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Golpe? Chamar as coisas pelo seu nome e explicar pacientemente a verdade

Uma discussão sobre a caracterização política do afastamento de Dilma Rousseff e as tarefas diante das diferentes análises sobre a situação política brasileira.

Recebi uma carta de um camarada sobre “a caracterização do processo de impeachment contra o governo Dilma, sobretudo com a repercussão recente dos áudios de autoridades do PMDB”.

Este camarada diz que “Em linhas gerais, tenho pleno acordo com o texto (referindo-se ao texto de Fred Weston “Impeachment de Dilma Rousseff – classe dominante brasileira em pé de guerra”). Só uma divergência: usar o termo “manobra” no lugar de “golpe” não resolve, mas cria ambiguidades, que se expressam na sequência: “vista pelas massas como antidemocrática”.

De fato o camarada não concorda com o texto. A questão é que o texto tem como base nossa apreciação política e está voltado para explicar que não há nenhum golpe de estado acontecendo, que a “democracia” não está em risco e que se trata de uma guerra de camarilhas dentro do aparato de Estado, fruto da crise econômica e política que atravessa o país.

Crise essa que divide a burguesia, o Judiciário, o Legislativo e o Executivo sobre como enfrentar a situação e provoca grandes choques entre esses diversos setores. Divisão e choques que a Esquerda Marxista vem explicando que têm se aprofundado desde 2013. E que se aprofundaram em 2015 e 2016 com a chegada da crise econômica em grande escala. Desde 1929 não havia uma recessão tão profunda no Brasil.

Nossa posição, e a de Fred Weston, não é de “usar o termo manobra no lugar de golpe”. Trata-se de duas coisas muito diferentes e com significados muito distintos. No dicionário e em política.

Vejamos o que, segundo os dicionários, significa manobra:

  • Uma mudança controlada em movimento ou a direção de um veículo em movimento ou do navio, como no trajeto de voo de uma aeronave – manobrou o carro
  • Um movimento ou processo que implique uma habilidade e destreza – o surfista fez uma manobra radical
  • Realizar uma manobra militar ou naval – a frota manobrou para cercar o inimigo
  • Fazer uma série de mudanças no controle ou direção do movimento em direção a um objetivo: manobrou para chegar mais perto do palco
  • Mudar de tática – A oposição não tinha espaço então manobrou com a obstrução
  • Usar estratagemas para ganhar um fim
  • Alterar o posicionamento tático (tropas ou navios de guerra)

Aqui todos os movimentos são realizados dentro do mesmo quadro, dentro do mesmo corpo ou dentro da mesma máquina para atingir um determinado objetivo. Uma manobra política é isso.

Mas, o que é um Golpe de Estado?

Segundo os dicionários “Golpe de Estado”, também conhecido internacionalmente como Coup d’État (francês) ou Putsch (alemão), consiste na derrubada ilegal, por parte de um órgão do Estado, da ordem constitucional legítima.

Os golpes de Estado podem ser violentos ou não, e podem corresponder aos interesses da maioria ou de uma minoria. O ato do golpe de Estado pode consistir simplesmente na aprovação, por parte de um órgão de soberania, de um diploma que revogue a constituição e que confira todo o poder do Estado a uma só pessoa ou organização.

Tem este nome de golpe porque se caracteriza por uma ruptura institucional repentina, contrariando a normalidade da lei e da ordem e submetendo o controle do Estado (poder político institucionalizado) a pessoas que não haviam sido legalmente designadas (fosse por eleição, hereditariedade ou outro processo de transição legalista). (Wikipédia)

Vejamos outra fonte: O Dicionário Michaelis

Golpe: sm (gr kólaphos, pelo lat vulg) 1 Ferimento ou pancada com instrumento cortante ou contundente. 2 Corte, incisão. 3 Desgraça, infortúnio. 4 Ímpeto, chofre. 5 Crise. 6 Disposição decisiva que se toma em qualquer negócio. 7Lance. 8 Gole, trago. 9 Esperteza. 10 gír Manobra traiçoeira. 11 Reg(Amazônica) Talho feito na seringueira, para obtenção do látex. G. baixo: a)Esp: em lutas, golpe aplicado na região genital, ou qualquer golpe desleal, como mordida, puxão de cabelo, cabeçada ou dedo nos olhos; b) fig ação desleal, visando prejudicar alguém ou tirar vantagem sobre ele: Mentir para mamãe foi um golpe baixo. Golpe de estado, Dir: medida extraordinária, pela qual o chefe do governo de um país altera ou tenta alterar, violentamente, as suas instituições políticas, para tornar-se ditador, quase sempre com o apoio das forças armadas”.

