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Lição da Venezuela: última advertência!

 “Temos que ter muito cuidado com essas correntes que não se definem muito bem, cuidado com o reformismo, não é reforma o que estamos fazendo aqui, é uma Revolução, não é economia de mercado, nem capitalismo humano, nem colocar máscaras no capitalismo, é liquidar o capitalismo e construir o Socialismo, disso se trata”.

Hugo Chávez.

Abertura do I Congresso Extraordinário do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) – Caracas, 21 de novembro de 2009.

 

As contradições não fizeram mais do que aprofundar-se, ainda mais com a morte de Chávez em março de 2013. A direita aumentou o caos, desabastecimento, especulação e incentivou a guerra econômica para atacar o governo. Antes das eleições, Maduro tomou medidas contra os especuladores e as massas não demoraram em responder, ganhando a maioria das prefeituras do país nas eleições de dezembro. Contudo a raiz fundamental da guerra econômica se mantém: a propriedade privada dos meios de produção. A negativa de expropriar os capitalistas na Revolução Espanhola de 1936-1937 levou ao povo espanhol a uma catástrofe total. O presente artigo procura fazer uma séria advertência à direção política do PSUV e a todos os revolucionários em geral, pois cada dia que passa, as semelhanças com a guerra civil espanhola só crescem. A única saída da crise política e econômica que se mantém na Venezuela é uma: radicalizar a revolução.

Durante anos as massas na Venezuela se mobilizaram aos milhões como nas passeatas que vimos em Caracas nos últimos anos. Ao mesmo tempo acumularam anos de experiências, enquanto a burocracia acumula cada vez mais erros e improvisações postas em prática. Não se pode demorar mais na radicalização da revolução. Essa é a lição mais importante que os revolucionários devemos extrair da revolução venezuelana.

O CONTEXTO DA REVOLUÇÃO BOLIVARIANA E O ARTIGO DE TROTSKY

As semelhanças da revolução bolivariana com a revolução espanhola são bem grandes. O presente artigo é escrito inspirado fundamentalmente no artigo de Trotsky “Lição da Espanha: última advertência!” (1), do final de 1937, fazendo uma séria advertência diante dos dramáticos acontecimentos da guerra civil que estava se encaminhando para um desfecho terrível pela política de conciliação de classes levada até o final pela Frente Popular, buscando pela força, uma suposta aliança impossível com a burguesia.

Por anos e anos, o proletariado espanhol demonstrou ter um altíssimo nível de consciência: ocuparam fábricas, indústrias e terras, assaltaram quartéis, apropriaram-se do armamento, tomaram centrais telefônicas, expropriaram e coletivizaram terras, encarregaram-se da distribuição de produtos através de vales, o poder econômico estava praticamente em suas mãos. Infelizmente o poder político se manteve nas mãos da burguesia, já que os republicanos fizeram de tudo para manter a revolução dentro do limitado marco da democracia burguesa apoiados pela ala esquerda (republicanos de esquerda e socialistas).

Por sua vez, a direção anarquista oscilou da direita à esquerda, provocando uma confusão nas suas bases, negando-se a tomar o poder, como fizeram na Catalunha, deixando o poder nas mãos da burguesia por uma parte, e aliando-se com o governo burguês (inclusive chegando a ter ministros anarquistas), por outro.

Os estalinistas do Partido Comunista da Espanha recebiam linhas políticas diretamente da URSS, e junto com os republicanos de direita, defendiam com força a consigna de “primeiro ganhar a guerra, depois a revolução social” “buscar acordos com a burguesia”, “mostra-se moderados diante dos governos capitalistas para não ficar isolado” (essas consignas já escutamos na Venezuela), mas os resultados da guerra civil demonstraram o equívoco de colocar em prática tais consignas, pois para poder ganhar a guerra civil era necessário fazer a revolução social, tal como explica com clareza Trotsky em seus artigos sobre a Espanha.

