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Greve das universidades federais chega ao terceiro mês com adesão recorde

 

Publicamos no artigo que segue uma viva análise de quem participa diretamente na luta. Flávio é mestrando em geografia na Federal Fluminense, diretor da Associação de pós-graduandos da UFF, membro do Comando de Greve dos pós-graduandos, além de suplente da direção nacional da APG. A charge ao lado é de Zé Dassilva para o Diário Catarinense.

A greve de docentes, funcionários e estudantes das Universidades Federais e do ensino básico federal chegou ao terceiro mês com adesão recorde. O governo, até agora só apresentou proposta para o ANDES, a qual foi considerada inaceitável.

Esta semana entramos no terceiro mês da greve contabilizando 57 das 59 universidades federais e também a adesão e paralisação ao movimento de 36 dos 38 institutos federais de educação tecnológica. Apesar dos professores federais já terem passado mais tempo do que isso em greve no passado é preciso destacar que nunca houve um movimento com uma adesão tão grande. A greve alcança até mesmo as universidades criadas recentemente no Governo Lula (14 novas universidades federais desde 2003). Fato que só reforça as críticas das entidades ligadas à educação sobre a forma precarizada como tem se expandido a universidade pública brasileira. 

Trata-se da maior greve no ensino público federal da história. Vejam abaixo uma interessante análise do movimento produzida por Murilo Leal Pereira Neto, professor da Unifesp, publicada no site da Revista Caros Amigos em 10/07:

“Surpreendeu pela facilidade com que professores novos, recém ingressados na docência do ensino público federal com a expansão do Reuni (…), e antigos, que há muito haviam se afastado da luta sindical, compreenderam a justeza do movimento e aderiram. Surpreendeu, ainda, pelo efeito ‘de onda’, se alastrando por universidades onde o Andes não tem seções sindicais organizadas e a Federação de Sindicatos de Professores de Instituições Federais de Ensino Superior (Proifes), pró-governo e contrário à greve, mantém hegemonia. Nestas instituições, como as federais de Minas Gerais, Goiás, Bahia, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, apesar da suspensão de assembleias desfavoráveis à sua linha sindical, por dirigentes do Proifes, apesar da tentativa de exclusão de professores não sindicalizados de assembleias e da realização de plebiscitos com votos secretos para a decisão sobre a deflagração das greves, o movimento cresceu, fortaleceu-se e se impôs, com a formação de comandos locais de greve que estão dirigindo o movimento. Como explicar tamanho acontecimento? (…)

Parecem combinar-se duas percepções e sentimentos: a dos professores mais antigos, que viram seus vencimentos perderem poder de compra nos últimos anos e seu plano de carreira perder nexo e coesão com alterações aleatórias efetuadas pelo Ministério da Educação e a dos professores mais novos, concursados nos últimos cinco anos, com a expansão do Reuni, que estão, muitas vezes, trabalhando em campi sem infraestrutura, com salas de aula superlotadas, sobrecarregados em carga horária e quantidade de disciplinas, assumindo tarefas administrativas por falta de funcionários.”

Pressionado, governo apresenta proposta inaceitável ao ANDES

Dilma e Mercadante estão jogando duro contra a educação federal em greve. O governo buscou desde o início desqualificar a mobilização na imprensa; desmarcou reuniões de negociação e demorou a apresentar uma proposta, tratou a greve como “irresponsável”; e além de tudo, ainda mandou as universidades cortarem o ponto dos servidores em greve.

A resposta do movimento foi aumentar o tom de cobrança e intensificar a mobilização. Nesse sentido foi muito importante a pressão realizada junto à ANDIFES, Associação Nacional dos Dirigentes das Universidades Federais, que até o momento tomou posições de solidariedade junto ao movimento. A ANDIFES passou a cobrar do governo uma negociação com os sindicatos, anunciando também que era contrária ao corte de ponto dos grevistas.

Dilma também pôde sentir essa pressão pessoalmente quando visitou o Rio de Janeiro em 06 de julho. Nos dois eventos de inauguração organizados para serem atividades festivas junto ao prefeito do Rio e candidato a reeleição, Eduardo Paes (PMDB), a presidente teve seu discurso interrompido várias vezes pelos manifestantes e ficou constrangida ao encarar faixas e palavras de ordem de técnicos-administrativos, professores e estudantes protestando pela abertura de negociação e atendimento das reivindicações, particularmente nas áreas de educação e saúde. 

