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Grécia: nem “compromisso honroso” nem “ruptura acidental” – o único caminho a seguir é a Revolução Socialista – Parte 6

O que propõem os comunistas de SYRIZA para o aqui e agora? A liderança do partido deve aceitar sem disfarces que a estratégia de negociação foi infrutífera e chegou a um ponto morto. Deve fazer bem, em termos concretos, o que teoricamente defende. Isto é, deve dar passos concretos para priorizar as necessidades do povo, e deve suspender imediatamente todos os pagamentos aos credores.

Por que o “Acordo Provisório” foi abortado

Enquanto estas linhas estavam sendo escritas, as “negociações”, ou, a constante chantagem do governo pelos credores, se encontravam em seu ponto mais crítico. A resistência do estado grego está se exaurindo a cada dia. No final do mês haverá um déficit de dois bilhões de euros, de acordo com os números oficiais do governo. Necessita-se desse dinheiro para se evitar um cenário em que a suspensão parcial de pagamento aos fornecedores do estado, aos beneficiários de prestações sociais etc., se estenda aos salários dos empregados do estado, às pensões e aos pagamentos agendados aos credores.

Até recentemente, o governo estava esperando a assinatura de um “Acordo Provisório”. O acordo incluiria algumas das medidas mais brandas exigidas pelos credores, de modo que as medidas mais duras, como cortes nas pensões e flexibilização do mercado de trabalho, seriam adiadas até o acordo global em junho. O acordo de junho – de fato, um novo Memorando – cobriria o déficit de financiamento até 2017, que é estimado em 25-30 bilhões de euros.

Mas, como já tínhamos previsto em artigo anterior, os credores não se mostram desejosos de levar adiante tal “Acordo Provisório”, forçando o governo a se concentrar diretamente no acordo “global” de junho. O Sr. Schäuble e o restante da quadrilha de “parceiros”, depois de colocar o governo na defensiva, não têm nenhuma razão para se engajarem em “acordos provisórios”. Se eles dessem ao governo grego uma pequena quantidade emprestada, isto permitiria algum espaço para “respirar”. O governo poderia utilizar este espaço para um apelo às urnas ou a um referendo. Uma nova eleição ou referendo poderia ter consequências desestabilizadoras e, portanto, são indesejáveis aos credores.

Parecia que tudo o que os credores poderiam discutir era um acordo inicial sobre algumas medidas, mas estas, conforme expressamente solicitado pelo representante oficial da Comissão Europeia, haviam de ter um “custo político claro”. Este tipo de acordo significaria medidas de austeridade e políticas anti-trabalhistas. Como retorno, o governo grego não iria receber dinheiro dos pagamentos dos empréstimos, mas algumas margens de manobra com o BCE sobre o limite de emissão de Títulos do Tesouro. Em outras palavras, os credores mostraram que o máximo que podiam tolerar é uma “boa dose” de humilhação política de SYRIZA, em troca do dinheiro que o estado tomaria emprestado dos próprios bancos gregos, que são os únicos compradores possíveis de títulos do tesouro hoje.

Do ponto de vista do governo, chegar a um “acordo provisório” com estas condições é virtualmente conveniente. O governo teria que trazer um acordo global ao parlamento e aos membros do partido. Até então, para atender as necessidades financeiras imediatas, o governo vai ficar esperando por uma declaração dos credores de que “as negociações estão indo por bom caminho”, como um sinal para o BCE permitir o empréstimo necessário através dos títulos do Tesouro no montante de 3-5 bilhões de euros. No entanto, não há garantias de que pode haver tanta generosidade sem uma retirada humilhante do governo.

Que significa “bancarrota dentro do euro”?

Em todos os sentidos, os credores mostram que seguirão uma linha muito dura até o fim, não hesitando até obter a desejada humilhação de SYRIZA. Em frios termos financeiros, a chamada e inacabada quinta avaliação e as quotas reservadas são, na verdade, uma forma de empurrar a Grécia em direção à saída da Zona do Euro.

