do PSCH, expressa na palavra-de-ordem do Partido: “Fé em nós mesmos”.

Ainda que ninguém possa fazer previsões exatas de quando vai acontecer, a queda de Pinochet e um novo período de mobilizações de massas são inevitáveis. Precisamente porque compreendem isto, os estrategistas da burguesia e do imperialismo, que durante os últimos cinco anos mantiveram seu domínio através dos métodos fascistas de Pinochet, estão preparando uma alternativa por meio de Frei e da DC, cujo papel será o de manter o poder e os privilégios dos grandes proprietários de terra, dos banqueiros e dos capitalistas, mas com outros métodos.

A atual direção do PSCH insiste, com razão, na necessidade de uma frente única dos trabalhadores, como a única maneira de levar a termo a transformação socialista da sociedade. Diferentemente, os líderes do PCCH e alguns dos antigos dirigentes socialistas, fortemente ligados a este partido, insistem em que a tarefa imediata do movimento operário chileno é a conquista das liberdades democráticas e não a revolução socialista e que, portanto, é necessário aliar-se com os setores “progressistas” da burguesia e, em primeiro lugar, com a DC. Como se fosse possível construir uma muralha chinesa entre a luta contra a ditadura e a luta contra a oligarquia que a sustenta! Toda a história do Chile mostra que a luta contra a Junta Militar, se é levada até as últimas conseqüências, necessariamente implica também numa luta contra os interesses econômicos que a sustentam no poder: os grandes proprietários de terra, os banqueiros e os grandes monopólios. Em outras palavras, uma luta revolucionária contra o capitalismo.

A idéia confusa de alianças com os capitalistas “bons” contra os capitalistas “maus” origina-se da incompreensão do caráter de classe da sociedade. Não se trata somente do que dizem os dirigentes dos diferentes partidos políticos, e sim os interesses de classe que estão por trás deles. Apesar do enfrentamento entre eles, Frei e Pinochet servem ao mesmo amo: o grande capital e o imperialismo. A burguesia não tem preconceitos sobre que sistema de governo é o melhor. É muito flexível em seu modo de dominar a classe operária. Ás vezes, convém-lhe a “democracia”, e, por isso, mantém seus serviçais “democráticos”. Em outros momentos, é-lhe mais conveniente a ditadura, e, para isso, aí estão os Pinochet e os Videla. Aos banqueiros e capitalistas estas mudanças pouco lhes importam desde que mantenham seu poder e seus privilégios.

A atitude dos socialistas chilenos com relação aos pactos com os partidos burgueses “democráticos” é uma questão vital para o futuro do movimento operário. Qualquer ambigüidade ou falta de clareza sobre este ponto, nestes momentos, pagar-se-á mais tarde com sangue, suor e lágrimas.

Num país como o Chile, está claro que o proletariado não somente tem a possibilidade, como também tem o dever de formar frentes de ação comum com outros setores oprimidos da sociedade, fundamentalmente com os camponeses pobres e as massas oprimidas da pequena burguesia. Mas, daí a propor alianças, inclusive conjunturais, com uma inexistente “burguesia progressista”, há uma grande distância. A maioria imensa dos camponeses e pequenos comerciantes sofrem sob a exploração e a opressão dos bancos e dos grandes monopólios. Precisamente por isso, estes setores são os aliados naturais da classe operária. Diferentemente, os supostos setores “progressistas” da burguesia, isto é, os liberais e democratas cristãos, são nada mais nada menos que a bota esquerda do grande capital.

Instabilidade da Junta

Entrando em alianças, mesmo conjunturais, com esses elementos, estaríamos dizendo aos camponeses e pequenos comerciantes: “Esta gente agora é nossa aliada. Podeis esquecer o que fizeram antes. Tudo foi um pequeno mal-entendido. Mas, agora, estão no bom caminho e podeis confiar neles”. Mas, o que deveríamos dizer é exatamente o contrário: “Estes são homens que ajudaram Pinochet a subir ao poder. Suas mãos estão manchadas do sangue de operários e camponeses. Agora querem enganar-nos mais uma vez. São os representantes mais sutis, mais demagógicos e, portanto, mais traiçoeiros, dos bancos e dos monopólios. Se quereis lutar pelo pão e pela liberdade, recusai seus oferecimentos e confiai somente em vossas próprias forças”.

