Início / Artigos / Internacional / Impressões de uma viajante brasileira às minas de Potosí na Bolívia

Impressões de uma viajante brasileira às minas de Potosí na Bolívia

Keila é assistente social e está em viagem de férias pela América do Sul. Da Bolívia, desde Potosí nos enviou um relato sobre o que viu na região onde as minas são controladas por cooperativas, onde os trabalhadores estão desassistidos e trabalham sem nenhuma assistência do Estado.

Recentemente ocorreram lutas dos mineiros assalariados e estes foram atacados por trabalhadores cooperativados. Os assalariados estão organizados na Federação Sindical de Trabalhadores Mineiros da Bolívia que estão mobilizados pela completa nacionalização das minas. Lutam pela vida e direitos de todos os mineiros! Ver também: http://marxismo.org.br/?q=content/bol%C3%ADvia-em-colquiri-est%C3%A1-em-jogo-agenda-de-outubro-%E2%80%93-defend%C3%AA-la-com-greve-e-mobiliza%C3%A7%C3%A3o

Chegamos à Bolívia em um momento de efervescência. Nosso primeiro contato com a situação dos bloqueios das estradas na Bolívia foi durante a viagem de ônibus de Santa Cruz de La Sierra para Sucre. Saímos em torno das 16h de Santa Cruz e por volta das 3h da manhã o ônibus parou na estrada. Após pouco mais de duas horas, os passageiros do ônibus em que estávamos resolveram atravessar o bloqueio a pé e pegar outro ônibus. Fomos juntos, sem saber o que estava acontecendo. 

Atravessando o bloqueio vimos que se tratava de uma estrada de terra com muitas pedras, um deserto. E o bloqueio era feito com pequenas rochas e árvores de espinhos. Os mineiros estavam lá, durante a madrugada junto à estrada, deitados nos morros, próximos a fogueiras para aliviar o frio. Em um lugar extremamente seco, que ficava a quilômetros de distância de qualquer cidade. Para nós, ouvir falar em bloqueio de estradas como forma de manifestação já é uma prova da força da resistência deles, e ainda mais com as adversidades que eles estavam passando ali. 

Atravessamos o bloqueio, pegamos outro ônibus e chegamos a Sucre onde descobrimos que o bloqueio era em todas as estradas da Bolívia e não havia como sair ou chegar a nenhuma cidade ao redor, o que demonstra o nível de organização e mobilização da classe. Inclusive a venda de passagens estava suspensa até segunda ordem. Naquela noite, na televisão e diversos jornais tratavam sobre o assunto e sobre uma reunião que aconteceria ainda durante a noite entre o Governo e mineiros para tentar resolver a situação.

Na manhã seguinte tudo parecia estar resolvido. Falavam sobre um acordo que havia sido assinado atendendo parte das reivindicações dos mineiros. As estradas foram desbloqueadas. Seguimos viagem para Potosí.

Potosí é uma cidade que também tem como principal atividade econômica a extração de minérios. Nessa cidade todas as minas estão nas mãos de cooperativas. Sendo assim, os mineiros de Potosí organizaram uma Parada Cívica na cidade por 48 horas, que, segundo rumores, era contra o acordo que havia sido estabelecido entre os mineiros assalariados e o governo. Mas o que nos chamou atenção naquele novo protesto era o respeito da população ao movimento, talvez porque grande parte dos habitantes sejam amigos e familiares de mineiros. Fato é que novamente o comércio não funcionou, as escolas suspenderam as aulas e as ruas estavam bloqueadas com três ou quatro pequenas pedras e não havia nenhum motorista que ultrapassasse, mesmo sendo isso bem fácil e não tendo ninguém por perto para vigiar.

Independente das implicações dos bloqueios (mesmo porque essas são informações que não possuo). Impressionou-nos a capacidade de mobilização permanente frente a inúmeras adversidades, que levou à tentativa do Governo em negociar rapidamente. Ficamos perplexos também com o respeito da população, inclusive da mídia, que tratava sobre o movimento com explicações sobre os reais motivos dos mineiros e não sobre os “prejuízos” que os protestos trouxeram para a população no seu cotidiano, como faz a mídia brasileira.

Agora, só um adendo sobre as tais minas das cooperativas. Em Potosí fizemos um passeio pelas minas, as quais eu acreditava que estavam desativadas, mas não, estavam em plena atividade. Uma agente de turismo nos convidou a fazer a visita e acreditamos que era um passeio turístico. Fomos com um grupo de pessoas de diversos países e uma guia. O passeio é interessante e impressionante, claro. Mas o que acontece é que empresas de turismo transformaram em atração assistir diversos homens trabalhando em condições degradantes a muitos metros abaixo da terra.

As pessoas tiravam fotos enquanto alguns mineiros empurravam carrinhos com toneladas de minério ou escavavam alguma coisa, em troca davam alguns presentinhos como refrigerantes, folhas de coca e até dinamites que vendiam em barraquinhas no caminho para as minas. Senti vergonha por estar ali, não pela situação deles (mineiros), mas por estar como turista, como se eles fossem a grande atração turística da cidade.

Mas a visita às minas mostrou um pouco como funcionam as cooperativas. Geralmente famílias compram o direito de explorar um pedaço da mina e a partir daí o que tirarem de lá negociam “o preço que quiserem”. Segundo disseram, assim não falta trabalho e se eles trabalham mais, ganham mais. Porém, os meninos que carregam o minério para a superfície vão em dupla empurrando 5 toneladas de mineral e chegam na entrada da mina em 10 minutos e, segundo uma pesquisa local, estima-se que esses meninos percorrem o total de 20km por dia ganhando um salário fixo de 100 Bolivianos por dia, o que equivale a míseros R$30,00. 

Diversas foram as situações impactantes que só reforçavam as péssimas condições de trabalho dos mineiros, que trabalhando de forma autônoma, parecem desassistidos de seus direitos. Em uma análise rasa de visitante, me parece que as cooperativas na Bolívia eximem o Governo de diversas responsabilidades com esses trabalhadores.

*Keila Oliveira é assistente social formada na UFRJ e está em viagem de férias pela América do Sul.

Deixe seu comentário

Leia também...

Dez anos depois da crise financeira, uma nova crise se aproxima

“Outra crise global? Nunca mais voltará a acontecer”, disse Sir John Gieve, vice-governador do Banco …