Diante do levantamento dos militares fascistas em julho de 1936, os operários, sindicatos e militantes de partidos de esquerda exigiram que se armasse rapidamente o povo para frear o avanço das tropas contrarrevolucionárias. Depois de dois dias de discussões e vacilações, o governo não teve outra alternativa, entregando as armas às organizações proletárias. Os operários atuaram rapidamente de forma espontânea para fazer a revolução social como a melhor estratégia para acabar com o golpe.

Mas nos momentos mais decisivos da revolução, as direções políticas (socialistas, anarquistas e republicanas) não estiveram à altura da situação (como estiveram as massas) oscilando seus discursos de direita a esquerda, deixando a propriedade nas mãos da burguesia. O vazio foi tomado totalmente pelo estalinismo que aliado com os republicanos e os partidos burgueses formou um exército burguês, devolveu propriedades aos capitalistas e massacrou o povo de Barcelona assim como fizeram na Rússia. O novo governo formado em maio de 1937 por Juan Negrín cedeu a todos os pedidos de Moscou, levando à revolução e à derrota do proletariado.  Ao final, o governo de Negrín foi deposto por um golpe de estado da ala direita republicana e socialista (coisa que já tinham tentando sem resultados alguns elementos infiltrados na Venezuela) para tentar negociar com Franco sem nenhum resultado, pois este pedia uma redenção sem condições, tendo esses que sair da Espanha. Foi o começo da ditadura fascista que durou cruéis 40 anos.

As condições para a vitória estavam ao alcance da mão tanto dos socialistas, anarquistas e suas respectivas centrais. Os anarquistas disseram descaradamente durante e depois da guerra civil espanhola que se tivessem querido poderiam ter tomado o poder na Espanha. Em seu artigo “Lição da Espanha: última advertência!”, Trotsky explica antes do desenlace da revolução e da guerra civil as condições da vitória (aqui colocaremos apenas os pontos 1, 5 e 10 por serem mais relevantes para a revolução na Venezuela):

  1. “Os combatentes do exército republicano devem ter uma consciência clara de que combatem pela sua completa emancipação social e não pelo restabelecimento da antiga forma (democrática) de exploração. 
  1. O exército revolucionário não deve somente proclamar, mas realizar imediatamente nas províncias conquistadas as medidas mais urgente da revolução social: expropriação e entrega aos necessitados das reservas existentes de produtos alimentícios, manufaturados e outros, redistribuição das moradias em benefício dos trabalhadores e sobretudo das família as combatentes, expropriação da terra e dos instrumentos agrícolas a favor dos camponeses, estabelecimento do controle operário da produção e do poder soviético no lugar da antiga burocracia.
  1.  A estratégia da guerra civil deve combinar as regras da arte militar com as tarefas da revolução social. Não só a propaganda, mas também nas operações militares é necessário contar com a composição social dos diferentes componentes do exército inimigo (voluntários burgueses, camponeses mobilizados, ou como no caso de Franco, escravos coloniais) e ao optar pelas linhas de operações, considerar muito seriamente a cultura social das regiões correspondente do país (regiões industrializadas, camponesas, revolucionárias ou reacionárias, regiões de nacionalidades oprimidas, etc.). Em poucas palavras: a política revolucionária domina a estratégia.”

No seu artigo Trotsky explica que era possível que os dirigentes da Frente Popular antes de deixar a Espanha derrotados (na verdade não pelos militares sublevados mas por seus próprios crimes) poderiam fazer uma série de reformas para que os operários tivessem uma boa lembrança deles, mas não fizeram isso. No final ficaram sós, a população estava cansada e exausta de anos de guerra e de promessas não cumpridas por parte do governo. A política de “primeiro ganhar a guerra, depois a revolução” mostrou na prática ser um escandaloso fracasso. Essa é uma importante lição para a guerra econômica que vive hoje a Venezuela.

A contrarrevolução na Venezuela tentou acabar com a revolução por todos os meios possíveis assim como fizeram os fascistas na Espanha e no Chile, sem sucesso. Contudo, a direita na Venezuela (ao mesmo tempo que sabotou a economia e conspirou abertamente contra a democracia) sabe bem o que sabemos os marxistas: se sente sintomas de esgotamento e decepção nas filas revolucionárias, sabem que as contradições se aprofundam com mais força na medida que passa o tempo.

