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Há 100 anos, Trotsky deixava o Canadá para fazer a revolução

Há 100 anos Leon Trotsky, o grande revolucionário russo e líder da Revolução de Outubro de 1917, deixava o campo de concentração de Amherst, na Nova Escócia, onde havia sido detido por quase um mês. A história por trás do período que Trotsky passou no Canadá, embora não muito conhecido, é um episódio muito importante em sua trajetória para a Rússia revolucionária, onde ele iria ajudar a classe trabalhadora russa a tomar o poder ainda naquele ano.

“Um perigoso socialista”

Trotsky estava em Nova Iorque quando recebeu a notícia de que o regime czarista de mais de 300 anos havia sido derrubado pelo proletariado de Petrogrado em fevereiro de 1917 (março no calendário gregoriano). Embora a revolução tenha derrubado o czar, o governo provisório que tomou seu lugar era um governo capitalista. Após sua chegada à Rússia, Lenin explicou que a única razão pela qual a classe trabalhadora não havia tomado o poder era o fato de não ter consciência e organização suficientes e que era preciso iniciar imediatamente o trabalho de defender pacientemente a tomada do poder pelos sovietes. Trotsky, que estava em Nova Iorque, chegou a conclusão semelhante independentemente de Lenin. Em sua autobiografia “Minha vida”, ele conta sobre a seguinte discussão que teve com camaradas americanos após ouvir as notícias da revolução na Rússia:

“- Um telégrafo chegou dizendo que Petrogrado escolheu um ministério Guchkov-Miliukoff. O que isso quer dizer?
– Que amanhã haverá um ministério de Miliukoff e Kerensky.
– É isso? E depois?
– Depois? Nós viremos depois.”

Juntamente com outros emigrados russos, Trotsky imediatamente iniciou o processo de retorno à Rússia. Em 27 de março, após conseguir os documentos necessários, Trotsky, sua esposa Natalia Sedova e seus filhos de nove e 11 anos embarcaram no SS Christianiafjord para cruzar o Atlântico. Pela primeira vez em sua vida Trotsky estava viajando legalmente.

Em 30 de março o barco atracou em Halifax, capital da província canadense de Nova Escócia. Enquanto os demais passageiros passaram apenas pela inspeção de rotina, Trotsky e seus camaradas russos foram vítimas de longos interrogatórios e até mesmo questionamentos acerca de suas convicções políticas. Trotsky se recusou a entrar nessa discussão.

Em 3 de abril, oficiais britânicos embarcaram no SS Christianiafjord e se dirigiram a Trotky e seus camaradas. Trotsky narra assim a situação em sua autobiografia:

“Nós declaramos que a ordem era ilegal e nos recusamos a obedecer, o que fez com que marinheiros armados caíssem sobre nós e, sob gritos de “vergonha” de boa parte dos passageiros, nos arrastassem até um pequeno veleiro que nos desembarcou em Halifaz sob a escolta de um navio de guerra. Enquanto um grupo de marinheiros me arrastava, meu filho mais velho correu para me ajudar e golpeou um oficial com seu pequeno punho.
– Devo bater nele de novo, papai?”

Ele tinha onze anos na época e teve sua primeira lição acerca da democracia britânica.

Trotsky foi levado ao campo de concentração de Amherst, enquanto sua esposa e seus dois filhos foram levados a um posto policial em Halifax. Após onze dias eles foram transferidos para um hotel e tinham que se apresentar à polícia diariamente. Eles proibiram Trotsky e Natalia de se verem a menos que ele prometesse não se aproveitar disso para se comunicar com o mundo exterior. Indignado, Trotsky se recusou a encontrar sua esposa sob essas condições.

Até chegarem a Amherst, Trotsky e seus camaradas não sabiam por que estavam sendo detidos. Eles foram informados que o cônsul russo estaria presente no local para onde eles estavam sendo levados, o que não aconteceu. Apenas na manhã seguinte o coronel Morris, comandante do campo, informou a eles a razão de sua prisão: “vocês são perigosos para o atual governo russo”.

Eles responderam que os seus documentos foram entregues pelos representantes do governo russo em Nova Iorque e que tudo estava em ordem. A resposta do coronel foi:

“Vocês são perigosos para os Aliados de maneira geral.
“Agentes alemães.”

