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Karl Marx: o homem, o pensador, o revolucionário

Imagem: Flickr, Saigneurdeguerrea

Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; o que importa é transformá-lo. (Karl Marx, Teses sobre Feuerbach)

Há 200 anos, em 5 de maio de 1818, na cidade alemã de Trier, nasceu uma das maiores figuras da história humana. Dois séculos depois, a despeito de todos os ataques raivosos, das distorções maliciosas e das tentativas maldosas de manchar sua imagem como homem e pensador, Karl Marx firmou seu lugar na história como um imponente gênio do campo teórico.

Concorde-se ou não com ele, não há dúvida de que Karl Marx levou a cabo uma imensa revolução no pensamento humano, mudando, portanto, todo o curso da história. Ele pertence ao grande panteão de ilustres pensadores. Seu nome figura ao lado de todos os grandes heróis do passado: Heráclito, Aristóteles, Hegel e Charles Darwin.

As descobertas de Marx no campo da filosofia, da história e da economia política se erguem como colossais monumentos em seu nome. Ainda que o trabalho de sua vida tivesse começado e terminado com o primeiro volume de “O Capital”, já teria sido por si só uma imensa conquista. Mas Marx não era apenas um pensador; ele era um homem de ação, um revolucionário que dedicou sua vida inteira à luta pela causa da classe trabalhadora e pelo socialismo

Uma vida tão rica e cheia de matizes não pode ser descrita adequadamente em poucas linhas. No entanto, na ocasião do bicentenário de Marx, é necessário fornecer um breve e inevitavelmente incompleto esboço dessa vida como introdução a este livro.

A vida de Marx

Marx nasceu há 200 anos na Alemanha, em um lugar que naquela época era parte da Prússia. No entanto, as províncias da Renânia às quais Trier pertencia eram diferentes em muitos aspectos das áreas prussianas atrasadas e semifeudais mais a oeste.

Anexada à França durante as Guerras Napoleônicas, os habitantes dessa região foram expostos a novas ideias, como liberdade de imprensa, liberdade constitucional e tolerância religiosa. Embora a Renânia tenha sido reincorporada à Prússia Imperial pelo Congresso de Viena três anos antes do nascimento de Marx, aqueles anos deixaram uma marca no pensamento progressista dos setores mais esclarecidos da sociedade.

Marx Jovem. Foto: domínio público

Karl Heinrich era um dentre nove irmãos da família de Heinrich e Henrietta Marx. O pai de Marx era um advogado com uma visão relativamente progressista, que lia Kant e Voltaire e defendia reformas no Estado prussiano. A família era razoavelmente próspera. Marx jamais experimentou a pobreza ou privações durante sua infância e juventude, embora tenha sofrido dessas mazelas em grande medida posteriormente.

Seus pais eram judeus, mas em 1816, aos 35 anos de idade, o pai de Karl Marx se converteu ao cristianismo. Isso aconteceu provavelmente por causa de uma lei de 1815 que bania os judeus da alta sociedade. É significativo que, embora a maioria das pessoas em Trier fosse católica romana, ele tenha escolhido a fé luterana, pois “relacionava protestantismo com liberdade intelectual”. No entanto, Heinrich Marx estava muito longe de ser um revolucionário e certamente teria ficado horrorizado se soubesse da futura trajetória de seu querido filho Karl.

Ao concluir a escola, Marx entrou na universidade, onde estudou Direito e, mais tarde, história e filosofia. Enquanto estudava em Berlim, ele caiu nos encantos do grande filósofo Hegel. Ele percebeu que, abaixo da crosta superficial de idealismo, a dialética de Hegel tinha as mais profundas implicações revolucionárias. Essa filosofia dialética viria a formar as bases de todo o seu desenvolvimento ideológico posterior.