A opção de uma bancarrota grega dentro do euro, muito discutida nos últimos dias, e que é aceita como possível nas declarações públicas dos credores, pode ser examinada sob esta luz. Seria muita ingenuidade se tranquilizar com as declarações relativas a uma suposta garantia da posição do país na Zona do Euro, mesmo depois de um default. Uma bancarrota da Grécia dentro do Euro significa que a Grécia ficaria na Zona do Euro apenas em teoria, enquanto ocorrerá uma fuga em massa de capital e todas as fontes de “liquidez” dos credores se fecharão hermeticamente.

Tudo isto continuará até que o governo se veja forçado a tomar a decisão de restabelecer a moeda nacional, buscando o consentimento e a ajuda dos credores. Alternativamente, o governo pode aceitar um novo acordo na base das possíveis medidas de austeridade e cortes, ou simplesmente abandonar o poder e ser substituído por outro governo burguês favorável ao Memorando. Dessa forma, a etapa da “bancarrota dentro do Euro” representa uma etapa de pressão ainda mais implacável dos credores, que, em última análise, aproxima a perspectiva de deixar a Zona do Euro.

A atitude do governo, as “linhas vermelhas” e seus limites

O governo, tendo concordado em adiar indefinidamente a implementação do programa pelo qual foi eleito, está agora limitado a repetir que não vai cruzar suas “linhas vermelhas”. Estas podem ser resumidas na seguinte frase: “rejeição de qualquer medida que vá reduzir salários e pensões”. Naturalmente, é importante lembrar que em 25 de janeiro os trabalhadores não votaram por essas “linhas vermelhas”, e sim pela revogação da austeridade e dos Memorandos. Mas, mesmo estas limitadas “linhas vermelhas” decididas pelo governo estão em contradição irreconciliável com a realidade da profunda crise do capitalismo grego e com a inquebrantável política de humilhação de SYRIZA pelos credores.

Frente a esta realidade, o governo percebe que mesmo estas limitadas “linhas vermelhas” são incompatíveis com um acordo. Depois de ter visto fracassar todas as tentativas de negociação, experimentando o isolamento em relação a todos os governos burgueses europeus, percebendo que está somente a um passo do default e da saída do euro, e, acima de tudo, sem a vontade nem o necessário plano para uma ruptura com os credores em favor dos trabalhadores, o governo continua desesperadamente em busca de um acordo. Ao mesmo tempo, o primeiro-ministro, segundo suas próprias declarações, está considerando a possibilidade de escapar das responsabilidades de qualquer decisão política através de um possível referendo.

A cada dia, a cada hora, o governo vai abandonando suas próprias ilusões e parece reagir cada vez mais de forma espasmódica. Suas táticas são determinadas pelo colapso de sua estratégia, ou seja, a estratégia da negociação, uma vez que os credores parecem formar um único e inflexível bloco. Frente a esta realidade, a estratégia do governo entrou em colapso. Em consequência, uma tática de improvisações veio à tona. Esta tática aparece como movimentos bruscos e envergonhados que preveem um recuo desordenado. A marginalização do Sr. Varoufakis e a mudança na composição da equipe de negociação fazem parte deste estado de espírito geral. A violação das supostas “linhas vermelhas” requer as pessoas certas!

A questão mais crítica agora é: quais são os limites reais das concessões do governo, visto que as limitadas “linhas vermelhas” são incompatíveis com um acordo? A resposta não pode ser dada com precisão. Depende da força relativa das diferentes pressões sob as quais se encontra o governo. A principal variável sendo a correlação de forças entre diferentes grupos dentro do governo e a forma como o grupo da liderança de SYRIZA avalia a situação.

A pressão dos credores e da classe dominante grega por retiradas humilhantes e pela assinatura de um compromisso está centrada fortemente no primeiro-ministro, como o “homem-chave”. A pressão no sentido oposto se tornou mais impotente. As manifestações de massas sob a palavra de ordem “nem um passo atrás” não existem mais, uma vez que as retiradas realizadas pelo governo já são abundantes e sua posição política não inspira um estado de ânimo de ativo apoio popular. O ânimo das massas está dominado pela confusão e pela passividade. Aos olhos das massas, romper com os credores é percebido pela maioria como uma aventura que deve se evitar, dada a ausência de um plano alternativo, distinto e radical.