É cristalino que no caso de Dilma não houve nenhuma ruptura violenta ou ilegal da ordem ou da Constituição que tenha alterado as instituições para estabelecer o autoritarismo em detrimento das liberdades e da democracia.

Que democracia?! Que Liberdades?! A democracia da reforma política que retirou do PSOL e dos outros partidos de esquerda a possibilidade de participar de debates eleitorais e de tempo na TV e rádio, lei sancionada por Dilma?!

Ou as liberdades da Lei Antiterrorismo proposta e sancionada por Dilma, ou as liberdades da prisão de manifestantes, da criminalização de milhares de sindicalistas, de militantes populares e de estudantes em todo o país durante todos os governos Lula e Dilma?!

O argumento que os defensores de Dilma utilizam, de que Dilma foi eleita e não podia ser removida é um absurdo do ponto de vista da verdadeira democracia, a democracia do mandato. E um absurdo do ponto de vista político. Dilma cometeu ou não um verdadeiro estelionato eleitoral contra os 54 milhões que votaram nela? Ela os enganou? Sim ou não?

Se enganou, por que razão misteriosa não deveria ser derrubada? A única razão que pode ser alegada é que como foi eleita tem direito a quatro anos de mandato. Ora, esse é um argumento burguês usado para embrulhar o proletariado dizendo que, em seu sistema de governo, a democracia, a eleição dá um direito divino ao governante de espezinhar, massacrar e rir do próprio povo e que o que se diz durante a campanha não tem a menor importância. É só para “ganhar votos”.

Na verdade, os países capitalistas onde mais longe foi a democracia, que são os países europeus, não é assim. Se o governante não tem maioria se convocam novas eleições ou o parlamento elege novo governo de maioria. O que se conhece como Parlamento é o que conhecemos como Câmara de Deputados. A diferença é que, em países como o Brasil, o capital precisa ter um governo forte, de tipo bonapartista, chamado presidencialismo, pois nestes países a democracia é pouco mais do que uma farsa, é uma democracia bastarda.

O argumento do direito divino aos quatro anos de mandato conquistado em eleições que são um espetáculo de dinheiro, poder e mentiras, só serve para as massas atrasadas e para os tolos. Quando a burguesia necessita ela rompe qualquer mandato e se a sua dominação não pode ser feita com suavidade e “democracia” ela o faz pela espada, sem nenhum problema. Estão aí João Goulart, Allende, e tantos outros, só para demonstrar isso.

O camarada escreve que “Se a manobra é vista como antidemocrática, pode ser vista como um golpe”. Confundir uma “manobra antidemocrática” com um golpe é, como já explicamos acima, uma perfeita confusão política. Compreende-se que o camarada está dizendo que as massas podem entender isso.

Mas, aqui é preciso esclarecer que o que as massas podem entender, nada, nada, tem a ver com o que diz a direção do PT e PCdoB tentando entorpecer a militância de esquerda e acaudilhar o seu conjunto outra vez atrás do aparelho.

O PT perdeu o controle das massas e a prova é a incapacidade de mobilizar a classe operária e paralisar o país ou mesmo setores da classe. O que o PT e seus agregados ainda conseguem é mover os milhares do próprio aparato político e sindical, velhos militantes apavorados e uma pequena burguesia “democrática e progressista” que está contente com o governo dos últimos anos.