Marx se juntou à corrente conhecida como “Hegelianos de Esquerda”, que tirava conclusões radicais e ateístas da filosofia de Hegel. No entanto, ele logo ficou descontente com os jogos de palavras e os malabarismos dialéticos sem fim desses radicais acadêmicos, que logo se degeneraram em uma mera sociedade de debates.

Marx ficou bastante impressionado com as ideias de Ludwig Feuerbach, que, partindo de uma crítica da religião, moveu-se em direção ao materialismo. Mas ele criticava Feuerbach por sua rejeição radical à dialética hegeliana. Marx conseguiu brilhantemente combinar o materialismo filosófico com a dialética, produzindo uma filosofia completamente diferente e revolucionária.

Armado com essas ideias revolucionárias, o jovem Marx colaborou com um grupo de hegelianos de esquerda da Renânia que haviam fundado um jornal radical, a Gazeta Renana (Rheinische Zeitung). Como editor do jornal, Marx escreveu uma série de artigos brilhantes e revolucionários. O jornal foi um sucesso instantâneo, mas logo atraiu a atenção das autoridades prussianas, que o submeteram à censura. No entanto, o jovem Marx, com brilhante engenhosidade, conseguiu driblar a tesoura dos censores. No fim não houve escolha se não fechar o jornal.

Em 1836, à medida que se tornava mais ativo politicamente, Marx secretamente contraiu noivado com Jenny von Westphalen, uma bela moça de uma família aristocrática que era conhecida como “a garota mais bonita de Trier”. Ela era quatro anos mais velha que ele e de uma classe indubitavelmente mais alta. Mas ela e Marx haviam se enamorado desde a infância e, dentro de tudo o que se sabe, eram inteiramente devotados um ao outro.

Em 1836, Marx casou-se com Jenny von Westphalen. Foto: domínio público

O pai de Jenny, Barão Ludwig von Westphalen, alto oficial do Real Governo Provincial Prussiano, era um homem de dupla linhagem aristocrática: seu pai foi chefe do Estado-Maior durante a Guerra dos Sete Anos e sua mãe escocesa, Anne Wishart, era descendente da família Earl de Argyll. Portanto, não é surpresa que eles tenham mantido seu relacionamento em segredo por tanto tempo. Três meses após o fechamento da Gazeta Renana, em junho de 1843, ele finalmente casou-se com Jenny von Westphalen e em outubro mudaram-se para Paris.

Eu creio que não foi dada atenção suficiente a essa notável mulher, que fez sacrifícios colossais para apoiar seu marido em seu trabalho revolucionário. Ela sofreu bastante rompendo com sua família, viajando de um país para o outro, dividindo todas as privações de Marx e vivendo nas mais difíceis condições. Ela viu seus filhos sofrerem privações, adoecerem e morrerem. Quando seu filho Edgar morreu em Londres, ela e Marx não tinham dinheiro nem para o caixão.

O irmão mais velho de Jenny, Ferdinand, mais tarde se tornaria um Ministro do Interior extremamente opressivo no governo prussiano entre 1850 e 1858, isto é, durante o auge da reação europeia. Temos assim o paradoxo de um homem engajado no trabalho revolucionário para subverter o Estado prussiano a partir do exílio em Londres, enquanto seu cunhado em Berlim estava encarregado de perseguir revolucionários dentro e fora das fronteiras da Prússia. Não há situação mais irônica em toda a história.

Paris

No outono de 1843, Marx mudou-se para Paris a fim de publicar um jornal radical no exterior juntamente como Arnold Ruge. Na efervescente atmosfera da Paris da época, Marx logo fez contato com grupos organizados de trabalhadores alemães expatriados e com várias seitas de socialistas franceses. Naquele momento os ventos da revolução sopravam fortemente por toda a Europa, particularmente em Paris. A cidade era, não pela primeira vez nem pela última, o coração político da Europa em 1843.

