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Governo de Alan Garcia no Peru balança, mas não cai

O governo de Alan Garcia no Peru parece suspenso no ar, afinal, as pesquisas indicam rejeição de 80 a 90% da população.

Em recente escândalo de corrupção, todo o gabinete ministerial pediu demissão! No entanto, o regime não caiu e nem cairá de podre, precisará ser derrubado pela classe trabalhadora. Eis o problema.

Trata-se de uma crise política das instituições burguesas combinada a uma crise de direção revolucionária. As massas trabalhadoras não agüentam mais a continuidade da mesma política desde a queda de Fujimori (que ficou 10 anos no poder) e recuperaram a confiança em suas mobilizações e organizações. Já deram inúmeras provas nesse sentido. Uma das maiores desse ano foi a greve geral de julho, com manifestações de milhares em todos os cantos do país e sérios conflitos de classes, por exemplo, dos mineiros e da população pobre de Moquegua contra a polícia a mando de multinacionais do setor.

Mas, nem a central sindical CGTP e o Partido Comunista do Peru, muito menos o candidato nacionalista derrotado nas últimas eleições, Ollanta Humala, são capazes de construir uma saída para a situação.

Degeneração do Estado e das condições sociais

A corrupção está em todos os níveis da administração estatal. Gravações exibidas por um programa de televisão mostram políticos do alto escalão governamental discutindo o recebimento de propinas para favorecerem a licitação de campos de petróleo a uma empresa norueguesa, Discover Petroleum.

Essa entrega mafiosa dos recursos naturais, em boa medida, explica porque mais de 50% da população peruana permanece abaixo da linha da pobreza, mesmo depois de seis anos de crescimento econômico (em 2007, a economia cresceu 9%).

E o governo ainda insiste nas privatizações (como a do setor elétrico em 2002) e na modificação das leis que protegem a propriedade comunitária da terra de indígenas e camponeses, pois pretende abrir caminho para a assinatura de um Tratado de Livre Comércio com os EUA.

Mas, para seguir governando em meio à massiva rejeição, Alan Garcia é obrigado a usar sistematicamente as forças de repressão contra os movimentos sociais e os dirigentes sindicais e populares são constantemente perseguidos, demitidos e presos.

A classe trabalhadora não está derrotada

No entanto, esses ataques não ficaram sem resposta. A classe trabalhadora no Peru não está derrotada, ao contrário, o ambiente é explosivo e uma fagulha pode causar um incêndio. Pressionada pelas massas indignadas com mais esse caso de corrupção, a CGTP foi obrigada a convocar uma jornada de luta, mas agiu rápido para desviar o movimento. Na plataforma da jornada, por exemplo, nem sinal da palavra-de-ordem “Fora Alan Garcia”.

Além disso, logo que foi anunciado o novo chefe ministerial, Yehude Simon (que posa de esquerdista e humanista) a CGTP se reuniu com ele, “desejando êxito à sua gestão” e empenha-se agora para costurar uma mesa de diálogo nacional entre trabalhadores, governo e empresários. Isso apenas ajuda a burguesia a salvar o atual governo e as corrompidas instituições e retarda perigosamente o movimento da classe trabalhadora em direção ao socialismo.

No entanto, “as leis da história são mais fortes do que os aparelhos burocráticos” e as massas trabalhadoras do Peru mantêm acesos os desejos de mudança, em sintonia com a situação revolucionária que venta por toda a América Latina.

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Nova onda de protestos

Mais uma vez devido à alta do custo de vida, à pilhagem dos recursos naturais e à tentativa de implementação de um Tratado Livre-Comércio com os EUA, trabalhadores, camponeses, indígenas e estudantes promovem uma onda de protestos em regiões do sul do Peru.

Paralisações, marchas e bloqueios de estradas ocorrem desde o dia 20 de outubro e adquiriram características insurrecionais no distrito de Canchis, província de Cusco. A população resistiu com paus e pedras aos ataques da polícia, que acabou recuando após descarregar toda a munição. Houve centenas de feridos e detidos e duas pessoas morreram nos combates. Além disso, algumas lideranças estão desaparecidas.

Um dirigente sindical, Hélio Cruz, relatou: “… o governo enviou centenas de policiais, militares e serviço de inteligência… a mesa de diálogo deve chegar hoje à tarde, mas nada é seguro. O que sim podemos dizer é que o povo não vai suspender a greve indefinida se a mesa de diálogo não atender nossas demandas…”

Mas, essa unidade e massividade da luta não caíram do céu. “… é produto de um debate e acordo democrático das organizações sociais aglutinadas na Federação de Camponeses de Canchis e na Frente de Defesa dos Interesses de Canchis…”, declarou Hélio. Esses comitês de frente única convocaram e organizaram a população para a luta e lhe dão a direção, inclusive, exigindo a renúncia de Alan Garcia e a nacionalização dos minérios.

Já na província de Tacna, por exemplo, os protestos transformaram-se em explosões sociais espontâneas, sem coordenação e objetivos claros, mas que refletem a raiva contida durante anos de exploração e a falta de uma direção revolucionária.

Os protestos questionam as concessões para fins privados do petróleo e dos minérios e os decretos legislativos que alteram a propriedade comunitária e indígena da terra. Por isso, os marxistas da Força de Esquerda Socialista agitam a palavra de ordem de “Fora Alan Garcia” e levantam a proposta de realizar uma marcha à Lima (capital do Peru) pela nacionalização dos recursos naturais sob controle social do povo peruano.

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