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Giro pela Espanha: Serge Goulart em defesa das fábricas ocupadas

Traduzido de El Militante (http://www.elmilitante.org/)

Quarta, 21 de Novembro de 2007

A classe operária na vanguarda da revolução socialista na América Latina

De 5 a 16 de Novembro, Serge Goulart – coordenador nacional do Movimento das Fábricas Ocupadas do Brasil e dirigente da Esquerda Marxista – percorreu numerosas cidades do Estado espanhol com uma campanha de solidariedade organizada pela Corrente Marxista El Militante e com apoio da Campanha “Manos Fuera de Venezuela” (Tirem as Mãos da Venezuela).

Serge nos passou a experiência das fábricas ocupadas sob controle operário no Brasil (Cipla, Interfibra e Flaskô) e a dura luta que eles têm mantido durante anos pela estatização sob controle operário; a luta contra a repressão do Estado brasileiro e, também, contra o próprio governo encabeçado por Lula, que ordenou a intervenção policial nas fábricas ocupadas.

Durante todo este tempo, os trabalhadores destas empresas e os militantes da Esquerda Marxista mantém uma orientação classista e internacionalista em sua luta. Estabeleceram o controle operário a través da assembléia de trabalhadores e de um comitê de fábrica eleito pelos próprios trabalhadores, que determinaram, em todo momento, de maneira democrática, as condições de produção e de regime de trabalho dentro das empresas.

Conquistas históricas como a redução da jornada de trabalho para 30 horas semanais, distribuídas em quatro jornadas de trabalho de seis horas; o teto salarial dentro da fábrica onde ninguém podia ganhar mais que o ferramenteiro mais especializado; o cumprimento e garantia das medidas de segurança e higiene em todas as seções produtivas e, com certeza, a solidariedade ativa da população das localidades onde se localizavam as fábricas se constituiu como senhas de identidade desse processo de ocupação.

A reivindicação central destes trabalhadores foi sempre a estatização das empresas, sua expropriação dos antigos donos e a manutenção das atividades sob controle operário. Obviamente esta luta e estas conquistas provocaram a reação histérica e furiosa do conjunto da burguesia brasileira e do próprio governo Lula. A ameaça de ocupação de fábricas como o método para defender os empregos põe em pânico a burguesia no Brasil. De fato, esta ameaça à propriedade capitalista foi a causa da resposta repressiva por parte das autoridades brasileiras, que viram o exemplo da Cipla, Interfibra e Flaskô como a continuação do processo revolucionário de expropriações e ocupações que está tendo lugar na Venezuela ao calor do processo revolucionário.

Não é casualidade que as autoridades e a burguesia brasileira tenham organizado uma campanha pública sem precedentes, considerando as fábricas ocupadas do Brasil como a continuação da revolução bolivariana em solo brasileiro. Assim, o presidente da Associação Brasileira de Indústria Plástica, Merheg Cachung, não usou meias-palavras para explicar por que o movimento das fábricas ocupadas devia ser destruído: “O governo venezuelano apóia ocupações de indústrias plásticas que foram assumidas pelos operários. Já são três (Cipla, Interfibra e Flaskô) as empresas que recebem apoio em forma de compra subsidiada de matéria-prima vinda da Venezuela. Por essa razão, é imprescindível que os empresários e a sociedade civil de forma geral organizem um movimento de repúdio contundente a este tipo de prática antes que isto se torne cotidiano e prejudique a democracia. Necessitamos resgatar a indignação frente à interferência em nossos interesses, sob o risco de sermos coniventes e passivos em demasia com este nível de intromissão”. Este representante do capital brasileiro terminou suas declarações afirmando: “É necessário tomar medidas já. No 1º dia eles vêm e levam uma rosa de nosso jardim. E não fazemos nada. No 2º dia entram e destroem nosso jardim. E não fazemos nada. No 3º dia tomam nossa casa e não fazemos nada porque já não podemos fazer nada”.

Desta maneira, em 31 de Maio de 2007 terminou a ocupação e controle operário da CIPLA e INTERFIBRA com um brutal assalto à fábrica por uma intervenção militar de 150 policiais armados, por ordem judicial a pedido do governo Lula. A ocupação durou 4 anos e sete meses.

Estas ocupações foram as mais longas da história do movimento operário internacional, e sua continuidade questionava, na prática, a propriedade privada dos meios de produção e seu regime político.