Somente assim os socialistas chilenos ajudarão aos operários e aos camponeses a compreender o autêntico papel da DC. Somente se pode lutar pela hegemonia política no seio das camadas médias, lutando-se fervorosamente contra as tentativas dos liberais de seduzir as massas da pequena burguesia com sua propaganda hipócrita e traiçoeira.

O regime atual é muito mais instável do que pode parecer à primeira vista. Precisamente por isto explica-se a tentativa por parte de Washington de distanciar-se de Pinochet. Os estrategistas do imperialismo não têm a mínima confiança na capacidade de sobrevivência da Junta. O atual conflito com a Argentina sobre o canal de Beagle é uma amostra clara desta instabilidade. Através de um enfrentamento com o governo militar de Buenos Aires, Pinochet tenta desviar a atenção das enormes contradições internas da sociedade chilena. Sem dúvida que a região disputada tem um considerável interesse para ambos os países. Mas também é verdade que a Pinochet interessa utilizar a questão da mesma maneira que Franco utilizava a questão de Gibraltar, como uma forma conveniente de afastar a atenção das pessoas da crise interna e tentar fomentar um falso sentimento de “solidariedade nacional frente ao agressor externo”. Por outro lado, ambos os regimes devem estar tremendo ao pensar na possibilidade de que o atual enfrentamento belicoso se converta num conflito militar de verdade. Dada a correlação de forças, não resta dúvida de que uma guerra entre o Chile e a Argentina (que não se pode excluir como uma possibilidade teórica, mesmo que pareça pouco provável, salvo numa situação crítica em Santiago) seria de curta duração e acabaria com a derrota do Chile. Como disse El País (13/12/78): “em dotação humana, a diferença a favor da Argentina é notável”:

País …………………………… Argentina ……………………. Chile
Exército ……………………….. 80 mil homens ……………….. 50 mil homens
Marinha ……………………….. 32,9 mil homens …………….. 24 mil homens
Aeronáutica ……………………. 17 mil homens ………………. 11 mil homens
Total …………………………… 129,9 mil homens ……………. 85 mil homens

As tensões entre os dois países aumentaram consideravelmente, com uma guerra comercial já em marcha. Mas, além do conflito com Buenos Aires, o Chile tem também disputas territoriais com o Peru, a Bolívia (que rompeu as relações diplomáticas com o Chile, alegando que o governo de Santiago não tinha mostrado “suficiente flexibilidade” para facilitar à Bolívia o acesso ao Pacífico) e inclusive com o Brasil, pelo Alto Paraná. Por todas essas razões, a Junta está brincando com fogo no conflito com a Argentina, como mostram as seguintes palavras de uma porta-voz da Junta: “Posso-lhe dizer que seria uma loucura, porque ninguém ganharia, significaria a destruição dos povos sem nenhuma vantagem. Assim, não ganha a Argentina, nem o Chile”.

Uma guerra entre o Chile e a Argentina, com a possibilidade de uma intervenção armada por parte do Peru e da Bolívia, para recuperar seus territórios perdidos, efetivamente seria uma loucura ou, melhor dizendo, uma catástrofe, com repercussões muito graves para toda a América Latina. O imperialismo norte-americano faria todo o possível para evitá-la. Não obstante isso, não se pode esquecer que uma “loucura” semelhante, a intervenção dos coronéis gregos em Chipre, provocou a queda da Junta militar em Atenas. Nos últimos meses, segundo a revista norte-americana Business Week, a Argentina e o Chile gastaram cerca de 2.000 milhões de dólares em preparativos bélicos. Pode ser que ambas as partes interessem-se por manter um clima de tensão permanente, por motivos políticos e como pretexto para justificar as enormes quantidades de dinheiro desperdiçadas por suas respectivas forças armadas. De qualquer forma, um conflito armado, por breve que fosse, significaria o colapso de Pinochet.

