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Leonardo Da Vinci: artista, pensador e revolucionário

A tarefa do artista não é somente a de espelhar a realidade de forma estouvada, mas a de transmitir o significado especial e o sentimento do que está sendo retratado.

A tarefa do artista não é somente a de espelhar a realidade de forma estouvada, mas a de transmitir o significado especial e o sentimento do que está sendo retratado: “O pintor que desenha apenas pela prática e pelo olho, sem qualquer motivação”, escreveu Leonardo, “é como um espelho que reflete tudo o que for colocada a sua frente sem estar consciente de sua existência”.

A Mona Lisa

Leonardo desenvolveu uma técnica conhecida como sfumato (esfumaçado) que produz um efeito borrado. Ele entendia que na vida real não existem linhas fixas – uma profunda ideia que foi exposta filosoficamente por Heráclito, de que tudo é e não é, porque tudo está em fluxo. A ideia por trás disto é a da mutabilidade permanente, onde tudo está mudando constantemente, se deslocando, de forma que é e não é. O efeito sfumato, que borra o contorno, paradoxalmente torna o rosto mais realista, e não menos, enquanto, ao mesmo tempo, introduz uma atmosfera de mistério. Em torno das bochechas e sob o queixo, vemos áreas de sombra (chiaroscuro) – o efeito dramático resulta da unidade frágil de elementos opostos de luz brilhante e escuridão.

O melhor exemplo disto é o seu trabalho mais celebrado, a Mona Lisa. A Mona Lisa é imediatamente reconhecível, uma vez que adquiriu o status de ícone. Para muitas pessoas, a Mona Lisa é Leonardo Da Vinci. E, como veremos, esta percepção popular não é totalmente errada. No entanto, o quadro que vemos hoje já não é mais o mesmo quando foi pintado. As cores brilhantes desapareceram em um tom marrom escuro. No original, o céu, os lagos e o rio foram pintados em vívido azul ultramarino, feito a partir dos preciosos lápis lazulita importados a alto custo de locais distantes como o Afeganistão.

A concepção dialética da unidade de “é e não é” permeia toda a imagem e é particularmente visível no famoso sorriso. Aqui, a contradição é explícita. Mais uma vez, o efeito  sfumato significa que não existem linhas claras em torno dos lábios ou qualquer um dos contornos da face. O sorriso é capturado, não como algo fixo, mas como algo em movimento. O sorriso é ou vir a ser ou algo que está desaparecendo. O que se descreve aqui é a transição entre dois estados – seja da alegria para a tristeza ou da tristeza para a alegria. E toda a vida humana consiste de uma tensão constante entre estes dois polos opostos, flutuando entre eles.

Esta pintura foi tão especial para ele que recusou entregá-la à pessoa que a tinha encomendado; uma pintura que ele manteve com ele até sua morte e que é considerada por muitos como sua maior obra-prima. Este quadro, La Gioconda – mais conhecida como a Mona Lisa – fascinou gerações de amantes da arte por seu caráter misterioso e indefinível, que são também, em última análise, o resultado da utilização magistral da luz e da sombra.

Este quadro tem sido objeto de muitas especulações e perplexidades. Qual o significado desta mulher enigmática e de seu misterioso sorriso? Neste quadro as coisas não são o que parecem ser. Ao primeiro olhar, este quadro parece respirar um sentimento de calma e tranquilidade. Ele retrata uma jovem mulher no que parece ser um estado de repouso absoluto contra um fundo de natureza pacífica. No entanto, esta impressão estática é totalmente enganosa.

Leonardo acreditava que os “olhos são a janela da alma”. O olhar da Mona Lisa é uma das características mais marcantes da imagem. Como tudo o mais sobre a pintura, ele tem um caráter ambíguo e contraditório. Aquele olhar misterioso é altamente ambivalente. Está ela olhando para nós, ou além de nós, para alguma coisa que não podemos ver? Freud achava que este olhar continha conotações sexuais. Talvez, mas poderia também conter uma mensagem diferente – uma que diz: Eu sei de coisas que você não sabe e nunca saberá. É um olhar de quem sabe.

