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Impacto da Revolução Russa no Brasil

Há 100 anos a “Conflagração” e a Revolução Russa atingiam o Brasil.

A 1ª Guerra Mundial iniciada em 28 de julho de 1914 foi o fruto direto de uma tentativa de redivisão do mercado mundial pelas grandes potencias imperialistas europeias. A poderosa Grã-Bretanha que dominava os mares e terras incontáveis pelo planeta, seguida pela França, segunda potência mundial, através da África, do Oriente Médio e da Ásia, estavam em declínio. Os Estados Unidos flexionavam os músculos, mas ainda não podiam lançar-se à conquista do mundo. A Alemanha se convertia numa grande potência industrial, mas se deparava com o controle dos mercados por seus rivais. Os leões lançaram-se ao massacre mútuo em que participariam 70 milhões de homens em armas e morreriam 9 milhões de soldados, a economia europeia seria quase destruída, os Estados Unidos se fortaleceriam e o planeta ficaria grávido de revoluções.

Em 28 de fevereiro (8 de março em nosso calendário), com a Rússia czarista atolada na guerra contra a Alemanha, as operárias têxteis e as mulheres dos operários de São Petersburgo saíram às ruas exigindo Pão e Paz. Elas iniciaram greves e manifestações que arrastaram toda a classe trabalhadora e se estenderiam até a derrubado do czar, em 15 de março de 1917. Os trabalhadores reconstituem os sovietes (conselhos de representantes de trabalhadores, soldados, marinheiros e camponeses) que haviam surgido na revolução de 1905 que o czar havia esmagado, como o verdadeiro começo da revolução. Os partidos operários socialistas tinham de fato o poder nas mãos.

Durante todo o ano de 1917 trava-se uma grande batalha política entre os socialistas sobre como avançar na revolução e resolver os problemas que afligiam aquele império ferido de morte com seus 100 milhões de camponeses atrasados e três milhões de operários agrupados em grandes fábricas, um exército semidestroçado na guerra, todos com fome, frio e sofrendo miseravelmente. As massas e o Partido Bolchevique, de Lenin, exigiam o fim imediato da guerra e a distribuição de terras aos camponeses.

Sob o lema Pão, Paz e Terra o Partido Bolchevique tomou o poder, em 25 de outubro de 1917, praticamente sem derramar sangue, tal o apoio das massas e a desorientação das classes dominantes. Estabeleceram a República dos Conselhos, onde a propriedade das fábricas, dos bancos, das terras, passa a ser controlada coletiva e democraticamente pelos trabalhadores e camponeses. Os bolcheviques cumprem sua palavra e retiram a Rússia da guerra de rapina imperialista.

Essa revolução onde os trabalhadores assumem o poder e suas medidas têm um impacto mundial tremendo. Ela abre um período de revoluções em toda a Europa, incluindo a Alemanha, e chega também ao Brasil.

A imprensa democrática e republicana brasileira e a Revolução Russa

Os grandes jornais em todo o Brasil tinham, como sempre, um lado, o lado dos imperialistas da Tríplice Entente (Reino Unido, França e Império Russo), que combatia a Alemanha. E tratavam a Revolução Russa contra o czar, que tiraria o país da guerra contra a Alemanha, como uma traição aos interesses dos outros imperialistas e como obra de agentes alemães. Lenin e Trotsky eram abertamente denunciados como infiltrados pagos pelo governo alemão.  Não havia limite para falsificações, calúnias e delírios contra os que ousaram derrubar o czar da Rússia, enfrentar os poderosos do mundo e sair da guerra organizada pelas diferentes burguesias imperialistas para repartição das colônias e mercados.

O jornal Correio da Manhã publicou que: “O célebre agitador Lênin faleceu em 1916 na Suíça e o falso Lênin que ultimamente tem agitado a Rússia não é outro senão um certo Zaberlun, antigo amigo de Lênin”.

Em 1 de outubro de 1917, o jornal Época anunciou que Lenin finalmente (!) havia sido preso pelo governo de Kerensky e explicava que Lenin tinha um “modo de vestir dos mais descuidados (…) o que não o impede de usar, desde a revolução, diamantes nos botões de punho das camisas”.