O que o PT pretendia e pretende ao agitar a palavra de ordem “Não vai ter golpe!”, é agitar o fantasma da iminente chegada do “fascismo”, do “retrocesso”, dos ataques (os mesmos que Dilma vinha implementando!), para salvar-se e ao mesmo tempo impedir a formação de uma saída de massas pela esquerda. Um exemplo claro de capitulação frente a essa manobra é a política da Corrente O Trabalho, que está sintetizada em seu manifesto “FORA TEMER, VOLTA DILMA, NENHUM DIREITO A MENOS!”.

Já o que as massas pensam sobre a questão é bem outra. Se perguntado na rua a populares o que se passou com Dilma a resposta vai ser “Tiraram ela”, ou se indagado “Mas, Dilma foi eleita” outra resposta pode ser “É, mas estava fazendo tudo errado”. Ou ainda, se a pergunta for “O que fizeram com Dilma é golpe?”, a resposta provável é “É, parece que aquele bando de deputados deu um golpe nela”. E de acordo com pesquisa da CNT, em 8/06/06, a maioria da população diz que cerca de 62,4% defendem que seu afastamento pelo Senado foi correto; só 33% discordam da decisão.

Portanto, as massas não engoliram a canção de que houve um golpe contra a democracia, as liberdades, direitos e conquistas. Agora se alguém deseja dizer que Temer deu um golpe na sua companheira de chapa, isso é outra coisa, pois tem o sentido de que Temer traiu Dilma. O que é verdade. Mas, isso nada tem a ver com “Golpe de Estado”.

A Esquerda Marxista não “evita” o termo golpe por que teria uma conotação de “golpe de 1964”, ou seja, de vinda da ditadura militar. Não usamos o termo porque não houve golpe! Houve uma manobra palaciana, fruto da crise e da mediocridade da escória parlamentar que dirige o Congresso Nacional. Não houve ruptura constitucional nenhuma a não ser a utilização de instrumentos desta mesma Constituição reacionária que utilizamos contra Collor de Mello em 1992. E estávamos certos de usar naquela época combatendo o governo Collor. E estávamos certos porque naquele momento se se realizam eleições ou o PT decide exigi-las Lula seria presidente, com ou sem eleições.

E agora estávamos contra usar este mesmo instrumento, apesar de todas nossas críticas à Dilma/Lula, porque a opção era Temer ou coisa pior, e existe muita coisa pior que Temer. Nós preferíamos um jogo empatado entre o Congresso e o Executivo, e que Dilma fosse governando em crise até 2018 e tentando aplicar todos os planos do capital que ela pretendia aplicar. E nós lutando e preparando as condições melhores para que nossa própria classe tivesse a capacidade de erguer outra coisa em seu lugar. Ganharíamos tempo e o PT, Lula e Dilma seriam colocados a prova até o fim na experiência que as massas estavam fazendo e assim sairiam nus e liquidados politicamente.

O impeachment nos tirou esse tempo, impediu as massas de fazerem mais experiências com Lula/Dilma e permitiu ao aparelho contrarrevolucionário do PT aparecer como vítima para um setor da vanguarda e da pequena burguesia ganhando assim um pequeno folego.

O camarada que nos escreveu cita Marx, em O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, para tentar justificar suas afirmações sobre que deveríamos falar em golpe. Mas, o que diz realmente Marx sobre o golpe de Luís Bonaparte e o que tem a ver com o Impeachment de Dilma?