Ao primeiro olhar parece que este quadro é uma imagem de absoluto repouso. Mas, sob uma inspeção mais próxima, fica claro que é tudo menos tranquilo. Está mergulhado no espírito de contradição dialética em todos os níveis. A primeira contradição é o próprio sorriso. Se dividirmos o rosto em duas partes equivalentes, torna-se imediatamente evidente que o próprio sorriso contém uma contradição – uma metade está sorrindo, mas a outra está séria.

Esta contradição expressa a complexidade do sentimento humano, em que as emoções conflitantes frequentemente coexistem. Niccolo Machiavelli (1469-1527), um grande amigo de Leonardo, observou de perto as calamidades da sociedade em que vivia. Ele escreveu as linhas seguintes que expressam a tragédia de seu próprio tempo, com a qual Leonardo se encontrava bastante familiarizado:

“Io rido, e rider non passa dentero;

Io ardo, e l’arsion mia non par de fore”.

[“Eu rio, e meu riso não está dentro de mim;

Eu queimo, e meu ardor não é visto lá fora”].

Os sentimentos humanos raramente são simples. Podemos rir e chorar ao mesmo tempo. Esta é uma expressão profunda da condição humana em toda sua complexidade. Aqui temos a agridoce combinação de sentimentos que dá vida a sua beleza peculiar e que provoca em nosso íntimo uma reação emocional muita profunda.

Neste quadro as emoções humanas estão intimamente conectadas com tensões e tendências contraditórias do mundo externo a nós. Há um paralelo implícito entre esta imagem e a figura humana. Dentro de nós estão a luz e a escuridão, risos e lágrimas, alegrias e tristezas. E estes elementos e emoções contraditórias coexistem e lutam dentro de nós, assim como a luz e a escuridão no mundo natural.

A conexão entre o homem e a natureza, entre vida orgânica e inorgânica, fica sugerida por seu cabelo, que cai em cachos que sugerem um turbilhão de água. A roupagem do vestido não é da Renascença, mas em estilo intemporal clássico. Ela serpenteia como a água, sugerindo uma afinidade da figura central com o fundo natural. Isto sublinha a própria ideia de mudança constante. Mesmo a pose do modelo sugere mudança e movimento. Ela está sentada em uma cadeira com seu corpo virado para um lado e seu rosto em nossa direção. Esta rotação é um truque muito conhecido (usado por fotógrafos atualmente) para sugerir movimento.

A placidez do rosto oculta a existência de forças subterrâneas invisíveis – paixões que se escondem na superfície e que são tão perigosas e incontroláveis quanto as forças da natureza selvagem. A figura da Mona Lisa na pintura ergue-se de uma paisagem igualmente estranha e ambígua. Assim como o sorriso é “assimétrico”, também a paisagem é assimétrica e, de fato, vagamente ameaçadora. A ambiguidade em seu sorriso é ecoada na natureza.

Há uma profunda mensagem subversiva em tudo isto. Em um artigo muito perceptivo intitulado “A história por trás do sorriso”, Nicholas Rossiter escreve: “Leonardo está ilustrando o processo constante pelo qual o mundo natural se desenvolve ao longo de milênios, e desafiando a teoria bíblica de que foi criado por Deus em seis dias” (Radio Times, 3-9 de maio de 2003).

O particular e o universal

O quadro também sugere outra contradição – a unidade do particular e do universal. O fundo é a natureza – o universo atemporal – mas a figura em primeiro plano é intensamente pessoal e pertence ao aqui e agora. Temos diante de nós um momento único e fugaz no tempo, aquele momento evasivo quando um sorriso começa a se formar nos lábios, ou então começa a desaparecer – um momento de cada vez que é precisamente o oposto da atemporalidade e da eternidade da natureza. Os dois momentos opostos são aqui vistos em sua unidade.