A maior fraqueza do governo tem sido justamente não expropriar os capitalistas, seus minúsculos partidos se aproveitaram ao máximo da situação, intensificaram ainda mais a campanha contrarrevolucionária depois da morte de Hugo Chávez. Em sua última coletiva de imprensa, Maduro explicou quais eram os pontos para avançar na ofensiva contra a guerra econômica e a construção do socialismo e disse: “O capital especulativo e apátrida nós vamos golpear forte sem contemplações, com a lei e a Constituição na mão. Aquele que quiser participar da atividade produtiva que participe respeitando o povo venezuelano”.

Agora cabe perguntar se é possível com a lei e a Constituição burguesa golpear sem contemplação aos capitalistas? Não restrigiram toneladas de produtos da cesta básica sem nenhum pudor? A solução do problema do desabastecimento não é ir com a Guarda Nacional registrar os galpões dos capitalistas, o problema é a propriedade. Eles restringem e o Governo apreende os produtos dos capitalistas para vendê-los a preço popular, mas o que acontece depois dessas operações? Todos sabemos: os capitalistas voltam a restringir uma e outra vez.

Regulam-se os preços dos produtos, mas não burlaram os capitalistas e comerciantes a regulação dos preços? É regulado o pão francês, o que fazem as padarias? Fazem pão francês com gergelim. É regulada a mortadela e os capitalistas começam a vender mortadela com pedaços de azeitona. O caso mais descarado é o do papel higiênico que está regulado, os capitalistas começam a produzir papel higiênico aromatizado a rosa. Não é evidente que o problema é a propriedade? Para os reformistas parece que não.

O estancamento no qual caiu a transição econômica é produto do atraso em expropriar os capitalistas e não outra coisa. É sobre essa base que argumentamos nossas críticas.

BOLCHEVISMO E MENCHEVISMO NA VENEZUELA

A situação atual de crise e guerra econômica na Venezuela não pode ser resolvida dentro da ordem capitalista como já tínhamos explicado. Os capitalistas monopolizam, escondem e fazem desaparecer descaradamente produtos, alimento, fecham e param fábricas e empresas, compram juízes e burocratas para poder despedir trabalhadores (violando a imobilidade trabalhistas), matam trabalhadores, camponeses, dirigente estudantis, dirigentes indígenas, sobem os preços e usam permanentemente seus meios de comunição para culpar o governo da falta de produtos e do desabastecimento usando o absurdo argumento por todos conhecido: “a falta de dólares”.

Tal como falamos em nossos artigos publicados em no jornal Luta de Classes, o problema não são os dólares para poder importar produtos ou matérias primas, o problema é que é impossível que possam coexistir paz a revolução social e a propriedade privada dos meios de produção. A única alternativa é expropriar os capitalistas e colocar as empresas sob controle democrático dos trabalhadores para poder abastecer de comida e produtos a baixo custo, expropriar os latifundiários e criar um plano de produção de terras para abastecer de comida todo o país, nacionalizar os bancos, para poder criar um plano massivo de construção de moradias, escolas, hospitais, centros recreativos, teatros, em geral para aumentar a expectativa de vida das massas.

Além disso, deve-se abolir o corrompido e burocrático aparelho de estado burguês, que se converteu em um verdadeiro monstro que freia qualquer possibilidade de participação das massas revolucionárias em um estado que foi criado para defender o direito da burguesia com classe dominante. A criação de comitês unificados a nível municipal estadual e nacional abolirá totalmente o estado burguês para abrir passagem a um estado democrático de trabalhadores. A Assembleia Nacional, o centro de debates onde participam hoje em dia as minorias burguesas e proprietárias da oposição seria abolida para criar uma Assembleia Revolucionária.

