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Israel se retira de Gaza

Para sair do Iraque os norte-americanos terão que falar com a Síria e o Irã, e nestas negociações (que se realizarão a porta fechada, longe dos olhos inquisidores da opinião pública), será decidido o destino dos palestinos.

Israel está retirando suas forças de Gaza depois de uma tentativa de trégua com o Hamas. A retirada, que começou no domingo pela tarde, continua hoje (19/01) de maneira gradual. Israel e o Hamas declararam o cessar-fogo separadamente no domingo. O primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, disse no domingo que Israel não pretendia manter uma presença militar dentro da Faixa de Gaza, nem que seu objetivo seja reconquistar o território.

Nas três semanas de guerra devastadora, foi infligido um dano terrível a Gaza. Em um recente artigo (A Invasão de Gaza: O que significa? PARTE I e PARTE II), assinalei que a intenção do imperialismo israelense não era ocupar Gaza e sim provocar o máximo possível de danos ao Hamas, aterrorizar a população e depois se retirar. É isso o que agora está acontecendo. Olmert disse aos líderes europeus que visitavam Jerusalém no domingo pela tarde, que Israel planejava retirar todas as suas tropas quando a situação entre Israel e Gaza fosse “estável”.

“Não nos propúnhamos conquistar Gaza, não buscávamos controlar Gaza, não queríamos permanecer em Gaza e pretendíamos abandonar Gaza o mais rápido possível”, foi isto o que disse Olmert em uma ceia com os líderes da Grã-Bretanha, França, Alemanha, Espanha, Itália e República Checa. Esta decisão causará um tremendo alívio nas capitais ocidentais que, embora publicamente simpatizassem com as preocupações de segurança de Israel, estavam alarmadas pelo crescente número de vítimas civis e pelos efeitos desestabilizadores nos países árabes vizinhos.

Vazias fanfarronadas do Hamas

Como sempre, os principais perdedores são as pessoas comuns. Nestas três devastadoras semanas de guerra, foi causado um dano horrível. As tropas e os tanques que assaltaram Gaza em três de janeiro tiveram duas semanas para pulverizá-la, depois que esta já se encontrava seriamente destruída devido ao selvagem bombardeio aéreo. Agora, os palestinos traumatizados pela guerra terão tempo para fazer um balanço da situação. A guerra cobrou um tributo terrível para o já empobrecido território.

Quando os palestinos saírem de seus esconderijos e virem as ruínas de suas casas, a última coisa que vão querer é a renovação do combate que já cobrou a vida de mais de 1.300 de seus habitantes, e que serão ainda mais quando morrerem os feridos que agora se encontram nos hospitais. A infra-estrutura deste território desesperadamente pobre foi devastada. Seu governo e administração encontram-se em ruínas. Apesar dos fatos evidentes, o responsável da administração do Hamas anunciava uma “vitória popular contra Israel”. Ismail Haniyeh disse em seu discurso que: “O inimigo não conseguiu seus objetivos”. A decisão do Hamas de anunciar uma trégua estava condicionada à retirada israelense dentro de uma semana. Segundo ele afirmou, isto era algo “ajuizado e responsável”.

Estas palavras desafiantes não refletem a verdadeira situação. Os israelenses estão se retirando porque conseguiram o seu objetivo imediato, como já destaquei em meu anterior artigo: “Sua intenção agora é realizar um ataque limitado que destruirá seriamente a capacidade de combate do Hamas e assassinará a tantos dirigentes e milicianos o quanto seja possível antes da retirada, infligindo o máximo de danos à economia e à infra-estrutura de Gaza que demorarão a ser reconstruídas”. Foi isto o que aconteceu.

Numa tentativa de demonstrar que ainda é capaz de mostrar algum tipo de resistência, o Hamas no domingo, disparou uns 20 foguetes sobre Negev, mesmo quando já tinha sido anunciada ao mundo a trégua. Mas foram simples picadas e não afetarão minimamente os planos dos israelenses.

Ehud Olmert interpretou isto, junto às declarações dos líderes do Hamas anunciando a “vitória”, como o que eram realmente, isto é, como gestos vazios. O primeiro-ministro israelense declarou que a missão estava cumprida e ninguém pode duvidar de que tivesse boas razões para declará-lo, pelo menos quanto aos objetivos militares de curto prazo. Em 27 de dezembro, Israel lançou uma massiva ofensiva por ar, terra e mar. Contra o poderoso estado israelense, os pequenos foguetes caseiros não podem ocasionar um prejuízo real.

