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Grécia: Nasce um governo em crise

O Governo com objetivo de “Unidade Nacional” que acaba de se formar na Grécia entre a Nova Democracia (partido clássico da direita grega), o PASOK (Partido Socialista) e Esquerda Democrática (partido resultante de uma cisão à direita do SYRIZA em 2010) será um governo frágil que não representa a maioria (ver resultados das urnas mais abaixo). E, além da debilidade de sua representatividade perante a sociedade grega, é também um governo de crise pois, minoritário, defende um programa que só pode aprofundar a luta de classes na Grécia e provocar o povo trabalhador e a juventude a resistir. A submissão do novo governo à TROIKA não pode resolver nenhum dos problemas que a Grécia enfrenta. É a receita acabada para mais revoltas.

 

Para entender o processo eleitoral

Desde o ano passado, e principalmente nos últimos meses, publicamos uma porção de artigos que explicavam o perigo do KKE (Partido Comunista Grego) recusar a frente única com o SYRIZA (Coalizão da Esquerda Radical) nas eleições para o parlamento grego.

Desde outubro passado a Grécia é governada por um chamado “Governo Técnico” imposto pela TROIKA (FMI, BCE, UE) – leia-se imperialismo EUA e Alemão – que entrou no lugar do governo do PASOK que havia sido legitimamente eleito em 2009. Acontece que o PASOK aceitou esta imposição e concordou em formar uma aliança de unidade nacional com a Nova Democracia (partido clássico da direita grega) e o LAOS (partido nacionalista de ultra-direita) para dar sustentação ao governo da TROIKA.

Mais que isso: em fevereiro, o Congresso Grego aprova o chamado “Memorando” – trata-se de um pacote de medidas de austeridade imposto pela TROIKA como condição para emprestar centenas de bilhões de euros à Grécia para que o Estado grego pudesse pagar suas dívidas com os bancos.

Este “Memorando” inclui, por exemplo, redução de 22% do salário mínimo e redução de 32% do salário mínimo para os menores de 25 anos (isso acarreta na redução de todos os salários, pois na Grécia os salários são reajustados de acordo com o valor do salário mínimo). Inclui também privatização de todos os serviços públicos, redução imediata de 40% dos leitos hospitalares, cortes na aposentadoria, fim das negociações coletivas de trabalho, etc. Nova Democracia, PASOK e LAOS aprovaram isso em fevereiro. Os deputados da Nova Democracia e do PASOK que se recusaram a votar a favor, foram expulsos de seus partidos. O povo enfurecido cercou o Congresso em Atenas e se enfrentou com a Polícia durante dois dias seguidos.

Quando novas eleições foram chamadas em 6 de Maio, o povo grego castigou os partidos do governo de unidade nacional nas urnas. A Nova Democracia que tinha conquistado 33,5% dos votos em 2009, teve apenas 18,8% em Maio. O LAOS que em 2009 teve 5,6% dos votos, em Maio ficou abaixo da barreira dos 3% e não elegeu nenhum deputado. E o PASOK, partido reconhecido pelas massas trabalhadoras, que havia ganho as eleições em 2009 com 44% dos votos, em Maio obteve apenas 13,2% dos votos.

E um fenômeno novo surgiu. O SYRIZA (Coalizão da Esquerda Radical), encabeçado pelo Synaspismós (formado a partir da cisão do Partido Comunista em 1991), que havia obtido apenas 4,6% dos votos em 2009, chegou em Maio a 16,8% dos votos. Por pouco não chega em primeiro. Um partido novo, formado em 2004, que se apresentava com duas posições firmes: Rejeição total ao Memorando e Unidade da classe trabalhadora, chamando o KKE (Partido Comunista) para uma aliança eleitoral, por um governo de esquerda na Grécia.

O KKE, por sua política sectária de recusar a aliança com o SYRIZA subiu apenas 1%, de 7,5% em 2009 para 8,5% em Maio.

Como os deputados da Nova Democracia e do PASOK não conseguiram maioria no Congresso para formar um novo governo, novas eleições foram chamadas para junho. A partir dos resultados de Maio, o povo trabalhador grego sentiu que poderia de fato utilizar o novo partido SYRIZA para derrotar a TROIKA e a burguesia grega. As pesquisas apontavam o SYRIZA em primeiro lugar com 30% dos votos.