Essas medidas estão na ordem do dia, ao alcance do governo. A Lei Habilitante permitiria expropriar aos capitalistas, banqueiros e latifundiários mobilizando o povo. É o mesmo debate da revolução espanhola dos anos 30 “primeiro ganhar a guerra, depois a revolução social” disseram os estalinistas na Espanha, “ganhar a guerra econômica, a próxima eleição e depois a revolução social” nos dizem os reformistas hoje na Venezuela, mas quantas eleições mais devem ser ganhas se o povo participou massivamente em mais de dez eleições?

Esta claro que para os reformistas 15 anos não são suficientes. Para eles a revolução na Venezuela é estritamente democrática e, portanto, burguesa e para isso devem “buscar alianças” com a burguesia, para eles as tarefas que estão na ordem do dia são democrático-burguesas. Mas devemos perguntar quantas reuniões foram feitas com os empresários venezuelanos? Quais foram os resultados dessas reuniões? Talvez a mais importante reunião foi chamada de “Reimpulso Produtivo” quando o reformista Haiman El Troudi era ministro de Planificação. A reunião foi com os principais banqueiros, empresários e latifundiários da Venezuela. Foi flexibilizado o Cadivi (a instituição responsável por distribuir os dólares na Venezuela), foi eliminado o imposto das transações financeiras, deram créditos às grandes empresas e foi feito uma espécie de aliança com Lorenzo Mendoza das empresas Polar. Devemos insistir na mesma pergunta: Quais foram os resultados?

Vimos como a VTV junto com alguns deputados da direita endógena impulsionaram um tal grupo chamado “Empresários pela Venezuela” (EMPREVEN) que se desfez rapidamente, pois seu maior dirigente viu-se envolvido em uma trama mafiosa de lavagem de dinheiro de um banco a outro. Outro dos membros do Emprevem envolveu-se em um caso grave de narcotráfico sendo preso na Colômbia. O tempo demonstrou que Empreven não foi mais que uma associação de mafiosos que adulavam o governo para conseguir regalias da burocracia. Só ficaram dois dos tais empresários que supostamente apoiavam o governo: Miguel Pérez Abad de Fedeindústria, que se incomodou porque o governo aprovou a lei das comunas e ninguém o consultou e Alberto Cudemus de Feporcina que aparece na televisão estatal e privada antes de todos os dezembros para subir os preços do pernil. Esses dois empresários dizem apoiar o governo na verdade somente para flexibilizar as políticas revolucionárias a seu favor. “Mas nós conseguimos dividir a burguesia pois os banqueiros nos apoiam!”, nos falam os burocratas de seus escritórios imensos com luxuosos ar condicionados. Na verdade os banqueiros esperam que as últimas decisões do Banco Central os favoreça, seja subindo ou baixando as taxas de juros.

Assim como explicamos, cada passo atrás que dê o governo a burguesia exigirá dois mais até leva-lo para onde eles querem: eliminação dos impostos, eliminação da imobilidade trabalhista e controle dos preços, liberar totalmente o dólar e talvez o mais importante: acabar com o gasto público que gera inflação, quer dizer, acabar com as missões sociais, acabar com o investimento em hospitais, escolas e moradia. Já se passaram cinco anos da reunião do “Reimpulso Produtivo” e todos sabemos os nefastos resultados.

O desenvolvimento das forças produtivas na Venezuela passa estritamente pela expropriação dos capitalistas, o atraso em tomar essa medida foi o principal responsável pelo estancamento da transição ao socialismo que Maduro fez referência. O governo se focou na busca de dinheiro (e dólares) para poder manter o gasto público, é como um leão que tem uma vaca gorda na frente e insiste em comer mato porque não tem nada o que comer. A nacionalização da indústria permitiria criar postos de trabalho em massa, desenvolver novas tecnologias, acabar com o desabastecimento. A expropriação dos latifundiários permitira abastecer todos os mercados com produtos agrícolas, O monopólio estatal do comércio exterior (junto à expropriação dos capitalistas) acabaria definitivamente com a especulação de dólares que impulsionou a burguesia a nível nacional e internacional. Tudo isso sobre a base de um plano discutido democraticamente com os conselhos de operários e comunas que desenvolveriam a Venezuela rapidamente.

