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Grã-Bretanha: acordo Tory-DUP evidencia crise do sistema

Depois de um curto discurso da rainha e de longas negociações, Theresa May e a líder do Partido Unionista Democrático (DUP), Arlene Foster, finalmente apareceram na parte externa de Downing Street no início desta semana para um aperto de mãos sobre o acordo que vai manter May no poder – por enquanto.

De acordo com as condições do acordo, serão dados à Irlanda do Norte £1,5 bilhões para gastos adicionais, sendo £1 bilhão em dinheiro novo, e as principais promessas do manifesto Tory serão arquivadas. Estas incluem o desmantelamento do bloqueio triplo das pensões (a um custo de £7 bilhões aos cofres do governo) e mudanças nos pagamentos do combustível de inverno (£8,5 bilhões) – ambas atingiriam duramente a envelhecida base de classe trabalhadora do DUP, entre outras coisas.

Em troca, o DUP prometeu apoiar o governo em “todas as moções de confiança, no discurso da rainha, no orçamento, nas contas financeiras”, bem como na legislação relativa ao Brexit. No entanto, o DUP continuará a manter o governo dependente dele em todas as outras legislações e certamente vai ganhar novas concessões deste governo fraco – se ele durar. Com tudo isso, o “preço” que May pagou para permanecer no poder é astronômico.

Um deputado do DUP começou a rir enquanto iam negociar dizendo que estavam “indo às compras”. Não é de estranhar que Arlene Foster estivesse radiante quando deixou Downing Street e retornou com os bolsos cheios.

May, a pata manca

Mesmo antes deste acordo, May já vinha sendo etiquetada como uma “mulher no corredor da morte” e como uma “primeira-ministra pata manca[1]”. A publicação do documento de três páginas sobre o acordo a expôs à ira, ao desprezo e à zombaria dos mais variados críticos. Como se sua propensão à hesitação e às mudanças bruscas de rumo não fossem suficientemente claras, suas viradas mais recentes nos levam a questionar: o que resta de suas promessas eleitorais?

O jornal The Evening Standard, sob a direção editorial do ex-chanceler conservador George Osborne, publicou um ataque mordaz em sua primeira página (27 de junho de 2017) comparando Arlene Foster ao super-vilão de Austin Powers, Dr. Evil, e a primeira-ministra ao Mini-Mim. O editorial denunciou compra de votos “no valor de cerca de £96 milhões para cada um dos 10 deputados da Irlanda do Norte”, citando entre outras as denúncias de Sadiq Khan a respeito dessa política em que os recursos públicos são utilizados pelo governo para conseguir apoio.

Alguns conservadores proeminentes se lançaram contra Theresa May, incluindo o ex-presidente do partido, Lord Patten, que afirmou que “cada voto lhe custará caro”. Na entrevista à ITV, ele zombou da inépcia de May com o público e caracterizou a crise enfrentada pela classe dominante britânica como pior do que qualquer coisa enfrentada na década de 1970 e até mesmo “a pior […] desde Suez, embora possa ser ainda pior do que esta última porque Suez foi o fim de uma era, o fim de nossas aspirações coloniais […] A União Europeia foi o nosso substituto para este papel colonial”.

Outros comentaristas da classe dominante apontaram que o DUP nunca tentaria derrubar este governo se ele o confrontasse com a alternativa de um governo trabalhista liderado por Corbyn. O sistema arranca os cabelos ante a estupidez de seus próprios representantes políticos, no entanto, é evidente que não podem se desfazer de May, visto que estariam abrindo uma disputa pela liderança que seria a partida para uma guerra civil dentro do Partido Conservador e, por outro lado, para a iminente possibilidade de Corbyn mudar sua residência para Downing Street, número 10.

As negociações do Brexit já abriram profundas divisões entre os conservadores. Correm rumores de que o chanceler Philip Hammond está conspirando contra May enquanto divulga os seus próprios planos para um “Brexit suave”. Enquanto isso, o secretário do Brexit, David Davis, mantém o curso de um “Brexit duro”. O partido e a classe dominante estão divididos precisamente no momento em que necessitam de uma ação ousada e unida para abordar a crise mais profunda que o capitalismo britânico já enfrentou na história moderna. Estão divididos precisamente por conta desta crise.