A liderança da Plataforma de Esquerda já fez muitas concessões (o governo com ANEL, o presidente de direita da República Helênica, o adiamento do programa de Salônica etc.). Apesar de sua pública oposição a qualquer violação das “linhas vermelhas”, não tomou nenhuma iniciativa prática que pudesse levantar uma barreira à política de “conciliação”. Finalmente, o grupo político dominante no governo, incluindo o primeiro-ministro, não mostra nenhum apetite para romper com os credores, já que está sob a influência do atual vice-presidente do governo e antigo vice-ministro da coalizão governamental com Nova Democracia em 1989, o Sr. Dragasakis. O grupo dominante teme que uma ruptura significaria a administração de suas consequências, sendo a principal consequência as tarefas revolucionárias que seriam colocadas para a proteção dos níveis de vida das massas.

Dada esta situação, considerando as pressões e correlação de forças no governo e no partido, e também a atitude tímida do núcleo da equipe da liderança, as escolhas governamentais podem variar da assinatura imediata de um acordo degradante à decisão por um referendo, a fim de transferir a responsabilidade da conciliação para os ombros das massas desconcertadas e assustadas.

Contudo, nesse meio tempo, uma “ruptura” pode ocorrer por um “acidente” devido aos atrasos existentes. Isto seria indesejável do ponto de vista do governo. Dada sua fiel defesa do caminho para um “compromisso honroso”, parece improvável que qualquer “ruptura” leve a liderança a embarcar no caminho corajoso de apoiar os trabalhadores e de tomar medidas radicais. Em vez disso, é provável que a liderança embarque no caminho fútil de buscar novas negociações para um acordo ainda mais humilhante, ou em direção a algum tipo de coalizão governamental favorável à classe dominante e aos credores.

Referendo: fazer o povo cúmplice da austeridade

Durante as eleições de 25 de janeiro, o povo grego ofereceu um mandato claro: que os Memorandos e a austeridade devem chegar a um fim imediato. No entanto, depois de quatro meses, podemos ver como a mesma questão política, que as eleições resolveram, agora retorne desta vez como um dilema de “sim ou não a um acordo com os credores”. Isto só serve a objetivos políticos reacionários e não às necessidades das pessoas de expressar democraticamente sua vontade.

Este recurso a um referendo sobre um novo acordo é na verdade um meio reacionário de chantagear e subjugar o povo, mesmo por trás de um “véu democrático”. É assim pelas seguintes razões:

  1. É improvável que tal referendo venha acompanhado de um plano alternativo de ruptura por parte do governo. Portanto, na mente das pessoas este dilema parece ser de fato sobre “estabilidade ou caos”. Neste sentido, as pessoas podem ser forçadas a se tornar cúmplices da austeridade, em nome da “estabilidade”;

  1. É improvável que o referendo seja conduzido em condições democráticas. O referendo seria conduzido dentro de uma atmosfera de histeria em apoio ao “sim”. A mídia burguesa e os partidos burgueses, sem dúvida, realizarão uma campanha generalizada em favor do “sim”, com muito pouca oposição;

  1. Também é provável que o referendo divida artificialmente a classe trabalhadora entre apoiadores do euro ou do dracma, em um momento em que o verdadeiro dilema histórico e político é “barbárie capitalista ou socialismo”;

  1. Um resultado pelo “sim”, sob tais condições, seria descaradamente explorado como argumento por todos os que se opõem a qualquer movimento de massas contra a austeridade e o capitalismo.