São essas medidas que defendem os bolcheviques na corrente marxista Luta de Classes no PSUV. Contudo, o menchevismo faz seu trabalho permanentemente colocando ideias reformistas no movimento revolucionário para criar uma confusão dentro das filas do movimento, enquanto controla a maioria das instituições burocráticas. Esse é o papel fundamental da burocracia dentro da revolução e não outro: apropriar-se de todos os espaços políticos da revolução para defender seus interesses pessoais fazendo discursos às vezes de esquerda e às vezes de direita, nesse vaivém de discursos a revolução e a economia se mantém estancadas.

Os marxistas do PSUV explicamos em nossos artigos publicados no site www.luchadeclases.org.ve quais são as tarefas que devem realizar os dirigentes da revolução para leva-la até o final. Os meios da burguesia saíram assustados quando o camarada Alan Woods publicou o artigo ¿Adónde va la revolución venezolana? (2) onde explica pacientemente o papel que tem que jogar a direção política da revolução. A direita não perdeu tempo (Primero Justicia, partido de extrema-direita) e saíram rapidamente fazendo uma coletiva de imprensa contra esse artigo (3). Estudaram bem o artigo, criticando justamente o ponto de como ganhar as camadas médias da sociedade (classe média, onde a direita tem mais força). Os meios de comunicação fizeram toda uma campanha contra em todos os níveis. Por que se preocupar com um grupo pequeno? Por uma razão simples: eles sabem que os militantes da corrente marxista Luta de Classes temos o programa que acaba definitivamente com a burguesia como classe dominante, quer dizer, o programa do marxismo.

Existe hoje um grupo de bandido contrarrevolucionários vestidos de vermelho que estão infiltrados nos altos cargos das principais instituições e ministérios em todo o país, dizendo que “as condições para a revolução não estão maduras”. Voltando a Trotsky dizemos que as condições hoje em dia não só estão maduras, mas estão começando a apodrecer. Dentro da burocracia combatem duas ideias (ambas reformistas) uma que a revolução deve ser feita por etapas, primeiro a revolução democrática burguesa, condenando o proletariado a anos de capitalismo e horror sem fim (como dirá Lenin) para algum dia (não se sabe quando) expropriar os capitalistas. Mas, devemos perguntar: como a burguesia respondeu diante do que supostamente seria sua revolução? Abriram empresas? Criaram mais postos de trabalho? Já respondemos claramente essa pregunta.

Outra ideia é que o governo deve dedicar-se a criar “Empresas de Produção Social”, desenvolver mais a produção estatal em oposição à empresas capitalistas, uma tarefa que ninguém sabe quantos anos vai durar. É totalmente impossível criar ilhas de socialismo em um mar de capitalismo onde reina exatamente a anarquia do mercado e a concorrência (e nisso os capitalistas são especialistas), esses buscarão de todos as formas possíveis comprar matérias primas mais baratas, explorar a classes trabalhadora, evadir impostos para poder vender seus produtos mais baratos e aumentar seus lucros. É uma espécie de “via chinesa” ao inverso que não está dando nenhum resultado positivo.

DESENVOLVIMENTO DA CONSCIÊNCIA

Durante anos forma pedidos grandes sacrifícios às massas e ninguém pode dizer que estas não se sacrificaram. “Com fome e desemprego, com Chavéz me resteo (fico)!” chegou a ser a consigna em resposta à gigantesca campanha da burguesia depois do golpe de estado e a greve patronal petroleira em 2002 e 2003 respectivamente. É um insulto à classe operária venezuelana e a todo o povo dizer que “não existe suficiente consciência”, os burocratas carecem de mínimo respeito para com um povo glorioso que por anos demonstrou uma e outra vez que está à altura do processo político que vive hoje a Venezuela e a América Latina em geral.

