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Jornalismo Policial: um caso de Paixão e Morte

O artigo que agora publicamos  só não foi publicado antes por um descuido deste editor. O tema e o assunto merecem toda a divulgação. Trata-se da morte do cinegrafista da Band, Gelson Domingos, que segundo consta, não estaria com a proteção adequada, que deveria ser fornecida pela emissora. 

Uma questão que necessariamente deve ser investigada pelo Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro.

Minhas desculpas à Gláucia pelo atraso na divulgação da matéria. (O fato ocorreu no inicio do mês de novembro)



Gláucia Almeida

O triste fato recente ecoou nos noticiários nacionais e internacionais: o cinegrafista Gelson Domingos, da TV Bandeirantes, foi morto com um tiro de fuzil no peito durante uma operação policial na Favela de Antares, em Santa Cruz, na zona oeste do Rio. O repórter cinematográfico estava trabalhando e registrou com a câmera a sua própria morte.

De acordo com o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio, durante a cobertura policial, Gelson usava um colete à prova de balas do tipo II-A, que não oferecia segurança contra tiros de fuzil, enquanto a Band afirmou em nota no domingo que ele estaria usando um colete do tipo III-A, o de maior proteção.

Este fato traz à tona as arriscadas condições de trabalho que os jornalistas enfrentam durante coberturas policiais no Rio de Janeiro, mesmo em empresas de grande porte como a Globo, a Record e a Bandeirantes. A policia tem tropa de elite, armamento pesado e carros blindados. Enquanto os jornalistas entram nas favelas desarmados, com coletes que não suportam o potencial das armas usadas nessa guerra, carregando uma câmera de mais de 4kg no ombro, tendo que enquadrar a imagem, fazer foco, dar zoom, captar o som, etc. Isso tudo sem falar nos esquemas de plantões e jornadas de trabalho desumanos, a exemplo da cobertura da invasão do Morro do Alemão em 2010 pela PM, em que repórteres ficaram dia e noite no ar, trabalhando horas a fio.

Como se não bastasse, as reportagens sobre a morte do cinegrafista Gelson Domingos, exibidas não só pela Band, mas pelas demais emissoras de TV, rádio e jornais impressos no Rio foram cunhadas sob um mesmo tom: lamentando o ocorrido e destacando acima de tudo a ‘paixão’ que Gelson possuía pelas coberturas policiais. A abordagem foi ratificada por depoimentos de familiares de Gelson, como o do irmão do cinegrafista, que lamentou na reportagem exibida pela TV Globo: “Não há o que fazer, ele morreu fazendo o que ele gostava muito. Ele se preocupava bastante, mas era a vida dele, o trabalho dele”.

Além das péssimas condições de trabalho, os jornalistas em geral compartilham de uma cultura organizacional estimulada pela alta concorrência desse mercado e pela total espetacularização da notícia, que são transferidas para o dia a dia da profissão. As redações anseiam todos os dias por furos, cenas espetaculares, depoimentos exclusivos e mais outras exigências que transformam repórteres em protagonistas desta disputa entre emissoras. Para conseguir uma ‘história’ digna de Hollywood, os jornalistas acabam assumindo papéis de super-heróis inatingíveis.


Essa ‘paixão’ pelo jornalismo, pela informação a qualquer custo, evocada por grande parte dos jornalistas desde a faculdade, funcionam de forma eficiente à favor da exploração. Em nome dessa paixão, jornalistas aceitam salários reduzidos, são enviados para a guerra sem a menor segurança, viram noites e trabalham fins de semana para muitas vezes ter o objeto do seu trabalho cortado ou excluído da programação no fim do dia. As pautas caem, todo jornalista sabe disso. Não importa quantas horas você dedicou àquela cobertura, o quanto foi complicado conseguir aquele depoimento, se alguma dupla sertaneja resolve brigar naquele dia, seu trabalho vai para o lixo ou, se você tiver sorte, para a ‘gaveta’.

As últimas imagens que Gelson captou antes de cair mereceram destaque no horário nobre durante dias, assim como a notícia da sua morte. Esse sem dúvida foi o maior furo jornalístico da sua carreira, mas ele não está mais aqui para receber os créditos. E ao invés de procurarmos culpados nessa história e questionarmos o que é preciso mudar para que casos assim não se repitam temos que assistir à justificativa dada pelas grandes emissoras de que “ele morreu fazendo o que amava”. Muito conveniente.  

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