Impacto na Irlanda

Essa solução de curto prazo para o sufoco em que os conservadores se encontram em Westminster vai ter impactos de longo prazo ao continuar desestabilizando a situação política na Irlanda. Em primeiro lugar, é altamente duvidoso que se ganhem muitos benefícios a partir das altas somas que foram lançadas ao governo da Irlanda do Norte. O escândalo em que o governo da Irlanda do Norte pagava empresas e indústrias simplesmente por queimar combústível renovável, apenas o mais recente entre os numerosos escândalos que envolvem o DUP, custou £500 milhões– todo ele sendo embolsado pelas grandes empresas e grande parte dele nos bolsos dos amigos do DUP.

Se as perspectivas de restabelecimento do poder compartilhado no norte já não fossem suficientemente débeis, tornaram-se completamente sombrias agora. Com o DUP apoiando o governo na questão do Brexit, recusando-se a retirar sua oposição a uma Lei da Língua Irlandesa, e a probabilidade de novas concessões à medida que novos votos surgem em Westminster, Sinn Fein não tem nenhum interesse em reformar um Executivo em Stormont.

A “árvore mágica de dinheiro”

Quando perguntaram a May durante a campanha eleitoral por que as enfermeiras tinham que sofrer cortes salariais, sua desdenhosa resposta foi que “não há nenhuma árvore mágica de dinheiro”. Essa frase criou asas e logo voltou para persegui-la, pois parece que não há limites para o dinheiro que pode ser lançado em direção ao DUP.

Mas por que não Gales, ou a Escócia, ou o Nordeste, ou o Serviço Nacional de Saúde (NHS)? É precisamente essa a pergunta que Jeremy Corbyn, John McDonnell e o Partido Trabalhista estão fazendo agora. Percebendo a fragilidade do governo, o Partido Trabalhista de Corbyn – no rastro da catástrofe de Grenfell – apresentou suas próprias emendas ao discurso da rainha pedindo o fim do congelamento dos salários do setor público que está em vigor desde 2010. Notavelmente, May já deu a entender que ela pode recuar sem lutar sobre essa questão também!

O fato de que o governo possa de repente desembolsar bilhões de libras para manter-se no poder levou Corbyn a reiterar o ponto de que a austeridade é uma escolha política. Em certo sentido, isto é certamente verdadeiro – mas é uma “escolha” tomada no interesse da classe capitalista e da manutenção de um governo tory que defenda seu sistema.

O dinheiro está claramente ali, como mostraram esses eventos. No entanto, os gastos adicionais em uma área provavelmente serão pagos através de uma mistura de cortes em outras áreas e pelo aumento do endividamento. À medida que a relação dívida/PIB aumenta para 90% (tendo sido inferior a 40% durante o período anterior à crise) e com a “recuperação” econômica quase exaurida, os novos empréstimos deixariam a classe dominante perigosamente exposta diante de uma nova recessão mundial.

Como Trotsky declarou na década de 1920, nos períodos de crise todas as tentativas da classe capitalista para alcançar um equilíbrio político temporário têm o efeito de destruir o equilíbrio econômico, e vice-versa. Esse recente acordo espúrio entre o reacionário DUP e o Partido Conservador – e seus impactos – são uma clara confirmação da advertência de Trotsky.

O fato de que May seja forçada a jogar dinheiro para resolver seus problemas políticos, no entanto, é um sinal de sua mais patética fraqueza dela, bem como dos tories e do sistema que representam. Essa vulnerabilidade deve ser recusada por todo o movimento dos trabalhadores, começando na manifestação nacional de sábado (1 de julho). Através da mobilização de massa nas ruas e nos locais de trabalho, nas escolas e nos colégios, é possível afastar May e colocar no poder um governo socialista do Partido Trabalhista.

[1] A expressão lame duck (pato manco) se refere a um governante que está com seus dias contados ou cujo sucessor já foi eleito.

Artigo publicado por Socialist Appeal, seção britânica da Corrente Marxista Internacional, sob o título “Tory-DUP deal exposes Establishment crisis”, publicado em 29 de junho de 2017.

Tradução de Fabiano Leite

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