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Leon Sedov – 70 anos de sua morte

Nota da Redação: O artigo que aqui disponibilizamos em língua portuguesa foi publicado em inglês no site da Corrente Marxista Internacional (CMI) em 15 de fevereiro de 2008. Além do interesse histórico contido em seu assunto, acreditamos que compreender a vida e a morte desse filho de Leon Trotsky adquire grande importância para os trabalhadores e jovens revolucionários neste centenário da Revolução Russa de 1917. A vida de Leon Sedov está entrelaçada com o desenvolvimento dessa revolução e de tantas outras protagonizadas pelo proletariado mundial contra o regime capitalista e por sua emancipação. Convidamos nossos leitores a conhecer essa biografia, e temos certeza que assim estarão melhor preparados para os desafios de hoje na luta de classes.

Amanhã, 16 de fevereiro de 2008, é o dia que marca o 70o aniversário do assassinato do filho mais velho de Trotsky, Leon Sedov, por agentes da polícia secreta estalinista, a GPU. Ele tinha 32 anos de idade. Esse crime foi parte do assédio sistemático e assassinato dos principais apoiadores e familiares de Trotsky, cujo único “crime” foi o de defender o marxismo genuíno contra Stalin e os crimes da burocracia russa.

O assassinato de Leon Sedov em 16 de fevereiro de 1938 em uma clínica parisiense foi um terrível golpe pessoal e político para Trotsky e o movimento que ele criou. Sedov era um líder fundamental do movimento internacional e por isso foi marcado pela máquina de matar stalinista.

“Leon entrou na revolução ainda criança”, escreveu sua mãe, Natalya Sedova, “e nunca mais a deixou até o fim de seus dias”. Quando era um pequeno garoto de 12 anos, Leon, conhecido afetivamente como Lyova, testemunhou a Revolução Russa de 1917. Ele participou de todas as manifestações, entrou em brigas na escola por questões políticas, inclusive com o filho de Kerensky. Aparentemente, as brigas ocorriam diariamente. Visitou seu pai na prisão após a caça às bruxas de julho contra os bolcheviques. Nessa base seu futuro tomou forma. Como muitos da nova geração, ele rapidamente se juntou à Liga da Juventude Comunista e lançou sua energia no movimento comunista e na defesa do jovem estado soviético. Em 1923, como um revolucionário plenamente consciente, dedicou seus esforços à construção da Oposição de Esquerda. Não tinha tempo para privilégios burocráticos e adotou energicamente as ideias da Oposição nas fileiras da juventude comunista.

Como estudante, Sedov desenvolveu uma excepcional capacidade para as matemáticas e estudou na Academia Técnica Superior. No entanto, seu coração e alma estavam com a revolução.

Em 1927, com a repressão e expulsão da Oposição de Esquerda, Trotsky foi posteriormente banido por Stalin. O destino de Sedov estava ligado ao de Trotsky. Portanto, decidiu deixar sua jovem família em Moscou e se juntar a sua mãe e seu pai na Ásia Central soviética. Em Alma Ata, principal cidade do Cazaquistão, ele ajudou energicamente a Trotsky com seu trabalho na manutenção dos laços clandestinos com a Oposição em Moscou. Aos 32 anos de idade ele era, como disse Trotsky, “nosso ministro de assuntos externos, ministro da polícia e ministro das comunicações”. A casa de Trotsky estava sob vigilância constante da polícia secreta e a responsabilidade de Leon era a de romper o isolamento.

Para começar, grandes quantidades de correspondência chegavam de todas as partes. Entre abril e outubro de 1928, eles receberam cerca de mil cartas e documentos políticos e cerca de 700 telegramas que necessitavam de resposta. Sem a ajuda de Sedov, nem a metade disso teria sido respondido. No entanto, a polícia secreta de Stalin destruiria virtualmente esses vínculos em 1932. Em fevereiro de 1929, Trotsky, Natalya e Leon Sedov foram exilados por Stalin na Turquia (Prinkipo).

Esses anos foram excepcionalmente difíceis e houve tensões nas relações, como Trotsky admite. “Muitas vezes as pessoas que me eram mais próximas tinham momentos difíceis. E na medida em que, de todos os jovens, o mais próximo de mim era o meu filho, ele costumava ter os piores momentos de todos”. No entanto, Trotsky explicou que, apesar dessas inevitáveis fricções, havia laços inseparáveis. “Por baixo da superfície brilhava um profundo apego mútuo baseado em algo imensamente maior que os laços de sangue – uma solidariedade de pontos de vista e avaliações, de simpatias e antipatias, de alegrias e tristezas experimentadas juntas, das grandes esperanças que tínhamos em comum”.