Depois da sabotagem petroleira chamou-se em massa aos trabalhadores a ocupar empresas; a resposta? Os operários em massa ocuparam centenas (não sabemos se milhares) de empresas em todo o país contra as tentativas de fechamento das empresas, criaram conselhos de fábricas, as puseram a produzir sob controle operário, venderam os produtos e na maioria dos casos pediram a expropriação das empresas. Vimos que o poder criador da classe operária nas empresas ocupadas e expropriadas não só se venderam mais que quando estava o capitalista à frente da empresa, mas, como vimos na Sanitarios Maracay, Inveval e Aceites Diana, subiram os salários e melhoraram suas condições de vida. Os trabalhadores das empresas ocupadas mostraram o caminho a seguir.

O contato de Chavéz com os operário foi minado pelo emaranhamento da burocracia e as ocupações de fábrica chocaram com o estado burguês. As decisões democráticas dos trabalhadores se perdem hoje em dia em montanhas de papéis dos ministérios (no ministério do trabalho principalmente). A burocracia jogou um papel nefasto, pois enquanto os trabalhadores esperam que o estado saia em sua defesa e aprove suas reivindicações demora (às vezes anos) as decisões, que na sua maioria defendem os patrões! Quanto mais demora a burocracia, mais rápido atua a burguesia tomando medidas fora da lei e contra os operários.

As medidas que se tomaram a favor do controle operário (um grande passo da revolução e da classe operária) está se desmontando de maneira descarada. As direções que votaram os operários para dirigir as empresas de maneira democrática, os burocratas as estão destruindo, tal como fez o ministro Félix Osorio na Aceites Diana. Os revolucionários devemos impedir esta sabotagem a todo custo! Essa é uma advertência para todos os militantes do PSUV, dirigente sindicais, operários e camponeses! Atentar contra o controle operário é atentar contra uma das mais importante heranças que deixou Chavéz! O controle operário deve estender a todas as empresas estatais com conselhos de fábricas votados democraticamente por todos os trabalhadores como colocou Chavéz.

“Se os operários tem consciência, então porque um grupo de trabalhadores está sabotando as instalações elétricas do país?” nos perguntam os burocratas constantemente. Esse é um ponto importante que devemos desmontar. A burocracia utiliza permanentemente esse argumento contra os operários para dizer que não há consciência, mas um minúsculo grupo de sabotadores pagos da direita não representa a classe na sua totalidade. É muito fácil tomar uma questão particular e usá-la como se fosse a totalidade da classe operária que pensa e faz o mesmo. É esse o enfrentamento entre a dialética e alógica formal, marxismo contra reformismo. A revolução se manteve pela coragem da classe operária e não pelos burocratas. A grande maioria dos trabalhadores das empresas elétricas apoiam a revolução. Decretar o controle operário nessas empresas permitiria que os operários revolucionários expulsem os elementos sabotadores dentro delas, assim como aconteceu na Sidor.

O mesmo podemos dizer dos camponeses. A descarada burocracia volta com a mesma canção: “não tem consciência”, mas os camponeses ocuparam milhares de hectares, se organizaram e mandaram correr os latifundiários como ocorreu na zona do sul do lago de Maracaibo! Os camponeses, por sua vez, (igual a seus irmãos operários) se chocaram com o estado burguês e suas petições se perderam em montanhas de papéis. O assassinato e os homicídios se tornaram cotidianos para os camponeses revolucionários que arriscam a vida para defender um pedaço de terra.

Até agora, nem os burocratas nem os reformistas entendem a complexidade da luta de classes e o desenvolvimento da consciência das massas. Foi a necessidade e os anos de corrupção e privatizações dos governos da quarta república que levaram as massas a votar por Chavéz e lutar até o final para mudar toda a ordem existente.

AS CORRENTES DO PSUV

Desde o nascimento do nosso partido lutamos pela unidade. O problema é que nosso partido é como um barco que tem dois capitães que puxam, um para a direita e outro para a esquerda, onde, alias, nenhum quer soltar o timão. Nessa disputa, cedo ou tarde o da direita ou o da esquerda conseguirá desfazer-se do outro capitão. E, claro, que os marxistas apoiamos que o timão gire totalmente à esquerda. Esta é a situação que não pode continuar por mais tempo e o próprio Maduro sabe.