A decisão israelense de se retirar absolutamente foi condicional como disse o Hamas. Estes últimos já haviam dito que deixariam de disparar foguetes “até que tenha saído de Gaza o último soldado israelense”. Mas, na realidade, terão que parar. Sua capacidade de combate está seriamente prejudicada. Ademais, a espada de Dâmocles continua suspensa sobre a cabeça do povo de Gaza: se os ataques palestinos com foguetes forem retomados, os israelenses não hesitarão em intervir novamente.

Israel ainda controla Gaza com punho de ferro. A Rádio Israel informava que os israelenses permitiriam a entrada de 200 caminhões de ajuda humanitária em Gaza. Mas este território pode ser aberto ou fechado à vontade de Israel. Tanto no terreno militar quanto no econômico, Israel tem todas as cartas nas mãos.

O que foi obtido?

O que se obteve do ponto de vista dos palestinos? Na situação atual de Gaza com relação a Israel tudo continua precisamente onde se encontrava antes do conflito, isto é, um pequeno estado inviável com 1,5 milhões de pessoas encerradas dentro de uma faixa submetida a um bloqueio férreo. Sua vida econômica antes da invasão aos poucos estava sendo estrangulada. Agora, encontra-se totalmente destroçada. A perspectiva para estas pobres pessoas é sombria.

Segundo o Bureau Palestino de Estatísticas, uns quatro mil edifícios residenciais ficaram reduzidos a escombros neste ataque. Os diplomatas ocidentais disseram que poderia custar pelo menos 1,6 bilhões de dólares a reparação da infra-estrutura destruída de Gaza. “Não sei que tipo de futuro tenho agora; somente Deus conhece o meu futuro depois de tudo isto”, dizia uma estudante de 19 anos, Amani Kurdi, ao jornal Haaretz, quando perguntada pela destruição da Universidade Islâmica de Gaza, onde estudava ciências.

Durante as últimas semanas os governos se contentavam em fazer gestos teatrais de preocupação e em derramar lágrimas de crocodilos enquanto a população de Gaza era submetida a um violento bombardeio. Dentro de Israel, que no total perdeu dez soldados em combate (e três civis devido aos foguetes), a guerra foi popular e reforçou as perspectivas da ministra do exterior, Tzipi Livni, e do ministro da defesa, Ehud Barak, antes das eleições de 10 de fevereiro. A guerra também agitará os sentimentos chauvinistas e incrementará o apoio à direita. Isto pode ser visto nas pesquisas que prognosticam a vitória fácil do líder direitista da oposição, Benjamin Netanyahu. Devemos recordar que ele se opôs em 2005 à retirada israelense de Gaza depois de 38 anos de ocupação, com o argumento de que isto alentaria a linha dura dos palestinos.

A guerra também minou a credibilidade do presidente palestino Mahmoud Abbas, apoiado pelo Ocidente, que tentou negociar a paz com Israel. Isso aprofundou as divisões já encarniçadas que existem entre os palestinos, que se sentem deprimidos e desorientados.

Durante as conversações com os mediadores egípcios, os dirigentes do Hamas exigiram a abertura de todos os bloqueios fronteiriços de Gaza para permitir a entrada de materiais, alimentos e atender as necessidades básicas. É provável que se façam algumas concessões a este respeito. A França, a Alemanha, a Grã-Bretanha, a Espanha, a Itália e a República Checa (atualmente na presidência da União Européia) pediram a Israel que abra as fronteiras de Gaza para que a ajuda entre o mais rápido possível.

Olmert disse que Israel queria sair o mais rápido possível e seu porta-voz, Mark Regev, assinalou que se a calma fosse mantida permitiriam a entrada de “quantidades enormes” de ajuda. Mas haverá condições, como vemos nestas palavras: “se a calma for mantida”, enquanto o Hamas se mantiver neutro e se mostrar impotente como força militar.

Os governos ocidentais e os chamados “estados árabes moderados” – isto é, pró-estadunidenses – queriam ver o Hamas esmagado e não tiveram pressa em deter o trabalho sangrento dos israelenses. Mas agora que a maquinaria militar israelense conseguiu seus objetivos e decidiu se retirar, teve início uma ofensiva de iniciativas diplomáticas. Todos, os EUA e os países europeus, lutam pela paz, ou seja, lutam para evitar que o Hamas se rearme.

