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Grã-Bretanha: A vitória de Corbyn foi um golpe brutal na direita – hora de terminar o serviço!

Uma nova vitória de Jeremy Corbyn no Partido Trabalhista do Reino Unido expressa a polarização da luta de classes dentro e fora da sigla.

O estado de choque entre a direita do Partido Trabalhista ficou evidente nas faces dos que deixavam a Conferência do Partido no sábado. Os sonhos de uma vitória de Owen Smith, o candidato tido como “consenso”, esvaneceram criando uma sensação de confusão e desunião entre a direita do Partido Trabalhista. Embora muitos tenham aceitado a derrota de seu candidato, existia ainda a esperança de diminuir a margem de vitória de Corbyn, mas falharam miseravelmente, apesar de todos os esforços.

É difícil quantificar o nível do derrotismo e do medo entre a ala direita do partido apenas três meses depois que uma moção de confiança em Jeremy Corbyn foi aceita. Para eles, o futuro se tornou tenebroso com o aumento da aceitação de Corbyn entre os militantes. O clima ficou muito denso com os pedidos por unidade e os Membros do parlamento que se demitiram do governo paralelo estão agora entre a cruz e espada entre retornar ou permanecer à margem.

A nau à deriva da ala direita

Os membros do parlamento vêm implorando à sua militância para não deixar o partido depois de sinais de que muitos rasgariam suas fichas de inscrição como resposta à reeleição de Corbyn. Michael Dugher, ex-membro do governo paralelo, disse que era “deprimente” ver as pessoas destruindo suas fichas de inscrição e postando-as nas mídias sociais. “Vocês têm que permanecer: todos que já estão cheios, candidatos ao parlamento, conselheiros e pessoas decentes, têm que permanecer. Vocês têm que permanecer!” Porém, da mesma forma que fizeram quando ele ganhou pela primeira vez anos atrás, muitos membros adversários de Corbyn vão se desfiliar.

Alguns, contudo, já abandonaram o navio. Lord Mitchell, um membro do partido Trabalhista na Câmara dos Lordes, já o abandonou, declarando que o líder do partido estava cercado por pessoas “com pontos de vista muito agressivos contra Israel”. O empresário, que trabalhou como seu porta-voz para o partido na Câmara dos Lordes sob a liderança de Ed Miliband, declarou que “Jeremy não tem nenhum perfil de liderança – o seu pequeno grupo pensa que ele é um messias, mas ele nunca será o líder e primeiro-ministro deste país”.

O que esperar de um homem que ajudou o Partido Trabalhista Socialista a se separar no início dos anos 1980 e que foi contra o Partido em 1983 e 1987, mas que foi aceito de volta por Blair? Tais conservadores infiltrados não são bem vindos ao Partido Trabalhista e devem ser postos para fora!

Dividir ou não dividir?

Mesmo com as ameaças vindas do passado, a ala direita dos Membros do parlamento está tentando abafar todas as discussões sobre uma divisão similar à de 1981. “Não vamos nos demitir, nem nos dividir, o Partido é nosso”, Tom Blekinsopp, representante de Middlesbrough South e East Cleveland, convocou uma passeata do primeiro grupo dos Trabalhistas. O ex-secretário da educação do governo paralelo, Tristram Hunt, entretanto, escreveu: “Nós moderados não vamos pedir asilo, nem em Cingapura, nem em lugar nenhum!”

Porém, alguns não conseguem conter a descontentamento com o resultado. O partido estava “mais dividido como nunca”, disse Lucy Powell, outra ex-secretária da educação do governo paralelo. Chris Leslie, ex-chanceler do governo paralelo afirmou que continua leal ao partido que existe para governar para a maioria do país e não para “uma pequena minoria”.

Ao criticar Corbyn por acenar com um aumento dos gastos públicos, Leslie ironizou a “fonte mágica de dinheiro” de gastos públicos ilimitados que a liderança acreditou que poderia “tornar todos os sonhos realidade”.

Cuspindo marimbondos, um Membro do Parlamento disse que “aquelas pessoas que costumavam ficar de fora da conferência, agora estão dentro comandando as coisas”.

Lord Hain relatou ao Newsnight que o partido enfrentará “sua pior crise” se a vitória de Corbyn for usada para não concorrer novamente nas próximas eleições. “A ala esquerda radical em torno de Jeremy nunca controlou o partido”, disse ele. “Eles nunca controlaram a liderança e nunca tiveram controle da organização. Se eles conseguirem isso, então terão o que querem para atingir o seu objetivo que é controlar o partido e não o de ganhar o país”.