A unidade do PSUV deve ser construída sobre a base de um programa e estatutos discutidos democraticamente. O PSUV é outra importante herança de Chavéz e a democracia interne é vital para a sobrevivência do partido, do contrário se converterá em um clube de burocratas que tomarão as decisões que quiserem. Na verdade foi isso que fizeram depois da morte de Chavéz. Sem consultar ninguém, escolheram a dedo os candidatos a prefeito, gerando grande mal-estar nas filas revolucionárias. Alguns oportunistas aproveitaram para irem para a direita e a burocracia não perdeu tempo acusando a todos os que discrepam das decisões tomadas de contrarrevolucionários.

A política retrograda de cooptação e as decisões antidemocráticas que foram tomadas internamente no PSUV são os verdadeiros culpados de dividir o movimento revolucionário. O maior representante da ala direita do PSUV Diosdado Cabello fez fortes declarações contra intelectuais e pensadores de esquerda que criticaram posições políticas equivocadas do governo para poder abrir o debate chamando-os de “chavismo sem Chavéz”. O último congresso do PSUV, Cabello contava com um número importante de burocratas a seu serviço para evitar a todo custo decisões democráticas e discussões políticas. Qualquer posição contrária a eles, se uniam em um só coro dizendo: “chavista sem Chavéz, infiltrado” e mais.

O debate e as posições contrarias dentro do movimento são saudáveis e abrem a discussão política. É dessa maneira que se deve construir o partido. As posições da ala direita são as responsáveis de dividir cada vez mais o movimento revolucionário. “As eleições diretas são burguesas” nos dizem os representantes da ala direita, quer dizer então que as eleições democráticas e revocatórias de todos os cargos que defendiam os comuneros em Paris de 1871 também eram burguesas? Eram burguesas as eleições que implementaram os bolcheviques depois de tomar o poder em outubro na Rússia? É, por acaso, o método coorporativo de cooptação muito revolucionário? Os marxistas temos defendido e continuaremos defendendo a democracia interna do partido. E isso não é discutível.

Depois da norte do comandante, Maduro devia ter chamado um congresso urgente para escolher os dirigentes, candidatos e abrir o debate para escolher novos estatutos e um novo programa. A base democraticamente poderia colocar freio imediato aos ataques da burguesia, poderia ter tomado decisões chaves contra os capitalistas, latifundiários e banqueiros. No lugar de chamar às massas revolucionárias para discutir o destino da revolução, fizeram toda uma série de improvisações desnecessárias como a reunião com Lorenzo Mendoza, e na luta de classes a improvisação de paga caro.

É de extrema importância barrar as ações divisionistas da ala direita representada por Cabello, a única maneira de fazê-lo é através das discussões políticas e as decisões que se tomam desde as patrulhas até a direção do partido. A ala de direita propõe a “aliança estratégica com a burguesia” “sem o capital privado é impossível” nos falam. Os marxistas dizemos que a única aliança é a dos operários com os camponeses e não outra. Somar a suposta burguesia à aliança revolucionária é colocar óleo na água, é impossível que se juntem. A burguesia passou em massa para o lado do fascismo, portanto não pode haver aliança com a chamada burguesia senão com sua sombra tal como explicou Trotski. Maduro deve romper com Cabello que é o máximo representante das ideias burguesas dentro do movimento bolivariano.

CONCLUSÕES

O triunfo de Franco sobre os republicanos e socialistas não foi produto de “grandes estratégias militares” senão produto de anos de vacilações no terreno político, a maior estratégia estava ao alcance dos diferentes governos da República: fazer a revolução social expropriando aos capitalistas. As revoluções não são eternas e uma classe deve ganhar. Pensar que a direita saiu totalmente derrotada da última disputa eleitoral é falso, a direita esta se preparando para a próxima eleição de deputados da Assembleia Nacional para poder ter maioria. O tempo, na verdade, joga contra nós. A burguesia sabe que o tempo a favorece e enquanto Maduro demora em expropriar os capitalistas, esses, por sua vez, não perdem tempo intensificando cada vez mais a guerra econômica.