As autoridades britânicas estavam bastante a par do perigo que Trotsky representava. Em 22 de março de 1917, em um telegrama enviado de Nova Iorque para Londres, um agente do MI5, o serviço secreto britânico, afirmou que:

“Um movimento importante se iniciou entre os socialistas no sentido de fazer socialistas revolucionários voltarem para a Rússia com o objetivo de estabelecer uma república e iniciar um movimento de paz; também promovendo revoluções socialistas em outros países, inclusive os Estados Unidos”

O telegrama afirmava que o “líder majoritário” era Trotsky. Poucos dias depois, um novo telegrama foi enviada de Nova Iorque para Londres comunicando que Trotsky estava viajando “com US$10 mil fornecidos por socialistas e alemães”. A mensagem foi transmitida às autoridades em Halifaz em 1 de abril e foi decidido em 3 de abril que Trotsky, sua família e seus camaradas russos seriam aprisionados “até segunda ordem”.

Quando as notícias acerca da prisão de revolucionários russos no Canadá chegaram à Rússia, o embaixador britânico no país emitiu notas oficiais à imprensa afirmando que os russos detidos em Amherst estavam viajando “com subsídio da embaixada alemã para derrubar o governo provisório russo”. Essa acusação se espalhou e tornou-se o argumento principal das forças antibolcheviques na Rússia em 1917: Trotsky era um agente alemão.

Lenin ficou particularmente indignado com as acusações contra Trotsky. Em 16 de abril ele escreveu no Pravda:

“Pode alguém por um só segundo acreditar nas acusações inverossímeis de que Trotsky, o presidente do soviete de delegados dos trabalhadores de São Petersburgo em 1905 – um revolucionário que desinteressadamente sacrificou anos de sua vida a serviço da revolução -, tenha alguma coisa a ver com um esquema subsidiado pelo governo alemão? Essa é uma óbvia, insólita e maliciosa calúnia contra um revolucionário. De onde você recebeu essas informações, Sr. Buchanan? Por que você não revela? Seis homens arrastaram o camarada Trotsky pelos braços e pernas, tudo em nome da amizade com o governo provisório russo!”

Como sabemos, a acusação se estendeu a todo o Partido Bolchevique nos meses seguintes, particularmente após a derrota das Jornadas de Julho. Trotsky escreveu em sua autobiografia a respeito dessas monstruosas acusações: “Nunca antes as pessoas haviam mentido tanto quanto durante a ‘grande guerra pela liberdade’. Se as mentiras fossem explosivas, nosso planeta teria sido reduzido a pó muito antes do Tratado de Versalhes”.

As acusações contra Trotsky e o partido bolchevique de que eles apoiavam a derrota da Rússia frente à Alemanha e de trabalhavam para isso era uma calúnia gigantesca. A posição do “derrotismo revolucionário” tem sido frequentemente deturpada pelos inimigos da revolução e até mesmo por alguns marxistas. Mas era essa a posição de Trotsky e seus camaradas? Trotsky explicou vinte anos depois ao lembrar sua prisão no Canadá:

“Eu fui detido pelas autoridades britânicas no Canadá e aprisionado num campo de concentração como um agente da Alemanha. Liebknecht e todos os seus amigos foram acusados de serem agentes do czar. Mas nós respondemos: somos a favor da derrota do czar através da ação revolucionária das massas trabalhadoras. Assim como os alemães são a favor da derrota da dinastia dos Hohenzollerns, por isso eles não vão tomar qualquer partido na guerra. Uma derrota militar não é importante para nós, nós defendemos a vitória revolucionária. Uma vitória revolucionária, seja na Rússia ou na Alemanha, transformará a derrota em vitória para a classe trabalhadora.”

Essa era a posição de Trotsky e dos bolcheviques, a qual Trotsky explicou em inúmeros discursos a seus companheiros de cárcere em Amherst. Isso deu a ele a simpatia quase imediata por parte dos trabalhadores e marinheiros.

“No campo de concentração”

Esse é o título do capítulo da autobiografia de Trotsky a respeito de sua breve estadia no Canadá. As palavras não foram escolhidas sem motivo.

Um conjunto de leis de exceção para a guerra chamado “War Measures Act” foi proclamado pelo governo canadense no início do conflito, em 1914, e só foi suspenso em 1920. Durante esse período, mais de 8 mil pessoas foram detidas e aprisionadas em campos de concentração improvisados espalhados por todo o país.

O maior deles era o campo de Amherst, na Nova Escócia. A construção, originalmente utilizada pela indústria Canadian Car and Foundry Co., foi transformada para abrigar 852 prisioneiros e começou a funcionar em 30 de dezembro de 1914.

Em 17 de abril de 1915 os primeiros prisioneiros foram trazidos ao campo: 640 alemães capturados no navio Kaiser Wilhelm Der Grosser (“Imperador Guilherme, o Grande”). As condições de vida no campo eram muito difíceis. Em 25 de junho de 1915, um grupo de prisioneiros se recusou a entrar na prisão a despeito das ordens dos guardas. Uma rebelião teve início, na qual um guarda foi morto, um prisioneiros baleado e quatro outros ficaram feridos.