Então Obama, Merkel, as burguesias grega e de toda a Europa utilizaram todo o arsenal dos meios de comunicação à sua disposição para uma campanha de demonização do SYRIZA, durante semanas, anunciando que a vitória do SYRIZA tiraria a Grécia da Zona do Euro e afundaria o país no caos – como se o caos já não fosse a realidade hoje.

Nesse domingo (17/06), apesar da maioria do povo grego ser contra as medidas de austeridade impostas pela TROIKA, por suas representações políticas estarem divididas, venceu a direita (Nova Democracia) com 29,6%, que agora acaba de compor um “governo de unidade nacional” pró-TROIKA com o PASOK (12,2%) e a Esquerda Democrática (6,2%).

 

Quem é o responsável pela vitória da Nova Democracia?

http://www.marxist.com/greek-elections-fragile-victory-of-ruling-class.htm responsabilidade central é do KKE, mas não somente. Antes dos “comunistas”, a direção “socialista” do PASOK é responsável por ter traído a classe trabalhadora grega que havia confiado a maioria de seus votos contra a direita desde o fim da ditadura militar em 1974. A traição da direção e deputados do PASOK ao integrarem desde o ano passado um governo de unidade nacional com a Nova Democracia e o LAOS, aceitando a retirada de seu primeiro-ministro Papandreu sem resistência e aprovando o “Memorando”, fez com que o PASOK fosse abandonado pelas massas trabalhadoras.

Por outro lado, também têm responsabilidade os anarquistas – que têm certo peso no cenário político grego – que chamaram à abstenção do voto, levando assim parte da juventude que está contra a TROIKA a não se expressar eleitoralmente (37,5% de abstenção), ajudando o triunfo da direita (aqui vale ressaltar que a alta abstenção não representa um êxito dos anarquistas; na Grécia historicamente boa parte do povo pobre se abstém por não ter condições financeiras de se deslocar entre as várias ilhas que compõem o país, para ir votar; com a crise esse fenômeno se agravou).

Também teve responsabilidade pela vitória formal da ND, a direção do SYRIZA. Nossos camaradas marxistas gregos, que atuam como uma corrente interna do SYRIZA (Voz Marxista), explicam que:

“Em nível organizacional, a suja campanha dos políticos e da mídia burgueses e da TROIKA deveria ter recebido resposta imediata, como nós já tínhamos advertido previamente, com um sério esforço para mobilizar a militância do SYRIZA nos locais de trabalho, nos bairros urbanos e nas aldeias, com o objetivo de organizar milhares de novos lutadores para esta batalha.

Em vez de se dedicar energicamente a esta tarefa, a campanha eleitoral se limitou a mal organizados encontros locais – discussões que foram descritas incorretamente como “assembleias populares”. Em vez de desenvolver forte campanha eleitoral, mantiveram uma abordagem rotineira, com antigos militantes e apoiadores cansados portando pranchetas. Todos os “líderes proeminentes” se esforçavam em participar de painéis de TV, em vez de descerem às fileiras e organizarem campanhas de massas nos bairros. SYRIZA, do ponto de vista organizacional, dessa forma apareceu com um aparato eleitoral muito fraco e não como um que pudesse mobilizar os milhares de lutadores que encontrou nas últimas semanas. O aparato do SYRIZA considerou esses milhares de lutadores como meros eleitores e não tentou corajosamente e decisivamente organizá-los de modo a fortalecer o partido no nível de suas fileiras.

Contudo, o principal problema não foi organizativo, mas político. O programa apresentado pela direção – sem nenhum tipo de debate com a base – deu alguma esperança aos trabalhadores, mas não foi suficiente em termos de uma política eficaz que contrabalançasse os temores e ansiedades de milhares de aposentados, pequeno-burgueses e jovens desempregados.”

Diante disso, os camaradas gregos do “Voz Marxista” apresentam nas fileiras do SYRIZA propostas de um programa político revolucionário que incluem expropriação dos banqueiros e de toda a burguesia grega, decreto do monopólio estatal do comércio exterior, não pagamento das dívidas, planificação da economia segundo as necessidades do povo grego e um apelo aos povos de toda a Europa para seguir a mesma linha em cada um de seus países, rumo à Federação dos Estados Socialistas da Europa.