Esta é a condição que os israelenses exigirão e que estão decididos a conseguir. O ministro da segurança pública, Avi Dichter, ameaçou com uma resposta militar se fosse renovada a afluência de armas à Faixa de Gaza. Ele disse que Israel consideraria este contrabando como um ataque a seu território. Portanto, podemos esperar ver medidas ainda não conhecidas para deter o contrabando de armas do Hamas através da fronteira do Egito com Gaza, questão esta que teria o apoio em Cairo, se puderem fazê-lo. Dichter disse o seguinte à Rádio Israel: “Isso significa que se for renovado o contrabando, Israel verá isto como se tivessem reiniciado o fogo”.

Israel e Obama

O momento da retirada é significativo e confirma o que escrevi em meu artigo. Nele explicava que a classe dominante israelense atacou Gaza antes que Obama substituísse George Bush em 20 de janeiro, como uma mensagem a Washington para que não chegasse a nenhum acordo com os árabes que não fosse de seu agrado. Depois de ter sublinhado de forma eloqüente este ponto, agora se retiram para não provocar mais problemas desnecessários ao novo homem da Casa Branca.

Este fato foi admitido por Haaretz Service e New Agencies, que ontem publicavam: “Funcionários israelenses disseram que as tropas seriam retiradas totalmente antes da tomada de posse de Barack Obama como novo presidente na terça-feira. Os funcionários falaram com a condição de guardar o anonimato porque o plano não foi anunciado publicamente”.

O presidente eleito dos EUA tem que fazer o seu juramento nesta terça-feira (20/01). Todo o mundo olha para Barack Obama para resolver este problema. Mas todos agora o olham para que resolva os problemas do mundo. Esta seria uma tarefa difícil mesmo para o Todo-Poderoso. Obama acredita no Todo-Poderoso, mas já está explicando à população norte-americana que carece do poder necessário de fazer milagres. É uma pena, pois estão esperando justamente por milagres.

A Secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, disse que: “Mantém-se o objetivo de um cessar-fogo duradouro e respeito que leve à estabilização e normalização de Gaza”. Um porta-voz de Obama assinalou que ele dava as boas-vindas à trégua em Gaza e que diria mais sobre a situação ali quando assumisse a presidência. A prioridade principal de Obama será a de fortalecer a sua posição em casa ao tirar as tropas do Iraque o mais rápido possível. Necessita fazer isto (e fazer outros gestos populares) no primeiro período de sua administração, e, assim, preparar o terreno para os profundos cortes dos níveis de vida que terá de fazer mais tarde. Sua oferenda de uma coroa de flores em honra dos caídos norte-americanos na guerra antes de sua posse não foi por casualidade. Está dizendo à opinião pública norte-americana: “Bush os meteu nesta guerra. Não se preocupem. Eu os tirarei dela!”.

Contudo, como expliquei em meu artigo, para sair do Iraque os norte-americanos terão que falar com a Síria e o Irã, e nestas negociações (que se realizarão a porta fechada, longe dos olhos inquisidores da opinião pública), será decidido o destino dos palestinos. A invasão de Gaza era parte destas negociações que se parecem a um jogo de xadrez, onde todas as nações são colocadas como se fossem simples peões, para que os estados poderosos possam obter seus principais objetivos.

A população palestina não pode esperar nada de “amigos” como Obama ou dos governos da União Européia. Ainda menos pode esperar dos “amistosos” governos árabes que temem os palestinos porque podem sublevar as massas de seus próprios países, ou que utilizam a causa palestina como um peão no jogo de xadrez da diplomacia.

O problema palestino não será resolvido lançando foguetes ou enviando suicidas para explodir ônibus em Israel, como defende o Hamas. Tampouco o solucionará Abbas, que, sob o disfarce da negociação de paz, está preparando o terreno para claudicar ante Israel e os imperialistas. O problema somente poderá ser resolvido como parte da luta revolucionária das massas pela derrubada dos corruptos regimes árabes pró-ocidentais e estabelecendo governos de operários e camponeses no Oriente Médio.

Da mesma maneira que o problema nacional na Rússia não se pôde resolver até que os trabalhadores e os camponeses tomassem o poder, igualmente no Oriente Médio a questão nacional dos palestinos, curdos e outros povos oprimidos somente se solucionará mediante o poder operário e uma federação socialista. A única maneira de se desafiar o poderoso imperialismo israelense é distanciando os trabalhadores do sionismo e isso somente se pode fazer sobre a base de uma política de classe revolucionária. Qualquer outro caminho levará ao aumento dos ódios nacionais, ao chauvinismo, a novos massacres, guerras e derramamentos de sangue. Os palestinos no passado tinham uma tradição socialista, hoje essa tradição é a única salvação!

Londres, 19 de janeiro de 2009.

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