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Irlanda – 1967-2007: Uma visão geral

A seguir publicamos a transcrição da intervenção feita por Gerry Ruddy, membro do Partido Socialista Republicano Irlandês, em Barcelona, no dia primeiro de agosto deste ano, em um ato que reuniu marxistas de todo o mundo.

“Fiz o que pude para provocar esta manifestação dos trabalhadores ingleses a favor do fenianismo
(republicanismo)… Eu pensava que a separação de Inglaterra e Irlanda era impossível. Hoje, creio ser inevitável, se bem que a separação pode ser seguida de uma federação” (Carta de Marx a Engels. Dois de novembro de 1867. Grifado no original).

É do interesse direto e absoluto da classe trabalhadora inglesa que esta se livre de seu atual vínculo com a Irlanda… A classe trabalhadora da Irlanda nunca fará nada enquanto não se livrar da Irlanda” (Carta de Marx a Engels. 10 de dezembro de 1869. Grifo no original).

Em Janeiro de 1967, foi criada a Associação de Direitos Civis da Irlanda do Norte (NICRA) e assim começou toda a cadeia de acontecimentos conhecidos habitualmente entre a população irlandesa como “problemas” (troubles). É importante ter uma visão geral do que ocorreu nestes últimos quarenta anos, estudar os erros, as idéias equivocadas, as confusões e os êxitos. Dividirei esta época em três fases amplas:

• A fase democrática

• A luta armada

• A etapa reformista

A pesar de reconhecer que é uma divisão muito geral, trata-se sim de uma ferramenta útil para se chegar a um quadro global dos últimos quarenta anos e, certamente, aprender algumas lições valiosas desse período de luta.

Em 1967, como hoje, a Irlanda estava dividida em dois estados. A Irlanda do Norte tinha seu próprio governo local, sob completo domínio unionista, que discriminava os católicos nacionalistas. Além disso, sua classe dominante local via a si mesma como britânicos autênticos e possuíam uma economia baseada na indústria pesada vinculada diretamente à economia britânica. Contudo, essa classe se sentiu incomodada quando o Partido Trabalhista britânico chegou ao poder em 1964. Setores da direção do partido unionista reconheciam que teriam que fazer algumas pequenas reformas para satisfazer as reivindicações democráticas. Também admitiam que as relações entre a República da Irlanda e a Grã-Bretanha começavam a descongelar como conseqüência direta da decisão da burguesia irlandesa de abandonar o protecionismo.

“A inversão estrangeira, em particular na indústria exportadora, era bem-vinda. Em 1956, as exportações dos novos inversores obtiveram lucros graças a um período de quinze anos livres de impostos. Foram eliminadas progressivamente as restrições à propriedade da indústria, até que todas foram eliminadas em 1964. Reconhecia-se a importância das importações a baixo custo para as indústrias exportadoras e começaram a ser reduzidas as barreiras alfandegárias. Ainda fora do mercado comum, a Irlanda entrou em um acordo de livre comércio com a Grã-Bretanha em 1965” (James B. Burnham. Why Ireland Boomed. The Independent Review. v. VII. Nº 4. Primavera 2003. ISSN 1086-1653, pp. 537-556).

Em 1973, tanto a Grã-Bretanha como a Irlanda entraram de fato na CEE (Comunidade Econômica Européia), o que marcou um ponto de inflexão fundamental nas relações entre os dois países.

A partir desse momento, era imperativo eliminar os obstáculos que impediam a melhora das relações entre as classes dominantes. A maior causa de fricção era a situação na Irlanda do Norte. Os dois grandes partidos da República da Irlanda possuíam raízes no movimento republicano antes da partição nos anos vinte e acreditavam que desempenhavam o papel de guardiões dos nacionalistas do norte mais em um sentido teórico do que prático.

A discriminação no norte era a norma por parte das empresas unionistas e também dos órgãos do Estado. Os apoiadores do partido unionista eram recompensados com moradias, empregos etc., por sua lealdade ao Estado. Exerciam eles o controle através de organizações como a Ordem de Orange, um corpo reacionário construído para criar uma aliança entre todas as classes para manter os trabalhadores protestantes separados dos trabalhadores católicos. Mas outros setores da classe dominante não achavam necessário mudar nada e, em 1967, foram proibidos os clubes republicanos. Desse modo, os republicanos eram deixados sem meios democráticos para expressar suas idéias. Foi nessa época que o IRA, quase inexistente, e os republicanos deram um passo em direção a atividade puramente política.