Em artigo do dia seguinte às eleições, explicam que a direção do SYRIZA “devia ter explicado pacientemente e de forma insistente a necessidade de um programa integral para a nacionalização, sob o controle e a gestão democrática dos trabalhadores, das alavancas fundamentais da economia, como parte de um plano centralizado. A pura verdade é que sem o estabelecimento de uma economia socializada e planificada democraticamente, a sobrevivência do povo e o pagamento dos salários e das aposentadorias – apesar do que digam os dirigentes – não estão assegurados em absoluto sob o capitalismo. Além disso, as centenas de milhares de jovens desempregados não se sentiam totalmente seguros de que o programa apresentado pela direção de Syriza fosse suficiente para combater o desemprego. Em vez de propor o incremento do subsídio de desemprego em 100 euros e de concedê-lo um ano antes, a liderança de Syriza – como já assinalamos em artigo anterior – deveria ter proposto a velha demanda do movimento operário de reduzir a jornada de trabalho sem perda de salário, de maneira que os desempregados pudessem ver que havia uma expectativa razoável de que um governo de esquerda seria capaz de gerar postos de trabalho imediatamente. Ao defender esta demanda, Syriza teria sido capaz de mostrar aos desempregados até que ponto é reacionário este sistema de anarquia capitalista, um sistema que os condena à pobreza crônica, e isto os teria ajudado a compreender que a única opção realista para se viver com dignidade é o estabelecimento de uma economia socializada planificada democraticamente.”

Mas o KKE é o grande responsável. Se a traição da direção do PASOK e a política estúpida dos anarquistas já eram elementos dados no tabuleiro, por outro lado, daqueles  que se reivindicam do Leninismo, do Marxismo revolucionário, se esperava outra política. Se o KKE tivesse realizado a frente eleitoral com o SYRIZA, certamente o sentido de unidade de classe teria atraído uma camada ainda maior de jovens a votar na alternativa à esquerda. Uma coalizão entre SYRIZA e KKE atrairia votos da juventude que se absteve, votos que ainda resistem no PASOK, votos da “Esquerda Democrática” (racha à direita do SYRIZA) e mesmo dos “Gregos Independentes” (agremiação formada pelos deputados expulsos em fevereiro do PASOK e da Nova Democracia, que se recusaram a votar a favor dos planos da TROIKA). Mas só a simples soma dos votos que SYRIZA e KKE conquistaram no domingo já superaria os votos da Nova Democracia (ver quadro abaixo).

Na Nota Política Semanal de 14/05, analisando os resultados eleitorais de Maio, nós já alertávamos:

“Uma importante lição política se pode apreender desta situação. Ela ressalta em primeiro lugar que o sectarismo é a outra face do oportunismo. E neste caso se expressa na política verdadeiramente criminosa do KKE, o Partido Comunista Grego, que se recusou a fazer uma aliança eleitoral com a frente de esquerda SYRIZA. SYRIZA propõe recusar o pacote de arrocho imposto pela TROIKA, a ruptura com o euro e não pagar a Dívida Externa, entre outras propostas. Mas, o PC não se aliou com SYRIZA porque “nós, o KKE somos a única força revolucionária na Grécia”.

(…) O KKE tem uma posição divisionista e sectária igual à do PC alemão de 1931 a 1933, que dividiu a classe operária alemã e permitiu a ascensão e tomada do poder pelos nazistas. Naquela época, o principal dirigente do PC alemão, Thaelmann, dizia que “a chegada de Hitler ao poder é apenas a primeira etapa da situação que será a tomada do poder pelo Partido Comunista”. Ele dizia “Após Hiltler, o PC Alemão”. Todos sabem o que aconteceu.

A Secretária Geral do PC Grego, Aleka Papariga, declarou antes das eleições, que seu objetivo era que saísse das eleições uma maioria burguesa débil, que fizesse um governo débil, porque o próximo passo depois disso seria o PC o partido majoritário e um governo comunista. Assim como seu irmão sectário Thaelmann ela estava errada em todos os aspectos. No dia das eleições Aleka Papariga declarou que o PC foi “a única força política que teve um aumento significativo nas eleições nos âmbitos local e regional”. Espantoso quando se sabe que o PC cresceu só 1% sendo que o SYRIZA passou de 4,6% para 16,8%.

O PC grego, ao recusar a aliança com SYRIZA, garante que a direita governe pagando a Dívida e massacrando o povo grego, assim como é o fator que impede a constituição de um governo de ruptura com o euro e não pagamento da Dívida.”

Parece que o prognóstico da secretária “comunista” Papariga começa a se cumprir. Justamente por conta da linha sectária do KKE, hoje a Grécia tem um governo de direita débil. Já a continuação dessa história não parece estar a favor do KKE como podemos ver no quadro abaixo.