O fundo, que parece ocupar uma posição subordinada, de fato desempenha um papel muito importante na pintura. Nele, vemos estranhas formações rochosas, que se assemelham àquelas que estão no Vale do Arno conhecidas pelos habitantes locais como O Vale do Inferno. Estes depósitos aluviais foram formados pela erosão das montanhas dos Apeninos. Leonardo era fascinado pela geologia e encheu muitas páginas de seus cadernos de notas com suas observações sobre esta área.

Também vemos algo parecido à Ponte Buriano, que cruza o rio Arno a cerca de 40 milhas de Florença. Leonardo estava bem familiarizado com esta ponte por causa de sua importância econômica e militar para a cidade de Arezzo, onde ele esteve empregado pelo notório Cesare Borghia como engenheiro militar. Em sua infância, Leonardo tinha visto os efeitos catastróficos das inundações do Arno. Aqui, o rio é visto descendo das montanhas, cortando uma estrada através do vale em seu caminho para o mar.

Abaixo da superficial placidez da natureza, forças terríveis e incontroláveis espreitam, embora sua presença só possa ser sentida de forma intuitiva. Nesta visão, a natureza nunca é tranquila, mas está mudando constantemente – e se transformando em seu oposto. A montanha que se ergue no fundo é muito alta – ameaça desabar. O rio está muito cheio – ameaça transbordar. Os dois lagos em ambos os lados do rosto foram fixados deliberadamente em níveis impossíveis, onde um parece inclinar-se sobre o outro.

Temos aqui o ciclo interminável e inquieto de nascimento e morte – da ascensão e queda de montanhas, o nascimento e a morte dos rios. Este sentimento de mudança na natureza era uma ideia que estava profundamente enraizada com Leonardo.

A figura em primeiro plano emerge de um fundo natural e está intimamente ligado a ele. O elemento predominante na pintura é a água, tanto nos dois lagos quanto no rio (presumivelmente o rio Arno). Isto tem profundo significado filosófico. Que elemento é mais mutável e, portanto, intangível do que a movediça água? Heráclito disse: “Pisamos e não pisamos na corrente d’água; estamos e não estamos”. Esta é a ideia filosófica que permeia a pintura.

Vida e morte

No quadro, o universal está unido ao particular e é indistinguível dele. Embora a Mona Lisa seja tão altamente individualizada para se tornar inesquecível, ela também é uma generalização – a eterna feminilidade, acima do tempo e do espaço – que emerge da natureza e representa seu eterno princípio criador. E aqui outro mistério da Mona Lisa se torna claro: ela está grávida. Isto se torna óbvio a partir da posição de sua mão, que descansa gentilmente sobre seu ventre.

Assume-se que o objeto retratado seria Lisa Del Giocondo (daí o título popular de La Gioconda). Esta hipótese parece se justificar pelo fato de que a Mona Lisa está usando um véu negro. Sabe-se que a filha de Lisa Del Giocondo morreu em 1499, quatro anos antes de Leonardo começar a pintura. Por isso, é sobre a morte e também sobre a vida nova. Seja qual for a perspectiva, ela parece estar grávida. Não há vida sem morte, e vice-versa.

No momento em que ele estava trabalhando na Mona Lisa, Leonardo dissecou cadáveres de mulheres e examinou fetos – uma atividade completamente ilegal – para obter uma melhor compreensão da anatomia feminina e do mistério do nascimento. Tão incrivelmente precisos foram os seus desenhos que mais tarde foram utilizados por estudantes de anatomia.

Neste quadro temos um sentimento de oculta (ou reprimida) paixão – o tipo de paixão que é geralmente considerada como perigosa porque ameaça romper a ordem estabelecida e porque é incontrolável. Ela nos lembra de que, sob a superfície aparente de calma, forças terríveis estão se acumulando e que podem nos destruir. Isto é verdadeiro tanto para as forças inanimadas da natureza (inundações, avalanches, erupções vulcânicas, terremotos, tempestades) quanto para a natureza humana (paixões incontroláveis como ira, medo, raiva, ciúmes e qualquer coisa relacionada ao desejo sexual). Tudo isto se esconde sob a superfície o tempo todo.