O republicanismo irlandês experimentou então várias mudanças importantes. Depois do fracasso absoluto da campanha do IRA no período de 1956-1961, o movimento republicano girou à esquerda sob a influência de elementos próximos ao Partido Comunista da Grã-Bretanha e à Associação Connoly, com base na Grã-Bretanha. Apesar da oposição dos tradicionalistas e dos voluntários fortemente influenciados pelo catolicismo, a “esquerda” em 1967 conseguiu o controle do movimento republicano. Assemelhavam-se a um partido populista radical fazendo campanha sobre questões sociais e nacionalistas.

Mas, certamente, as aparências podem enganar. Abaixo da superfície, dentro do republicanismo irlandês existia todo tipo de contradições. Existiam tendências nacionalistas fortes e havia uma pró-católica que via o protestantismo, a maçonaria livre e o judaísmo como inimigos a serem temidos. No contexto do partido governante dos 26 condados da Irlanda do Sul, o Fianna Fail, depois de haver abandonado a política nacionalista protecionista introduzida por seu fundador Eamon de Valera nos anos trinta, o Sinn Fein viu a si mesmo como o verdadeiro guardião dos republicanos irlandeses e considerava a introdução do livre comércio tanto como uma capitulação ante as forças do capitalismo internacional, quanto como uma abertura à perspectiva aterradora dos comunistas chegando ao poder na Irlanda, para apoderar-se dos empregos irlandeses e como uma ameaça para “nossa forma de vida cristã”.

“Se nos tornarmos membros da CEE não haverá nenhuma restrição à entrada na Irlanda dos comunistas da Itália, França ou de qualquer outro país do Mercado Comum” (Thomas MacGiolla. Nation or Province. Ireland and the Common Market. Dublin. 1963).

A direção do movimento republicano era incapaz de compreender que a tentativa de construir uma economia baseada no protecionismo sempre estaria condenada ao fracasso devido à internacionalização cada vez maior do capitalismo.

O Fianna Fail, como representante da burguesia local, achava que seus interesses futuros estavam vinculados aos do capitalismo internacional. Durante os anos cinqüenta, mais de 800.000 pessoas emigraram, a pobreza e o desemprego eram altos e o movimento republicano, que ignorava esses males sociais, concentrava-se exclusivamente na campanha armada no norte. Em 1967, a classe dominante do sul renunciou à questão nacional ao ver suas perspectivas econômicas futuras atadas à CEE e, além disso, estreitava laços políticos e econômicos com o Reino Unido.

Em uma tentativa de conseguir apoio do movimento republicano ante o crescente interesse pelo socialismo no mundo durante os anos sessenta, e influenciados pela guerra do Vietnã e a revolução cubana, começaram a falar a linguagem do socialismo. Durante um fim de semana, alguns poucos membros da direção do IRA, sem um debate sério na base, simplesmente declararam que o objetivo a partir desse momento seria o estabelecimento de uma república socialista.

Esta decisão não foi tomada por razões ideológicas, e sim por puro pragmatismo. Contudo, há que se assinalar que o modelo socialista do movimento republicano importava tudo dos partidos comunistas oficiais, ou seja, dos partidos leais à burocracia estatal da URSS. Não foi por coincidência que fosse este o modelo escolhido, já que o movimento republicano era demasiado militarista e considerava perfeito o modelo estalinista. Não havia discussão democrática séria dentro da organização: a direção, o conselho militar do IRA, considerava-se por direito o governo legítimo da República da Irlanda, proclamada em 1916 e aprovada nas eleições gerais de 1918.

Na prática, a união do controle estalinista e militarista funcionou bem no movimento republicano. Ordenou-se aos voluntários do IRA a entrada nas organizações de massas, votar pelos indivíduos indicados e executar fielmente o que ditasse a direção. Aqueles que discordavam eram rotulados de católicos de direita ou trotsquistas sabotadores.