Cromwell, quando dissolveu o Parlamento Amplo, entrou sozinho na sala de sessões, puxou o relógio a fim de que tudo acabasse no minuto exato que havia fixado e expulsou os membros do Parlamento um por um com insultos hilariantes e humorísticos. Napoleão, de estatura menor que seu modelo, apresentou-se pelo menos perante o Poder Legislativo no 18 Brumário e embora com voz embargada, leu para a Assembleia sua sentença de morte. O segundo Bonaparte, que, ademais, dispunha de um Poder Executivo muito diferente do de Cromwell ou do de Napoleão, buscou seu modelo não nos anais da história do mundo, mas nos anais da “Sociedade de 10 de dezembro”, nos anais dos tribunais criminais. Rouba 25 milhões de francos ao Banco de França, compra o general Magna com 1 milhão, os soldados por 15 francos cada um e um pouco de aguardente, reúne-se secretamente com seus cúmplices, como um ladrão, na calada da noite, ordena que sejam assaltadas as residências dos dirigentes parlamentares mais perigosos e que Cavaignac, Lamoricière, Le Flô, Changarnier, Charras, Thiers, Baze etc. sejam arrancados de seus leitos, que as principais praças de Paris e o edifício do Parlamento sejam ocupados pelas tropas e que cartazes escandalosos sejam colocados ao romper do dia nos muros de Paris proclamando a dissolução da Assembleia Nacional e do Conselho de Estado, a restauração do sufrágio universal e colocando o Departamento do Sena sob estado sítio. Da mesma maneira manda inserir pouco depois no Moniteur um documento falso afirmando que parlamentares influentes se haviam agrupado em torno dele em um Conselho de Estado. (K. Marx, cap. VI de “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”)

Aqui estamos diante de um típico Golpe de Estado onde se dissolve o Parlamento pela força das armas e se proclama um ditador. Onde está isso no Brasil?! Aliás, só prova de que por aqui se passou outra coisa. Um golpe não exige a “conivência das Forças Armadas”, como escreve o camarada, mas a “ação” das Forças Armadas e isso não existe nem em sombras no Brasil. As gravações com o senador Romero Jucá falando sobre a opinião de seus amigos nas Forças Armadas não permitem nem de longe imaginar que as Forças Armadas estivessem ao menos com disposição de apoiar o impeachment de Dilma.

Não é demais relembrar que até setembro de 2015 a FIESP, a FIRJAN, Banco Itaú, Bradesco, inúmeras grandes empresas deram declarações CONTRA o Impeachment. E só mudaram de posição quando seus medíocres representantes políticos enlouquecidos já tinham se lançado ao assalto.

De certa forma foi o mesmo que aconteceu com a burguesia francesa, só que ao contrário, durante o golpe de Bonaparte. Eis o que Marx escreveu sobre esse descolamento entre a burguesia e seus representantes políticos:

“Muito mais fatal e decisiva foi a ruptura da burguesia comercial com seus políticos. Censuravam-nos, não como os legitimistas censuravam os seus, por terem abandonado seus princípios que já se haviam tornado inúteis.

Já indiquei acima como, desde a entrada de Fould para o ministério, a ala da burguesia comercial que detivera a parte do leão no governo de Luís Filipe, ou seja, a aristocracia financeira, tornara-se bonapartista. Fould não representava apenas os interesses de Bonaparte na Bolsa, representava também os interesses da Bolsa junto a Bonaparte. A posição da aristocracia financeira está pintada de forma magistral em uma passagem de seu órgão europeu, The Economist de Londres. Em seu número de lº de fevereiro de 1851 escreve o correspondente de Paris:

“Tivemos oportunidade de comprovar em numerosas fontes que a França deseja, acima de tudo, a tranquilidade. O presidente o declara em sua mensagem à Assembleia Legislativa; e o mesmo é repetido da tribuna; afirmado nos jornais; anunciado do púlpito; e é demonstrado pela sensibilidade dos títulos públicos à menor perspectiva de perturbação, e por sua estabilidade quando se torna evidente que o Poder Executivo sai vitorioso.”

Em seu número de 29 de novembro de 1851 o The Economist declara em seu próprio nome:

“O Presidente é o guardião da ordem, e é agora reconhecido, como tal em todas as Bolsas de Valores da Europa.”

