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Castelo de Windsor. Foto: Carfax2

Grã-Bretanha: abolir a monarquia – por uma república dos trabalhadores!

Diante do anúncio recente na Grã-Bretanha do noivado do Príncipe Harry e Meghan Markle e do casamento próximo nós dizemos não à celebração, mas que queremos abolir a monarquia. A família real é uma relíquia feudal e o símbolo do nacional chauvinismo que, junto da Casa dos Lordes, revela o que a nossa assim chamada “democracia” realmente é – um sistema desenvolvido para servir aos interesses da classe dominante. A monarquia é uma sanguessuga dos recursos públicos que ganha cerca de 35,7 milhões de libras por ano além de possuir incontáveis outras despesas. O casamento real que ocorrerá logo é um exemplo disso. Enquanto a família real paga pela cerimônia, recepção, etc., os contribuintes irão pagar pelo policiamento e custos de segurança. No casamento de Kate e William em 2011 foram gastos 15 milhões de libras apenas com policiais, sendo 5 mil oficiais contratados. Desta vez podemos esperar gastos semelhantes ou ainda maiores por conta do aumento de ataques terroristas.

Em grande parte, a monarquia mantém sua popularidade através de uma imagem mística e todas as figuras, pompas e ilusões que a acompanham. Há um enorme cuidado para manter a mística em torno da instituição. A monarquia goza de consultas especiais em relação aos pedidos de Liberdade de Informação e a casa real está fora do alcance do FoI Act [Legislação sobre acesso à informação e documentos governamentais]. Apesar disso, a monarquia está tão afundada em escândalos de corrupção que alguns deles vêm a público. No último ano, após longa batalha judicial, o jornal The Guardian liberou o “Black Spider Papers”, mostrando os esforços extensivos do Príncipe Charles para influenciar a política do governo. Também surgiram alegações de que o Príncipe Andrew violou Virginia Roberts em três ocasiões, que também goza de uma duradoura amizade com o prolífico pedófilo Jeffrey Epstein, que não fez nada para ajudar o seu caso. Ainda no século 19, o especialista constitucional britânico Walter Badgehot disse: “A vida da monarquia é um mistério. Nós não devemos deixar iluminar a magia com a luz do dia”. Hoje em dia, isso é tão verdadeiro como nunca.

Dizem com frequência que a monarquia é uma coisa positiva para a classe operária por estimular a indústria do turismo, que supostamente trará bilhões e que criará mais empregos e mais riqueza para as massas. Entretanto, quando examinamos essa ideia mais de perto, fica claro que uma vasta maioria das pessoas veem pouquíssimo do dinheiro que vem do turismo e grandes negócios em geral. Na realidade, os lucros gerados pelas companhias de turismo vão para as contas bancárias dos donos da indústria. Muitas vezes em contas offshores, que aliás, a Rainha também usa para guardar sua riqueza privada.  O melhor que podemos esperar é um possível aumento dos contratos por hora, empregos com um salário mínimo que não oferecem segurança alguma e que pagam apenas o suficiente para sobreviver. De acordo com Republic, “Chester Zoo, Stonehenge e Roman Baths são atrações turísticas mais bem-sucedidas do que o Castelo de Windsor, que é a única residência real ocupada para atrair visitantes em grandes quantidades. Se o Castelo de Windsor fosse incluído na lista das principais atrações da Association of Leading Visitor Attraction (ALVA), ele seria o número 24”. Além disso, se a monarquia fosse abolida poderíamos revelar todas as suas ações sórdidas e abrir os palácios e ao público.

Se abolirmos a monarquia poderemos abrir seus palácios ao público. Foto: Diliff

A monarquia como conhecemos atualmente se formou após a Guerra Civil Inglesa ocorrida no século 17. Costuma-se pensar na França ou nos Estados Unidos como pioneiros na formação das grandes repúblicas revolucionárias, mas de fato foi a Grã-Bretanha uma das primeiras a romper laços com a monarquia. O Rei Charles I foi executado em 1649 numa tentativa revolucionária de fazer avançar a sociedade. As forças crescentes do capital estavam encontrando no sistema feudal – com seus sistema de classe divinamente ordenado, impostos e privilégios locais infinitos e com métodos de produção baseados na pequena escala – um grande obstáculo na produção. A explosão de uma guerra civil revolucionária provocou uma ruptura com o velho sistema. Esse evento foi seguido de uma Restauração em 1660 onde uma nova monarquia foi instaurada sob Charles II, dessa vez com um propósito mais capitalista do que feudal. Limitações foram colocadas para a monarquia para prevenir o absolutismo e mais poderes foram dados ao parlamento.

Charles I foi executado na Revolução Inglesa, mas a monarquia foi depois restaurada. Foto: domínio público

A Revolução Gloriosa de 1688 derrubou o sucessor de Charles II, James VII da Escócia (ou James II da Inglaterra), num golpe militar orquestrado pelo parlamento e pelo Duque Príncipe William de Orange, que assumiu o trono. Ao chegar ao poder o Rei Willian assinou a Declaração de Direitos que tornou ilegal a interferência da monarquia em Atos do Parlamento. Ao contrário da França, a restauração da monarquia travou e permanece praticamente inalterada hoje, além de algumas leis que ainda limitarem seus poderes.