No entanto, somente uma edição desse jornal, os Anais Franco-Alemães (Deutsch-Französische Jahrbücher), foi lançada. A publicação foi descontinuada principalmente devido à dificuldade de distribuí-la secretamente na Alemanha, bem como por diferenças filosóficas entre Marx e Ruge. Marx passou então a escrever para outro jornal radical, o Adiante! (Vorwärts!), que estava ligado a uma organização que mais tarde se tornaria a Liga dos Comunistas[1].

Marx começou sua colaboração vitalícia com Engels em Paris. Imagem: domínio público

Nessa época iniciou-se uma das mais extraordinárias parcerias da história. Em setembro de 1844, um jovem chamado Friedrich Engels veio a Paris por alguns dias para trabalhar como colaborador do jornal. Dali para frente ele se tornaria o melhor amigo e maior colaborador de Marx. Hoje os nomes Marx e Engels são tão incompletamente inseparáveis que parecem ter se fundido em uma única pessoa.

Durante sua estadia em Paris, de outubro de 1843 a janeiro de 1845, Marx viveu no número 38 da Rua Vanneau. Ali,se dedicou a um estudo intenso de economia política, devorando as obras de Adam Smith, David Ricardo, James Stuart Mill e também dos socialistas utópicos franceses, Saint-Simon e Fourier. Aqui já podemos ver o embrião de suas futuras descobertas no campo da Economia.

Bruxelas

As atividades revolucionárias de Marx logo atraíram a atenção das autoridades em Berlim. O governo prussiano exigiu que as autoridades francesas tomassem uma atitude, o que para elas foi um prazer. Expulso de Paris no fim de 1844, Marx mudou-se para Bruxelas, onde se juntou a sociedade secreta de propaganda Liga dos Comunistas. Apesar da mudança, Marx ainda tinha restrições severas à sua atuação. Ele teve que jurar não publicar nada relacionado a política contemporânea.

Marx e Engels imediatamente construíram um relacionamento próximo, no qual ambos juntaram diferentes experiências e temperamentos a fim de produzir um conjunto de ideias inteiramente novo e original. Filho de um rico industriário alemão, Engels pôde combinar sua experiência concreta na produção capitalista com o trabalho inovador de Marx no campo da filosofia. Engels mostrou a Marx seu livro recém-publicado, “A situação da classe trabalhadora na Inglaterra”. Ele já havia chegado à conclusão de que a classe trabalhadora seria o agente mais importante para a mudança social.

Marx preso em Bruxelas. Imagem: domínio público

Também foi Engels que começou a trabalhar os princípios fundamentais que mais tarde seriam trazidos à tona nos três volumes de “O Capital”, de Marx. No entanto, com sua modéstia característica, ele sempre aceitou a supremacia de Marx no campo da ideologia, reservando a si mesmo o papel de humilde e leal discípulo, embora na verdade sua contribuição à teoria marxista deve ser colocada lado a lado com a do próprio Marx.

Em abril de 1845, Marx e Engels escreveram “A Ideologia Alemã”, na qual eles desenvolveram pela primeira vez a teoria do materialismo histórico. O livro marcou a final e irreconciliável ruptura com os Jovens Hegelianos. Marx finalmente abraçou a ideia do socialismo como única solução para os problemas da humanidade. Infelizmente, nenhuma editora estava disposta a aceitar o risco de publicar “A Ideologia Alemã”, a qual, juntamente com as “Teses sobre Feuerbach”, só vieram a público após a morte de Marx.

Marx e Engels travaram juntos uma luta implacável contra as ideias confusas do socialismo pequeno-burguês, trabalhando para dar às ideias do socialismo uma base científica. Na Paris da época, as ideias semianarquistas de Proudhon estavam em voga entre alguns grupos revolucionários. Marx submeteu essas ideias a uma dura crítica em 1847 no livro “Miséria da Filosofia”, o qual era apoiado pelos fatos e por diversas citações dos escritos do próprio Proudhon.