Por todas essas razões, a Administração Carter está intensificando sua tentativa de encontrar uma alternativa “democrática” a Pinochet, que salvaguarde os interesses do imperialismo norte-americano no Chile. Os dirigentes democratas cristãos, e inclusive alguns dos antigos dirigentes da UP, estão olhando para Washington para solucionar todos os seus problemas. Por exemplo, Benjamin Teplizki, do Partido Radical, secretário do “Comitê Chile Democrático”, disse à imprensa que acreditava que “a Junta estava vendo a possibilidade de uma retirada negociada, tendo como interlocutores a burguesia chilena e setores, é claro (!) dos EUA”.

Parece que há gente que nunca aprende. Pinochet somente considerará a possibilidade de uma “retirada” – negociada ou não – quando o movimento das massas o obrigue a sair. Por seu lado, apesar de sua crescente preocupação, Washington não tem nenhuma pressa em derrubar Pinochet, ainda supondo que estivesse em condições de fazê-lo. Mas, é verdade que duvida da possibilidade de manter a situação sob controle com os brutais métodos de antes. Dentro de algum tempo – um, dois ou três anos, dependendo da situação do país, do ressurgimento do movimento operário, das divisões no seio da Junta, de uma aventura militar – vai necessitar de uma mudança. Por isso, todos os políticos “liberais” e “social-democratas” correm a Washington para oferecer seus serviços.

É aqui onde surge um enorme perigo para o movimento operário chileno. Depois da queda de Pinochet, a idéia dos estrategistas do imperialismo e da burguesia é a formação de um governo de coalizão entre a DC e os representantes da classe operária. No exílio, está se fortalecendo a idéia de uma colaboração entre a UP e a DC numa “frente ampla” contra a ditadura. Os principais protagonistas desta idéia são (como não!) os dirigentes do PCCH e a burocracia russa.

Por outro lado, a burocracia reformista da II Internacional está mostrando um interesse cada vez maior na África e na América Latina, precisamente quando surgem situações revolucionárias e pré-revolucionárias em ambos os continentes. É interessante ver como a tática dos social-democratas e a estratégia do imperialismo estadunidense caminham paralelamente. É claro que existe uma série de pressões “de fora” sobre alguns dirigentes da II Internacional. Não por casualidade o chamado “projeto social-democrata” para a América Latina está surgindo à luz precisamente nestes momentos, com a aprovação de Bonn e de Washington.

O minúsculo Partido Radical, de escassa implantação na classe trabalhadora chilena, não conta com base suficiente para a formação de uma coalizão com a DC que, no momento, mantém reticências ante uma coalizão com o PCCH que, por seu lado, mostra uma grande ansiedade de formá-la.

O PSCH, pois, é uma peça chave na situação. Sem a presença dos socialistas, um governo de colaboração de classe não seria viável. Por isso, há enormes pressões para que o PSCH participe nesta nova conspiração anti-operária no Chile.

Desgraçadamente, um setor dos antigos dirigentes socialistas cedeu às pressões exercidas de diversas maneiras pelos stalinistas, que contam com meios muito poderosos, sobretudo no exílio. O enfrentamento entre os elementos pró-stalinistas, que favorecem abertamente uma política de colaboração de classe, e os quadros socialistas no Chile, que estão lutando pela renovação revolucionária do partido no interior, conduziu a uma ruptura no socialismo chileno.

Em princípio, os socialistas que defendem uma linha de independência de classe, as idéias do marxismo-leninismo e os próprios princípios do PSCH no passado, ainda que constituam a maioria decisiva das forças socialistas atualmente dentro do Chile, contam com uma série de desvantagens frente a seus adversários políticos.

O PCCH, que antes do golpe tinha menos apoio que o PS, agora, na clandestinidade, é o partido operário com maior força. Mesmo que seja impossível calcular exatamente a força numérica de cada partido, o PCCH não teria menos de oito mil militantes ativos. Além disso, contam com uma infra-estrutura e meios muito mais poderosos que outros partidos e grupos: uma imprensa, uma organização juvenil ativa, vários negócios, um programa de três horas diárias na Rádio Moscou, como também programas na Rádio Berlim e na Rádio Praga…