Foi um período de reaprendizado de línguas estrangeiras e de uma estreita colaboração literária com o seu pai. Os arquivos e a biblioteca de Trotsky estavam nas mãos de Leon. Ele trabalhou incansavelmente nas bibliotecas públicas, primeiro na Turquia, depois em Berlim e mais tarde em Paris, reunindo e pesquisando citações e estatísticas para a monumental “História da Revolução Russa”, de Trotsky. O mesmo aconteceu com a “Revolução Traída”, de Trotsky. Trotsky chegou a dizer: “O nome de meu filho deve ser colocado ao lado do meu em quase todos os meus livros escritos desde 1928”.

Instigado por seus pais, Leon retomou seus estudos científicos e foi morar em Berlim no início de 1931. Naturalmente, Leon Sedov mergulhou no trabalho da Oposição de Esquerda Internacional e logo se tornou o representante russo no Secretariado Internacional. Ele havia se convertido em editor de fato do “Biulletien Oppozitsii” ainda em Prinkipo, mas assumiu totalmente o cargo após sua chegada em Berlim, continuando-o até sua morte. Cada edição, supervisionada meticulosamente por ele, era considerada um triunfo importante que tentavam contrabandear de todas as formas para a Rússia.

Stalin estava determinado a silenciar Trotsky e a Oposição. Leon Sedov estava em sua lista de acerto de contas. De acordo com Ignace Reiss, agente secreto que rompeu com Stalin e se aproximou de Trotsky (pelo que pagou com a vida), a GPU estalinista declarou muitas vezes “O filho [Leon] trabalha habilmente. Para o Velho [Trotsky], não seria fácil sem ele”. Isso era verdade. Foi a razão pela qual os stalinistas cercaram Leon Sedov com agentes disfarçados que abriram caminho dentro da Oposição.

Quando Hitler chegou ao poder, o “Biulleten” foi banido e Leon foi forçado a se mudar para Paris. Lá ele continuou seu trabalho revolucionário, embora também conseguisse passar em seus exames científicos. No entanto, a rede stalinista se fechou em torno dele. Suas cartas eram abertas, seu telefone foi grampeado e os agentes da GPU moravam em apartamentos ao lado do dele. Inclusive quando ele tirava um pequeno descanso, eles o seguiam. Eram os mesmos agentes que haviam assassinado Ignace Reiss. Ele, no entanto, se recusou a tomar demasiadas precauções, particularmente se as mesmas perturbavam o seu trabalho. Como Trotsky explicou, “Como um genuíno revolucionário, ele valorizava a vida apenas na medida em que ela servia à luta de libertação do proletariado”.

Em 1933, Trotsky foi forçado a buscar refúgio na França, o que o aproximou de Leon Sedov. Leon trouxe seus livros de Paris, especialmente livros russos. Trotsky também fez viagens a Paris. Foi em dezembro de 1934 que o trotskista sul-africano de 21 anos de idade Ted Grant chegou a Paris e conversou com Leon Sedov antes de finalmente chegar à Inglaterra. “Leon Sedov discutiu uma série de coisas conosco, incluindo o ‘giro francês’ e a situação na França e na Inglaterra”, lembrou Ted mais tarde.

Em 1935, sob a pressão do governo francês, Trotsky se mudou para a Noruega, onde o Partido Trabalhista norueguês havia ganhado as eleições. Em agosto de 1936, os Julgamentos de Moscou irromperam, acusando velhos bolcheviques como Zinoviev e Kamenev, junto com Trotsky e seu filho, de atividade contrarrevolucionária, de estarem em ligação com Hitler e assim por diante. Todo o julgamento se baseou em confissões falsas extraídas dos acusados. Essas calúnias tinham de ser contestadas imediatamente. Mas o governo norueguês amordaçou Trotsky. Leon Sedov levantou-se para responder às grotescas acusações do regime de Stalin. Enquanto Trotsky esteve isolado na Noruega, paralisado e amordaçado pelo governo “socialista”, Leon expôs os julgamentos como uma fraude horrorosa em seu excelente “Livro vermelho sobre os Julgamentos de Moscou”. Foi a primeira exposição minuciosa da conspiração e foi publicado em muitos idiomas. Trotsky o descreveu como um “presente inestimável… a primeira resposta esmagadora aos falsificadores do Kremlin”. Dentro de poucos meses, Trotsky conseguiu obter asilo no México, ficando temporariamente fora das garras de Stalin.

Esses anos abriram uma torrente de calúnias e mentiras contra o movimento Trotskista. Foram anos de pesadelo. Tanto Trotsky quanto Leon Sedov eram os principais acusados nos Julgamentos de Moscou, à revelia, acusados de todos os tipos de crimes hediondos. Esses espetáculos macabros foram usados para assassinar todos os que tinham qualquer vínculo com a Revolução de Outubro. Milhões pereceram nos campos e gulags. Muitos foram fuzilados sem julgamento ou simplesmente desapareceram. A irmã de Leon, Zina, foi levada ao suicídio pelos stalinistas e ele se viu obrigado a cuidar de seu filho de seis anos de idade, Esteban Volkov. Seu irmão mais novo, Sergei, foi preso na Rússia acusado de “envenenar trabalhadores”. Foi fuzilado em um campo de trabalhos forçados.