Tomas MacGiolla, anteriormente na ala direita e presidente do Sinn Fein, abraçou incondicionalmente a nova direção. Estas mudanças bruscas de orientação ideológica são características da corrente dominante do republicanismo.

“O Sinn Fein começou como uma organização pequeno-burguesa de direita. Nos anos trinta, o movimento era socialista de nome. Nos quarenta, era corporativista e profissional. Nos anos sessenta novamente passou ao socialismo e nos setenta retornou ao corporativismo, até que, em 1982, uma vez mais se converteu em socialista. Apesar de todas as mudanças na perspectiva social, sua natureza como ala militante do nacionalismo irlandês permaneceu inalterada” (Irish Republicanism and Socialism. Pat Walsh. Athol Books. Junio 1944. p. 255).

Durante o conflito armado, o movimento provisório girou várias vezes da direita à esquerda, dependendo das circunstâncias do momento. A direção republicana sabia que adotando uma posição de esquerda absorveria a energia da esquerda e recuperaria suas fileiras, além de conseguir credibilidade internacional entre os movimentos revolucionários do mundo. Em 1967, apesar do lento giro em direção a uma orientação esquerdista, o então movimento republicano definia-se, sobretudo, por sua ênfase na luta armada, na recusa ao parlamentarismo e no desprezo pelos não republicanos. Certamente, existiam exceções, como Seamus Costello, que mais tarde fundou o Partido Socialista Republicano Irlandês e construiu uma base forte para o republicanismo entre a classe trabalhadora com uma luta de classes militante em sua zona, Bray, ao sul da Irlanda.

Em 1967, dentro da esquerda, crescia o interesse pelos escritos de James Connoly, o marxista e republicano, dirigente da Insurreição da Páscoa de 1916. Além disso, estavam sendo comemorados os cinqüenta anos dessa rebelião. Inclusive, o Partido Trabalhista, conservador católico e servil, começou a permitir dentro de suas fileiras o socialismo e chegou a dizer que os “anos setenta serão socialistas”. Mas também há que se explicar que o Partido Trabalhista Irlandês não é um partido de massas da classe trabalhadora; é mais uma união de partidos baseados na personalidade dos membros eleitos nos municípios que compartilham uma perspectiva social conservadora.

No norte, a estratégia se desenvolveu com uma ampla aliança entre os comunistas republicanos e liberais para defender a luta pelos direitos democráticos dentro da Irlanda do Norte. Isto levou à fundação do movimento dos direitos civis (NICRA), que levou milhares às ruas para reivindicar os direitos democráticos. Sua alternativa era: primeiro, a etapa democrática que implicava a luta pela democracia no norte; após o desenvolvimento dessa luta, chegar-se-ia ao fim da partição e ao estabelecimento de um governo nacional para toda a ilha. Depois, somente depois, seria colocada a questão do socialismo. Em essência, esta posição supunha a defesa de uma Irlanda capitalista e, claro, não fazia nenhum chamado aos trabalhadores protestantes pró-britânicos nem, na realidade, aos trabalhadores e desempregados que haviam emigrado das duas partes da ilha durante todas essas décadas devido à pobreza e ao desemprego existentes. Devemos recordar que o chamado “tigre celta” – é assim que se qualifica o período de crescimento econômico da República da Irlanda – não se deu até meados dos anos noventa.

Apesar dos republicanos participarem da luta pelos direitos civis, não necessariamente a controlavam, e os republicanos mais à direita consideravam as reivindicações de direitos para os cidadãos britânicos como um anátema e anti-republicanas. A posição do NICRA era defender duas etapas claramente separadas na questão nacional da Irlanda. Depois, deparou-se com derrotas inevitáveis, pois devido a suas estreitas reivindicações “democráticas” já não podiam satisfazer o anseio geral de uma Irlanda unida. Porém, nesta etapa, a direção do movimento republicano estava muito atada à teoria das etapas e isso permitiu que a ala direita republicana conseguisse influência dentro das zonas nacionalistas.