Em seu estudo sobre Leonardo, Freud especula que pinturas como a Mona Lisa expressam impulsos sexuais inconscientes relacionados a experiências de infância de Leonardo. Ele perdeu a mãe, embora ela aparentemente tivesse se desempenhado como ama de leite em seus primeiros três anos de vida. Assim, ele teria algumas lembranças da afeição e do natural amor de uma mãe. Mais tarde, teve uma madrasta que também o tratou com grande ternura.

É esta ternura maternal que está refletida nestes rostos femininos, ligados a inconscientes impulsos sexuais? É possível, embora se deva dizer que há muitas hipóteses de Freud em seu ensaio que são forçadas e arbitrárias. Mas, em qualquer caso, a questão não termina aí. Se tudo o que a pintura de Leonardo expressa for uma mensagem puramente pessoal, referida ao estado psicológico do artista, nunca teria obtido o impacto universal que obteve.

Estas pinturas nos oferecem uma maravilhosa percepção da passagem do tempo e, ao mesmo tempo, a percepção do eterno. Há também a ideia de geração, do elemento da reprodução sexual como o princípio da regeneração na natureza. Pode, no entanto, ser outra mensagem pela forma como Leonardo descreve o cabelo da Gioconda. Na Itália do século XVI, era considerado indecente para uma mulher usar o cabelo solto sobre os ombros como vemos aqui: cabelos soltos e fluentes eram sinônimos de moral duvidosa. Parece que Lisa Del Giocondo e seu marido não aceitaram a pintura, e isto pode ser em parte a razão de sua insatisfação.

Aqui, nada é o que parece à primeira vista. Mesmo o que parece ser a quintessência da feminilidade acaba por ser outra coisa. A unidade de opostos é igualmente transmitida pelo fato de a Mona Lisa – e muitas outras mulheres de Leonardo – serem realmente andróginos, isto é, de conter elementos de virilidade e feminilidade. Isto pode ser visto na linha da pronunciada mandíbula – uma característica masculina. O ideal de beleza é metade masculina, metade feminina – uma concepção bem conhecida na arte Grega clássica.

Observou-se frequentemente que os rostos das mulheres de Leonardo têm um estranho caráter andrógino. Há uma explicação para isto. Ficou estabelecido que as proporções destes rostos correspondem exatamente às do próprio rosto de Leonardo em seu autorretrato. Temos aqui a unidade de opostos levada ao extremo: vemos a unidade de homem e mulher, completamente misturados e indiferenciados. Homem e mulher são um só.

O rosto da Mona Lisa, aparentemente um retrato único e não reproduzível de um indivíduo, de fato, não é único. O mesmo rosto e as mesmas misteriosas expressões podem ser vistas na pintura maravilhosa da Virgem com Santa Ana. Não é mesmo o rosto de uma mulher, embora pareça ser. Pelas medidas e comparando os rostos, chegou-se à conclusão que todos eles são basicamente o mesmo rosto: é a face do próprio Leonardo.

Os últimos anos: na França

Diz-se que um profeta nunca é honrado em sua terra natal. Mostrando agora sinais da idade avançada, e com a ameaça da ira Papal sempre pairando sobre sua cabeça, finalmente ele se decidiu a deixar completamente a Itália dominada pelos padres. Ele passou os últimos anos de sua vida na França, onde foi recebido com todas as honras na corte do rei. Temos um autorretrato maravilhoso de Leonardo como um homem velho, pintado nesta época. Ele nunca mais voltou à Itália.

O fracasso da Itália em conseguir a união nacional fez com que este maravilhoso potencial não pudesse ser realizado. A Itália foi reduzida ao atraso econômico e cultural. O centro de gravidade da história mundial estava se movendo para longe da Itália em direção aos novos Estados-nações da França e da Inglaterra. Suas estrelas estavam crescendo, enquanto que a Itália estava prestes a entrar em um cruel eclipse, que duraria séculos, até que a Itália estivesse finalmente unida através de meios revolucionários.

