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Grã-Bretanha: maior manifestação estudantil em décadas – e este é apenas o começo

Na quarta-feira, 10 de novembro, Londres testemunhou uma esmagadora resposta dos estudantes, uma manifestação de mais de 50 mil marchou em protesto contra os ataques que ocorrem no Ensino Superior.

Acontecimentos mudaram o rumo na Grã-Bretanha. Uma primeira reação teve lugar esta semana contra o programa de cortes violentos que está sendo introduzido pela coalizão liderada por “Tory-led”. Na quarta-feira, 10 de novembro, Londres testemunhou uma esmagadora resposta dos estudantes, uma manifestação de mais de 50 mil marchou em protesto contra os ataques que ocorrem no Ensino Superior.

A manifestação – uma demonstração conjunta da União Nacional dos Estudantes (National Union of Students -NUS) e da União dos Docentes dos Colégios e das Universidades (University and College Lecturers Union – UCU) – marcou um ponto de inflexão para a luta de classes na Grã-Bretanha, que será vista pelos trabalhadores em toda parte como a primeira expressão da raiva e frustração em desenvolvimento dentro da sociedade como um todo. Não se vê esses números na Grã-Bretanha desde os protestos contra a guerra do Iraque. Mesmo os protestos estudantis contra a Guerra do Vietnã, em Grosvenor Square em 1968, foram apenas um pouco maiores.

As taxas e os cortes

Em 1998 o novo governo trabalhista sucateou a educação gratuita através de subvenções públicas às instituições privadas. Apesar de uma promessa eleitoral de não aumentar as mensalidades, o novo governo aprovou em 2004 uma lei para aumentar o valor das mensalidades no Ensino Superior (HE – university level education) de £ 1.250 para £ 3.290 anuais. A lei só foi aprovada na Câmara dos Deputados porque Tony Blair articulou minuciosamente o apoio dos conservadores para vencer a rebelião de trabalhadores nos bastidores.

À luz da crise capitalista a “Browne Review” recomendou, em 12 de outubro deste ano, que as universidades sejam autorizadas a cobrar taxas ilimitadas de ensino, indo muito mais longe do que era esperado, o que revela a profundidade da crise.

Apesar do novo governo de coalizão Conservadores-Liberais prometer levar em conta as recomendações da “Browne Review”, o governo recuou da beira do abismo por medo das conseqüências sociais e políticas. No final, eles anunciaram planos para permitir taxas de até £ 9.000 anuais. Muito embora os estudantes não sejam obrigados a pagar qualquer valor adiantado, a dívida que se acumula será emprestada a juros – os juros que vão direto para os bancos!

Além das taxas crescentes, o governo de coalizão anunciou na “Comprehensive Spending Review” (CSR) em 20 de outubro, que o orçamento de ensino para as universidades seria cortado em 40%. Isso levanta a possibilidade de fechar universidades inteiras, juntamente com fechamento de cursos na maioria das universidades. Os estudantes, portanto, não serão os únicos afetados pelos cortes. O UCU estima que mais de 22.000 postos de trabalho em universidades estão em risco, incluindo os professores e pessoal de apoio.

A imagem é extremamente desoladora nos FE (Further Education – educação para estudantes de 16 a 18 anos), com cortes previstos em 25%. As instituições FE educam e treinam mais estudantes, maiores de 16 anos, do que as “sixth forms” e as universidades juntas. As FE são claramente necessárias: cerca de um milhão de estudantes entre 16 e 24 anos são classificados como “NEETS” (sem emprego, sem educação, sem treinamento). O subsídio de manutenção da educação (Education Maintenance Allowance – EMA) de até £ 30 por semana para as famílias pobres, corre o risco de ser desmantelado.

Nacionalmente 46% dos estudantes FE são atendidos pela EMA, em áreas mais pobres figura próximo dos 80%.

Esses cortes, que formam parte de um ataque generalizado aos serviços públicos, estão rasgando a política de consenso das últimas duas décadas. A ilusão de que na Grã-Bretanha existia um tipo de “meritocracia”, onde não importava o quão imperfeito, onde seus filhos tivessem a oportunidade de chegar ao topo com um pouco de trabalho duro, foi destruída. Não é de estranhar, portanto, que as bolhas de raiva estão começando a emergir.

Manifestação Nacional

Até recentemente o movimento contra os cortes nas universidade havia sido conduzido principalmente pelos trabalhadores da universidade, que estavam enfrentando as consequências mais imediatas da crise, sob a forma de perda dos postos de trabalho, congelamento de salários, e os ataques à previdência e às condições de trabalho. Como resultado, a UCU esteve em greve por diversas vezes ao longo do ano passado, tanto em instituições de HE como FE.