Reconstrução do PSCH no interior

O aparato do PSCH não tinha comparação com o do PCCH. Mesmo que totalmente baseado nas idéias marxistas-leninistas, o PSCH nunca assimilou realmente os métodos organizativos do bolchevismo, sem os quais o programa mais marxista do mundo não serve para nada. Inclusive antes do 11 de setembro, em que pese sua superioridade numérica e sua esmagadora maioria de votos, o PSCH não tinha nem o nível de militância nem a infra-estrutura do PCCH. Portanto, o PSCH estava em péssimas condições para enfrentar os problemas do trabalho clandestino. Não obstante isso, os melhores quadros do socialismo chileno conseguiram reagrupar-se no interior e começaram a lenta e difícil tarefa de reconstruir o partido no seio da classe operária e dos camponeses. Atualmente, o PSCH, se bem que seja numericamente inferior ao PCCH, é a segunda força operária na clandestinidade, trabalhando nas fábricas e nos bairros operários, ajudando às famílias de presos e desaparecidos etc. Apesar da falta total de ajuda do exterior (canalizada exclusivamente para o setor pró-Moscou), os companheiros do PSCH conseguem publicar quatro revistas no interior do país: Arauco, a revista teórica do partido (mensal); Nosotros, los trabajadores, a revista sindical (bimensal); Brigada, a revista estudantil (sem periodicidade) e Solidaridad (mensal). No terreno sindical, têm implantação entre os mecânicos, os calçadistas, os padeiros, os operários do cobre e as confederações agrícolas. Também têm uma organização juvenil de mulheres.

O problema dos socialistas do interior é que o aparato do partido no exterior está totalmente dominado pelo setor pró-stalinista, que se apoderou da direção em 1971, em aliança com a ala social-democrata do PSCH, razão pela qual toda ajuda econômica enviada do exílio chega às mãos de seus partidários que, no interior, são minoria.

As discrepâncias no seio do socialismo provocaram uma crescente separação entre as diferentes tendências, com a divisão das chamadas “Coordenadorias de grupos regionais”, que, após formar um novo partido, inclinaram-se pelo guerrilheirismo. Em 1975-76, este grupo logrou aglutinar um considerável número de militantes socialistas do interior, descontentes com a política oportunista e pró-stalinista da antiga direção no exílio. Mas, inevitavelmente, com uma orientação totalmente errônea e uma política confusa, sofreu uma série de crises, lutas internas e cisões, que conduziram a sua desintegração. Seus militantes mais sérios compreendem a necessidade de voltar ao PSCH, para lutar dentro contra a corrente oportunista, a favor de uma autêntica política marxista-leninista, e não por uma caricatura guerrilheirista de Mao ou Castro.

Hoje em dia, as forças socialistas no interior, mesmo que importantes em número, dadas as difíceis e perigosas condições da clandestinidade, são minoritárias em comparação com as forças do PCCH, que contam com meios muito mais sérios e, portanto, podem conduzir um trabalho mais eficaz, pelo menos em questões técnicas. Inclusive, o setor pró-stalinista do PSCH, mesmo com uma implantação muito menor no movimento operário que a outra tendência, conta com mais meios. Mas tudo isso pode mudar drasticamente nos próximos anos, com a condição de que os companheiros do PSCH não claudiquem diante das pressões stalinistas e social-democráticas e mantenham uma clara linha revolucionária de independência de classe.

Para um partido marxista-leninista, a organização é uma questão vital, mas não a questão decisiva. Com o aparato mais impressionante do mundo, um partido com uma política errônea está condenado ao fracasso. Vimos esta lição mais de uma vez na história. Em troca, com uma política, uma estratégia, uma tática e umas perspectivas corretas e com os métodos de trabalho bolcheviques, sempre se encontrarão os meios necessários.

Bolchevismo e menchevismo

As diferenças entre o bolchevismo e o menchevismo na Rússia não se fixavam somente em questões políticas (reforma ou revolução, colaboração com os liberais ou independência de classe), mas também quanto aos métodos de trabalho e de organização. Antes de 1917, os mencheviques tinham mais meios econômicos que os bolcheviques. Os oportunistas russos, como os chilenos de hoje, recebiam grandes quantidades do exterior, devido ao prestígio pessoal de líderes como Plekhanov. Também recebiam ajuda econômica importante de toda uma série de burgueses “progressistas”: pequeno-burgueses, professores, advogados etc. Contudo, Lenine estava muito orgulhoso de que o partido bolchevique e seu jornal diário o Pravda fossem financiados pelas pequenas contribuições, os copeques, dos trabalhadores russos.