É possível que Leonardo tenha passado seus últimos anos na França devido a este fato, ou, pelo menos, como uma antecipação dele. Negligenciado em sua Itália natal, onde sua estrela foi eclipsada pela ascensão de Michelangelo e Rafael, o velho homem recebeu as boas-vindas de herói na França, onde foi venerado como o maior artista de sua época. O rei francês era um daqueles monarcas renascentistas que, quando não estava engajado em guerras e caçadas, tinha um vivo interesse pelas ideias e pela arte. Francisco I aspirava dar a sua corte a atmosfera da Renascença italiana trazendo para a França artistas e homens de letras, incluindo não apenas Leonardo, mas também Cellini.

Ele instalou Leonardo na residência palaciana próximo aos aposentos reais, onde teria facilmente acesso a ele. Parece que Francisco reverenciava o velho homem e se engajava em longas conversas, nas quais Leonardo surpreendia pela grande variedade de temas que conhecia em profundidade. Mas, fica claro que Francisco via Leonardo mais como um grande filósofo que como um grande artista (devemos lembrar que naqueles tempos a filosofia era vista com sinônimo de ciência).

A pintura de Lisa Del Giocondo tinha, claramente, um significado profundo para Leonardo, tanto que nunca foi entregue a quem a havia encomendado. O quadro ficou com ele durante os últimos 16 anos de sua vida, tendo-o levado em seu exílio final na França. Claramente, o seu significado para ele era muito maior que seu valor artístico. A Mona Lisa, portanto, terminou ficando na França, onde Leonardo o vendeu ao rei Francisco I, que o pendurou em seu banheiro! Esta foi provavelmente a causa da miríade de pequenas fissuras na pintura. Outros trabalhos de Leonardo também sofreram de tratamento negligente ou simplesmente mau: os ignorantes monges milaneses abriram uma porta através de seu friso de A última ceia.

Como Aristóteles e Hegel, Leonardo tinha uma mente verdadeiramente enciclopédica. Leonardo – o homem da Renascença – era um cientista e um filósofo. Parece que no final de sua vida, ele tentou reunir seus numerosos cadernos sobre diferentes questões. Se tivesse conseguido, teria produzido uma enciclopédia filosófica muito antes de Diderot e D’Alembert na França do século XVIII. Este foi o lado de Leonardo que mais impressionou ao seu benfeitor em sua velhice. Depois de sua morte aos 67 anos de idade, o rei francês disse que ele foi “um filósofo muito grande”. No final, ele o via mais como filósofo do que como artista. Na realidade, ele foi ambos. O homem mais típico da Renascença combinava em sua pessoa os papeis de artista, escultor, cientista, filósofo, diplomata e inventor.

A reputação de Leonardo como artista descansa em apenas um punhado de pinturas. A quantidade da produção artística de Leonardo foi limitada por seu perfeccionismo. Ele disse: “Ofendi a Deus e a humanidade porque o meu trabalho não atingiu a qualidade que deveria ter”. É por isto que muitas vezes ele começou um trabalho e não o terminou. Todos os pleitos e ameaças de seus exasperados patronos o deixavam indiferente. O único Senhor que reconheceu foi sua própria arte. Para ele, era como se o ato da própria criação constituísse a questão essencial. O resultado final era relativamente sem importância. Era isto o que queria dizer quando escreveu: “A arte nunca termina, apenas é abandonada”.

Com Michelangelo, a arte da Renascença italiana alcança novos níveis de perfeição sublime. Mas Michelangelo foi impulsionado pela inspiração religiosa, enquanto que Leonardo, o verdadeiro homem da Renascença, não era religioso de forma alguma. Em última análise, Michelangelo fez o que seus patronos da Igreja queriam, enquanto Leonardo era um espírito livre e independente – um rebelde nato.