Apesar da natureza reacionária de um referendo sob tais circunstâncias, por que recorrer a um referendo em oposição aos credores e à burguesia grega? Sua oposição reflete o elevado grau de reação, insegurança e seu isolamento social. Os credores temem que um referendo possa estabelecer um precedente para outros povos europeus questionarem a austeridade e as políticas do capitalismo europeu. Ainda mais, como no caso da burguesia grega, eles temem que o referendo possa ser utilizado pela liderança de SYRIZA para se agarrar ao governo. Isto enfraqueceria as possibilidades de formação de um governo de “unidade nacional”, que seria mais fácil de controlar pela burguesia. Finalmente, a burguesia grega se opõe ao referendo, uma vez que teme que possa causar mais demoras em alcançar um acordo com os credores. Uma demora pode causar um “acidente”, ademais de prejudicar ainda mais as relações entre o “país” e os credores.

Portanto, a oposição tática dos credores e da burguesia grega a um referendo não constitui nenhuma razão para a classe trabalhadora e os militantes de esquerda o apoiarem. Repetimos: sob as presentes circunstâncias, um referendo representa uma ferramenta reacionária no sentido de dar legitimidade popular a um compromisso catastrófico com os credores. No entanto, se um referendo for anunciado, seria necessário para a esquerda dentro de SYRIZA e para o KKE propagar amplamente o voto pelo “não” e pela necessidade de um plano alternativo para uma ruptura socialista. Seria necessário aspirar ganhar um grande setor dos trabalhadores à causa da defesa ativa deste plano.

Futuro sombrio dentro do capitalismo, seja com o euro ou com uma moeda nacional

A Tendência Comunista de SYRIZA, desde sua criação, tem argumentado consistentemente que não existe nenhuma diferença real entre uma Grécia capitalista dentro do euro ou uma que volte à antiga moeda nacional. O problema para a classe trabalhadora e para as camadas empobrecidas da sociedade é o capitalismo, não sua moeda.

Portanto, a Grécia permanecer dentro da Zona do Euro significa a deterioração continuada dos níveis de vida para a classe trabalhadora e para as camadas mais pobres da sociedade através de acordos instáveis com os credores. Esses acordos estão todos destinados a transferir o custo da crise para os ombros das massas através da pobreza e do desemprego.

Neste sentido, a assinatura de um acordo com os credores em nome da permanência na Zona do Euro equivale praticamente à aceitação da perspectiva de décadas de austeridade e de Memorandos. Ao mesmo tempo, como já explicamos repetidamente, a crise atual é tão grande que nenhum acordo é capaz de garantir que a Grécia possa permanecer dentro do “clube” dos mais fortes da Zona do Euro. A enorme dívida pública, os “pés de barro” do altamente endividado sistema bancário grego (inteiramente dependente da liquidez do BCE), a recessão permanente, a estagnação geral econômica europeia e mundial, são todos fatores que, em algum momento, inevitavelmente causarão um “acidente”. É provável que este acidente leve a um retorno à moeda nacional, ou de acordo com os credores ou tendo por base o que a burguesia grega desejar.

Por outro lado, uma saída da Zona do Euro com base no capitalismo significaria a deterioração concentrada dos já deteriorados níveis de vida da classe trabalhadora. Permanecer na Zona do Euro significaria uma deterioração mais escalonada, menos súbita, isto é, se ignorarmos a possibilidade de uma maior deterioração da economia global. Uma Grécia capitalista com uma moeda nacional significa que mais dificuldades se acumulariam às dificuldades existentes que sobrecarregam o povo grego; dificuldades tais como uma súbita fuga de capital com o fechamento de milhares de empresas, inflação galopante e escassez de bens.

Naturalmente, é possível que a economia capitalista grega comece a crescer em ambos os casos (ou seja, com o euro ou com uma moeda nacional). Caso a economia europeia e global sejam capazes de evitar uma recessão mais profunda no futuro imediato, seria possível para uma frágil Grécia capitalista dentro do euro ou uma indigente Grécia capitalista com sua moeda nacional também experimentar um crescimento do PIB. No entanto, é improvável que isto melhore a sorte da classe trabalhadora e das camadas empobrecidas da sociedade. Esta é a verdade que SYRIZA tem o dever de explicar às pessoas. É a partir destas premissas, e não de qualquer alegado “dogmatismo”, que os comunistas defendem persistentemente a perspectiva socialista com a única solução progressista para as massas trabalhadoras.