 

O real significado do resultado das urnas

A regra anti-democrática do parlamento grego (que dá um bônus de 50 deputados ao partido que fica em primeiro nas eleições) permitirá à Nova Democracia com apenas 29,6% dos votos saltar de 79 para 129 num total de 300 deputados no Parlamento. Somando com os assentos do PASOK (33) e da Esquerda Democrática (17), compõe um governo com 179 deputados, mais do que os 151 necessários para eleger um primeiro ministro. Entretanto, só tem maioria por conta do bônus de 50 deputados. Pois os votos destes 3 partidos juntos não chegam a 50% dos votos válidos!

Observando mais atentamente os resultados podemos ver que a maioria dos eleitores optou por partidos que rejeitam o “Memorando”. SYRIZA, KKE, Gregos Independentes e até mesmo o partido de ultra-direita e neonazista “Golden Dawn” (Alvorecer Dourado) rejeitam as imposições da TROIKA à Grécia, por motivos diferentes. Mas a maioria do povo grego, dividido por diferentes motivos, votou contra o “Memorando”.

E mesmo a “Esquerda Democrática” recebeu um mandato anti-Memorando nas urnas. Durante toda a campanha se opuseram ao Memorando. Haviam se recusado a compor um governo pró-Memorando em Maio. Agora devem ter recebido cargos importantes no governo para se venderem. E estão politicamente mortos. Todos os seus eleitores se sentem traídos.

Em resumo, os resultados expressam uma vitória débil da ND e um fortalecimento estrondoso do SYRIZA que, com apenas 8 anos de existência e tendo apenas 4,6% dos votos nas últimas eleições (2009) hoje ocupa o lugar do partido de massas da classe trabalhadora e da juventude grega, substituindo o papel histórico do PASOK e do KKE.

É interessante avaliar a apuração dos votos por região e por faixa etária. Notamos que a Nova Democracia obteve mais votos entre os eleitores com mais de 55 anos de idade e nas regiões rurais. Enquanto que o SYRIZA venceu entre os eleitores mais jovens e nas regiões urbanas e operárias. É um claro corte de classe que também demonstra que a classe trabalhadora e a juventude estão se radicalizando.

Os 12% que continuam fieis ao PASOK em qualquer circunstância são representados por trabalhadores mais velhos, que ajudaram a construir o partido nas últimas décadas. Mas a juventude trabalhadora hoje está com o SYRIZA.

O que será da Grécia?

A crise do capitalismo continuará assolando ainda por muito tempo, não só a Grécia, mas toda a Europa. Exemplo disso é o que está acontecendo na Espanha. Mesmo os empréstimos de centenas de bilhões de euros para a Espanha não têm acalmado os mercados. E os mineiros levam a cabo uma greve heroica por todo o país enfrentando as forças de repressão com dinamites e armas de fogo improvisadas.

Na Grécia, a resistência do povo trabalhador e da juventude não é menor. O Memorando da TROIKA só poderá ser aplicado por este novo governo, ou por qualquer outro, se a classe trabalhadora grega for esmagada. E não é o caso hoje. Apesar da derrota eleitoral formal para a Nova Democracia, a vitória do SYRIZA nos centros operários e entre a juventude faz a classe trabalhadora se sentir fortalecida.

Muito do que pode acontecer depende da postura das direções do SYRIZA e do KKE. Os “comunistas” podem superar seus erros sectários e iniciar uma política de frente única com o SYRIZA, para organizar as massas contra o novo governo. Ou pode continuar confinado no seu auto-isolamento infantil.

Já a direção do SYRIZA pode cometer o erro de aceitar a derrota e declarar que o povo deve tentar vencer de novo somente nas próximas eleições (assim como fez Lula e a direção do PT em 1989 no Brasil com o estúpido “Feliz 94”, que só preparou a vitória de FHC em 1994), ou pode desde já continuar chamando o KKE para a frente única e se dispor a organizar as massas em luta contra o governo.

Como já dizia Trotsky: tudo se resume ao problema da direção. A correlação de forças entre as massas pende para a esquerda, para a radicalização. Isso está demonstrado pelas urnas. Cabe aos atuais dirigentes do movimento cumprirem o papel que a história colocou para eles ou saírem da frente para que a classe trabalhadora construa uma nova direção. Neste sentido trabalham nossos camaradas gregos do “Voz Marxista”.

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