Hoje, o monarca é apresentado como uma figura simbólica, mantida quase que por tradição. Ele existe, em grande parte, pela diversão e pompa, que proporciona um pequeno alívio às pessoas num cenário de austeridade, desemprego e salários estagnados. Se olhamos mais de perto, contudo, nós encontramos a Rainha que ainda goza de grande poder que pode ser utilizado contra a classe trabalhadora num momento crucial. Ela deve assinar um projeto de lei antes de se tornar lei, ela é responsável por dissolver o parlamento, ela pode chamar eleições antecipadas e ela faz o juramento do Primeiro Ministro.

Encontros privados são realizados semanalmente entre a Rainha e o Primeiro Ministro, que dizem ser uma espécie de desabafo de primeiro ministros. A Rainha se descreve como uma “esponja”, que as pessoas podem contar coisas, etc. Os detalhes das conversas não são publicados e ninguém mais presencia esse momento. No decorrer de 68 anos, ela aprendeu os detalhes e conselhos acerca de greves, guerras e escândalos. O jornal The Telegraph explicou, “Se ela é uma ‘esponja’, ela é uma altamente experiente”, “Quando o primeiro ministro diz, ‘Nós temos um problema’, ela pode dizer, ‘Oh sim, nós tivemos algo similar em 1958 e nós fizemos isso’”. A Rainha é uma poderosa e versada conselheira, não uma senhora inocente com um grande conhecimento em corridas de cavalos, como somos levados a acreditar. Ela lê resumos semanais de inteligência, relatos diários dos procedimentos da Câmara dos Comuns e recebe informes imediatos de todas as correspondências estrangeiras importantes do Ministério das Relações Exteriores. Edward Heath a descreve como “uma das pessoas indubitavelmente mais bem informadas do mundo”.

A Rainha é uma poderosa e bem versada conselheira do Primeiro Ministro. Foto: USAAF

Nós somos levados a acreditar que, tecnicamente, enquanto a monarquia possui essa experiência e poder, ela nunca deverá abusar de seus poderes legais e nem desempenhar um papel significativo na política. Contudo, The Telegraph, que é extremamente pró-monarquia, relata que membros da realeza sênior usaram seus poderes para impedir a passagem de pelo menos 39 contas pendentes de aprovação real nos últimos 30 anos. Há evidências significativas de uma trama em que os poderes da monarquia foram utilizados para derrubar o Primeiro Ministro Harold Wilson, que possuía uma inclinação para a esquerda. Isso pode parecer uma absurda teoria da conspiração, mas é apoiada por um documentário da BBC e da mídia tradicional. Se imaginamos que um governo revolucionário chegue ao poder, que queira aprovar uma lei que nacionalizará amplos setores da economia, sob controle operário, seria difícil de acreditar que a Rainha fosse concordar em assinar tal documento. Além disso, o exército presta lealdade, antes de tudo, à Rainha e é mais provável que os poderes da monarca façam parte de uma tentativa contrarrevolucionária.

É mais provável que os poderes da monarquia façam parte de qualquer tentativa contrarrevolucionária. Foto: Bill Ingalls

Um fator chave que mantém a opinião pública favorável à monarquia é a ideia de que eles supostamente são completamente desinteressados na política. No entanto, há numerosos exemplos de intervenções reais na política que não combinam muito com um suposto chefe de estado apolítico. David Cameron estava tão preocupado com a possibilidade da vitória do Sim no Referendo Escocês de Independência em 2014 que ele pediu para a Rainha intervir publicamente e ajudar a impedir esse resultado. The Guardian relatou que a Rainha fez uma declaração pedindo aos eleitores que “pensem com muito cuidado” antes de votar, com o objetivo de sugerir que a decisão foi “cheia de pressentimento”. Eles disseram: “Sem ela ter um lado, isso apenas lançou o elemento certo de dúvida sobre a natureza da decisão”. Em 2013 o Príncipe Charles pressionou Alex Salmond para organizar uma reunião entre o então Secretário de Educação, Mike Russel e Teach First, uma instituição de caridade da qual Charles é patrono e ajudou a criar. Está claro que a monarquia desempenha um papel na política maior do que é mostrado.

A monarquia é um resquício feudal corrupto e antidemocrático que representa uma ameaça real aos interesses da classe trabalhadora. Sob essa perspectiva, exigimos as seguintes demandas:

  • Abolição da monarquia na sua totalidade, para ser substituída por uma república dos trabalhadores!
  • Nacionalização de todas as propriedades, públicas e privadas, da coroa!
  • Abolição da Casa dos Lordes!

Artigo publicado originalmente no site escocês da seção britânica da Corrente Marxista Internacional (CMI), em 26 de fevereiro de 2018, sob o título “Britain: ablish the monarchy – for a workers’ republic!

Tradução Evandro Colzani.

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