Que se deve fazer? A única solução é um governo de esquerda para uma ruptura socialista

Os apologistas da política do “compromisso honroso” zombam dos comunistas de SYRIZA, ao acusa-los de carecerem de um programa para o aqui e agora. Acusam aos comunistas de tudo o que se refere ao período da revolução proletária e do socialismo. Deixando de lado a incapacidade de nossos críticos para entender que este período está muito mais próximo àquele período passado de revolução socialista do que eles imaginam, eles estão sendo desonestos. A Tendência Comunista não somente apresentou uma proposta alternativa, como também esta proposta também expressa a única solução realista para a classe trabalhadora e as camadas empobrecidas da sociedade.

Portanto, o que propõem os comunistas de SYRIZA para o aqui e agora? A liderança do partido deve aceitar sem disfarces que a estratégia de negociação foi infrutífera e chegou a um ponto morto. Deve fazer bem, em termos concretos, o que teoricamente defende. Isto é, deve dar passos concretos para priorizar as necessidades do povo, e deve suspender imediatamente todos os pagamentos aos credores.

Para responder ao claro mandato do povo grego de 25 de janeiro com relação à abolição dos acordos de Memorandos e de austeridade, a liderança de SYRIZA deve tomar todas as providências necessárias para formar um governo genuinamente de esquerda. Deve remover o ANEL burguês (isto é, os “Gregos Independentes”) e todos os outros partidários da política de “compromisso honroso” do governo. No lugar de ANEL, SYRIZA deve buscar uma coalizão de governo com o KKE (Partido Comunista Grego) para implementar um programa de ruptura socialista ou, pelo menos, pedir ao KKE um voto de tolerância para uma política deste tipo.

Como um gesto necessário de boa fé e mudança política, a liderança deve apoiar e votar no parlamento a proposta do Partido Comunista de abolir os Memorandos e suas leis aplicáveis. Com base em tal prática e sincera mudança política, a liderança do Partido Comunista não pode recusar um voto de tolerância. Na improvável hipótese de que a liderança do Partido Comunista, totalmente em desacordo com a vontade de suas próprias fileiras, decline, então SYRIZA deve recorrer à convocação de novas eleições, pedindo um mandato para um governo de maioria de esquerda de ruptura socialista.

O primeiro ato do governo de esquerda deve ser uma resposta imediata às conclusões reveladoras da auditoria da dívida realizada no parlamento, que demonstra o caráter totalmente parasitário e predador da dívida. Também deve seguir diretamente para o cancelamento da dívida, privando, dessa forma, os credores da capacidade de chantagear continuamente os trabalhadores do país.

Imediatamente após, o governo de esquerda deve começar a implementar todas as reformas do programa de Salônica, que até agora tem sido adiado indefinidamente devido às “negociações”. Mas para implementar estas medidas, fortes recursos financeiros necessitam ser garantidos imediatamente, o que não se pode garantir através da tributação, nem, naturalmente, através de recursos externos. Ademais, as reformas de Salônica são reformas que garantem uma distribuição mais justa da riqueza. Não se pode distribuir de forma justa, nem planificar a recuperação de nada que não se controla ou não se é dono. A riqueza do país, portanto, deve ser transformada em propriedade social.

Para se alcançar este objetivo crucial, as reformas de Salônica devem necessariamente ser complementadas por um programa anticapitalista radical, como o sugerido pela Tendência Comunista no congresso de fundação e no Comitê Central de SYRIZA. Isto proporciona um plano para a planificação democrática da economia, através da socialização do sistema bancário, da indústria, da grande propriedade fundiária, da riqueza mineral, das maiores empresas e dos transportes. Este processo implica a transformação socialista da sociedade. Ele está incluído nos princípios fundadores e nas declarações de SYRIZA e é a única maneira de sair consistentemente da austeridade e de implementar os compromissos eleitorais.