A revolução venezuelana inspirou os operários da Bolívia, Equador, Argentina, Nicarágua, El Salvador e outros países do mundo. O contexto internacional não pode ser mais favorável para levar a revolução até o final. Franco contou com a ajuda de Mussolini e Hitler. Apesar de que a direita venezuelana conta com grande respaldo do imperialismo norte-americano para seus planos, não há nenhum só governo fascista nem “grande crescimento do fascismo” como dizem as seitas de extrema esquerda. O imperialismo norte-americano está preso na crise econômica e na encarniçada guerra no Afeganistão e Iraque, o que faz que seja praticamente impossível que intervenham na Venezuela. Hoje em dia, as massas estão se mobilizando praticamente no mundo todo.

Capriles mobilizou seus bandos fascistas para prová-los e ver até onde eles chegavam depois dos resultados das eleições presidenciais de abril. Isso lhe custou a vida de 14 militantes revolucionários produto da vacilação de Maduro de mobilizar as massas contra o fascismo. Os revolucionários tiveram que sair espontaneamente contra a reação, fazendo que se desmobilizassem rapidamente, o impacto da morte de Chávez estava ainda fresco. A direita entendeu que as condições para uma guerra civil não estão maduras e se provocassem desencadeariam de novo a fúria das massas revolucionárias, apesar das vacilações de Maduro. A pequena burguesia é totalmente incapaz de enfrentar-se com a classe operária, pois tem muito a perder, enquanto os operários o único que tem a perder são suas próprias correntes, como explicou Marx no Manifesto do Partido Comunista.

A direita sabe que para derrotar a revolução necessitam a ajuda proveniente das filas revolucionárias, e esta é uma importante advertência para todos os revolucionários e militantes do PSUV. Por que a direita insistia no cumprimento do artigo 23 se odiavam tanto a Diosdado Cabello? Sabem que Cabello é o elo mais fraco dentro do governo e conta, além disso, com o alto mando militar. O debate da revolução hoje em dia é o mesmo que disse Rosa Luxemburgo: Socialismo ou barbárie.

Deixemos que seja Trotski quem diga as palavras finais: “A trágica experiência da Espanha é uma ameaçadora advertência, pode ser que seja a última antes de acontecimentos maiores, dirigidos a todos os operários do mundo. Segundo as palavras de Marx, as revoluções são as locomotivas da história, avançam mais rápido que o pensamento dos partidos revolucionários pela metade ou a um quarto. Aquele que para cai debaixo das rodas a locomotiva. Além disso, e esse é o perigo principal, a própria locomotiva descarrila aos poucos. O problema da revolução deve ser refletido até o fundo, até suas últimas consequências concretas. Temos que conformar a política à leis fundamentais da revolução, quer dizer, ao movimento das classes na luta, e não aos temores e aos preconceitos superficiais dos grupos pequeno-burgueses, que se auto intitulam Frente Popular, e outro monte de coisas. Na revolução, a linha de menos resistência resulta ser a da pior bancarrota. O medo em isolar-se da burguesia conduz ao isolamento das massas. A adaptação ao preconceitos conservadores da aristocracia operária, significa a traição aos operários e à revolução. O excesso de prudência é a mais funesta das imprudências”. (Leon Trotsky, Lição da Espanha: Última advertência!)

Tradução Marilia Carbonari

Notas:

  1. Lição da Espanha: última advertência! Trotsky, obras 3. Espanha, 1936-39. Akal editores.
  2. ¿Adónde va la revolución venezolana? Una contribución al debate sobre la propiedad y las tareas de la revolución  Alan Woods http://www.luchadeclases.org.ve/venezuela/psuv/6834-alan-woods-29143

3.A direita venezuelana ataca o artigo de Alan Woods http://www.luchadeclases.org.ve/venezuela/6850-la-derecha-venezolana-ataca-el-documento-de-alan-woods

 

 

 

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