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Greve dos coveiros

escrito por: Wanderci Silva Bueno

No mês de março deste ano, no Rio, e depois em junho na cidade de São Paulo, os trabalhadores municipais dos serviços públicos funerários cruzaram os braços. No Rio os salários estavam atrasados há vários meses. Em São Paulo o Sindicato dos Trabalhadores na Administração Pública e Autarquias do Município de São Paulo (Sindsep) informava que a categoria reivindicava aumento salarial de 39,79%, plano de carreira e melhores condições de trabalho. Segundo o sindicato, os profissionais não tinham aumento há mais de 20 anos.

Eduardo Paes e Kassab, os respectivos prefeitos das duas cidades tiveram que enfrentar o amontoado de caixões que se formou nos cemitérios e certamente os protestos dos familiares. Um coveiro dizia “ninguém entra, ninguém entra”, lembrando Fernando Veríssimo em seu conto o Analista de Bagé quando do jogo de cartas nenhum dos jogadores podia se retirar e diziam: “ninguém sai, ninguém sai”.

Nos cemitérios do Rio e de São Paulo nenhum defunto pode entrar. Burgueses e proletários, todos iguais perante os coveiros! “Bom dia para os familiares, mas os defuntos vão ter que esperar”! Se bem que a grande burguesia tem seus condomínios privados de campos santos! Mas vá lá, nos cemitérios do Caju, Botafogo, Vila Formosa várias famílias de muitas posses têm lá seus mausoléus.

Greve como instrumento de luta

A greve como instrumento legítimo de luta dos trabalhadores foi criada pela classe operária fabril desde seu nascimento e passou a ser largamente utilizada em diferentes ramos de produção. Os operários aprenderam que parando a produção das mercadorias interrompem o fluxo da mais valia para o bolso dos patrões, criam, de fato, uma pressão direta contra o capital e sua acumulação.

Em geral, uma greve operária em um ramo importante da produção, quando prolongada, chega a paralisar toda uma cadeia produtiva da indústria e isso pesa nos bolsos dos patrões. Ou seja, quando os operários cruzam os braços, por serem os produtores de quase tudo o que existe de mercadoria na face da terra, eles colocam a questão do poder na fábrica e embrionariamente no país. O poder de ligar e desligar as máquinas qualquer um tem, mas o poder de colocá-las a produzir e gerar lucros por seu trabalho só a classe operária tem.

As massas aprendem com suas lutas operárias

De 1964 até as eleições diretas em 1989 a ditadura podia mandar e desmandar, podia prender, matar, torturar. Proibia a livre atuação sindical. Não existiam partidos.Apenas duas agremiações diretamente ligadas à ditadura podiam existir. As duas eram compostas fundamentalmente por gente burguesa ligada à ditadura. Uma dessas agremiações era a ARENA (Aliança Renovadora Nacional) a outra agremiação era e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Não eram partidos, mas na época eram identificados como o “partido do sim” e “partido do sim, sim senhor”. A Arena deu origem ao PDS, depois DEM; o MDB deu origem ao PMDB.

Durante anos os trabalhadores resistiram nas fábricas, avançaram surdamente em seu movimento subterrâneo, construíram as oposições e as comissões clandestinas de fábricas. Em 78 entram abertamente na cena política.

O grande feito de 1978: braços cruzados, máquinas paradas

No dia 12 de maio de 1978, 1.600 trabalhadores da Saab-Scânia, em São Bernardo do Campo (São Paulo), entraram na fábrica, trocaram de roupa e não ligaram as máquinas. Teve inicio a greve que ficou conhecida como a greve dos braços cruzados, máquinas paradas. Depois esta greve se alastrou pelo ABC e pelo Brasil, chegou aos bancários, aos professores e agora, tantos anos depois, chegou aos coveiros.

O grande feito de 2011: braços cruzados, defuntos parados

Em 1968 os operários da Cobrasma, fábrica localizada em Osasco, entraram em greve e ocuparam a fábrica. Em 2002 os trabalhadores da CIPLA e Interfibra e depois em 2003, os trabalhadores da Flaskô, ocuparam as fábricas e as colocaram para produzir sob seu controle e direção.

Em 2011 os coveiros cruzaram os braços e no cemitério da Vila Formosa em São Paulo, ocuparam as covas para impedir que os defuntos que esperavam pacientemente por seus descansos eternos fossem enterrados, era a greve dos braços cruzados, defuntos parados que se impunha. Pela primeira vez sentiram suas forças não enquanto capazes de manejar uma pá, uma picareta ou uma lápide, mas sim como força humana que pode ou não permitir que um defunto seja ou não enterrado.

Enterrar os defuntos não diz respeito apenas aos ritos sagrados. É ante de mais nada uma questão de saúde publica e de higiene e segurança ambiental. E isso o capitalismo não pode mais assegurar a todos.

Diante da tenaz luta dos coveiros, Kassab e Eduardo Paes tiveram que abrir caminho às negociações. Uma conquista aqui outra ali. Mas o mais importante foi que eles aprenderam e viram que possuem força.

Essa greve ensinou que a força da classe operária quando em luta, educa, mesmo que em outras gerações, outras categorias proletárias que nunca antes haviam se colocado em movimento. Esta greve ensina que quando os que nunca experimentaram qualquer luta, quando entram em movimento e praticam pela primeira vez a luta, estão a anunciar uma nova estação. A estação onde se construirá as bases para a edificação de uma nova sociedade, onde todos, serão libertos da exploração.

Uma vez mais reafirmamos: o capitalismo não pode oferecer mais nada aos trabalhadores e à humanidade, a não ser a destruição, a miséria e a reação em todas as áreas de produção, de comércio e de serviços.

Cada vez mais os trabalhadores aprendem e se organizam.Cedo ou tarde adquirirão a consciência de que quando a classe operária se erguer e se unir a todos os proletários, a humanidade poderá dizer aos capitalistas: ‘bom dia para os defuntos’; e jogará uma pá de cal sobre os burgueses.


Vida Longa aos coveiros!

Guerra a Kassab, guerra a Paes!

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Um comentário

  1. A Greve se repete. Ainda não aprendemos, coveiros também pensam, e ao contrário do que os burgueses estão pensando neste momento, estes simples operários do descanso eterno também amam.
    É triste sim, ver famílias chorando a morte de seus entes queridos e não poder enterrá-los, porém não me lembro em nenhuma outra época de minha "vida", com o perdão do barato trocadilho, lembrarem tanto a importância para a sociedade destes honrados trabalhadores. Povo Brasileiro, aprenda com eles e vamos à luta.