Apesar de todos os problemas e deficiências, os companheiros chilenos também podem sentir-se orgulhosos de que, durante cinco anos, e sob as condições mais difíceis de imaginar, lograram construir uma organização sem ajuda do exterior, com o dinheiro dos operários chilenos e os sacrifícios pessoais dos militantes e quadros dirigentes. Em última instância, cada centavo que se recolhe nas fábricas e bairros operários no Chile vale mais que mil dólares recolhidos pelos oportunistas no exterior. Porque o trabalho de recolher fundos no Chile é um trabalho político que está consolidando as bases da organização da própria classe trabalhadora no interior.

Dos oportunistas, social-democratas e pró-stalinistas não há nada que esperar; a grande maioria é formada por incorrigíveis, com exceção de certo número de operários honrados que estão enganados pelo prestígio dos antigos dirigentes, a quem apóiam provavelmente por questões de sentimentalismo. É um erro imaginar que é sempre verdadeiro que “sendo mais, somos mais fortes”. Às vezes, um mais um pode significar zero, em vez de dois. A unidade é algo que todos queremos e propugnamos, mas que se pode pagar a um preço demasiadamente elevado. A tentativa de misturar uma política oportunista com uma política revolucionária, através de um “consenso” a favor da unidade, é o mesmo que tentar misturar água com azeite. Os mesmos companheiros do interior já puderam comprovar isso perfeitamente, com o fracasso de todas as tentativas durante os últimos cinco anos de se chegar à unidade com os oportunistas. E não se deve pensar que este “fracasso” foi totalmente negativo. Todos sabem sobre quem recai a responsabilidade da divisão agora existente. Mas a única unidade que serve aos interesses do socialismo é a unidade com princípios. Se não fosse assim, a unificação de uma série de frações, cada uma puxando no sentido contrário ao das demais, conduziria à impotência. Toda a história do PSCH mostra isso. Para que servem os princípios e o programa revolucionário, se, no momento decisivo, a direção se mostra incapaz de levá-los à prática, já que se vê envolvida numa série de acordos, compromissos e consensos com elementos oportunistas e pró-burgueses? A ruptura com os oportunistas de toda laia é a pré-condição para a renovação do PSCH. É precisamente em condições de adversidade que se conhece os verdadeiros amigos. Se os socialistas chilenos não são capazes de tirar todas as conclusões necessárias da terrível experiência dos últimos anos, todas as mortes terão sido em vão.

É verdade que amanhã toda a situação pode mudar radicalmente. Após a terrível experiência da ditadura, dos longos anos de fome, miséria, morte e repressão, muitos operários e camponeses pensarão nos anos da Unidade Popular como um tipo de “idade de ouro”. Paradoxalmente, as ilusões no frentepopulismo poderiam ressurgir entre as massas após a queda de Pinochet. Neste sentido, a ditadura atuou como um enorme freio no avanço da consciência da classe operária e, mais ainda, das camadas médias.

Hoje, na clandestinidade, os operários e camponeses identificam como “os socialistas” aos companheiros que vêem ao seu lado, lutando ombro a ombro contra os patrões e a ditadura. Sobretudo entre os ativistas, os dirigentes exilados da UP estão muito desprestigiados. Neste sentido, os “generais sem exército”, que esperam pacientemente a queda da ditadura em Berlim, Paris, Moscou ou Argel, para voltar com o triunfo conseguido e repetir os mesmos erros de antes, poderiam ter uma surpresa muito desagradável, sobretudo se os companheiros do Partido Socialista do Chile logram construir um partido forte, mais forte que agora, não só numericamente, não só organizativamente, e sim politicamente, formando os quadros socialistas no espírito de oposição implacável a qualquer pacto ou aliança com a burguesia e a qualquer concessão mínima aos oportunistas.

Os quadros do PS no Chile deram enormes passos a frente. Mas há lacunas, não somente no aparato, mas também em sua política, que, apesar da insistência, totalmente necessária e correta, em uma política de independência de classe, continua a refletir uma série de ambigüidades e omissões que, embora no momento não pareçam ser muito importantes, se não forem resolvidas, amanhã podem causar problemas, crises internas, convulsões e divisões.