E foi no calor desse embate que no dia 13/07, quando os professores das universidades federais completavam 57 dias parados, que o governo finalmente apresentou uma proposta ao ANDES-SN e as negociações pareceram dar um passo adiante. Mas já se sabe que não avançou muito, pois os resultados das assembleias de base dos docentes indicam ampla rejeição da proposta do governo por compreender que ela não supera nem mesmo os índices inflacionários projetados para os próximos anos, para a grande maioria dos docentes. Uma proposta que beneficia somente quem está no topo da carreira, jogando assim professores que ganham mais contra professores que ganham menos, enquanto se sabe que todos desempenham atividades muito semelhantes na rotina de trabalho. A proposta do governo também mantém a discriminação através de um perverso funil no plano de carreira, onde somente uma minoria pode chegar a professor titular, além de não fazer nenhuma referência à reivindicação do ANDES a respeito das condições de trabalho. Para ler a íntegra da análise da proposta do governo feita pelo comando nacional de greve do ANDES, clique no link abaixo.

(https://docs.google.com/file/d/0Bzz4VZkJH1bsUXRxVEdNUjFScnc/edit?pli=1#)

Vitoriosa marcha a Brasília reuniu mais de 20 mil servidores

Uma mobilização na última quarta (18) demonstrou a ampliação e a força do movimento grevista. Com mais de 20 mil pessoas presentes na Marcha Unificada dos Servidores Públicos Federais a Brasília, foram exigidas negociações efetivas e respostas às pautas de reivindicações dos servidores em greve.

Na manifestação todos puderam sentir que sua greve não está isolada, pois juntos perceberam que poderiam furar bloqueios e estão, aos poucos, ganhando até mesmo a atenção da grande mídia. Todos sentem que o movimento se fortalece a cada dia e que a luta é agora. No ato o recado foi dado ao governo: a greve das universidades federais não vai terminar somente com proposta para os docentes, vamos continuar exigindo que Dilma negocie com todos.

A conjuntura e a crise financeira

Vale lembrar que outras categorias da universidade em greve, como estudantes e técnicos administrativos, permanecem sem perspectiva de negociação. As declarações recentes de Mercadante em audiência com a ANDIFES indicam que o governo fará de tudo para dividir e desgastar o movimento, primeiro fechando acordo com o ANDES e só depois pretende dar atenção aos funcionários e demais categorias.

Mas até mesmo essa simples tática o governo tem dificuldade de realizar. Pois a crise financeira e a continuidade do pagamento das dívidas interna e externa não lhe deixa muita margem de manobra. As preocupações com a projeção do PIB e as demissões anunciadas no setor produtivo são as últimas evidências que a crise novamente bate à porta do Brasil.

Nesse cenário não podemos deixar de destacar também a voz dos partidos patronais que compõem o governo, que sussurram ao ouvido de Dilma, aconselhando que ela não deve ceder às pressões dos trabalhadores em luta. Dizem: “Não se deve brincar à beira do abismo” ou “todos devem dar a sua cota de sacrifício”. A expressão mais recente desses interesses foi a aprovação, no dia 17, da Lei de Diretrizes Orçamentárias, a qual não apresenta reajuste aos servidores para o ano de 2013. É nessas horas que perguntamos: – Por que Dilma e o PT mantém entre seus “aliados” políticos e partidos comprometidos com o capital e inimigos dos trabalhadores? Em que time Dilma vai jogar nessa disputa para ver quem vai acabar pagando a conta da crise? Seria a Grécia de hoje o Brasil de amanhã?

Perspectivas

Ainda parece cedo para previsões de como e quando vai terminar a greve. Mas é possível dizer que a conjuntura teria uma mudança sensível se pudesse contar com um apoio maior da ANPG, UNE e CUT. Importantes entidades que ainda não jogaram todo o peso que poderiam nessa grandiosa mobilização. Um compromisso maior dessas organizações chamando a atenção da sociedade sobre a necessidade de o governo federal sair de sua posição intransigente e negociar com as categorias é o que os trabalhadores em greve não podem deixar de exigir dos dirigentes. No caso da CUT e da ANPG, ambas estão com caravanas a Brasília marcadas para o mês de agosto.

Com ações que continuarão por todo o país a greve tende a se radicalizar e se consolidar ainda mais no caminho da greve geral de todos os servidores federais. A ampla e firme unidade de todas as organizações e entidades, não só nas pautas, mas em especial nas ações práticas, para cobrar de Dilma a abertura de negociação e o atendimento das reivindicações. Estes são os passos e desafios, que se dados com firmeza poderão garantir a vitória.

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