Com Leonardo, no entanto, vemos a união perfeita de ciência, técnica, filosofia e arte. Ele fez um estudo completo da ótica, a fim de entender a natureza de luz e sombra e logo aplicou este conhecimento científico a sua pintura. Fez o mesmo com a anatomia, e até estudou embriões humanos, a fim de ter uma melhor visão sobre o corpo feminino antes de retratar a mulher grávida na Mona Lisa.

Provavelmente, nunca houve um artista maior que Leonardo na história do mundo. Não é somente uma questão de sua técnica, que era tão avançada que mesmo hoje os especialistas não sabem como ele conseguiu certos efeitos, ou mesmo como ele conseguiu suas cores. Esta arte não é apenas esteticamente bela, não é somente tecnicamente perfeita. Ela também contém uma profunda ideia filosófica.

Durante toda sua vida Leonardo foi impulsionado por uma curiosidade insaciável sobre o mundo. Ele tinha curiosidade sobre todas as coisas sob o sol, e esta curiosidade o levou a muitas e diferentes direções. Por esta razão, muitos de seus projetos permaneceram inconclusos. Seu espírito inquieto e inquiridor – que era o espírito de sua época – não lhe permitia permanecer quieto em nenhum momento, e várias vidas teriam sido insuficientes para ele concluir todas as tarefas que se propôs.

Acima de tudo, Leonardo era um atento observador do mundo natural. A influência nociva da religião tinha condenado a realidade material como a obra do demônio e ensinado aos homens e mulheres a se envergonharem de seus corpos e a dirigir o seu olhar para o Paraíso ou para o seu íntimo, para a salvação de suas almas eternas. Isto era a antítese da nova visão científica. A visão de mundo de Leonardo era essencialmente materialista e científica. Ele disse: “Somente a observação é a chave para a compreensão” e “Todo o nosso conhecimento se origina de nossas percepções”.

Ele também escreveu: “Embora a natureza comece com a razão e termine na experiência, é necessário que façamos o oposto, isto é, que comecemos com a experiência e dela continuar a investigar a razão”. Esta frase contém a essência de toda a ciência moderna. Este incansável investigador não temia questionar o viés aceito pela Igreja e trilhar caminhos perigosos.

Apesar de sua insistência na observação, Leonardo não era um empirista vulgar. Ele também escreveu: “Todos os que estão apaixonados pela prática sem conhecimento são como o marinheiro que entra em um barco sem leme ou bússola e que nunca pode saber para onde ele está indo. A prática deve sempre estar baseada na teoria sólida, e para isto a Perspectiva é o guia e a porta de passagem; e sem isto nada pode ser feito também em matéria de desenho”.

Ele viu que a ordem surge do caos e é esta ideia profunda e dialética que está no coração da Mona Lisa. Mas o contrário também é verdadeiro: abaixo da aparentemente calma e assentada realidade, existem forças que podem explodir a qualquer momento. Esta ideia expressa perfeitamente os tempos turbulentos da Itália em que ele tinha nascido e as experiências atribuladas que ele compartilhou. As profundas linhas gravadas sobre a face de seu autorretrato como um homem idoso contam toda a história. Aqui está uma imagem de sofrimento que foi superada pela quieta resignação da sublime velhice. As contradições que finalmente encontraram uma resolução.

No final ele disse que, da mesma forma como um dia bem vivido leva a um descanso feliz, também uma vida bem vivida traz uma morte feliz. Vamos deixar a palavra final para Leonardo: “Amo àqueles que podem sorrir dos apuros, que podem ganhar forças do sofrimento, e crescer corajosamente através da reflexão. O negócio das mentes pequenas é encolher, mas os que têm coração firme e cuja consciência aprova sua conduta perseverarão em seus princípios até a morte”.

Londres, 23 de abril de 2012.


Artigo publicado originalmente em 21 de maio de 2017, no site da Corrente Marxista Internacional, sob o título “Leonardo Da Vinci: artist, thinker and revolutionary – Part Three”.

Tradução Fabiano Leite.

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