A direção da NUS, no entanto, não tem acompanhado a militância no período recente, e até mesmo chegou a abandonar a sua posição oficial sobre a campanha de educação gratuita da Conferência Nacional de 2008.

Como os detalhes da “Browne Review” e da RSE emergiram no último mês, as atividades nas universidades começaram a acelerar. As entidades estudantis de todo o país deram grande apoio a protestos e encontros sobre como combater as taxas e cortes que cresceram. Protestos em universidades, como a conscistente marcha dos 1000 da Universidade de Oxford, deram uma indicação do estado de espírito que estava se desenvolvendo.

No dia da marcha, ficou claro desde o início que havia uma mudança no ar. Do ponto de partida se ouvia o barulho dos estudantes marchando que estavam distantes. Uma atmosfera de carnaval parecia ter dominado a marcha. Ficou claro, como os estudantes chegaram mais e mais, o tamanho da aglomeração se tornou evidente. A manifestação intoxicou-se com o reconhecimento de sua própria força.

Desde a crise financeira em 2008, muitos viram o que está sendo preparado na sociedade com uma espécie de silêncio. As pessoas têm dito que não há nenhuma voz ou movimento para aqueles que desejam combater os cortes. No entanto, o clima entre os estudantes foi eletrizante. Era como se, após um período de impotência e isolamento, os estudantes descobrissem que não estavam sozinhos, que eram parte de um movimento maior, com um propósito definido.

Houve um surto de última hora de participantes de universidades, juntamente com muitos estudantes secundaristas de Londres, que haviam boicotado as aulas no dia, empurrando assim os números para mais de 50.000, segundo estimativas fornecidas pelo NUS. Tais números foram verdadeiramente espantosos, era uma imagem surpreendente, com o protesto estudantil vibrante enchendo as ruas de Londres durante mais de cinco horas. O número de 50.000 foi o mais impressionante, considerando que o protesto era quase inteiramente composto por estudantes, com alguns funcionários da universidade, que estava no meio da semana, exigindo, portanto, dos estudantes a falta às aulas e não permitindo que outros trabalhadores mostrassem solidariedade. Assim foi o clima alegre dos estudantes que, ao contrário do estereótipo típico de estudante letárgico, a marcha transbordou a posição inicial e saiu antes do horário agendado.

Onde será a próxima?

Para a maioria dos 50.000 estudantes na manifestação nacional, a questão em mente agora será “E agora?”. É claro que as manifestações por si só não vão derrotar os cortes. As grandes manifestações de mais de um milhão de pessoas em Londres em 2003 contra a guerra no Iraque não conseguiram impedir o governo de Blair. A classe dominante pode tolerar manifestações, por mais fortes que sejam, enquanto estas não põem em xeque o seu direito de governar sobre a sociedade. O que é necessário é um movimento que possa derrubar esse governo.

A tarefa imediata para os estudantes, agora, é criar uma campanha de luta contra as taxas e cortes em todas as universidades, em colaboração com os trabalhadores das universidades. A pressão deve ser colocada sobre os líderes da união dos estudantes em cada campus para pedir reuniões em massa de estudantes, juntamente com os vários sindicatos que representam os trabalhadores – a UCU, Unite, e da Unison. Essas campanhas devem estar ligadas com o movimento sindical local, a fim de construir um movimento de massa dos trabalhadores e da juventude contra os cortes. Os grandes acontecimentos de maio de 1968 na França, têm mostrado que é possível quando estudantes e trabalhadores se unem e lutam.

Em última análise, temos que dizer a verdade aos estudantes e trabalhadores: as reformas do passado – a educação gratuita, assistência médica universal, aposentadoria decente aos 65 anos – não são mais possíveis sob o capitalismo. A transformação radical da sociedade é necessária.

A manifestação nacional de estudantes foi importante porque foi o primeiro passo na ligação mais ampla entre o movimento estudantil com a classe trabalhadora. O que ficou claro foi que o novo estado de espírito não caiu do céu. É a primeira válvula de escape para um descontentamento fervente que eclodiu como resultado dos cortes. Esse humor, os “Tories” não podem cortar, e se enfurecem logo abaixo da superfície.

Milhares de estudantes foram para casa de suas respectivas universidades, com uma história para contar e uma educação política cem vezes mais valiosa do que a que se pode adquirir a partir de um livro ou de um seminário. Centenas de milhares de pessoas olhavam, e estão começando a tirar suas próprias conclusões.

Lembre-se do 10 de novembro. Ele marca um importante começo na Grã-Bretanha. O movimento dos estudantes marca a primeira etapa na luta de classes, um prelúdio para o despertar da classe trabalhadora britânica.

Londres, 10 de Novembro de 2010.

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