Trotsky descreve em seu livro “Minha Vida” as condições difíceis em que os prisioneiros tentavam passar o tempo:

“O campo de concentração de Amherst ficava em uma velha e bastante mal conservada siderúrgica que havia sido confiscada de seu proprietário alemão. As camas ficavam distribuídas de três em três, aos pares, de cada lado do corredor. Cerca de 800 de nós vivíamos nessas condições. O ar nesse dormitório improvisado é facilmente imaginável. Desesperançosos, os homens se arrastavam pelos corredores, se acotovelavam pelo caminho, deitavam e levantavam, jogavam cartas ou xadrez. Muitos deles praticavam trabalhos manuais, alguns com habilidades extraordinárias.”

No centro do campo, oficiais prisioneiros eram acomodados longe dos trabalhadores e marinheiros. Trotsky fala de relações “hostis” entre as massas e os oficiais. Essa divisão de classe dentro do campo era reforçada pela presença de Trotsky. De acordo com o jornal Chronicle Herald, ele até mesmo organizou uma greve de prisioneiros contra as condições dentro do campo.

“Um experiência ao estilo soviético”

Trotsky, que estava preso pela terceira vez na vida, rapidamente se tornou conhecido pelos trabalhadores e marinheiros, bem como os oficiais e as autoridades do campo de concentração. Seus “discursos marxistas inflamados” o tornaram uma estrela entre os prisioneiros e um inimigo entre os oficiais e as autoridades.  O Chronicle Herald narrou esse período como tendo sido “uma experiência ao estilo soviético”. A recordação de Trotsky acerca desse período mostra um cenário semelhante:

“Todo o mês que eu passei ali pareceu uma grande reunião aberta de massas. Eu falei aos prisioneiros sobre a revolução russa, sobre Liebknecht, sobre Lenin e sobre as causas do colapso da antiga Internacional, bem como a intervenção americana na guerra. Nossa amizade se fortalecia a cada dia.”

Ao fim, os oficiais alemães reclamaram ao chefe do campo, coronel Morris, de que Trotsky estava minando a disciplina com sua “propaganda antipatriótica”. Trotsky destacou ironicamente que “o coronel britânico imediatamente ficou ao lado dos patriotas alemães e me proibiu de fazer qualquer discurso público. Quando se trata de calar socialistas, a burguesia e seus representantes não têm país.

Conforme os ânimos se exaltavam, Trotsky quase não consegue sair do campo vivo. Durante uma reunião bastante agitada, um dos comandantes do campo gritou com Trotsky acusando-o de incentivar um motim e desrespeitar a autoridade. Com o aumento da tensão, o capitão Wightman teve que se colocar entre Trotsky e um guarda que estava pronto para atacá-lo com sua baioneta. Após isso, Trotsky foi colocado em uma espécie de solitária.

Foi o bastante para deixar os trabalhadores e marinheiros furiosos. Trotsky explicou em uma carta intitulada “No cárcere britânico” como esse incidente contribuiu para firmar sua relação próxima com os trabalhadores e marinheiros alemães. Nada menos que 530 deles submeteram uma petição às autoridades exigindo que Trotsky fosse liberto imediatamente. “Uma reivindicação como essa, levada à cabo debaixo do nariz e da supervisão com mão de ferro do sargento Olsen, foi mais que uma ampla compensação pelas dificuldades vividas durante o cárcere de Amherst”, afirma ele em “Minha Vida”.

O impacto de Trotsky em seus camaradas prisioneiros foi imenso. Após sua morte em 1948, o capitão F.C. Wightman, segundo no comando do campo à época, disse: “Trotsky nos deu muito trabalho no campo e se ele tivesse ficado ali por mais tempo teria tornado comunistas todos os prisioneiros alemães”. Essa foi uma prévia do impacto que Trotsky teria quando chegasse em solo russo, tornando-se o mais proeminente porta-voz do partido bolchevique, guiando a classe trabalhadora em direção à tomada do poder.

Liberto pela revolução

O incidente em Amherst rapidamente tomou proporções internacionais. Assim que foi aprisionado, Trotsky tentou enviar um telegrama de protesto ao governo russo, mas o telegrama acabou não sendo transmitido. No entanto, um dos camradas de Trotsky conseguiu enviar a informação para o Novy Mir, jornal em que Trotsky trabalhava em Nova Iorque, o qual publicou a notícia em 10 de abril.

No entanto, parece que a notícia da detenção de refugiados políticos russos chegou à Rússia antes disso. Buchanan, embaixador britânico na Rússia à época da revolução, narra em suas memórias:

“Os ataques contra nós na imprensa (russa) por causa da detenção de refugiados políticos russos chegou a um ponto tão sério que passou a ameaçar as vidas dos britânicos que eram donos de fábricas (na Rússia), cuja posição já era tudo menos segura dada a atitude incerta dos trabalhadores. Eu tive, portanto, que falar seriamente com Milyukov e pedir a ele para que tomasse medidas para acabar com essa campanha midiática.”