Naturalmente, existiam outras perspectivas. As idéias de Trotsky começaram a circular mais amplamente nos anos sessenta e o movimento estudantil radicalizado, Democracia Popular, estava muito influenciado pelo trotsquismo. Dos debates daquela época surgiram duas idéias chaves separadas: a primeira, que a campanha pelos direitos civis, se não se convertesse em uma campanha pelos direitos econômicos, afastaria a classe trabalhadora protestante da luta pelos direitos civis, que se converteria na prática em uma luta exclusiva dos católicos. Portanto, se os católicos ganhassem, a classe trabalhadora protestante sentiria ameaçados seus empregos e moradias. Esta linha de argumento, corretamente, defendia que a menos que não se defendessem todas as questões de classe, era inevitável que a luta terminasse em um enfrentamento sectário. Infelizmente, alguns dos grupos que adotaram esta posição chegaram a qualificar como sectária a luta pelos direitos civis. Ainda que no papel defendessem a luta pelos direitos democráticos, nunca fizeram uma campanha séria aludindo a cada passo o perigo da degeneração sectária. Não conseguiram reconhecer que Lênin, como o fez Marx, considerava que a vanguarda necessitava estar na primeira linha de frente em todas as manifestações de descontentamento da sociedade e que isso incluía as reivindicações democráticas.

“Um tribuno do povo, deve ser capaz de reagir a cada manifestação de tirania e opressão, não importa onde ocorra nem a que estrato ou classe da população afete; deve ele generalizar todas estas manifestações para produzir uma só imagem da violência policial e exploração capitalista; deve ser capaz de aproveitar cada acontecimento, ainda que pequeno, para explicar a todos suas convicções socialistas e reivindicações democráticas, para explicar a todos e a cada um o significado histórico mundial do proletariado em sua luta pela existência” (Lênin, Que fazer?).

Outra visão separada, mas relacionada, defendia que era necessário vincular a luta pelos direitos civis à luta de classes e à questão do imperialismo na Irlanda. Esta linha de pensamento finalmente apareceu no Partido Socialista Republicano Irlandês.

1 – A Etapa Democrática

A etapa democrática da luta durou de 1967 até aproximadamente 1972. Também nela podem ser distinguidos três períodos separados.

Primeira. A etapa liberal

Nesta etapa, as características chaves do NICRA sob a influência do Partido Comunista influíam na população, nas direções do movimento sindical e buscavam ajuda dos parlamentares trabalhistas britânicos. Contudo, em um contexto de quase indiferença total por parte da classe dominante unionista, aumentou a pressão e o NICRA decidiu passar à segunda etapa com manifestações nas ruas.

Segunda. Os protestos nas ruas

Tudo mudou. Todos os meios de comunicação mundiais tinham posto seus olhos na polícia (o RUC) e em como golpeava os manifestantes incluindo membros “respeitáveis” da população nacionalista. Isto galvanizou não só a população estudantil como também a muitos nacionalistas dentro da classe trabalhadora. Em um nível nunca visto antes, mostrou a relevância da fase democrática da luta. Saíram às centenas, depois aos milhares, às ruas com uma raiva justificável por anos de opressão.

A direção do NICRA atraiu a atenção da classe média nacionalista que durante muito tempo tinha evitado a luta política. Subiu no vagão e tentou levar a luta ao terreno puramente reformista, com manifestações pacíficas, apesar da violência do RUC e de seus leais seguidores nas zonas operárias. Ao estimular o temor da classe trabalhadora unionista, deram prioridade aos empregos e moradias. Muitos deles talvez estivessem em melhores condições que os trabalhadores católicos, mas também havia outros que se encontravam em piores condições. Contudo, acreditavam que tinham mais em comum com seus líderes capitalistas que com os trabalhadores. Assim começou a luta política pelo controle do movimento pelos direitos civis entre os elementos conservadores e o setor mais militante orientado para os estudantes republicanos e socialistas. Deste modo, foi iniciada a terceira e última etapa.

Terceira. A luta de massas

Nesta etapa, a consciência política da classe trabalhadora nacionalista alcançou seu nível mais elevado devido à enorme pressão das zonas operárias que eram atormentadas por constantes batidas policiais, ataques com gases lacrimogêneos etc. O Estado utilizava diariamente a tortura e a brutalidade como partes de sua arma de fustigamento.