Um contrajulgamento foi estabelecido por John Dewey para investigar as alegações feitas nos Julgamentos de Moscou. Depois de exames e cruzamentos de exames, inclusive de Trotsky, suas deliberações concluíram que “concluímos, portanto, que os julgamentos de Moscou são uma fraude, razão por que consideramos Trotsky e Sedov inocentes”. Mas era somente um leve raio de luz em meio aos horrores do holocausto promovido por Stalin.

Os agentes e assassinos stalinistas estavam se aproximando de Trotsky e sua família. O agente da GPU, Krivitsky, advertiu Sedov de que havia um agente provocador no “centro” em Paris, mas não pôde identificá-lo. No entanto, pôde dar uma descrição. Seu nome resultou ser Mark Zborowski, um agente de polícia stalinista que se infiltrou no movimento trotskista e se tornou amigo de Leon.

Leon rejeitou o conselho de se juntar ao pai no México, dizendo que o trabalho em Paris era demasiado importante. Nesse momento, ele se encontrava sob enorme pressão e sofria ataques de depressão e insônia. No início de fevereiro de 1938, Leon, sofrendo dores abdominais, foi levado por Zborowski (conhecido como Etienne) a uma clínica russa em Paris. Ele deixou uma nota com sua esposa que ela só deveria abrir se acontecesse um “acidente”. Leon recebeu procedimentos médicos de rotina para aliviar a dor, sendo bem-sucedido. Ele começou a se recuperar. Em seguida, começou a sofrer dores e perdeu a consciência. Morreu em 16 de fevereiro.

Como se viu depois, o hospital era de propriedade do Dr. Boris Girmounski, que servira anteriormente na polícia secreta russa. Zborowski, que havia trabalhado na famosa Sociedade para a Repatriação de Emigrados Russos, também era agente da GPU desde 1934, como confessou depois da guerra. Ele se encontrava com funcionários da embaixada soviética e informava sobre as atividades de Sedov e Trotsky. Não há a menor dúvida de que Sedov foi assassinado pelos stalinistas, provavelmente envenenado. O próximo passo do plano era o assassinato de Trotsky.

Leon Sedov era o segundo, depois de seu pai, em importância como organizador do movimento revolucionário internacional. Demonstrou colossal coragem pessoal diante das tragédias que se desenvolviam ao seu redor. Estava preparado para fazer todos os sacrifícios necessários para desenvolver o movimento revolucionário que poderia trazer a emancipação da classe trabalhadora, a única coisa valiosa para se viver e lutar. Seu trabalho, sacrifício e coragem continuam sendo um marcante exemplo para a juventude revolucionária de hoje.

Trotsky escreveu um obituário para o seu filho e camarada caído:

“Aquela geração mais velha… em cujas fileiras embarcamos a caminho da revolução… foi varrida da face da terra. O que não lograram as condenações a trabalhos forçados e os duros exílios czaristas, as penúrias da emigração, a Guerra Civil e a peste, nos últimos anos logrou Stalin, o pior açoite que já castigou a revolução. Depois de ter destruído a geração mais velha, também destruiu o melhor setor da seguinte, ou seja, a geração que despertou em 1917 e que recebeu seu treinamento nos 24 exércitos do front revolucionário. Também foi pisoteado e anulado o melhor da juventude, os contemporâneos de Leon…. Nesses anos de exílio, fizemos novos amigos, muitos dos quais penetraram intimamente em nossas vidas, convertendo-se praticamente em membros de nossa família. Mas a todos eles os conhecemos pela primeira vez nestes últimos anos, quando já a velhice se aproximava. Leon era o único que nos conheceu quando éramos jovens; ele fez parte de nossas vidas desde o momento de seu nascimento. Apesar de sua juventude, parecia nosso contemporâneo…

“Adeus, Leon, adeus, querido e incomparável amigo. Tua mãe e eu nunca pensamos, nunca esperamos que o destino nos impusesse esta terrível tarefa de escrever teu obituário. Vivíamos firmemente convencidos de que, muito tempo depois de que fôssemos embora, seria tu o continuador de nossa causa comum. Mas não pudemos te proteger! Adeus, Leon. Legamos tua memória irretocável às gerações mais jovens dos trabalhadores do mundo. Com justiça, viverás nos corações de todos aqueles que trabalham, sofrem e lutam por um mundo melhor. Jovens revolucionários de todos os países, aceitai de nós a lembrança de nosso Leon, adotai-o como vosso filho – é digno disso – e deixai que, a partir de agora, participe invisível de vossas batalhas, visto que o destino lhe negou a felicidade de participar de vossa vitória final!”

Todos os anos, em 20 de agosto, uma reunião é realizada junto ao túmulo de Leon Sedov para lembrar o assassinato de Leon Trotsky. Hoje nos lembramos desses dois mártires e homenageamos sua coragem revolucionária, seu sacrifício e inspiração.

Tradução Fabiano Leite.

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