No início de 1846, Marx buscou conectar os socialistas de toda a Europa através de um Comitê de Correspondência Comunista. Ele mantinha contato com uma organização secreta de artesãos em Paris e Frankfurt chamada Liga dos Justos. Tratava-se de um grupo pequeno (cerca de 100 pessoas em Paris e 80 em Frankfurt) com ideias muito confusas. Marx os convenceu a abandonar seus métodos clandestinos e operar abertamente como um partido político dos trabalhadores. Eles se fundiram com outros grupos para formar a Liga dos Comunistas.

No Segundo Congresso da Liga dos Comunistas, realizado em Londres em novembro de 1847, Marx e Engels foram encarregados de produzir um documento que ficou conhecido com O Manifesto Comunista. Esse documento, que marcaria uma época, foi publicado em 1848.

O Manifesto Comunista e a Nova Gazeta Renana

Parece impressionante atualmente que O Manifesto Comunista tenha sido escrito por Marx e Engels quando estes ainda eram jovens. Marx não havia completando 30 anos e Engels era três anos mais jovem. Mesmo assim, a obra representou um ponto de inflexão na história. Ele permanece tão atual e relevante hoje quando da primeira vez em que foi publicado. Na verdade, sua relevância é ainda maior hoje.

O momento em que o Manifesto foi publicado não poderia ser mais oportuno. A tinta mal havia secado de suas páginas quando uma poderosa onde revolucionária irrompeu por toda a Europa. A Revolução de Fevereiro na França derrubou a monarquia de Orleans e levou à criação da Segunda República.

Diz-se que Marx, tendo acabado de receber uma grande herança de seu pai (retida por seu tio), usou grande parte do dinheiro para comprar armas para os trabalhadores belgas que estavam se movendo em direção à ação revolucionária. Verdade ou não, o Ministério da Justiça Belga certamente acreditou na história e a utilizou como pretexto para prendê-lo.

Marx foi então obrigado a fugir de volta para a França, onde ele acreditava estar seguro sob o novo governo republicano. Mas essa era uma esperança vã. Os republicanos burgueses da França tinham pavor dos trabalhadores, que estavam começando a fazer exigências classistas independentes que ameaçavam a propriedade privada. Sob tais circunstâncias, a última coisa que eles precisavam era da presença em Paris de um homem como Marx.

Marx estava convencido de que, após a França, a Alemanha estava às vésperas da revolução. Ele se mudou para Colônia, onde fundou um novo jornal – a Nova Gazeta Renana (Neue Rheinische Zeitung) – que começou a ser publicado em 1 de junho de 1848. O jornal defendia uma linha extremamente radical e democrática contra a autocracia prussiana e Marx dedicou todas as suas forças à sua edição (a Liga dos Comunistas havia sido completamente dissolvida). Ele continuou esse trabalho de junho de 1848 a 19 de maio de 1849, quando o jornal foi proibido.

A Nova Gazeta Renana foi um modelo de jornalismo revolucionário e desempenhou um papel ativo nos eventos revolucionários de 1848 a 1849. Mas a vitória da contrarrevolução pôs fim à sua atividade. Marx foi levado a julgamento por sua atividade revolucionária. Ele foi absolvido em 9 de fevereiro de 1849, mas em seguida foi expulso da Alemanha em 16 de maio e 1849.

Marx retornou a Paris. No entanto, ele acabou sendo expulso da França após as manifestações de 13 de junho de 1849. Uma vez que a Prússia se recusou a dar-lhe um passaporte, Marx passou a ser um exilado apátrida e sem um centavo. Ele se mudou para Londres, que naquela época era mais tolerante e receptiva a exilados políticos do que é hoje. Embora a Grã-Bretanha também lhe tenha negado a cidadania, ele permaneceu em Londres até sua morte. Em maio de 1849 ele iniciou a “longa e insone noite do exílio” que duraria para o resto de sua vida.