Obviamente, durante a transformação socialista a economia não pode manter o euro como moeda. Draghi e Schäuble não são conhecidos por suas convicções de esquerda para garantirem o financiamento de uma economia planificada democraticamente…. Apenas o anúncio de reformas socialistas imediatamente excluiria a Grécia da moeda euro. Então, a questão de uma moeda estatal do governo de esquerda é inevitável e forçosa.

Neste ponto, é necessário salientar que a promessa do governo de que os compromissos eleitorais e a agenda de Salônica podem ser realizados “em um prazo de quatro anos” na base do capitalismo, após um “compromisso honroso com os parceiros”, é uma mentira óbvia. Como já explicamos repetidamente e como pode deduzir cada trabalhador de sua própria experiência dos meses passados, os credores e a classe dominante grega nunca aceitarão a implementação das políticas anti-Memorando de SYRIZA. Além disto, a crise do capitalismo grego é incrivelmente profunda. Isto significa que a possibilidade para uma recuperação econômica em futuro próximo, que permitiria ao governo realizar seus compromissos pré-eleitorais, está descartada.

Por outro lado, também é falso que o programa de Salônica pode ser implementado com a combinação de emissão imediata de moeda nacional, nacionalização dos bancos e não pagamento da dívida, sem necessidade de um programa completo de transformação socialista como os líderes da Plataforma de Esquerda sugerem. O sistema bancário não produz riqueza e as notas bancárias não têm nenhum valor por si mesmas. Sem a implementação imediata de um programa de transformação socialista, nenhuma melhora substancial nos níveis de vida do povo pode ocorrer. A questão hoje para a classe trabalhadora não é a de simplesmente romper com os credores dentro do capitalismo, mas a de romper com o próprio capitalismo. Isto significa uma completa ruptura socialista.

Um caminho fácil?

O caminho da ruptura socialista não será um caminho fácil. Haverá obstáculos no caminho da reconstrução socialista da sociedade. O capital, doméstico e externo, irá à guerra com o governo socialista, utilizando todos os meios políticos e econômicos disponíveis. No início, a nova moeda será de muito pouco valor. Inevitavelmente, a inflação fará presença e haverá escassez de produtos importados, igualmente. A Grécia não será somente expulsa da Zona do Euro, também o será da União Europeia. Todos os acordos de financiamento da União Europeia serão removidos. A fuga massiva de capital, a greve de investimentos, os lockouts, a desobediência à implementação da legislação fiscal pró-trabalho, a sabotagem através da utilização de altos funcionários do aparato do estado, a tentativa de mobilizar as camadas pequeno-burguesas e elementos lúmpens nas ruas, serão alguns dos meios pelos quais os capitalistas expressarão sua furiosa reação.

Todos estes obstáculos no caminho da classe trabalhadora rompendo as cadeias da escravidão da dívida e dos Memorandos, e para construir uma sociedade livre da pobreza e da exploração, são inevitáveis. Nenhuma classe dominante foi alguma vez derrubada do poder sem uma luta dura. Contudo, estes obstáculos inevitáveis podem ser superados com relativa rapidez através da demonstração na prática da superioridade da economia planificada e da auto-organização e mobilização da classe trabalhadora para defender suas conquistas.

A socialização e a planificação democrática da economia podem garantir que todos os bens e serviços essenciais no país sejam acessíveis aos trabalhadores. A aplicação da escala móvel de horas de trabalho, isto é, a redução do horário de trabalho na medida necessária para que todos os recursos humanos disponíveis sejam usados na economia, junto à implementação de um programa em grande escala de obras públicas e sociais, colocaria centenas de milhares de desempregados para trabalhar. Esta política daria um gigantesco impulso à economia, colocando-a no caminho certo em direção a um crescimento forte. Os frutos deste desenvolvimento, com a produção e distribuição pertencendo à sociedade, não vão mais ser convertidos em superlucros para o capital, mas tornará possível muito em breve, não só a implementação da política social do programa de Salônica, como também a elevação dos níveis e da qualidade de vida da classe trabalhadora e das camadas pobres, de forma sem precedentes e generalizada.

