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Grécia: SYRIZA tem que governar com os Gregos Independentes? Ou existe uma alternativa?

Que poderia ter feito a liderança de SYRIZA para lograr um governo de Esquerda sem se apoiar em um partido de direita? Conheçam a posição da Tendência Comunista de SYRIZA sobre o que a liderança poderia ter feito para realizar um governo independente de Esquerda.

O que poderia ter feito a liderança de SYRIZA para lograr um governo de Esquerda sem se apoiar em um partido de direita? Conheçam a posição da Tendência Comunista de SYRIZA (seção da CMI na Grécia) sobre o que a liderança poderia ter feito para realizar um governo independente de Esquerda.

No contexto do atual clima generalizado de confusão política, desilusão e baixas expectativas, aliás, previsível e esperado, a maioria da base eleitoral de nosso partido tende a aceitar a coalizão com os Gregos Independentes como “razoável”, arguindo que, dada a recusa da liderança do Partido Comunista (KKE) em cooperar com SYRIZA, “não havia outro caminho” para formar um governo de Esquerda estável e independente. Mas é este realmente o caso? Pensamos que não!

Em primeiro lugar, está claro para todos que a liderança do KKE é o principal responsável pelo fato de que um governo autônomo de Esquerda não tenha sido logrado. Numa altura em que as massas trabalhadoras deslocam-se maciçamente à esquerda no front eleitoral, dando uma maioria – inclusive maioria absoluta nos centros urbanos – aos partidos que vêm da Esquerda e da tradição comunista, a liderança do KKE se recusou a tirar proveito deste mandato para trazer à existência um governo que poderia governar em favor dos interesses da classe trabalhadora. Dessa forma, comportou-se como um moderno Pôncio Pilatos, não apresentando demandas programáticas elementares que serviriam para revelar às massas populares a superioridade das ideias comunistas. Com esta abordagem sectária, essa liderança não somente não “desmascarou” a liderança de SYRIZA, como também, em vez disto, lhe deu a desculpa política para se aproximar dos supostos “aliados” do campo político burguês.

Contudo, esta posição inaceitável por parte da liderança do KKE a partir de uma perspectiva de classe, de forma alguma justifica a opção da liderança de SYRIZA de cooperar com um partido nacionalista burguês que obriga SYRIZA a aceitar as “linhas vermelhas” dos Gregos Independentes que evitarão a realização de qualquer medida fundamental radical de Esquerda pelo governo. Em vez disso, a liderança de SYRIZA poderia ter adotado uma linha que teria resultado na formação de um governo independente de Esquerda. Isto deveria e poderia ter incluído o seguinte:

  • A liderança do KKE não descartou votar a favor do que fosse favorável ao trabalhador e as medidas contra a austeridade serão submetidas a voto no parlamento. Na verdade, o KKE foi obrigado a aceitar publicamente isto. Neste sentido, a liderança de SYRIZA poderia apelar ao KKE – não no abstrato, mas sobre questões específicas e dentro de prazos acordados mutuamente – para emitir um voto de confiança ao governo de SYRIZA, por exemplo sobre todas as medidas em favor dos trabalhadores contidas no programa de Tessalônica, em conjunto com outras medidas fundamentais que o KKE estava a propor.
  • Naturalmente, uma solicitação de SYRIZA para um voto de confiança por parte de outros partidos também poderia ser encaminhada a Gregos Independentes, mas sem necessidade de formar um governo de coalizão com eles. Isto teria sido o primeiro teste real da postura “anti-Memorando” de Gregos Independentes – uma postura superficial, demagógica e inconsistente na nossa visão.
  • No caso de que a liderança do KKE negasse a SYRIZA este acordo e voto de confiança programático muito específico e temporário, SYRIZA poderia convocar imediatamente novas eleições. Através da defesa consistente e paciente da necessidade de um governo independente de Esquerda, e baseando-se no considerável impulso popular em favor de SYRIZA, particularmente nos principais centros urbanos, os líderes de SYRIZA poderiam aumentar a votação do partido e se tornar capaz de governar com uma confortável maioria parlamentar.    

Esta posição teria mostrado na prática que o SYRIZA está dando passos genuínos, honestos e razoáveis, em vez de fazer gestos vazios, no sentido de uma coalizão com o KKE. Contudo, o que a liderança do SYRIZA fez em vez disso? Em seu discurso na noite da eleição, nosso camarada Primeiro ministro não fez nenhum apelo específico ao KKE. A posição pública geral da liderança do SYRIZA parecia ser a de colocar em pé de igualdade qualquer cooperação potencial com o KKE, com o partido burguês, neoliberal, pró-austeridade e pró-Memorando “River” ou com o burguês, de direita, populista e anti-Memorando Gregos Independentes. Isto, no entanto, era somente uma posição formal, uma vez que era evidente que a liderança do SYRIZA já estava preparada para formar uma coalizão de governo com os Gregos Independentes. Isto foi sem dúvida muito facilitado tanto pelo sectarismo do KKE quanto pelas pressões da burguesia. Ao mesmo tempo, a liderança do SYRIZA hipocritamente apresentou qualquer recurso para a convocação de novas eleições como sendo uma “anomalia política”.

A declaração da Tendência Comunista do SYRIZA de segunda-feira (ver http://www.marxismo.org.br/content/nao-coalizao-do-syriza-com-os-gregos-independentes) expressou publicamente e com argumentos seu desacordo com a escolha de uma coalizão com os Gregos Independentes. Esta é uma escolha desafortunada e acima de tudo politicamente incorreta. Criando uma coalizão com um partido nacionalista de direita que publicamente se apresenta como guardião do establishment burguês contra os “excessos da Esquerda”, quando ainda é possível formar um governo independente de Esquerda é um grande erro.

Entendemos perfeitamente porque os trabalhadores comuns que votaram pelo SYRIZA veem os Gregos Independentes como um “necessário aliado anti-Memorando”. A confusão e ilusões de todas estas pessoas, no entanto, rapidamente se dissiparão com base em sua experiência e nos acontecimentos que se desenvolverão.

Contudo, há que se dizer com honestidade que para a liderança de nosso partido a cooperação com Gregos Independentes não representa a mesma coisa. Para a atual liderança do SYRIZA, ela é uma desculpa para evitar as responsabilidades que um governo Independente de Esquerda carregaria, e também é mais uma forma de tranquilizar a classe dominante grega, em um processo de reconciliação com o poder econômico e político desta mesma classe.

Infelizmente, neste momento crítico, quando a liderança da “Plataforma de Esquerda” [a esquerda do SYRIZA] deveria ter interposto uma maior resistência à prejudicial cooperação com os Gregos Independentes e deveria ter defendido consistentemente a necessidade de um governo Independente da Esquerda, ela fez vista grossa e entrou no governo de coalizão com a gang de direita, populista e burguesa que é o partido Gregos Independentes.

A Tendência Comunista convida todos os ativistas de esquerda do SYRIZA a resistir a toda conversa mole de “inevitabilidade” de uma aliança com os Gregos Independentes e para lutarmos juntos pelo seguinte:

  • Para que não haja nenhum retrocesso nos compromissos de Esquerda em favor dos trabalhadores, os quais estavam no programa eleitoral do SYRIZA;
  • Defender pacientemente a necessidade de romper a aliança de governo com os Gregos Independentes e a necessidade de um governo da maioria, de esquerda e com um programa socialista.
  • Pelo cancelamento da dívida e pela derrubada não apenas do Memorando de austeridade, mas também do próprio capitalismo que deu origem à estas medidas.

27 de janeiro de 2015

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