O povo começou a tomar o controle de suas zonas e estabeleceu zonas livres fora do controle das forças estatais. Dentro dessas zonas livres se desenvolveram debates e discussões políticas entre os republicanos e os socialistas, alcançando um alto nível teórico. Contudo, também houve luta pelo controle destas zonas, o que algumas vezes acabou em violência dentro do próprio campo republicano. Surgiram tensões devidas ao fracasso do IRA em 1969. O IRA não foi capaz de defender as zonas nacionalistas quando os RUC/B Especiais e as bandas lealistas iniciaram um pogrom contra os nacionalistas. Estes ataques levaram ao maior movimento da população civil desde a II Guerra Mundial. Apesar dos poucos voluntários que defenderam as zonas nacionalistas, onde todos os membros do IRA oficial continuaram leais a esta organização, o recém formado IRA Provisório manipulou habilidosamente os fatos para se apresentar como os defensores da população nacionalista. Muitos trabalhadores católicos se uniram a eles e muitos deles estavam também motivados pelo desejo de vingança sectária contra as bandas protestantes que atacavam as zonas católicas. Daí surgiu uma luta política e militar encarniçada, que começou quando terminava a luta de massas que alcançou seu ponto álgido depois que as forças britânicas de ocupação massacraram 14 manifestantes civis em Derry, em 30 de janeiro de1972 conhecido como o Domingo Sangrento. O efeito destes acontecimentos foi estimular a afiliação ao IRA-P que parecia mais militante frente aos demais. Os Provisórios começaram uma campanha de ataques à bomba que acarretaram muitas baixas civis e afastou ainda mais os protestantes do republicanismo e levou à redução da luta de massas.

A campanha guerrilheira também intensificou a reação lealista, que adotou a forma de assassinatos de católicos. Ainda assim, não podemos esquecer que qualquer avanço democrático para os nacionalistas do norte sempre se deparou com uma violenta reação lealista. A forma popular de expressar-se então, como agora, pode ser resumida no que se escrevia nas paredes: Assassinar os Taigs, isto é, os católicos. Desde 1972 centenas foram assassinados e as forças de segurança do Estado apoiaram e treinaram parcialmente estes assassinos lealistas, negaram que houvessem sido assassinos sectários e em seu lugar qualificaram-nos de “assassinos sem causa”. Era evidente que o Estado britânico apoiava esta campanha de assassinatos: os agentes britânicos entregavam-lhes armas, treinavam-nos e dirigiam sua campanha terrorista contra a população nacionalista/católica. Até hoje se negam a reconhecer esta colaboração. Nós republicanos irlandeses necessitamos aprender com as lições do “terrorismo” do estado britânico.

2 – A luta armada

Em 1974 haviam terminado as manifestações de massas e o IRA Provisório continuou com sua campanha de atentados. A população nacionalista esteve junto à campanha de assassinatos dirigida pelos paramilitares lealista sob a influência, direção e controle das forças de segurança britânicas e do RUC. Isto, por sua vez, levou os republicanos pelo caminho das ações sectárias e há que se admitir que todas as organizações republicanas foram igualmente culpadas deste erro.

Nosso próprio movimento se desiludiu com o cessar fogo do IRA Oficial e também por causa de seu giro em direção à política reformista de romper com o IRA; fundou-se o IRSP e dois meses mais tarde o INLA.

Estávamos então nessa fase de luta dominada pela luta armada. Tentarei deixar o mais claro possível minha posição pessoal. Apesar de ter dúvidas e vacilações sobre algumas táticas utilizadas durante o curso da luta tanto do IRA como do INLA, apoiei esta luta armada. Na primeira fase da luta democrática, eu e muitos outros praticávamos a não violência: manifestações, etc., assim que cheguei às ruas e vi as forças da reação, girei em direção à classe trabalhadora. No fim das contas como Trotski escreveu:

“Encontramos violência em toda parte… não inventamos nem a violência nem o terrorismo… nascemos no seio da violência capitalista… vivemos e morremos no terrorismo imperialista… é nosso ‘pão cotidiano”.