“Fãs de Blair” com o pé atrás

Mesmo tendo ficado com o pé atrás, a ala direita ainda não desistiu do seu plano de destituir Corbyn. Mas terão que redefinir a sua estratégia. Eles esperam reconquistar a maioria no Comitê Executivo Nacional (CEN) apresentando a proposta de nomear os representantes da Escócia e do País de Gales.

De fato, a Executiva está equilibrada entre partidários e contra Corbyn. Eles estiveram ocupados manobrando por detrás da cena, usando McNicol, o secretário geral da ala direita e Tom Watson, o líder dos deputados. E-mails internos que vazaram revelam que o líder dos deputados vem operando o chamado “Projeto Anaconda” – um esquema para promover mudanças no gabinete paralelo e propostas mais abrangentes para o CEN.

“O ‘Projeto Anaconda’ vai enfraquecer e isolar Jeremy Corbyn e, em última instância, matar a sua liderança”, afirmava um dos e-mails. “Cada concessão que ele faz piora a sua situação.” Watson negou que disse isso.

“A entrada” do grande negócio

Não foi por acidente que na conferência McNicol usou seu discurso para inadvertidamente se opor a Corbyn e a sua neutralidade oficial, para, então, citar a Cláusula 1 do estatuto do partido: estabelecer o partido no Parlamento como sendo a tarefa básica do Partido Trabalhista. Foi um claro desafio a Corbyn. Porém, a Cláusula 1 não foi prevista para permitir que o Partido seja usado por carreiristas e oportunistas, mas sim para estabelecer uma representação dos trabalhadores no parlamento. Nós somos a favor do anterior, mas não do seguinte.

A direita está usando o Progress and Labour First, que está bem suportado por uma quantia quase ilimitada de dinheiro oriunda de empresários, para que tenham suas demandas atendidas. Eles estão empregando todos que podem!

A sua última demanda foi que Jeremy Corbyn restaurasse a unidade, pois, de qualquer forma ele perderia a eleição! São eles que têm que mudar, e não Jeremy Corbyn – ou ser retirados da militância.

A tenda do Momentum

Infelizmente, a ala esquerda ao lado do Momentum, ao contrário de lutar contra a ala direita, optou por preterir assuntos como não concorrer novamente nas próximas eleições. Ao invés de se organizar para eleger candidatos da esquerda para a conferência do partido, com proposta de esquerda dos partidos locais, o Momentum concentrou seus esforços em organizar um evento que durou quatro dias com música, poesia e oficinas. Isso é muito bacana, mas não é exatamente a estratégia correta para vencer a ala direita.

Com os Membros do Parlamento alinhados com Blair apunhalando Corbyn pelas costas, o Momentum deveria se organizar para expulsá-los! Os conflitos entre estes membros do partido à direita e os membros do partido são enormes e crescentes. A esquerda não pode amolecer em relação a estes ataques. Como Len McCluskey disse: “Eles (a ala direita) estão pedindo por isso!” Afinal de contas, é do direito democrático que os membros comuns escolham seus representantes.

Defenda Corbyn! Lute pelo socialismo!

Estes Membros do Parlamento que estão sob pressão ficarão com suas cabeças baixas por algum tempo. Eles ficarão à espreita por alguma oportunidade e continuarão a minar Corbyn por trás. Eles continuarão a construir o seu próprio “partido dentro do partido”, dentro e fora do Partido Trabalhista. Mas, em algum determinado momento, assuntos como a política externa os farão atritar abertamente com Corbyn. E eles continuarão na ofensiva para promover as necessidades do capitalismo.

O Partido Trabalhista foi organizado para representar os interesses da classe trabalhadora. Porém, ele tem sido tomado pelos carreiristas e aventureiros de direita, que servem aos interesses do grande negócio e não aos da classe trabalhadora.

É o momento agora, com a reeleição de Corbyn e regeneração do partido, de para sempre, colocar todos eles para fora! Este propósito deve andar de mãos dadas com a luta pelo socialismo – rearmar o partido frente à maior crise do capitalismo desde os anos 1930. Entretanto, a Cláusula 4, que compromete o partido com a conversão da sociedade para o socialismo, deve ser trazida de volta.

A nova vitória de Corbyn é um ponto de virada. Mas a “Revolução Corbyn” ainda não está pronta. Devemos forjar um verdadeiro Partido Trabalhista Socialista na Grã-Bretanha que porá fim ao pesadelo que é o capitalismo e fixar as bases para um futuro de verdade para o nosso povo!


Artigo publicado originalmente em 26 de setembro de 2016, no site da Corrente Marxista Internacional (CMI), sob o título “Britain: Corbyn victory was a massive blow to the right – time to finish the job!“.

Tradução Ivison Poleto dos Santos.

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