A aristocracia financeira condenava, portanto, a luta parlamentar do partido da ordem contra o Poder Executivo como uma perturbação da ordem, e comemorava cada vitória do presidente sobre os supostos representantes dela como vitórias da ordem. Por aristocracia financeira não se deve entender aqui apenas os grandes promotores de empréstimos e especuladores de títulos públicos, a respeito dos quais torna-se imediatamente óbvio que seus interesses coincidem com os interesses do poder público. Todo o moderno círculo financeiro, todo o setor de atividades bancárias está entrelaçado na forma mais íntima com o crédito público. Parte de seu capital ativo é necessariamente invertida e posta a juros em títulos públicos de fácil resgate. Os depósitos de que dispõem, o capital colocado a sua disposição e por eles distribuído entre comerciantes e industriais, provêm em parte dos dividendos de possuidores de títulos do governo. Se em todas as épocas a estabilidade do poder público significava tudo para todo o mercado financeiro e para os oficiantes desse mercado financeiro, por que não o seria hoje, e com muito mais razão, quando cada dilúvio ameaça destruir os velhos Estados e, com eles, as velhas dívidas do Estado?

Também a burguesia industrial, em seu fanatismo pela ordem, irritava-se com as disputas em que o partido da ordem se empenhava no Parlamento com o Poder Executivo. Depois de seu voto a 18 de janeiro, por ocasião da destituição de Changarnier, Thiers, Anglas, Saine-Beuve etc., receberam precisamente de seus constituintes dos distritos industriais censuras públicas, nas quais sua coligação com a Montanha era particularmente condenada como alta traição contra a ordem. Se, como vimos, as críticas jactanciosas, as mesquinhas intrigas que assinalaram a luta do partido da ordem contra o presidente, não mereceram melhor recepção, então por outro lado, esse partido burguês, que exigia que seus representantes permitissem, sem oferecer resistência, que o poder militar passasse das mãos de seu próprio Parlamento para as de um pretendente aventureiro – não era sequer digno das intrigas desperdiçadas em sua intenção. Demonstrou que a luta para manter seus interesses públicos, seus próprios interesses de classe, seu poder político, só lhe trazia embaraço e desgostos, pois constituía uma perturbação dos seus negócios privados”. (K. Marx, cap. VI de “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”).

O camarada afirma que:

“quando negamos a caracterização do ocorrido como “golpe”, corremos o risco de fazermos coro a narrativa da direita; que “Deixamos de denunciar praticas imperialistas do Capital: a remoção do poder de Zelaya (Honduras), Lugo (Paraguai), Dilma (Brasil) e provavelmente de Maduro (Venezuela) como fenômenos dos processos de acumulação do capital na sua fase imperialista. Haverá diferenças no uso da força e da ruptura com a legalidade em cada um desses países latino-americanos; no Brasil, a remoção de Dilma foi mais elaborada do que com Zelaya ou com Lugo; na Venezuela, pode assumir a forma de um golpe de estado clássico, inclusive com intervenção armada; mas todos se circunscrevem a um processo contrarrevolucionário e que põe em cheque as experiências reformistas e seus limites, que esses governos representaram;”.

Nesta passagem há vários equívocos políticos acumulados. Comecemos pelo fim. Sem discutir aqui os governos de Chávez, Evo, Correa, Lugo, Zelaya ou Kirchner, já que não é o sentido deste texto, é preciso dizer que o governo Lula e Dilma não foram nem reformistas e nem progressistas. Estes governos sempre foram caracterizados pela Esquerda Marxista como governos burgueses, pró-capitalistas e pró-imperialistas dirigidos por um partido operário-burguês, o PT. E isto explicamos desde o dia em que se constituiu o governo Lula com a Carta aos brasileiros e o beija-mão em Washington com Bush e Condolezza Rice, ainda antes da posse. E depois com tudo que veio de privatizações, destruição de serviços públicos, submissão ao capital internacional, etc., etc.

Zelaya foi deposto por um golpe civil-militar onde o Congresso decide e as Forças Armadas executam. Eis o que se passou: O chamado golpe militar em Honduras em 2009, assim considerado até por resolução da Assembleia Geral da ONU, foi desencadeado quando o Exército, em cumprimento a um mandado de prisão emitido pelo Poder Judiciário, prendeu o presidente Manuel Zelaya na manhã de 28 de junho de 2009.

E porque se passou isso? Porque Zelaya havia decidido tomar medidas de Reforma Agrária e outras em choque total com a burguesia de seu próprio país. Ele tentava, digamos, modernizar Honduras. O que era um progresso real. Dilma ao contrário só atacava o povo. Seus atos eram do tipo piorar a Previdência e golpear os desempregados. O que tem os dois em comum? Nada!