Londres

Ao chegar em Londres, Marx permaneceu igualmente otimista sobre a iminência de uma nova insurreição revolucionária na Europa. Ele escreveu dois longos panfletos sobre a revolução de 1848 na França e suas consequências: “A luta de classes na França” e “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”. Ele concluiu que “uma nova revolução é possível somente em consequência de uma nova crise” e passou a dedicar-se ao estudo da economia política a fim de determinar as causas e a natureza da crise capitalista.

Durante a maior parte do seu tempo em Londres, Marx e sua família viveram em condições de terrível pobreza. Ele conseguiu trabalho como correspondente do New York Daily Tribune, uma parceria que durou 10 anos entre 1852 e 1862. No entanto, Marx jamais foi capaz de viver dignamente com o salário de jornalista. Durante a primeira metade dos anos 1850, a família Marx viveu em condições miseráveis em um apartamento de três cômodos no bairro do Soho. Marx e Jenny já tinham quatro filhos e mais dois viriam. Desses, apenas três sobreviveram.

“Bem-aventurado é aquele que não tem família”, Karl Marx cansadamente escreveu em uma carta a Friedrich Engels em junho de 1854. Ele tinha 36 anos à época e há muito havia perdido o contato com seus parentes. Seu pai estava morto e a relação com sua mãe era ruim. Somente através da generosidade desinteressada de seu amigo Friedrich Engels Marx e sua família puderam sobreviver.

A família Marx teve sete filhos, quatro dos quais morreram na infância. Apesar de todas as dificuldades, eles eram uma família feliz. Marx amava profundamente suas filhas, que por sua vez o idolatravam. Em seus momentos de folga à noite ele brincava e lia clássicos para elas. “Dom Quixote” era um dos favoritos, mas eles também encenavam peças de Shakespeare, nas quais Marx e suas filhas liam partes diferentes. “Ele era um narrador único e incomparável”, sua filha Eleanor afirmou.

Engels apoiou a família de Marx financeiramente. Foto: domínio público

Das três filhas sobreviventes – Jenny, Laura e Eleanor –, duas se casaram com franceses. Um desses homens, Paul Lafargue, desempenhou um papel ativo no movimento marxista e ajudou a estabelecer o partido socialista na Espanha. Eleanor Marx era ativa no movimento de trabalhadores britânico como militante e organizadora.

O trabalho de Marx não se restringia apenas à teoria. Durante todo o tempo que esteve em Londres, ele desempenhou um papel ativo na promoção e desenvolvimento do movimento internacional dos trabalhadores. Marx ajudou a fundar a Sociedade Educacional dos Trabalhadores Alemães, bem como uma nova sede para a Liga dos Comunistas. Mas ele, cada vez mais ficava frustrado e isolado em meio às disputas sectárias infindáveis dos exilados, finalmente cortou todas as relações com eles, mantendo sempre contatos próximos com membros ativos do movimento de trabalhadores britânico.

Uma mudança decisiva aconteceu em 1864. Em 28 de setembro foi fundada a Associação Internacional de Trabalhadores – conhecida como Primeira Internacional. Desde o início Marx era o coração e a alma dessa organização, autor de sua primeira carta de princípios e de uma porção de resoluções, declarações e manifestos. Pelos próximos anos, boa parte de seu tempo seria dedicado à manutenção do trabalho da Internacional. Juntamente com Engels, ele manteve uma vasta correspondência com trabalhadores avançados e colegas pensadores em diversos países, inclusive a Rússia.

Marx era obrigado a travar uma luta incansável contra todas as formas de desvios pequeno-burgueses dentro das fileiras da Internacional: o socialismo utópico de Proudhon, o nacionalismo burguês do italiano Mazzino, o oportunismo dos líderes sindicais reformistas britânicos e, acima de tudo, as intrigas do anarquista Bakunin e de seus seguidores.

Ao fim, Marx conseguiu vencer a batalha ideológica, mas as condições nas quais as jovens forças da Internacional estavam sendo formadas tomaram uma direção desfavorável. A derrota da Comuna de Paris foi o golpe final.