Em 12 de novembro de 1917, o jornal A Noite publicava que “Kerenski, à frente de 200 mil homens dedicados e apoiados pela grande maioria da população, como também pelo Exército e pelas organizações conservadoras, luta a estas horas contra os maximalistas nos arrabaldes de Petrogrado ou, talvez, dentro da própria capital russa. De Lênin e seus comparsas não há notícias, acreditando-se mesmo que já tenham procurado asilo em lugar seguro (…) Esperemos, com otimismo, o resultado da luta que se está travando, porque dela deve sair triunfante a boa causa que é a que defende Kerenski”.

No dia 13 de novembro A Noite publicou que “o Sr. Kerenski sai uma vez mais triunfante dos seus inimigos. Nos arrabaldes e dentro da própria capital (…) travou-se uma batalha que terminou (…) com a derrota dos maximalistas. Estes já reconhecem, aliás, a sua perdição e procuram agora chegar a um acordo, que Kerenski repele integralmente, declarando que maximalistas depuseram as armas, dominando a cidade um outro comitê, formado pelo ex-presidente da Duma”. E ainda afirmava que Kerenky havia entrado em Petrogrado e Lênin tinha sido preso. “É preciso que esta aventura seja exemplarmente castigada para que os comparsas de Lênin ou outros agitadores anarquistas, a serviço da Alemanha, não tenham vontade de repeti-la”.

Tudo mentira. Só desejos anunciados como realidade pois nessa data os bolcheviques já haviam tomado o poder e Kerensky estava em fuga disfarçado de mulher.

Em março de 1919, o arqui-reacionário e ilustrado Ruy Barbosa discursava contra a revolução: “... uma comoção tal, por mais horrenda que haja sido a guerra, vem a ser ainda cem vezes mais sinistra. Porque não é a fraternidade: é a inversão do ódio entre as classes. Não é o reconhecimento dos homens: é a sua exterminação mútua. Não arvora a bandeira do evangelho: bane Deus da alma e das reivindicações do povo. Não dá trégua à ordem. Não conhece a liberdade cristã. Dissolveria a sociedade. Extinguiria a religião. Desumanizaria a humanidade. Inverteria, subverteria a obra do Criador”. A hipocrisia contra a Revolução Russa não tinha limites. Enquanto Ruy Barbosa discursava 22 exércitos imperialistas (Inglaterra, França e todos seus aliados) invadiam e tentavam esmagar a Revolução dos Conselhos. Isso só terminaria em 1921.

O escritor Lima Barreto, em 1918 escreveu: “O que os jornais disseram (…) sobre o maximalismo e anarquismo, fez-me lembrar como os romanos resumiam, nos primeiros séculos da nossa era, o cristianismo nascente. Os cristãos, afirmavam eles categoricamente, devoram crianças e adoram um jumento. Mais ou menos isto, julgavam os senhores do mundo de uma religião que iria dominar todo aquele mundo por eles conhecido e mais uma parte muito maior cuja existência nem suspeitavam (…) A teimosia dos burgueses só fará adiar a convulsão que será então pior: e que eles se lembrem, quando mandam cavilosamente atribuir propósitos iníquos aos seus inimigos, pelos jornais irresponsáveis; lembrem-se que, se dominam até hoje a sociedade, é às custas de muito sangue da nobreza que escorreu na guilhotina, em 1793, na Praça da Grève, em Paris. Atirem a primeira pedra.”  

Os operários do Brasil sofrem como os russos e ouvem suas vozes

A Revolução de 1905 já havia sido objeto de solidariedade e apoio no Brasil. Os operários imigrantes alemães, italianos e espanhóis trouxeram na bagagem seus ideais anarquistas e socialistas. No 1º de maio de 1906, as principais questões das manifestações, em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e outras cidades, foi o apoio à Revolução Russa e a reivindicação da jornada de 8 horas de trabalho.

O vento revolucionário que percorria o mundo junto com a destruição econômica e a ultra exploração do trabalho atinge o Brasil em 1917. Em maio diversas greves de operários têxteis no RJ haviam sido violentamente reprimidas. Em julho uma greve geral toma o controle de São Paulo. Greves se espalham pelo Brasil.