A luta das fábricas ocupadas no Brasil, e sua duração, como assinala a declaração realizada pela Esquerda Marxista e que o próprio Serge transmitiu em todos os atos celebrados, só é possível de ser entendida como conseqüência da profunda onda revolucionária que varre a América Latina, em que a revolução na Venezuela ocupa um lugar de vanguarda, e repercute no Brasil; também pela orientação política colocada em prática pela direção da ocupação (A Esquerda Marxista), que dirigindo o Conselho de Fábrica se lançou na batalha pela generalização do movimento e exerceu de forma mais profunda possível a democracia operária, prestando contas de todos seus atos junto ao Conselho e ante às assembléias operárias das fábricas.

Como Serge explicou em suas intervenções, para os marxistas brasileiros é evidente que estas ocupações são parte de um movimento revolucionário e, portanto, da situação política, da relação das forças entre as classes. Quer dizer, que as ocupações ou se generalizavam, colocando a questão da revolução e o poder político na ordem do dia, ou, mais cedo ou mais tarde, seriam derrotadas e varridas pela burguesia através do aparato de Estado. Como disse Serge, os marxistas brasileiros explicaram esta idéia central centenas de vezes em documentos, debates e discussões no movimento operário internacional.

Nestes cinco anos de luta os operários brasileiros que protagonizaram estas ocupações, fizeram o que era possível e muitas vezes o impossível em sua luta contra o Estado burguês: enfrentaram as forças da repressão diversas vezes, não cumpriram ordens judiciais; passaram noites de vigília e preocupação; aprovaram e participaram repetidamente em apoio a movimentos e greves, enviando representantes a atos e manifestações e a outras ocupações, para tentar generalizar o movimento; realizaram Encontros Nacionais e Internacionais, organizaram quatro grandes caravanas a Brasília, marcharam com o MST, impuseram que o Presidente da República os recebesse diversas vezes, buscaram e concretizaram laços com a revolução venezuelana em forma de acordos sobre matérias-primas e de atividades políticas com o governo Chávez e com as fábricas ocupadas de ambos os países.

Como Serge tem insistido em seus discursos, aos trabalhadores por todo o Estado espanhol, a intervenção contra a ocupação da CIPLA e INTERFIBRA não poderá apagar da memória dos trabalhadores a experiência de controle operário e as conquistas que tiveram. O interventor, governando com o terror da ocupação armada, já liquidou com a jornada de 6 horas, reintroduziu o banco de horas e anunciou a terceirização da ferramentaria, limpeza, vigilância etc., mas não pôde retirar a experiência daqueles que lutaram e conquistaram tudo o que se conquistou nas fábricas ocupadas. A Caça às bruxas e as demissões seletivas só imprimem isto mais profundamente na consciência operária.

Tal como assinala a declaração de balanço da Esquerda Marxista sobre a ocupação policial: “Não somos guerrilheiros nem substituímos as massas em suas ações. Nossos métodos são os métodos proletários de luta que vêm da tradição revolucionária do movimento operário internacional. Se a situação na fábrica é que os operários, cansados, esgotados, não conseguem lutar por agora, não promoveremos invasões de fora para dentro. Uma ocupação de fábrica se faz pelos próprios operários, não por outros, de outros lugares. A emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores.

Nossa luta pelo fim da intervenção é, ao mesmo tempo, uma luta para educar a classe e mostrar que existe um caminho que não é entregar os empregos, é construir a Esquerda Marxista, o partido operário capaz de levar a luta dos operários em direção à expropriação geral do capital e ao poder político.”

A maioria daqueles que participaram dos atos com Serge saíram absolutamente entusiasmados. Os discursos de Serge cheios de força e confiança na classe operária e na sua capacidade de superar qualquer obstáculo foram de uma grande inspiração. E o melhor é que esta experiência pôde ser passada a centenas de militantes operários, trabalhadores e delegados sindicais que puderam comprovar como a classe operária está jogando um papel de vanguarda na revolução latino-americana.

A campanha saiu da província de Málaga, em 6 de Novembro, onde realizamos atos. O primeiro foi um encontro com o Comitê de Empresa do Hotel Puente Romano de Marbella, Comitê integrado por delegados de CCOO e que foi eleito recentemente pelos trabalhadores defendendo um programa sindical de classe, combativo e democrático. Durante mais de duas horas, Serge descreveu toda a experiência da luta de classes no Brasil, das fábricas ocupadas e as perspectivas para a revolução latino-americana. Serge foi apresentado por David Bernardo, secretário geral do Comitê de Empresa e dirigente sindical de El Militante.