Contudo, a resistência armada tem um tempo limite que, ao ser ultrapassado, torna-se improdutivo. Alguns republicanos elevaram a luta armada como a estratégia para conseguir seus objetivos. Não têm em conta as condições existentes, o ambiente das massas nem as forças políticas, sociais e econômicas em jogo. Ao divorciar a luta armada da luta de massas, elevam a luta armada à única forma de derrotar o imperialismo; nisto o republicanismo irlandês fracassou. Apareceu o elitismo. Em todos os grupos armados aparece este tipo de elitismo: um de nossos companheiros, Ta Power, fez uma análise excelente deste processo em um documento do IRSP, que foi o início de nosso largo caminho de afastamento do militarismo e aproximação ao socialismo.

Não só a população das zonas nacionalistas pouco a pouco se desiludiu com a luta, como, além disso, se via reduzida ao papel de pequenos jogadores, somente para serem mobilizados ao sinal da ordem de um conselho militar. Muitos ativistas, tanto no terreno político como militar, também se desmobilizaram. Não houve uma tentativa de vincular as lutas cotidianas da população com uma luta antiimperialista global. Em lugar de girar em direção à classe trabalhadora organizada do norte e do sul, o republicanismo provisório encontrou-se em um beco sem saída. Desesperados, recorreram às igrejas e às classes dominantes da Grã-Bretanha e Irlanda para que lhes tirassem do abismo em que se encontravam.

O processo de redução gradativa da luta armada e de se alcançar um acordo com o imperialismo demorou muito e agora ficou claro que a direção republicana provisória estava em contato tanto com os serviços britânicos de inteligência quanto com o governo britânico, mesmo quando os voluntários do IRA/INLA agonizavam devido às greves de fome de 1981. Em vez de buscar o apoio de massas que os grevistas tinham, para convertê-lo numa luta antiimperialista, o republicanismo utilizou a emoção que a situação provocava para empreender passos lentos em direção ao parlamentarismo. Ao mesmo tempo, a luta armada continuava, mas, fora alguns êxitos ocasionais espetaculares em termos militares, esta cada vez mais se tornava ineficaz e contraproducente.

A luta armada não é nenhum caminho romântico ou heróico para mudar o mundo. A realidade é diferente e brutal, Significa enviar um homem com uma bomba num caminhão para explodi-lo contra um estabelecimento militar; ir por trás de um policial e disparar-lhe à cabeça; colocar uma bomba num restaurante onde podem morrer crianças; subir num ônibus e disparar sobre aqueles que professam uma religião de que não se gosta; colocar uma bomba debaixo de um automóvel sem saber quem será o condutor.

Estes atos, da mesma forma que provocam conseqüências devastadoras sobre as vítimas, também afetam os voluntários que os realizam. Longos anos de prisão, afastados de seus filhos e esposas, vidas quebradas, alcoolismo… Para quê? Para compartilhar o poder em um estado do norte com Ian Paisley como primeiro-ministro a administrar o domínio britânico.

Pode-se dizer que a violência republicana é a resposta política legítima à violência estatal. Quando o INLA assassinou um dirigente Tory, eu pessoalmente senti que era um exercício legítimo pressionar nas zonas nacionalistas assediadas da Irlanda do Norte. Mas, quanto à solução de longo prazo dos problemas da classe operária, esse não é o caminho porque “o Estado capitalista não se baseia nos ministros do governo e não desaparece com eles. As classes a que ele serve sempre encontrarão novas pessoas, o mecanismo permanece intacto e continua funcionando” (Leão Trotsky. Porque os trotsquistas opõem-se ao terrorismo individual).

Nenhum socialista, nenhum marxista ou ser humano que se preocupa pelo futuro da humanidade e do planeta em que vivemos pode se permitir ser pacifista. Há momentos em que a violência é a única resposta justificável perante uma injustiça. Mas também há outros momentos em que se deve deter a resistência armada se esta é contraproducente. Não podemos permitir que a raiva dite nossas ações. Sim, podemos insistir com as vítimas da violência estatal, podemos compreender a raiva dos oprimidos, podemos compartilhar das frustrações dos despossuídos. Mas temos o dever histórico de não sucumbirmos diante das emoções do momento. Temos o dever, como militantes da classe operária, de proporcionar uma análise clara da situação, de ter a compreensão teórica dos acontecimentos que ocorrem e de dar uma direção a nossa classe, tanto na teoria quanto nos fatos.