O Brasil havia se mantido neutro durante quase toda a guerra e vendia seus produtos para ambos os lados do que o jornal O Estado de São Paulo chamou “A Conflagração”, a 1ª Guerra Mundial. Tão importante era essa guerra para os negócios dos latifundiários brasileiros que de 7 de agosto de 1914 até 8 de novembro de 1918 (a guerra terminou em 11 de novembro de 1918), a capa do Estadão (OESP) tinha como única manchete “A Conflagração” e todo o jornal se estruturava em torno dela.

As oligarquias brasileiras construíam fortunas com a guerra exportando matérias primas e vivendo a larga com todos os últimos produtos e luxos produzidos nos países avançados. Para os trabalhadores sobrava uma exploração brutal com jornadas de 14 horas diárias, sem fim de semana, sem feriados, comendo ao lado das máquinas, sem folga, sem nenhum direito (saúde, educação ou trabalhista), além de trabalho infantil, inclusive noturno e insalubre. E ainda com reuniões, organizações e manifestações operárias proibidas.

Em 11 de abril de 1917, o governo brasileiro entrou na 1ª Guerra Mundial após anos de neutralidade. O governo de Venceslau Brás declara Estado de Sítio e amplifica a perseguição e repressão ilegalizando todas as organizações operárias, fechando locais e prendendo ativistas. Isso foi suficiente para que em muitas fábricas os proprietários de origem italiana inventassem uma “contribuição pró-pátria” que passava a ser descontada dos salários operários para… apoiar a Itália na guerra!

A “Comuna de SP”

Em julho diversas greves se espalham por SP e são ferozmente reprimidas pela Força Pública. A greve atinge todos os bairros industriais de São Paulo como Mooca, Brás, Ipiranga, Cambuci. Um panfleto feito por operárias para distribuir para os soldados dizia “Não deveis perseguir vossos irmãos de miséria. Também pertenceis à massa popular. A fome reina em nossos lares e nossos filhos pedem pão. Para sufocar nossas reclamações os patrões contam com as armas que lhes entregaram.

Em 9 de julho, morre o sapateiro espanhol José Iñeguez Martinez baleado pela polícia. A cidade explode. Segundo o jornal Dealbar “a notícia da morte do operário, assassinado nas imediações de uma fábrica de tecidos no Brás foi vista como um desafio à dignidade do proletariado. Foi como um violento choque emocional que sacudiu todas as energias. O enterro da vítima foi uma das mais impressionantes demonstrações populares jamais vistas em São Paulo“. Segundo o jornal OESP “’Morte à repressão! Morte à repressão!’. Era o grito de comando dos operários que em julho de 1917 cruzaram os braços, desafiaram a polícia e tomaram conta da cidade. Foi a primeira greve geral em São Paulo.” (OESP, 10/07/1917)

Após o enterro uma manifestação com mais de 50 mil participantes dividiu-se em duas colunas. Uma foi para a casa do operário assassinado, no Brás, onde se realiza uma assembleia que decide tomar e saquear uma padaria. Logo isso se estendeu para numerosos bairros onde quer que houvesse comida armazenada.

A outra coluna foi para a Praça da Sé, onde se instalou outra assembleia. Daí saíram colunas para os bairros industriais. Assembleias nos bairros operários resolvem formar Ligas Operárias. A cidade está ocupada militarmente, mas de fato completamente tomada pelos grevistas.

A polícia e o exército não podiam se mover enfrentados por massas de operários em barricadas. Violentos enfrentamentos se multiplicam. O comando geral da greve assume totalmente o controle da cidade e o governo de SP foge. O exército e a polícia têm que se retirar e acampar fora da cidade. Os grevistas organizam a distribuição de comida, de água, tudo. Patrulhas operárias são formadas para evitar roubos e saques e dar o alarme em caso de ataques da polícia ou do exército.

As Ligas Operárias de Bairro com os delegados eleitos por fábricas e sindicalistas realizam reuniões para unificar as reivindicações e formam um Comitê de Defesa Proletária. Os sovietes se insinuavam no Brasil. Suas reivindicações eram a liberdade de todos os detidos e um aumento de 35% para os salários inferiores e de 25% para os demais.