Pela tarde, organizamos um ato público na sede de CCOO, em que participaram cerca de 40 trabalhadores e jovens, sindicalistas da CCOO e UGT, que puderam escutar um discurso vibrante de Serge.

No dia seguinte, 7 de Novembro, aniversário da revolução de outubro, Serge foi para Barcelona, onde compartilhou suas experiências em dois atos públicos. De manhã, na Universidade Autônoma de Barcelona, no salão de atos da faculdade de Políticas Econômicas, Serge se dirigiu a um auditório com várias dezenas de estudantes, professores e trabalhadores da Universidade. Ele foi apresentado por Lluis Perarnau, delegado da UGT na UAB e conhecido sindicalista de El Militante. O debate foi muito animado com numerosas perguntas sobre as fábricas ocupadas e o desenvolvimento do processo de tomadas das empresas na Venezuela.

Mas o melhor ainda estava por chegar. À tarde, no Centro Cultural Cocheras de Sans, mais de 50 pessoas encheram um dos salões de atos deste tradicional centro de atividades da esquerda. O ato destacou, por um lado, a presença de numerosos trabalhadores imigrantes, especialmente peruanos, que ratificaram em suas intervenções as idéias centrais que Serge desenvolveu em sua introdução. Por outro, como não podia faltar em uma campanha com estas características, contamos com intervenções delirantes de alguns militantes de organizações autodenominadas revolucionárias, que acusaram Serge de enganar os participantes com seu discurso, pois nem na América – Latina há revolução, nem na Venezuela há algum processo revolucionário; a não ser um político burguês como Hugo Chávez, que quer instaurar um regime burguês stalinista no país. A contestação a este programa, que lamentavelmente coloca aqueles que os defendem na barricada da reação e do imperialismo, foram contestadas por um veterano militante marxista: “Não tem maior problema para aqueles que se autodenominam revolucionários do que confundir a revolução com a contra-revolução”.

Em 8 de Novembro Serge viajou para Tarragona, onde participou de um ato no centro cívico de ant Pere i Sant Pau, um bairro operário de Tarragona. Apesar de haver menos pessoas que o previsto, este fato logo se viu compensado pelo discurso de Serge que deixou todos de boca aberta. Quem prestou mais atenção foram sem dúvida os trabalhadores da petroquímica que estavam na sala, que deviam imaginar o mesmo, mas aplicado a suas fábricas. Serge soube conectar-se com eles rapidamente ao lhes falar de alguns aspectos técnicos da fabricação de plásticos, que são derivados do petróleo. Depois da exposição houve um debate que teve como eixo central o PT e seu giro à direita e a total absoluta degeneração de Lula. O comentário geral era “como aqui” referindo-se a Zapatero e ao PSOE. Serge explicou longamente os motivos da degeneração da social-democracia. O ato durou duas horas e todos os presentes ficaram muito satisfeitos e impressionados.

Em 13 de Novembro, chegou a vez da cidade de Guadalajara. Pela manhã foi organizado um ato com sindicalistas no local de El Militante de Guadalajara, em que participaram 19 pessoas, 16 deles delegados sindicais. Estiveram presentes representantes sindicais de ECO, Progalsa, CAMF, Socelec, Mahou, Prefeitura de Azuqueca e um liberado dos metalúrgicos de Comissiones Obreras (CCOO) e 4 do STEs, e se manteve um animado debate sobre as perspectivas para o movimento sindical e o trabalho dos marxistas nas fábricas. À tarde, foi organizado um ato público no Escola Básica Brianda de Mendoza, onde participaram cerca de 30 jovens e trabalhadores.

Durante o final de semana, 10 e 11 de Novembro, Serge participou em Madrid da II Conferência Sindical de El Militante, e no ato de comemoração do 90º aniversário da revolução russa, do qual já publicamos informes nesta página web.

Vale ressaltar que, na Conferência Sindical, ante um auditório com cerca de 200 sindicalistas, Serge realizou uma impressionante intervenção de mais de uma hora onde explicou extensamente a experiência de luta da Cipla, combateu as idéias que os reformistas estão defendendo na América Latina a favor da mal chamada economia solidária e o cooperativismo, também sobre o nefasto papel que está jogando Lula como agente do imperialismo norte-americano para impedir a extensão da revolução bolivariana.

Em 12 de Novembro a campanha continuou em Sevilla. Durante a manhã, Serge participou de uma reunião com representantes do SOC (Sindicato de Obreros do Campo) de El Coronil. À tarde, foi realizado um ato público na cidade de Villaverde del Río, onde participaram 40 trabalhadores e trabalhadoras, na sua maioria filiados ao CCOO e à Esquerda Unida (IU). O ato foi muito bom e Serge se conectou imediatamente com os trabalhadores presentes.