Em 1994, o então dirigente de nosso movimento, Gino Gallagher, explicou claramente a posição republicana socialista em um discurso para alguns estudantes:

“Por esta razão, face aos altos ao fogo e ao chamado processo de paz, o movimento socialista republicano tomou a decisão consciente de não realizar nenhuma ação que pudesse ser interpretada como apoio a esse processo. Na realidade, abrimos muitas vias de comunicação com outros para que, a partir de nosso ponto de vista, se pudesse dar a conhecer o mais amplamente possível a perspectiva socialista de nosso movimento. Mas devo dizer que, embora não estivéssemos preparados para alentar o processo atual nem gostar dele, seguíamos convencidos, e nunca o estivemos mais, da verdadeira intenção do governo britânico. Duvidamos se, apesar de tudo, com a bandeira ondeando e o desdobramento do chauvinismo que vimos recentemente, e que veremos amanhã [visita do presidente Bush a Belfast], a posição da classe operária mudará essencialmente, além da ausência da violência política. O desemprego, os salários baixos, os guetos, a deterioração do sistema educativo, a extrema situação sanitária e a pobreza, a população dividida pela religião e o veneno do preconceito, todas essas coisas permanecerão. E continuarão assim, não importa quantas reuniões ocorram entre os representantes do capitalismo irlandês e o imperialismo britânico. Major ou Bruton não resolverão os problemas fundamentais da população destas ilhas”.

Dois anos mais tarde Gino foi assassinado por agentes do Estado britânico infiltrados em nosso movimento, mas a sua análise, treze anos depois, ainda é válida. Tomando essa análise como guia de nosso movimento, o INLA declarou o alto ao fogo em 1988 e, hoje, tentamos convencer a outros republicanos de que o único caminho é o socialista.

A etapa reformista

A direção provisória utilizou a luta armada durante os anos 1980 e 1990 para conseguir concessões do governo britânico, mas estava preparada para entrar na etapa reformista. O êxito eleitoral do Sin Fein depois das greves de fome de 1981 convenceu a Adams e à direção do Sin Fein da criação de uma frente ampla nacionalista com nacionalistas de classe média do norte e com a classe dominante do sul, como o melhor caminho para avançar nas reivindicações nacionalistas. Passada a fase radical de princípios dos anos 1980, esqueceram as referências ao socialismo e, em lugar das reivindicações antiimperialistas de uma Irlanda unida, apareceu a consigna da “igualdade”.

O movimento republicano provisório se preparava para conseguir a igualdade entre os nacionalistas irlandeses dentro do Estado britânico. Assim começaram as conversações de Adams Hume com o governo irlandês e, por último, as conversações que levaram aos altos ao fogo de 1994/1997, o Acordo da Sexta-feira Santa, o Acordo de Saint Andrews e, agora, a Assembléia Nacional da Irlanda comprometida firmemente com um programa econômico neoliberal. Para obter tudo isto, o movimento provisório, sem armas, reconheceu a pretensão britânica de governar o norte da Irlanda, desmantelou o seu exército e agora somos dirigidos pela força policial.

Temos de dizer com clareza que não é uma vitória para o republicanismo. Não é uma vitória para o socialismo. A luta armada republicana foi claramente derrotada. Uma Irlanda unida está agora mais longe que em 1967. As divisões entre os trabalhadores católicos e protestantes nunca foram tão amplas. Os ataques sectários violentos ainda se produzem, as comunidades operárias estão separadas pelos chamados muros da paz, muitos dos quais foram erguidos depois do final do conflito armado.

O sectarismo foi institucionalizado nos seis condados. Enquanto isto, os especuladores compram propriedades e cobram aluguéis exorbitantes às famílias operárias que entram no mercado da propriedade imobiliária. O primeiro-ministro britânico quer reduzir o salário mínimo no norte e a administração local se prepara para impor impostos sobre a água e outras taxas, a polícia continua desmantelando bens públicos para serem vendidos à indústria privada.