Então, os empresários e o governo de SP, que já haviam perdido e cidade, entenderam que ou negociavam ou perdiam tudo. Sentaram com os grevistas e concederam um aumento geral de salários de 20% e libertaram todos os presos. Em 16 de julho de 1917 uma gigantesca concentração de 80 mil pessoas celebrou a vitória com todas as reivindicações aceitas.

A greve de São Paulo provocara solidariedade nas indústrias do Estado do Rio Grande do Sul e em Curitiba com manifestações massivas. No RJ, em 18 de julho uma greve massiva inicia e no dia 23 já eram mais de 70 mil grevistas. A intensa repressão, prisões e fechamento de locais operários não dobrou os operários e o movimento crescia. Em agosto, o governo e os empresários fazem importantes concessões para acabar com a greve.

Esta situação era o fruto da Guerra Mundial e da revolução que se iniciara na Rússia e percorreria o mundo de 1917 a 1923. Em todas as manifestações operárias se falava e se apoiava a “revolução dos operários russos” desde fevereiro e com a vitória bolchevique. Em outubro de 1917, quando os operários tomam diretamente o poder, uma nova vaga revolucionária atingiria o mundo e o Brasil.

Os operários adquirem cada vez mais consciência de sua própria luta e seus objetivos

A onda do fim da guerra e da Revolução Russa se desenvolveria no Brasil, em 1918, com uma greve geral no RJ que teve uma enorme adesão. Frente à repressão e alentados com a Revolução Russa, os grevistas criam um conselho com objetivo de organizar uma insurreição e tomar o poder na capital federal “a exemplo da Rússia”. Mas sem um Partido Bolchevique para dirigi-los a pretendida insurreição é desbaratada pelo governo e uma violenta repressão é desencadeada. Os anarquistas que dirigiam a greve e pretendiam tomar o poder colocaram no comando da operação militar da insurreição um tenente que era um agente do governo infiltrado na organização anarquista.

José Oiticica, o principal dirigente anarquista, preso, tira como balanço a necessidade de fundar um Partido Comunista Libertário, o que se concretiza em junho de 1919.

No dia 1º de maio de 1919 fora lançado em São Paulo o texto “O que é o maximismo ou bolchevismo – Programa Comunista”, de Hélio Negro e Edgard Leuenroth, dirigente da greve de 1917. O texto explicava que “Este livro destina-se aos trabalhadores do Brasil, afim de lhes dizer o que é o Bolchevismo ou Maximismo e o ‘Comunismo’ que numa palavra – é o socialismo”, e mais adiante: “Actualmente, na Rússia, conforme a sua constituição, aprovada em janeiro de 1918 pelo 3º Congresso Pan-Russo dos soviets, está estabelecida uma organização política e econômica de transição que dá aos trabalhadores e soldados o poder da nação”. Mais adiante diz que “O capítulo V – art. 9 determina que o princípio essencial da constituição da República Federal dos soviets no período de transição actual, enquanto durar a situação revolucionária, reside na instauração do poder do proletariado urbano e rural e dos camponeses mais pobres, com o fim de suprimir a exploração do homem pelo homem e de fazer triunfar o socialismo sob cujo regime não haverá divisão de classes, nem poder de Estado.”

Mas o Partido Comunista Libertário vai desaparecendo aos poucos, a medida que necessita clarificar teórica e politicamente suas bases. Mas entre os presos da “insurreição” do RJ estavam também Astrogildo Pereira, José Elias da Silva e João da Costa Pimenta que, em 1922, participariam da fundação do Partido Comunista do Brasil (PCB) diretamente inspirado pelo Partido Bolchevique russo e pela 3ª Internacional Comunista.

Mas até lá as greves, lutas operárias e a luta das classes dominantes com suas leis antioperárias e suas forças de repressão continuaram em sucessivos choques massivos e brutais.

Em abril de 1919 estouram novas greves de massa em São Paulo, São Bernardo do Campo, Campinas e Santos. Os sovietes outra vez se insinuam e buscam se constituir. Os grevistas realizam assembleias para eleger delegados que constituem um Conselho Geral de Operários, que organiza o ato do Primeiro de Maio e aprova as reivindicações: jornada de 8 horas, aumento de salários indexado à inflação, proibição do trabalho de menores de 14 anos e do trabalho noturno de mulheres, redução dos preços de artigos de primeira necessidade e dos aluguéis. Em 4 de maio, a greve já era geral.