Cruzando toda a Península, dia13, Serge chegou a Ferrol, onde os sindicalistas marxistas haviam lhe preparado uma boa recepção. A jornada ferrolana de Serge foi intensiva. Nesta cidade os companheiros que organizaram as atividades de Serge consideraram que, além do ato público, seria interessante realizar alguma atividade com a CIG (Confederação Intersindical Galega), CCOO y UGT. Desta maneira, visitaram os responsáveis dos três sindicatos para proporem a eles a sua participação na coletiva de imprensa de Serge, e concretizar com eles alguma ação de forma a trocar as experiências das fábricas ocupadas. Finalmente o que se concretizou foi o seguinte: a CIG concordou em reunir a sua direção regional (20 pessoas) para receber Serge pela manhã e em CCOO e UGT seria recebido por seus secretários gerais, à tarde.

Na reunião com a CIG havia 14 delegados, que saíram encantados. Na mesma assistiu o responsável da web da CIG, que fez uma excelente reportagem que está postada em sua página de entrada (www.galizacig.com). Além disso, os companheiros do CIG se comprometeram a pagar o custo da viagem de Serge de Sevilla a Coruña. Posteriormente foi feita uma reunião com CCOO e UGT.

À tarde, no ato público convocado no Ateneo Ferrolan, participaram 60 pessoas, destacando em torno de 25 trabalhadores do estaleiro Navantia, além de um grupo de militantes do BNG. As pessoas saíram entusiasmadas porque, além de um conteúdo magnífico, a fala de Serge foi muito descontraída e houve risos em abundância. Provavelmente para isto também contribuiu o fato de Serge falar em português nesta atividade na Galícia. O ato foi retransmitido ao vivo por uma rádio livre local, que o repetirá algum outro dia.

Mas a piada do dia foi o jornal La Opinión, de Coruña, que dedicou a capa e uma página completa em sua edição de 13 de novembro à campanha, com a manchete: “Agentes chavistas exportaram a Galícia as idéias da revolução bolivariana”, e que sindicalistas da CCOO, UGT e CIG recebiam instrução sobre “a ocupação de fábricas como estratégia de um sindicalismo mais combativo e de confrontação direta com ‘a política anti-operária dos governos capitalistas’ do continente europeu”.

Há que ter em conta que, ao ser a principal notícia de capa foi lida nos resumos de imprensa das rádios e da televisão galega e isto teve suas conseqüências. Como na notícia citavam as declarações do companheiro Xaquín Garcia Sinde, na tarde de terça-feira, um pouco antes do ato, ligaram da Rádio Galega ao Ateneo para solicitar uma entrevista sobre “outro sindicalismo”. A cobertura na imprensa foi boa. Anunciaram o ato tanto antes como depois de realizado. Na La Opinión dedicaram a contracapa do dia 14 a um resumo (bom) do ato. Nas páginas locais da Voz de Galicia saiu una foto colorida da mesa com legenda e nol Diario de Ferrol colocaram também um resumo. O Faro de Vigo também lhe dedicou uma página.

Na reta final do giro, Serge participou de vários atos em Asturias e Euskal Herria (País Basco).

No dia 14 foi organizado um ato público no Ateneo Operário da Calzada em Gijón, em que participaram cerca de 40 jovens e trabalhadores, militantes do SE, CCOO, CSI. Desenvolveu-se um debate muito animado e neste ambiente excelente culminou a jornada com um jantar em uma sidreria.
Em 15 de novembro o encontro foi em Vitoria-Gasteiz, onde foi organizado um ato público à tarde na Faculdade de História da UPV. Participaram cerca de 60 pessoas, destacando a presença de muitos jovens que ouviram a fala muito atentamente.

O balanço da Campanha não pode ser mais positivo. Em todos os atos se venderam dezenas de exemplares de El Militante e livros da Fundação Frederico Engels. Ademais, em todas as atividades se realizaram coletas, seguindo as melhores tradições do movimento operário, de onde se obteve mais de 800 euros, que nos permitiram fazer frente a todos os gastos das viagens de Serge dentro do Estado espanhol.

Para os que tivemos a oportunidade de compartilhar estes dias com Serge Goulart, não poderemos esquecer a enorme qualidade humana e política do camarada. Seu exemplo e suas idéias nos fazem mais fortes em nosso compromisso de luta pela transformação da sociedade.

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