Tudo isto dentro de um contexto de crescente instabilidade econômica, não somente nacional como também internacionalmente. A economia do restante da Irlanda cresceu rapidamente nestes últimos 14 anos, mas começou a perder impulso. A indústria de construção que ajuda ao denominado tigre celta agora enfrenta uma crise e provavelmente serão perdidos 35 mil empregos neste setor durante os próximos 18 meses, segundo Davy Stockbrokers. Todas as evidências indicam que haverá uma recessão econômica. Esta crise terá um maior impacto nas famílias operárias, mas terá pouco efeito sobre os 33 mil milionários.

“Segundo Davy, a construção de moradias começará a cair a partir de agora e até o final do ano, em finais de 2007, o desemprego alcançará 5% e, em 2008, 6%” (Irish Times, 24/07/07).

Se o republicanismo irlandês não se torna irrelevante, então nós dizemos que o socialista tampouco. A luta armada terminou. Na última vez que contei, havia seis IRAs (IRA Provisório, IRA autêntico, IRA de Continuidade, Oglaigh na Eireann, IRA Oficial-ORM e IRA Oficial-WP) e numerosas organizações que pretendiam ser republicanas ou socialistas. Certamente é uma situação ridícula e nada útil para a classe trabalhadora irlandesa. Em lugar desse absurdo, para os verdadeiros socialistas e republicanos, para aqueles que realmente querem mudar a sociedade irlandesa, é necessário regressar ao básico, ao socialismo e ao marxismo básicos.

Não pretendo que o IRSP seja o veículo perfeito para conduzir a luta revolucionária na Irlanda. Está longe de ser perfeito. Mas tem uma tradição revolucionária, uma base firme na classe operária nacionalista, uma análise correta do processo atual na Irlanda, uma perspectiva internacionalista e a capacidade de aprender dos erros. Passaram-se vinte e um anos do assassinato de Ta Power. Ele escreveu um documento em que analisava nosso movimento. Assinalou o caminho e suas palavras hoje são tão relevantes quanto então. Se cada socialista republicano, dentro ou fora, de nossa própria organização seguisse o conselho de Ta, então teríamos uma organização revolucionária crível com uma influência crescente dentro do movimento da classe operária.

“Um partido revolucionário deve ter uma ideologia revolucionária, uma ideologia que nos permita analisar o mundo, a força motriz que governa o mundo, um plano e uma campanha baseada na análise.

“Uma campanha que é consistente, de princípios e arriscada em sua implantação, a máxima como um guia para a ação é uma ideologia, representa os interesses históricos da classe operária que, através do partido revolucionário, pretende derrubar a ordem capitalista e começar a construção do comunismo”.

Contudo, há hoje tarefas que são necessárias afrontar já. Necessitamos estar junto aos trabalhadores do setor público, no norte e no sul, que sofrem os cortes de seus serviços. Necessitamos uma campanha para conseguir um grande aumento da moradia social, lutar contra todas as manifestações de sectarismo. Necessitamos continuar a luta contra a injustiça da partição e o sofrimento dos prisioneiros políticos ali onde estejam. Necessitamos acabar com “toda manifestação de tirania e opressão, não importa onde nem a que estrato da população afete”.

Passaram-se 40 anos desde o início da luta pelos direitos civis; a questão nacional continua sem ser resolvida e estamos diante de uma nova situação. A esquerda na Irlanda é débil, está dividida e infestada de sectarismo político. O republicanismo foi derrotado e está terrivelmente dividido. Está claro que as posições habituais, tanto de republicanos como de socialistas, durante mais de 40 anos fracassaram, não conseguiram avanços significativos dentro do movimento da classe operária. Necessitamos aprender as lições e recordar as palavras de Ta Power:

“Devemos estar atentos para não cair no pântano do sectarismo, da mesquinhez etc. Não devemos participar em disputas sem princípios, em posições que são sectárias, anti-revolucionárias, moralmente prejudiciais, que ajudam ao inimigo e confundem e dividem a classe operária.

“Marx, Lênin etc., afrontaram todos os temas básicos de maneira valente, inquebrantável, incansável. Por que nós não? É isto algo inerente a nós mesmos? Somos diletantes ou profissionais? Devemos aprender as lições da história, reconhecer os erros e agir em conseqüência senão colapsaremos. A salvação está na clareza e na coragem para conduzir a mudança!”.

Companheiros, essa é a única saída para a esquerda irlandesa.

Gerry Ruddy

23 de outubro de 2007

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