A resposta do governo e dos empresários foi uma feroz repressão e ao mesmo tempo uma negociação seletiva com concessões parciais. Greves se sucedem no Rio, Salvador e Recife e Porto Alegre.

A repressão é brutal com detenções e deportações, fechamentos de locais proletários, demissões. O parlamento aprovou novas leis repressivas: bastava uma provocação, o estouro de uma bomba em casa de ativistas operários ou em lugares públicos, para que a legislação repressiva se aplicasse. Líderes operários foram selvagemente torturados em Santos e São Paulo e depois deportados para outros estados ou países de origem.

Num só dia houve prisão de mais de três mil grevistas. Não havia mais cadeia suficiente e o governo usou como prisão, então, os armazéns das docas portuárias.

Nos anos seguintes as greves e manifestações prosseguem cada vez mais influenciadas pelo marxismo e a época de auge dos anarquistas vai desaparecendo. Mas, antes de chegar à fundação do que seria o primeiro grande partido operário brasileiro, o PCB, muita água ia rolar sob a ponte da história.

Em 1924, teve um momento que marcaria a história brasileira apesar de ser formalmente apagado dos livros. É o ano conhecido como o da “Revolução de 1924”, a segunda revolta tenentista contra o governo de Artur Bernardes, e que controlou a capital de SP por 23 dias. Liderada pelo general Isidoro Dias Lopes, incluía a participação de vários tenentes como Joaquim do Nascimento Fernandes Távora, Juarez Távora, Miguel Costa, Eduardo Gomes, Índio do Brasil e João Cabanas. Seu objetivo era depor o presidente Artur Bernardes (considerado corrupto) e conquistar o voto secreto, a justiça gratuita e a instauração do ensino público obrigatório. Derrotados, alguns se uniram à Coluna Prestes, na maior marcha militar combatente da história do mundo, lutando contra o exército brasileiro por 33.000 quilômetros.

Mas o que se apagou da história é que junto do levante militar os operários de São Paulo se levantaram em greve por suas próprias reivindicações. Eles tentaram se unir aos militares, mas esses os ignoraram. Não reprimiram, mas não estavam de acordo com os objetivos operários e socialistas que se apresentavam nessas greves que ocuparam fabricas e paralisaram São Paulo.

Após a fuga do governador de SP, que passa a viver num trem, o governo federal, a pretexto de combater o levante militar, reúne tropas para atacar a cidade, mas o faz através de bombardeios. O espantoso é que durantes as semanas de bombardeio massivo nenhum quartel, nenhuma instalação militar foi atingida. Apenas os bairros operários e as fábricas em greve foram destruídas. Bairros operários como Mooca e Brás, mas também bairros de classe média como Perdizes, foram alvos do que Artur Bernardes chamou de “bombardeios terrificantes”.

Quando os militares revoltosos foram derrotados pelo exército legalista, esse entrou nos bairros operários para terminar o trabalho de restabelecer a lei e a ordem.

Os resultados do bombardeio em São Paulo têm como números oficiais a destruição de 1.800 prédios, 4.800 veículos, 500 mortos.

Segundo o escritor suíço Blaise Cendrars, amigo de Oswald de Andrade (que lhe dedica Pau Brasil), de Mário de Andrade, Sérgio Milliet, Luis Aranha, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Cícero Dias e Tarsila do Amaral (que ele chama de “a mais bela paulista do mundo”), tendo percorrido as regiões bombardeadas, registrou 11.000 casas destruídas. Um mês depois ainda se encontraram mortos embaixo de prédios destruídos.

Há 100 anos a revolução Russa, o maior acontecimento da história da Humanidade, abalava o mundo que nunca mais seria o mesmo. As ondas de choque da reviravolta da luta de classes em escala mundial atingiam o Brasil fortemente. Sobre escombros de greves, revoltas, conselhos operários e manifestações, a classe trabalhadora prosseguia um trabalho de se educar e se organizar. Em 1922 fundou o PCB, que dominou o movimento operário por 60 anos e que se destruiu, no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, porque havia abandonado progressivamente seus ideais originais de 1917 baseados na grande Revolução Russa.

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