Num momento determinado, com a queda de Pinochet e o ressurgimento do movimento de massas, o PSCH encontrar-se-á submetido a enormes pressões. A imprensa (burguesa, stalinista e social-democrata), a “opinião pública” e, inclusive, os instintos naturais e compreensíveis dos próprios trabalhadores a favor da “unidade” pressionarão fortemente para que o PSCH entre novamente numa “frente comum” com os stalinistas, com os social-democratas e, desta vez provavelmente, com os democratas cristãos, para “um governo de concentração nacional”. Se o partido não se definiu de antemão e de forma muito clara a esse respeito, é muito provável que não saiba resistir a essas pressões. Apesar da palavra-de-ordem “Fé em nós mesmos”, haverá certos companheiros, inclusive companheiros da direção do partido, que claudicarão frente a essas pressões. “Vamos ficar isolados”, “não podemos romper a unidade”, “trata-se apenas de um acordo conjuntural”, “é uma tática e manteremos nossa independência programática”, “vamos lutar contra a burguesia dentro do governo”… Nunca faltarão argumentos para justificar o abandono da política marxista revolucionária. Esta é a experiência do socialismo chileno durante toda sua história. E sempre com os mesmos resultados catastróficos.

De fato, é possível que o PSCH, ao negar-se a entrar no governo de coalizão, veja-se isolado, em curto prazo, da maioria da classe operária. Seria acusado de “sectário”, “dogmático”, “maximalista” ou coisas piores ainda. Mas se um partido marxista-leninista, sobretudo sua direção, não é capaz de resistir a este tipo de pressão, para que servem o partido e sua direção?

Na realidade, uma atitude intransigente com relação a um governo de coalizão com a burguesia representaria a única maneira de ganhar as massas para o partido e para a revolução socialista.

As massas aprendem de sua experiência. Muito rapidamente dar-se-ão conta de que a política do novo governo é uma política ditada pela burguesia, através dos ministros democratas cristãos. Inclusive sendo uma minoria, estes cínicos representantes da burguesia vetarão qualquer legislação anticapitalista procedente dos partidos operários, ameaçando com a demissão se estes insistem em conduzir uma política em defesa dos interesses da classe trabalhadora.

Todos os artigos de Frei e todas as declarações da DC indicam que o novo governo de coalizão nem sequer levaria a termo as medidas tomadas pelo governo da UP, a não ser que uma nova onda de mobilizações de massas os obrigue a fazê-lo.

De qualquer maneira, um novo governo de coalizão, sob condições de crise capitalista, não resolveria nada em favor da classe trabalhadora. As ilusões num suposto “projeto social-democrata” para o Chile fracassarão rapidamente frente à crise econômica. Como, em seus dias, explicou o programa original da Unidade Popular:

“No Chile, as receitas ‘reformistas’ e ‘desenvolvimentistas’ impulsionadas pela Aliança para o Progresso, e incorporadas pelo governo Frei, não conseguiram mudar nada importante. No fundamental, foi um governo da burguesia a serviço do capitalismo nacional e estrangeiro, cujas débeis tentativas de mudança social naufragaram sem pena nem glória no meio do estancamento econômico, da carestia e da repressão violenta contra o povo. Com isto, ficou demonstrado, uma vez mais, que o reformismo é incapaz de resolver os problemas do povo” (a última frase estava em ênfase no original).

E se tudo isto era verdade durante o período do governo democrata cristão de Frei, antes do início da recessão capitalista mundial, não será mil vezes mais verdadeiro agora, com 17 milhões de desempregados nos países capitalistas mais desenvolvidos da OCDE, com um estancamento generalizado das forças produtivas e do comércio mundiais, com uma escassez de mercados e com uma queda da demanda e dos preços dos produtos chilenos no exterior?