A necessidade de mobilizar a classe trabalhadora, criando novo poder e solidariedade internacional

A mobilização da classe trabalhadora e da juventude através da auto-organização nos locais de trabalho e nos bairros pode derrotar facilmente a sabotagem econômica e evitar o caos artificial que a reação burguesa tentará criar.

Para consolidar as conquistas sociais e econômicas, é necessário estabelecer um regime político fundamentalmente diferente e verdadeiramente democrático. O governo de esquerda deve prosseguir com a remoção do poder político da burguesia. Deve substituir o atual aparato de estado burguês, autoritário e corrupto, com os trabalhadores democraticamente organizados. Representantes e juízes serão eleitos e sujeitos à imediata revogação a qualquer momento. Ademais, os trabalhadores tomarão sob o seu controle o exército e as forças de segurança e pagarão aos funcionários do estado o salário de um trabalhador especializado.

Para desarmar os adversários externos da Grécia socialista, e para superar rapidamente o inevitável período de transição, dentro de certo isolamento internacional em um ambiente capitalista hostil, o governo de esquerda terá de apelar à solidariedade da classe trabalhadora europeia e mundial. Ao mesmo tempo, o exemplo de uma ruptura socialista com os opressores rapidamente criará o efeito dominó de uma luta internacional unida do movimento dos trabalhadores e da juventude pelo socialismo na Europa e em todo o mundo.

Este é o único caminho à frente da classe trabalhadora e das camadas pobres. Todos os outros caminhos dentro do capitalismo, seja com acordos frágeis e Memorandos dentro da Zona do Euro, ou com a moeda nacional e a mesma oligarquia do capital dominando a riqueza e explorando os trabalhadores, são inclusive versões mais repugnantes do que o atual pesadelo de miséria das massas.

Não ao veneno do cinismo, do ceticismo e do pessimismo! Organize-se com a Tendência Comunista!

Os cínicos, céticos e pessimistas de todo tipo vão falar sobre este caminho de ruptura socialista com as familiares palavras de descrédito: “Utopias de uma tendência diminuta”!

Os que pertencem aos círculos da equipe da liderança e seus apologistas simplesmente refletem sua rotina burocrática e sua vontade de defender privilégios recém-adquiridos. Alguns ativistas, que estão desorientados e confusos pela experiência das derrotas da luta de classes contra os Memorandos, mas também pela rápida degeneração socialdemocrata da liderança de SYRIZA, podem se juntar a eles. Fariam isto a partir de um suposto ponto de vista de “esquerda”, afirmando que “o povo não quer lutar e não entende”.

A Tendência Comunista de SYRIZA, desde o primeiro momento de sua existência, decidiu conscientemente ficar longe do veneno do cinismo, do ceticismo e do pessimismo. Nossos ouvidos estão fechados para os que já falam em derrota e passividade! O Marxismo revolucionário não tem espaço nem tempo para seus lamentos.

É totalmente possível no próximo período que as ideias de ruptura socialista conquistem as massas e sejam implementadas na prática. Os trabalhadores e os jovens podem entender e lutar por esta política, porque é a única opção realista que atende as suas necessidades. A única coisa que falta é o fator subjetivo que vai organizá-los e liderá-los no caminho da vitória. Para permitir que ele seja criado o mais cedo possível, só há um caminho efetivo para os lutadores de SYRIZA, do movimento dos trabalhadores e da juventude: apoiar e reforçar a voz da única tendência dentro do partido que luta por esta necessária política. Organizar-se com a Tendência Comunista!

  • Não ao humilhante “compromisso honroso”!

  • Deter os pagamentos aos credores – repudiar a dívida!

  • Por uma conferência extraordinária de SYRIZA para adotar a política de uma ruptura socialista!

  • Por um governo de esquerda que implementará o programa socialista!

  • Por uma Grécia socialista e os Estados Unidos Socialistas da Europa!

  • Organize-se com a Tendência Comunista de SYRIZA!


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