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Grã-Bretanha: Corbyn expõe o fracasso da “guerra ao terror” – para combater o terrorismo, lute contra o capitalismo!

Na última sexta-feira, Jeremy Corbyn voltou à campanha para a eleição geral com um discurso que proporcionou uma resposta à terrível atrocidade terrorista de Manchester e que procurou sublinhar claramente a fracassada “guerra ao terror”.

O líder Trabalhista, inevitavelmente, foi acusado por seus críticos de tentar “politizar” a tragédia de Manchester de forma “grosseira” e “terrivelmente inoportuna”, como declarou o Tory Ben Wallace. O Secretário da “Defesa”, Michael Fallon, disse que o discurso extremamente suave de Corbyn era “perigoso”, por sugerir que seria melhor não invadir outros países se quisermos evitar a radicalização Islâmica.

Como se pode politizar um ato que, por sua própria natureza, é direta e abertamente político? É menos grosseiro oferecer às vítimas do terrorismo – e suas futuras vítimas – nada além da continuação das políticas imperialistas que criaram este monstro? É reconfortante não dar qualquer explicação e propor não fazer nada sobre esta praga que envolve toda a sociedade?

Círculo vicioso

Os Tories responderam ao discurso de Corbyn com o disparate estúpido de que “os terroristas não odeiam nossa política externa, mas nosso modo de vida”. Isto é manifestamente falso, visto que ISIS e Al Qaeda dizem constantemente que estão se vingando das invasões ocidentais de países muçulmanos e da morte de gente muçulmana.

Como encontraram esses grupos um suprimento infinito de pessoas dispostas a se matar? Por que isto está acontecendo agora e não há 30 anos? Além disso, por que o ódio pelo nosso “modo de vida” excluiria o ódio à política imperialista britânica durante séculos? Com certeza, esses grupos fundamentalistas odeiam ambas as coisas.

Desde o discurso da sexta-feira, os Tories levantaram a cabeça para denunciar Corbyn. Eles o acusam de “dar desculpas” às ações bárbaras dos terroristas ao identificar a política externa dos sucessivos governos imperialistas como um fator da ascensão do terrorismo em casa. Essa crítica absurda a Corbyn é demasiado estúpida para ser levada a sério e já veio abaixo.

Michael Fallon, por exemplo, foi humilhado ao vivo no Channel 4 News (ver vídeo abaixo) depois que atacou a afirmação de que, “a Guerra do Iraque não criou o problema dos fundamentalistas, embora a guerra tenha agudizado os ressentimentos das pessoas neste país e lhes dado um novo pretexto” – antes de dizer que estas não eram palavras do líder Trabalhista, mas do Secretário de Política Externa Tory, Boris Johnson.

Os Tories estão até mesmo tentando culpar o próprio Corbyn, visto que ele se opôs à legislação supostamente antiterrorista – legislação esta que, como todos podem ver, não está fazendo nada para deter a propagação do terrorismo pelo mundo todo. A propagação subsequente do terrorismo é, então, usada apenas para promover um estado cada vez mais opressivo dentro de um círculo vicioso infindável.

“Forte contra o terrorismo e forte contra as causas do terrorismo”

O que Corbyn realmente disse? Ele apontou corretamente que os últimos 15 anos de intervenção imperialista nada fez além de encorajar a ascensão do terrorismo, inclusive no Reino Unido.

Como prova disto, Corbyn referiu-se a relatórios da inteligência britânica que argumentaram ser este o caso. Mas dificilmente necessitamos do julgamento dos serviços de inteligência – que, no fim das contas, é realmente leal aos interesses do estado imperialista britânico – para sabermos que este é o caso. Todos presenciamos o total colapso do Iraque sob a ocupação dos EUA, Reino Unido e outros; sabemos todos que isto criou uma repulsa em massa entre os muçulmanos de todo o mundo – muçulmanos que também foram vitimados em países como a Grã-Bretanha; e podemos todos ver agora que o colapso do Iraque arrastou todo o Oriente Médio na turbulência que alimenta uma forma de terrorismo extremamente reacionária e violenta.

Que os Tories e a classe dominante britânica sequer considerem isto como uma explicação para o crescimento do terrorismo não é mais que uma prova de sua própria desonestidade fundamental como classe.

Corbyn concluiu ironicamente que um governo Trabalhista vai ser “forte contra o terrorismo e forte contra as causas do terrorismo”.

Imperialismo e fundamentalismo

Corbyn explicou cuidadosamente que nada disso desculpa de alguma forma os terroristas por perpetrarem seus crimes; é apenas um meio para explicar o fenômeno de forma que possamos privá-los de oxigênio. No entanto, sobre este ponto, Corbyn foi vago e não conseguiu apresentar uma causa adicional para a ascensão do Islamismo militante.

Os britânicos não têm somente uma longa história de invasões e de opressão de países muçulmanos, e de opressão de muçulmanos dentro da Grã-Bretanha – também participaram ativamente do fomento e da promoção de terroristas islâmicos, em conjunto com os EUA. Estes foram promovidos como uma ferramenta para oprimir e minar as forças anti-imperialistas de esquerda no Oriente Médio. Continuam esta política até os dias atuais, e continuam a vender uma enorme quantidade de armamento ao maior promotor mundial da reacionária ideologia fundamentalista, o estado da Arábia Saudita.

É correto dizer, portanto, que esse terrorismo não foi causado meramente pelas invasões ocidentais de países muçulmanos; requereu também o ingrediente da promoção consciente e o financiamento desses grupos durante décadas. Corbyn deve assinalar isto e pedir a cessação imediata de todas essas políticas.

Combata o terrorismo com socialismo!

Infelizmente, depois de fazer uma crítica correta da política externa britânica, algo que distingue totalmente Corbyn de todos os outros líderes partidários, ele fez uma série de declarações ingênuas e equivocadas sobre a luta contra o terrorismo.

Corbyn argumentou que outra causa fundamental das atrocidades de segunda-feira à noite foram os cortes aplicados à polícia por Theresa May ao longo dos anos. Nenhuma quantidade de polícia vai evitar atos terroristas – somente dando um fim ao caos, alienação e opressão do capitalismo pode-se fazer isto.

Além disso, sua conclusão de que necessitamos de mais polícia e de um aparato de segurança reforçado para garantir que “haja mais recursos para rastrear os terroristas” é muito ingênuo. Os socialistas sabem que qualquer coisa que fortaleça o estado – que está ali para proteger os ricos e poderosos – somente pode tornar mais difícil a tarefa da classe trabalhadora de se defender, de lutar contra o capitalismo e transformar a sociedade.

O aumento dos poderes da vigilância e a redução dos direitos democráticos (a que Corbyn afirma corretamente se opor) enfraquecem os trabalhadores, os pobres e os oprimidos, e são coisas que não são apenas ruins por si mesmas, como também são o combustível para as campanhas de recrutamento de terroristas islâmicos.

As vagas aparentemente intermináveis de terrorismo são totalmente reacionárias. Os socialistas se opõem aos métodos e objetivos desses terroristas calejados. Mas o terrorismo também é um dos sintomas de um sistema capitalista moribundo que somente oferece austeridade, guerras e crescente desigualdade. Lutar contra as causas do terrorismo significa lutar contra o capitalismo.

Artigo publicado em 30 de maio de 2017, no site da Corrente Marxista Internacional (CMI), sob o título “Britain: Corbyn exposes failed ”war on terror” – to fight terrorism, fight capitalism!”.

Tradução de Fabiano Leite.

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