Hoje em dia, o capitalismo chileno não está em condições de fazer concessões importantes e duradouras à classe trabalhadora e ao campesinato. Inclusive, se sob a pressão das massas um governo de coalizão se visse obrigado, em seus primeiros meses, a conceder uma série de reformas, inevitavelmente, sob a pressão da oligarquia e do imperialismo, passaria a uma segunda fase de contra-reformas. As massas de operários e camponeses veriam o crescimento do desemprego e a inflação corroeria seus aumentos salariais. Iniciar-se-ia de novo o processo de desânimo e de desmoralização. Mas, desta vez, inevitavelmente, surgiria uma oposição na base dos partidos operários e dos sindicatos. As massas compreenderiam que os ministros burgueses da coalizão governamental representam “um cavalo de Tróia”. Cresceria um movimento a favor da expulsão dos ministros democratas cristãos e da formação de um governo de partidos operários com um programa socialista.

Se o PSCH cometesse o erro fatal de entrar no governo, as massas o identificariam com a política anti-operária do mesmo. Mas, se os socialistas chilenos se mantivessem firmes e na oposição, ganhariam apoio muito rapidamente e atrairiam amplos setores da base do PCCH, se, como parece inevitável, este entrasse no governo. A palavra-de-ordem “Um governo PSCH-PCCH, com um programa socialista e sem os democratas cristãos”, teria um enorme eco nas filas do PCCH.

Uma coisa está clara. Há somente duas alternativas para o Chile: ou a revolução socialista, que esmagará para sempre o poder dos grandes proprietários de terra, dos capitalistas e do imperialismo, ou uma nova série de fracassos e derrotas sangrentas. Para solucionar os problemas urgentes dos operários e dos camponeses é necessário realizar a expropriação dos banqueiros, dos grandes proprietários de terra e dos grandes monopolistas e começar a organização planificada das forças produtivas em benefício de todos. É imprescindível um aumento considerável da taxa de crescimento econômico para elevar o nível de vida das massas. Isto só será possível quando o Estado, nas mãos dos trabalhadores, mobilizar todos os recursos do país. E, para isso, primeiro é necessário esmagar a resistência dos capitalistas e dos grandes proprietários de terra.

Qual é a alternativa? Os democratas cristãos, social-democratas e stalinistas têm a ilusão de poder construir no Chile uma democracia burguesa e uma “sociedade de consumo”, semelhante à Alemanha Ocidental, Inglaterra ou EUA. Mas, precisamente nestes países o sistema capitalista já não é capaz, como antes, de manter o nível de vida ou, inclusive, o direito ao trabalho. Aí estão os oito milhões de desempregados nos EUA e os sete milhões no Mercado Comum, os ataques contra o nível de vida e os programas de austeridade em todos esses países e a onda de greves na França, Itália, Grã Bretanha, Alemanha, EUA etc.

A existência de uma democracia burguesa e de reformas sociais no Chile, no passado, foi possível graças à situação privilegiada da economia chilena e à demanda de seus produtos no exterior, durante um longo período de tempo. Com o desaparecimento desses fatores, todas as contradições da sociedade chilena surgem à superfície. O governo “reformista” de Frei foi incapaz de solucioná-las. O governo Allende tentou fazer uma revolução pela metade, deixando os pontos chave do poder estatal nas mãos da burguesia, com o resultado já visto. A Junta, com suas matanças e campos de concentração, longe de solucionar os problemas da sociedade chilena, agravou-os ainda mais. E não cabe a menor dúvida de que um governo de coalizão com os liberais burgueses tampouco vai solucionar nada. A alternativa que o capitalismo oferece à classe trabalhadora chilena não é a “sociedade de consumo”, mas o aumento constante do desemprego e da miséria, o estancamento econômico, a fome… não há nenhuma “via intermediária”.

A revolução socialista no Chile seria um exemplo para toda a classe operária e para todos os povos oprimidos da América Latina. Com um governo operário no Chile, quanto tempo durariam as ditaduras militares na Argentina, Uruguai etc.? A extensão da revolução socialista a todos os países do continente teria como resultado os Estados Unidos Socialistas da América Latina, unindo a todos os povos num esforço comum para realizar o enorme potencial econômico do continente. A planificação comum dos imensos recursos materiais e humanos da América Latina permitiria transformar a vida de todos os povos em um par de planos qüinqüenais. Os Estados Unidos Socialistas da América Latina seriam o primeiro passo no triunfo do socialismo internacionalmente e na criação da Federação Socialista Mundial, que acabaria definitivamente com o pesadelo do capitalismo e do fascismo e abriria uma nova etapa na história do homem: o Socialismo.

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