Lugo? Se os camaradas se recordam, apesar do que era o governo Lugo, que não cumpriu quase nenhuma das promessas e dos anseios do povo paraguaio que o levou ao governo, ele não tinha a população contra ele. O que se passou no Paraguai deve ser relembrado para que não se entre na histeria “Contra o Golpe, volta Dilma”. A única coisa em comum é que nos dois casos se usou o instrumento do Impeachment. Mas, é só relembrar para constatar que um impeachment não tem nada a ver com o outro.

A destituição de Fernando Lugo da presidência do Paraguai ocorreu em 22 de junho de 2012, através de um impeachment cujo processo todo durou pouco mais que 24 horas. O golpe foi dado pela burguesia paraguaia, com apoio das Forças Armadas, como resposta à atitude de Lugo em relação aos camponeses e a repressão que os atingia.

Em meados de maio de 2012, cerca de 150 manifestantes sem-terra ocuparam a propriedade Campos Morombi, que pertenceria ao ex-senador Colorado, Blas Riquelme. Os sem-terra alegaram que a propriedade, em Curuguaty, havia sido tomada ilegalmente durante a ditadura de Alfredo Stroessner, líder do Partido Colorado.

No dia 15 de junho de 2012, uma operação policial para remover os sem-terra, ordenada por uma decisão judicial a pedido de Riquelme, acabou com a morte de 17 pessoas (6 policiais e 11 sem-terra) e oitenta feridos. A desocupação envolveu cerca de 300 policiais contra 150 camponeses.

No dia 16 de junho, Lugo aceitou as renúncias de seu ministro do interior, Carlos Filizzola, e do Chefe Nacional da Polícia, o general Paulino Rojas. Em 19 de junho, foi confirmado que o ex-senador Colorado Blas Riquelme realmente não tinha o título dos 2 mil hectares em disputa. No dia 20 de junho, Lugo anunciou uma comissão especial para investigar o incidente que contaria com apoio da OEA. Aí se desatou o golpe.

O processo foi iniciado dia 20 de junho, a pedido de um deputado do Partido Colorado. No dia 22 de junho, o presidente foi destituído pela Câmara dos Senadores do Paraguai por 39 votos a 4 e na mesma noite, o vice-presidente Federico Franco empossado como novo presidente da República do Paraguai.

O que há de semelhante entre a situação de Lugo e a de Dilma a não ser o impeachment?

Mas, ainda há outra diferença e não pequena. Já nas primeiras horas após o golpe contra Lugo todo o movimento sindical, camponês, estudantil, os partidos de esquerda, todos se mobilizaram e começaram a organizar manifestações e um chamado à Greve Geral. Havia um clima generalizado de vontade das massas de lutar. Então Lugo dá uma coletiva à imprensa e diz que não era hora de confronto, que ele aceitava a destituição e que se candidataria a senador em dois anos!

Lugo desmonta a mobilização que poderia ter enfrentado o golpe.

Já no caso do Brasil todos viram qual o ânimo das massas de se mobilizar para defender Dilma. Mesmo os massivos atos contra o impeachment, foram muito mais um canal de Frente única para se contrapor à campanha da direita e os abusos do judiciário, do que para expressar um apoio ao governo Dilma. A verdade é que a imensa maioria queria, e continua querendo, ver Dilma pelas costas.

Sobre o argumento do camarada ao afirmar que “quando negamos a caracterização do ocorrido como “golpe”, corremos o risco de fazermos coro a narrativa da direita; e de que assim “deixamos de denunciar as práticas imperialistas do Capital…”, só se pode dizer duas coisas. O camarada deve ter se expressado muito mal porque não é possível dizer que a Esquerda Marxista tenha um dia que seja deixado de “denunciar as práticas imperialistas do Capital”. Se o camarada pensa isso deveria provar com citações ou omissões nossas, etc.