De acordo com Buchanan, em 8 de abril Milyukov, então Ministro das Relações Exteriores do governo provisório russo, pediu a Buchanan para que libertasse os prisioneiros, apenas para voltar atrás e pedir a ele cancelasse a libertação dois dias depois. A executiva do soviete de Petrogrado protestou contra o aprisionamento de seus camaradas com frases como “lutadores pela liberdade”, interferência intolerável” e “insulto à Revolução Russa”. Grandes manifestações foram organizados por toda a Rússia. Sob a pressão dos sovietes e das massas, Milyukov foi forçado a capitular e autorizar a libertação de Trotsky e seus camaradas.

Como podemos ver, a pressão das massas russas foram um grande fator na libertação de Trotsky e seus camaradas do campo de concentração canadense. Assim como em cada estágio da revolução de 1917, foram as massas que impulsionaram avanços decisivos, deixando sua marca nos acontecimentos.

Em 29 de abril, Trotsky e seus camaradas receberam ordens para fazer suas malas sem que lhes fosse dito para onde estavam sendo levados. Diante da recusa dos revolucionários russos de obedecerem a menos que fossem informados sobre o lugar para onde estavam indo, eles acabaram sendo levados à força. A mesma violência com que foram aprisionados em Amherst sem qualquer razão foi usada em sua libertação. Mas o coronel Morris acabou dando o braço a torcer e disse aos prisioneiros que eles estavam embarcando em um navio dinamarquês em direção à Rússia.

Trotsky e Natalia Sedova estavam furiosos com o tratamento que receberam dos canadenses e da “democracia” britânica. Poucos meses depois, um jornal de Halifax noticiou as palavras de Natalia Sedova: “Se um dia eu voltar para o meu país, eu vou falar, vou escrever e vou fazer com que as pessoas do meu país saibam que o Canadá não é livre, que os Estados Unidos não são livres, que há tanta escravidão nesses países quando na Sibéria”. Sedova estava absolutamente certa e as restrições às liberdades na luta contra o bolchevismo no Canadá iriam aumentar no anos seguintes. Em 27 de setembro de 1918, foram postas na ilegalidade 13 organizações socialistas e de esquerda, tudo em nome da luta contra o bolchevismo, o “inimigo externo”.

Os trabalhadores e marinheiros do campo de concentração de Amherst não perderam a oportunidade de saudar seus camaradas russos. Trotsky descreve assim a cena da sua partida:

“Embora os oficiais se trancassem em suas celas e poucos colocassem o nariz pra fora das grades, os marinheiros e trabalhadores se alinharam dos dois lado do corredor, uma banda improvisada rocou a marcha revolucionária e mãos amigas se estendiam a nós de cada pavilhão. Um dos prisioneiros fez um breve discurso exaltando a Revolução Russa e amaldiçoando a monarquia alemã. Até hoje me faz feliz lembrar que bem no meio da guerra nós estávamos confraternizando com marinheiros alemães em Amherst. Nos anos seguintes eu recebi cartas cordiais enviadas da Alemanha por muitos deles.”

Este breve episódio de Trotsky em solo canadense nos dá uma amostra do impacto de uma figura como ele no movimento revolucionário. Os “discursos marxistas inflamados” de Trotsky que ameaçaram transformar os 700 trabalhadores e marinheiros alemães em comunistas anteciparam o papel único que ele viria a desempenhar algumas semanas depois na Rússia. Seja no soviete de Petrogrado ou mais tarde nos vários fronts da guerra civil, Trotsky se tornou, juntamente com Lenin, um dos principais líderes da revolução. Não é exagero afirmar que sem a presença desses dois revolucionários de destaque a classe trabalhadora russa não teria sido capaz de tomar o poder na Rússia em 1917, muito menos mantê-lo.

Uma reportagem publicada em 2014 pelo National Post acerca da breve passagem de Trotsky pelo Canadá termina com a seguinte frase: “seja lá o que perigoso socialista’ signifique, Trotsky certamente se encaixa na definição”. Hoje mais do que nunca, mais e mais trabalhadores e jovens estão redescobrindo o legado dos bolcheviques e seu “perigoso socialista” Leon Trotsky. Nós precisamos agora construir as forças marxistas para completarmos o que Trotsky, Lenin e seus camaradas começaram 100 anos atrás.

Artigo publicado em 29 de abril de 2017, no site da Corrente Marxista Internacional (CMI), sob o título “One hundred years ago: Trotsky leaves Canada for the revolution”.

Tradução de Felipe Libório.

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