Dada a situação desfavorável na Europa, Marx propôs a transferência da sede do Conselho Geral de Londres para Nova Iorque em 1872, na esperança de que a luta de classes em desenvolvimento no Novo Mundo fornecesse novas oportunidades à Internacional.           Mas nada poderia evitar seu declínio. A conquista mais importante da Primeira Internacional foi a de ter fornecido uma firme base ideológica para desenvolvimentos futuros. No entanto, enquanto organização, ela deixou de existir completamente.

A saúde de Marx se deteriorou devido ao trabalho exaustivo na Internacional e aos seus ainda mais extenuantes estudos e escritos teóricos. Ele continuou trabalhando incansavelmente na questão da economia política e na finalização de “O Capital”, para o qual ele coletou uma gama de novos materiais e estudos, estudando uma grande quantidade de idiomas, inclusive o russo.

Morte

Marx jamais cuidou de sua própria saúde. Seu gosto por comidas fortemente apimentadas e vinho, juntamente com o excesso de fumo, certamente podem ter contribuído para a deterioração de sua saúde, que foi fatalmente debilitada por anos de pobreza. Em seus últimos doze anos de vida, seu adoecimento recorrente não mais permitia que fizesse qualquer trabalho intelectual contínuo.

As idéias de Marx, mais do que a humilde sepultura (foto) e o feio monumento em Highgate, são seu testamento. Foto: uso livre

Apesar das cada vez maiores crises de saúde, Marx se lançou em um estudo monumental das leis e da história do capitalismo, desenvolvendo uma teoria econômica inteiramente nova. Preparando-se para escrever “O Capital”, ele leu todos os trabalhos disponíveis sobre teoria e prática econômica e financeira. É suficiente ler as extensas notas de rodapé de sua grandiosa obra para perceber a impressionante quantidade de cuidadosa pesquisa realizada para sua elaboração.

Em 1867 ele escreveu o primeiro volume de “O Capital”. Ele levou o resto de sua vida escrevendo e revisando os manuscritos para os volumes restantes, que permaneceram incompletos no momento de sua morte. Os dois volumes restantes foram cuidadosamente reunidos, editados e publicados postumamente por Engels.

O golpe final para a saúde de Marx foi a morte de Jenny von Westphalen, que faleceu de câncer em 2 de dezembro de 1881 aos 67 anos. Juntamente com a morte de sua filha mais velha, essa foi uma tragédia pessoal cruel da qual Marx jamais se recuperou e que obscureceu os últimos anos de sua vida.

Capa do novo livro de Alan Woods “As ideias de Karl Marx”. Imagem: Wellred Books

Karl Marx morreu de pleurite em Londres no dia 14 de março de 1883, falecendo pacificamente em sua poltrona. Ele foi enterrado ao lado de sua esposa no Cemitério Highgate, em Londres. Seu túmulo original tinha apenas uma lápide modesta, hoje infelizmente vandalizada e amplamente ignorada pelos visitantes que se dirigem todos ao gigante monumento erguido em novembro de 1954 quando Marx e sua família foram exumados e enterrados em um novo local próximo ao antigo.

A nova lápide, inaugurada em 14 de março de 1956, carrega a inscrição “Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos!” e as igualmente célebres palavras das “Teses sobre Feuerbach”, “Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; o que importa é transformá-lo”.

Mas o verdadeiro monumento a Marx não está no Cemitério Highgate. Ele não é feito de pedra ou bronze, mas de material muito mais resistente e durável: as ideias imortais contidas nos diversos volumes de sua obra completa. Elas são a pedra fundamental do movimento mundial da classe trabalhadora e a garantia de sua vitória futura.

23 de março de 2018

[1] Organização de expatriados alemães sediada em Londes, da qual Marx e Engels se tornariam os principais teóricos.

Tradução: Felipe Libório

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