No caso de Zelaya fizemos e participamos de uma intensa campanha internacional pela sua reintegração. No caso de Lugo fizemos uma campanha no Brasil e internacional, inclusive enviando um camarada nosso ao Paraguai.

E como assim “corremos o risco de fazer coro com a narrativa da direita”?!

Isso aconteceria se estivéssemos ao lado dos que apoiam o Impeachment e nós nunca estivemos. Combatemos pública e notoriamente o processo de Impeachment. Estivemos em Atos e manifestações contra a destituição de Dilma por esse Congresso. Explicamos em dezenas de textos porque éramos contra, etc., etc.

Em 31/03/2016, publicamos um texto combatendo os falsários que buscavam dizer que quem não apoiava Dilma estava se alinhando com o golpismo. Era uma resposta a Breno Altman um stalinista incurável. Ali se afirmava:

“Devemos mobilizar e combater o impeachment, Cunha e o Congresso, a operação Lava Jato (que não passa de uma operação política de criminalização e que tem como objetivo destruir o PT, a CUT e as outras centrais, os movimentos sociais, os sindicatos, e toda a esquerda), e, sem nenhum apoio a este governo miserável de Dilma, ajudar a erguer a classe trabalhadora por suas próprias reivindicações e interesses, o que é um choque frontal com o Congresso, o Judiciário e o governo Dilma/Lula, abrindo o caminho para uma Assembleia Popular Nacional Constituinte, por um Governo dos Trabalhadores, sem patrões nem generais.

Assim, prefiro que não haja impeachment e que estas frações corruptas e mafiosas, antipovo, continuem se digladiando enquanto trabalhamos para recompor no movimento operário o estrago e a fragmentação que a falência do PT causou. 

É o tipo de falsário que invoca Lenin sobre Kerensky e Kornilov para justificar seu engodo e apoiar este governo de inimigos da classe. Lenin foi muito claro e nunca, nunca apoiou Kerensky, mesmo frente ao golpe de Kornilov. Ele e Trotsky organizaram a luta contra Kornilov.

Eis o que disse Lenin “E nem mesmo agora devemos apoiar o governo de Kerenski. Seria falta de princípios. Perguntarão: será que não deveremos lutar contra Kornílov? Certamente que sim! Mas isto não é uma e a mesma coisa; aqui há um limite, que alguns bolcheviques ultrapassam caindo na «política de acordos», deixando-se arrastar pela corrente dos acontecimentos.

Nós combateremos, nós combatemos contra Kornílov, tal como as tropas de Kerenski, mas nós não apoiamos Kerenski, antes desmascaramos a sua fraqueza. E esta é a diferença”. (Carta ao CC do POSDR (b). (http://www.marxismo.org.br/content/breno-altman-ataca-luciana-genro-macaco-velho-nao-aprende-truque-novo)

No caso do golpe de Luís Bonaparte, no mesmo livro citado, Marx escreveu que “Se jamais houve um acontecimento que, muito antes de ocorrer, tivesse projetado diante de si a sua sombra, foi o golpe de Estado de Bonaparte”.

No caso de Dilma se pode dizer que os representantes políticos da burguesia abraçaram a causa do Impeachment a partir do início de 2015, que a burguesia brasileira propriamente dita abraçou a causa durante os meses de agosto a outubro de 2015 e que a burguesia imperialista não abraçou a causa até hoje.

Durante todo o processo de impeachment toda a grande imprensa imperialista, New York Times, Financial Times, Wall Street Journal, Le Monde, The Economist e mais quantos queiram não cansaram de falar contra o Impeachment e de denunciar a podridão dos congressistas brasileiros. Eles temiam o caos para os grandes negócios. Não se pode esquecer de que Dilma foi convidada e recebida por Obama, em julho de 2015, e tratada publicamente como uma grande parceira, o que realmente ela foi dentro de suas conhecidas limitações.

As gravações de Sergio Machado traindo seus velhos amigos confirmam que desde o fim do ano passado o grupo de Temer e Cunha, Sarney, etc., conspiravam contra Dilma. Obviamente que sim! E como se esperava que tivesse ocorrido tudo o que ocorreu durante 2015 e 2016 se vários grupos e correntes, partidos e juízes, procuradores, etc., não houvessem conspirado e tramado na escuridão? É assim que a burguesia funciona e isso não pode espantar ninguém. Não é de um político burguês a frase de que só se convoca uma reunião quando tudo já está decidido de antemão?

 Num último argumento o camarada nos diz que “o uso do termo “golpe” nos aproxima dos setores, movimentos, grupos e instituições que atuam e formam a consciência da classe trabalhadora organizada e da juventude, onde atuamos; isso facilita a aproximação e nossa tática de frente única, dados o nosso tamanho e nossa proporção, mas não nossa tarefa constante de propaganda: devemos dizer que foi golpe, mas denunciar ao mesmo tempo, a narrativa petista como uma falsificação do real”.

Entender o que houve e explicar pacientemente o que se passa aos trabalhadores e à juventude é uma tarefa revolucionária, é a nossa tarefa como marxistas. Não é nossa tarefa nos rebaixarmos ao nível da consciência das massas, ou de uma vanguarda intoxicada, mas ao contrário trabalhar para elevar este nível.

E de quem fala o camarada quando diz que “setores, movimentos, grupos e instituições que atuam e formam a consciência da classe trabalhadora organizada e da juventude, onde atuamos”? Quem fala em golpe é o aparelho do PT e ele arrasta outros aparelhos menores, como PCdoB, MST, CUT, UNE, MTST, OT, PCO, etc. É contra eles, contra sua política que lutamos todos os dias. Então devemos assumir que há um golpe de Estado por que eles dizem que houve?

E se eles “ainda” formam a consciência dos trabalhadores e da juventude, então, todas as análises da Esquerda Marxista estão erradas e não houve uma ruptura das massas trabalhadoras e da juventude com o PT. O dramático é que todos os acontecimentos só confirmam estas análises, sejam as pesquisas, sejam as tentativas de mobilização feitas pelo aparelho.

Não. Devemos explicar a verdade aos trabalhadores e jovens. Os militantes e apoiadores dos aparelhos devem, se não rompem com essa política, se embrulhar em sua própria política e desaparecer com ela. E é só ver quanto mobilizam com esta linha política para saber quanto ela toca a juventude ou os trabalhadores que querem lutar. Nós não estamos interessados em discutir com gente desmoralizada, burocratizada, corrompida pelo PT e seus governos. Nosso público são os jovens, estudantes e operários que não tem sobre suas costas o peso da história, das lutas e das traições daqueles que abandonaram a classe e o socialismo e se passaram para o Capital intoxicando com uma política de colaboração de classes uma geração inteira.

A luta pela Frente Única não é e nunca foi uma adaptação aos eventuais aliados. Nenhuma crítica a menos, não abaixar nenhuma bandeira, ao mesmo tempo que propomos a luta comum pelo interesse das massas. A palavra de ordem de Frente Única fundamental, hoje, é “Fora Temer e o Congresso Nacional”. A Esquerda Marxista é que explica por qual perspectiva devemos lutar e construir enquanto trabalhamos para derrubar Temer e o Congresso.

De toda forma, o que deve ser entendido é que o central para os marxistas, neste momento, não é dedicar-se a explicar se houve ou não golpe. Nossa posição está fixada e é uma das bases de nossa apreciação da situação e de nossa política. Se alguém bem-intencionado nos questiona sobre a questão, então temos uma excelente ocasião para tentar ganhar este companheiro para a Esquerda Marxista. Se alguém ligado aos aparatos nos questiona lhe damos uma resposta rápida, seca, correta e clara explicando que os “golpistas” deram um golpe para aplicar a mesma política que a golpeada estava aplicando, e passamos à frente para o assunto que nos interessa.

Além do mais seria neste momento absolutamente ridículo iniciar uma discussão com qualquer um porque ele está gritando que há um golpe ou que Temer e seus aliados são golpistas. Nossa tarefa é explicar e fazer avançar a nossa linha política que significa propagandear, organizar e mobilizar.

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